segunda-feira, 5 de agosto de 2019

"O Som e a Fúria", de William Faulkner

   William Faulkner é considerado um dos grandes romancistas do século XX, tendo a sua obra sido premiada com o Nobel da Literatura em 1949. Juntamente com James Joyce e Virginia Woolf, Faulkner foi um dos grandes cultores da técnica narrativa do fluxo de consciência. Esta técnica denota-se nas páginas deste que é o seu romance mais conhecido e considerado a sua obra-prima. 
   A narrativa prende-se com o declínio da família Bascomb Compson, uma grande família numa cidade fictícia no sul dos Estados Unidos, como símbolo da decadência do próprio Sul norte-americano. Esse declínio é relatado em quatro partes, que são as que compõem o romance. Na primeira parte, observamos o mondo aos olhos de Benjy Compson, um deficiente mental de 33 anos, que entre passado e presente nos tenta relatar o ambiente familiar que o rodeia. Na segunda parte, conhecemos a perspetiva de Quentin Compson, o filho mais velho, e somos conduzidos através dos processos mentais e das memórias marcantes que o conduziram a um final abrupto. Na terceira parte, conhecemos o mundo aos olhos de Jason Compson, o filho mais novo, um homem cínico e brutal, retrógrado, manipulador e calculista, enquanto vamos conhecendo as suas perspetivas sobre os outros e a sua própria família, para além da ação principal do romance. Na quarta e última parte, um narrador omnisciente relata-nos o dia de vários personagens que conhecemos ao longo da narrativa, principalmente, a criada negra dos Compson, a Dilsey. Entre estes quatro relatos navegam personagens como o Pai e a Mãe dos Compson, Jason e Caroline Compson, os criados negros destes, como Dilsey, Luster, T.P., entre outros, a quarta filha dos Compson, a irmã dos outros três, Caddy Compson e a sua filha Quentin. Todos eles caminham pelas páginas do romance em direção a um abismo do qual a outrora magnífica casa dos Compson já não tem possibilidade de fuga. 
   Conforme foi dito, o romance encontra-se dividido em quatro partes, as três primeiras tendo a estrutura de um relato, feito pelos três descendentes masculinos dos Compson, na primeira pessoa, e a última sob a forma de uma narração tradicional na terceira pessoa. O que é mais extraordinário neste romance é a estrutura de cada uma das partes. A técnica narrativa do fluxo de consciência é a regra nas três primeiras partes. A primeira parte é enigmática ao abrir o romance, pois trata-se de um relato impressionista levado a cabo por um deficiente mental. Isto leva a que a narração conheça saltos temporais e curvas e contracurvas de lógica, tudo formando um labirinto de fragmentos nos quais o leitor caminha perdido, como se atravessasse um denso nevoeiro. A segunda parte leva-nos ao fatídico derradeiro dia de Quentin Compson, pelo que somos guiados através de pensamentos, memórias e impressões que já nos vão fornecendo algumas luzes sobre a evolução do declínio familiar central do romance. No auge deste relato, uma parte destaca-se, na qual o narrador se expressa através de frases curtas, sem pontuação gráfica e sem regra, todas a frases em minúsculas, técnica utilizada para nos fazer sentir a dissolução mental que opera na cabeça de Quentin. A terceira parte é a que, dentro dos relatos, nos fornece mais luzes sobre o ambiente circundante, sendo que Jason Compson enceta numa busca no passado para a justificação do presente, sempre se colocando no papel da vítima, daquele que teve de fazer sacrifícios pela sua família, quando na realidade não passa de um oportunista manipulador que engana todos quantos o rodeiam, revelando também uma natureza brutal e violenta quando se trata do desafio que é controlar a filha da sua irmã Caddy, a Quentin, que foi enviada para a casa dos Compson pela mãe para que pudesse ter uma vida melhor que a que teria com ela. Na última parte, a narrativa segue uma técnica tradicional, na terceira pessoa. É nesta parte final que todas as peças do puzzle se encaixam e onde conhecemos por fim o abismo onde a família Compson caiu sem possibilidade de regresso. O retrato que é feito dos personagens não é lisongeiro, à exceção da criada negra, Dilsey, que é a única personagem no romance que parece controlar o rumo das vidas do romance. Caddy apresenta-se neste romance como uma protagonista silenciosa, figurando em todos os relatos, sem nunca nos ser dado a conhecer o seu lado dos acontecimentos. Caddy é a verdadeira vítima da decadência da família, acabando por ser a que sofre mais com tudo o que acontece, não lhe facilitando nada o feitio manipulador do irmão. Porque tal se verifica, a sua filha, Quentin, acaba por também sofrer, desejando sempre poder escapar do poço fundo onde rastejavam os Compson. Todos estes personagens, e o ambiente que os rodeia, são um símbolo da decadência do sul dos Estados Unidos e da perda do sentido que o Sonho Americano sofreu no século XX. 
   Nada mais há a acrescentar além de que se trata este de um romance de leitura obrigatória para todos quanto apreciam o experimentalismo modernista literário do século XX, claro que não descartando a própria história que enforma esta obra. Uma obra de arte total, portanto. 

Citações:
"A Caddy abraçou-me e eu ouvia-nos a todos nós e à escuridão, e uma coisa que eu podia cheirar. Depois já conseguia ver as janelas onde as árvores estavam a zumbir. Então a escuridão começou a girar com formas suaves e brilhantes, como sempre acontece, mesmo quando a Caddy diz que eu estive a dormir."
"De todas as palavras, as mais tranquilizantes. As palavras mais tranquilizantes. Non fui. Sum. Fui. Non Sum. Algures um dia ouvi os sinos. No Mississipi ou no Massachussetts. Eu fui. Não sou. No Massachussetts ou no Mississipi. O Shreve tinha uma garrafa no baú. Não vais sequer abri-la Mr. e Mrs. Jason Richmond anunciam o Três vezes. Dias. Não vais sequer abri-la casamento da sua filha Candace a bebida ensina-nos a confundir os fins com os meios Eu sou. Bebe. Eu não fui."
"Ben começou de novo a soltar gemidos longos, desesperados. Mas não era nada de importância. Apenas sons. Dir-se-ia que, por uma conjunção de planetas, nele encontravam voz por um instante todo o tempo, toda a injustiça e toda a pena."


Pontuação: 10/10


Gonçalo Martins de Matos

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