sexta-feira, 22 de maio de 2020

"Azul-Turquesa", de Jacinto Lucas Pires

   Este romance de Jacinto Lucas Pires é daqueles livros que sempre vimos na estante dos nossos pais, e que chega o dia em que pensamos é desta e decidimos ler. 
   Azul-Turquesa segue os dias das vidas de José e Maria, individualmente até ao momento em que se cruzarão. José, professor de Matemática recentemente divorciado, passa muito do seu tempo no apartamento de um amigo ou simplesmente passeando pelas ruas de Lisboa, admirando as particularidades da vida de das vidas na capital. Maria escreve para uma revista, e pontua a sua parte da história com a demorada redação de uma peça sobre a mulher portuguesa e a sua rotina de passeio comercial no percurso casa-trabalho e trabalho-casa. Entre estas duas vidas inúmeras outras revelam pedaços de si nas páginas deste romance, sendo-nos oferecida uma recheada galeria de figurantes que podem reaparecer umas páginas à frente ou simplesmente uma vez. As vidas de José e Maria entrecruzam-se perto do final do romance, e as suas experiências peculiares darão origem a um final insólito e inesperado. 
   Jacinto Lucas Pires classificou este romance como sendo o equivalente a visualizar um filme numa sala de cinema. O estilo deste romance dá precisamente essa sensação. Ao longo de todo o romance assistimos a uma colagem de cenas que se sucedem, cada uma com a sua geografia e figurantes específicos. O tom do romance é caricato, pois algumas das situações que se colocam, mais a José do que a Maria, são tão insólitas quanto inesperadas. À parte da intriga principal, as vidas paralelas de José e Maria até ao seu inevitável encontro, as existências dos restantes figurantes tomam a rédea secundária da narração, alterando a paisagem com as suas afirmações e ações. São inúmeros os locais que estas figuras habitam, todos eles possuindo um mínimo descritivo que nos permite visualizar precisamente o tipo de cena que o narrador nos transmite. Não tenho muito mais para dizer, curiosamente. Não se passa neste romance muito mais para além do que foi escrito. No entanto, este romance não é de todo desinteressante ou mau, é muito bem estruturado e tem uma linguagem pragmática, fazendo eco do estilo cinematográfico do romance. É um romance de ver.
   Posso afirmar que esta é uma leitura ligeira que entreterá os seus leitores, que é no fundo o objetivo deste pequeno e interessante romance. 

Citações:
"Detrás do balcão um homem de cabelo comprido, loiro, levemente ondulado, com um bigode e uma pêra muito delicados, parecendo um pouco um mosqueteiro, talvez o Aramis, levanta a cebeça quando o rapaz entra."
"Fecha a porta de vidro da entrada Maria, e depois anda até à esquina. Ao ver um táxi, levanta o braço. O carro, porém, não pára. Antes pelo contrário, acelera, amarelo, para passar o semáforo, vermelho, e Maria olha para o meio da avenida. Junto do candeeiro que não é bem um tê nem bem um i grego, os dois rapazes da prosa, da poesia e dos equipamentos de futebol correm sem sair do lugar."
"E continua a sorrir no elevador. Depois abre a porta de vidro da entrada e sai. Do lado de cá da estrada, grita para o homem de de gabardina «eu chamo-me Maria», e ele, «eu chamo-me José». Ela então repete «José...», e ele diz »até calha bem», e os carros vão passando, passando."


Pontuação: 6.5/10


Gonçalo Martins de Matos

quarta-feira, 6 de maio de 2020

"Na América, disse Jonathan", de Gonçalo M. Tavares

   A obra de Gonçalo M. Tavares é tida como uma das mais originais da literatura portuguesa contemporânea, e o seu autor como uma das mais singulares vozes da literatura europeia. Se no passado custou a atingir, hoje em dia é com prazer e gosto de descoberta que enceto na leitura dos peculiares escritos de Gonçalo M. Tavares.
   Na América, disse Jonathan, parte de uma premissa muito interessante e promissora, denominada pelo narrador como "Projecto Kafka", que consiste em transportar um retrato de Kafka em viagem pelos Estados Unidos da América. Em formato de pensamento-diário, ouvimos Jonathan, através do narrador, a partilhar as suas ideias, pensamentos e histórias enquanto passamos pelos mais diversos locais nos Estados Unidos, da Califórnia até Cape Canaveral, na Flórida, no período de tempo correspondente entre os dias 30 de junho e 21 de agosto de 2016. 
   Na generalidade da obra de Gonçalo M. Tavares, o narrador e o escritor confundem-se num narrador-filósofo, que enceta numa narração quase técnica e científica dos factos constituintes da história, mas carregada de todo o pensamento, inquietções, ideias e reflexões do mesmo sobre os próprios factos narrados ou, ocasionalmente, sobre questões exteriores ao próprio texto, à própria obra. O subtítulo da obra em análise qualifica-a como "Diário-Ficção", e é precisamente neste molde que todo o livro se desenvolve. As reflexões e indagações de Jonathan confundem-se com as do narrador-filósofo, que enceta na função de interpretar e complementar as ideias que lemos. Como nas obras anteriores que li do autor, as ideias e reflexões do narrador-filósofo são interessantíssimas e pertinentes, e as histórias de Jonathan extremamente criativas. O mais interessante (para além do próprio texto) desta obra é que vem acompanhada das efetivas imagens que o narrador-autor capturou ao longo da sua viagem do retrato de Kafka nas mais diversas localizações geográficas dos Estados Unidos. As imagens podem complementar ou não os pensamentos descritos em cada página, mas apresentam a viagem do retrato de Kafka, viagem essa paralela à viagem do narrador e de Jonathan. Este complemento entre a imagem e o texto, como em outras obras de outros autores que recorrem à mesma técnica, atribuem um nível diferente à obra, não sendo meramente um diário, não sendo somente um conjunto de reflexões. As viagens paralelas do narrador e de Jonathan e de Kafka foram, verdadeiramente, inspiradoras. É muito conhecida a história de como José Saramago vaticinou a Gonçalo M. Tavares o Prémio Nobel. Com uma obra tão peculiar e universal, pode ser que a previsão do Nobel português venha a concretizar-se. 
   Portanto, logicamente, fica a instigação a que leiam, não só este, como outros livros, de Gonçalo M. Tavares.

Citações:
"Projecto Kafka - levar a sua imagem em viagem. Como se fosse um companheiro rectangular (...).
 Acreditar numa magia contemporânea a interferir na relação entre imagem e presença. Como bem nos mostra a tecnologia recente: imagem é presença. Antigo e demasiado contemporâneo: alterar a paisagem pela presença fantasma de Kafka."
"Que sinal?
 Uma construção ser abençoada pelo padre mas também pelos cientistas, etc.
 Que sinal fará o cientista à frente da construção a inaugurar? Em vez da cruz de Cristo, o sinal mais? O sinal menos? Vezes? O pi? 
(...)
 Há quem olhe para o sinal da cruz feito pela mão no ar e o confunda com o acto de medir mentalmente a altura e a largura da construção."
"De alguma maneira, o que tem acontecido é isto: anuncia-se uma nova tecnologia como em tempos se anunciou a chegada de Cristo. Também resolve problemas. E fala-se sempre da rapidez e da eficácia.
 Pensar num Cristo, diz Jonathan, rápido e eficaz. Profetas que anunciam a salvação que aí vem e que a comparam com anteriores salvações anunciadas utilizando critérios técnicos: esta nova salvação é mais rápida e comete menos erros."


Pontuação: 9.3/10


Gonçalo Martins de Matos

segunda-feira, 4 de maio de 2020

"A Mulher que Correu Atrás do Vento", de João Tordo

   Nas publicações anteriores sobre a obra de João Tordo, preconizei uma mutação estilística que se notava no autor cada vez mais. Não li o livro anterior a este, mas neste consagra-se, enfim, a nova estética. 
   O romance começa precisamente por apresentar a história de Beatriz, estudante universitária em Lisboa, e de como, entre uma existência melancólica entre as aulas e o seu projeto de tradução de Ulisses, de James Joyce, e uma profunda inquietação que a assola desde a morte da sua mãe, esta acaba por conhecer e envolver-se com o autor de A História do Silêncio, Jaime Toledo, um homem introvertido e deprimido. Depois conhecemos Lisbeth, professora de piano na Baviera, e a sua frustração em não conseguir compor a sua obra, Das Auge des Zyklons, quando recebe um rapaz autista, Jost, como aluno, começando assim a sua fuga da Baviera e posterior expiação dos seus males. Por fim, conhecemos Lia, numa consulta terapêutica, a desnovelar o seu passado e a sua amargura com a sua mãe, a conhecida atriz Graça Boyard, por a ter abandonado à sua sorte quando era pequena, e a sua existência condicionada por esse momento crucial na sua vida. As vidas destas personagens, aparentemente separadas por um século, entrelaçam-se nas partes onde menos esperamos e é através dos passos melancólicos destas protagonistas que vamos, aos poucos, caminhando para o centro do ciclone, o espaço de calma lúgrube que aguarda todos por igual. 
   A voz inconfundível de João Tordo aliada a uma estética madura e perfeitamente dona de si são uma combinação poderosa. Este romance nunca se perde nas diversas encruzilhadas que abre, e o narrador guia-nos através da névoa que as povoa com uma mão firme mas delicada. O romance divide-se em oito partes, cada uma acrescentando dados novos às anteriores, todas conjugando-se para o final agridoce que encerra a narrativa. É um pormenor interessante, os ocasionais piscares de olho do autor a outros pedaços da sua obra. A estrutura do romance vai-se adaptando ao decorrer da narrativa, destacando-se o estilo textual dramático no sexto capítulo e a narração autodiegética no último capítulo. Como em obras anteriores, a inquietação do narrador é um sentimento dominante, desdobrando-se este nas personagens e nos lugares que povoam o romance. O talento simbolista do autor também é uma constante neste romance, sendo a inquietação, a melancolia e a solidão representadas por lugares como a herdade do Alentejo onde se refugia Lia, o "lugar perfeito" no meio dos bosques da Baviera ou o "centro dos ciclones", nome da peça de Lisbeth que melhor ilustra a solidão patente na história das protagonistas. Regressando aos capítulos referidos, estes podem ser considerados capítulos-chave de toda a obra, com os quais desbloqueamos a compreensão total dos eventos que nos são narrados. O estilo mutável e o monólogo final também podem ser uma reflexão diminuída da estrutura do Ulisses, de James Joyce, uma obra recorrente ao longo do texto, o que consiste numa outra compreensão a conferir ao romance no todo. Jost abandonado numa planície é o ponto de fuga do fresco que João Tordo nos oferece. É uma imagem recorrente e ilustrativa do turbilhão (ou antes, do ciclone) de emoções fortes e contraditórias que fervilha dentro das protagonistas. 
   É um grande romance de João Tordo e merece, sem dúvida, ser lido e apreciado. 

Citações:
"os rostos saudáveis dos miúdos, esquecidos de tudo, ignorantes do tempo, daquilo que o tempo nos dá e nos tira, do que o tempo cobra, de como ser humano é tão diferente de ser a humanidade, de como a humanidade por vezes nos salva de sermos humanos, porque ser humano pode dar cabo de nós, e da maneira como o tempo vai unindo as duas coisas. Às tantas, fartos de sermos humanos, passamos a ser humanidade, só humanidade, e por isso é lindo ver os velhinhos e as crianças dentro da piscina, porque somos nós também que estamos ali dentro."
"A alma de Beatriz vagueou suavemente debaixo da chuva que, após os primeiros minutos de borrasca, caía suavemente através do Universo, suavemente caindo, e de repente pensou que aquelas palavras não eram suas, e que a água no rosto e as roupas molhadas e o cabelo ensopado não tinham o mesmo poder encantatório das palavras de Joyce, tudo era miséria e desgraça."
"Caminhou pela herdade. O restolho abundava, a terra estava seca e grumenta. Passou ao lado de enormes rolos de feno, mais altos do que ela, cuja sombra a lua projetava à semelhança de naves espaciais despenhadas de galáxias distantes."


Pontuação: 9.7/10


Gonçalo Martins de Matos

quinta-feira, 9 de abril de 2020

"O filho de mil homens", de Valter Hugo Mãe

   O filho de mil homens é o primeiro romance de Valter Hugo Mãe após a sua "tetralogia das minúsculas", o que inaugurou o capítulo seguinte do estilo do autor. E nota-se bem a diferença de fôlego dos anteriores para este. 
   Crisóstomo, chegado aos 40 anos de idade, assume a tristeza de não ter um filho. Incompleto, metade de si mesmo, é com esse facto que ocupa os seus pensamentos. Crisóstomo é um pescador solitário que, num dos seus dias de trabalho, encontra um rapaz chamado Camilo, ao qual, após uma epifania e um abraço, pergunta se pode ser seu pai. Camilo responde que sim. É assim que é lançado o pretexto para que do encontro entre duas almas incompletas inaugure uma sucessão de encontros que criarão uma família não sanguínea, mas tão pura e humana como qualquer outra. As histórias de Crisóstomo e de Camilo cruzam-se com as de Isaura, Antonino, Matilde e Emília, que comporão a família inventada do pescador e do rapaz. Pelo meio outros personagens trarão um pouco das suas vidas para ir compondo as vidas uns dos outros, numa mútua influência que marca toda a experiência humana. As diferentes vidas que preenchem este romance entrelaçam-se de forma invulgar e única, por vezes agridocemente, mas sempre de uma humanidade subjacente, invisível superficialmente. É de interações humanas que esta história se compõe e é delas que se forma um final humano e sensível, não alheio ao que compõe a felicidade real de ser humano.
   Como foi dito, este romance é o primeiro de Valter Hugo Mãe após a tetralogia das minúsculas, e com ele veio um novo fôlego. A mudança de estilo é notável na forma como se liam os anteriores e como se lê este. A voz do autor permanece a mesma, carregada de sensibilidade e humanismo, mas o tom é diferente. Uma das diferenças mais notáveis é a sensibilidade e o positivismo que atravessam todos os factos narrados e a forma de os personagens os encararem, ao contrário da crueza presente nos anteriores romances. O otimismo que transborda de Crisóstomo, não só para os que o rodeiam, mas para a a própria narrativa, é sem dúvida uma diferença quase abismal de tom. Quanto ao tratamento poético que Valter Hugo Mãe emprega na sua escrita, não há muito mais a acrescentar ao que já foi dito antes, a sua voz é marcadamente lírica e luminosa, carregada de um sensível humanismo que nos toca e não nos deixa indiferentes. Outro aspeto deste romance é a inclusão de duas belíssimas ilustrações do autor, no início do livro. Quanto aos personagens que compõem este romance, o que têm em comum Crisóstomo, Camilo, Isaura, Antonino, Matilde e Emília? Todos são desajustados de uma sociedade hipócrita e mesquinha que tem dificuldades em aceitar o outro, para além de as suas experiências de vida serem marcadas pela dor e pela angústia. É Crisóstomo a luz que afastará essa escuridão da vida da sua família, e assim poderão todos viver felizes, nem que seja por breves momentos, aceitando-se a si mesmos. Crisóstomo é um personagem sensível e carregado de bondade e amor, que nos comove com o seu modo otimista e esperançoso de ver o mundo que o rodeia. Por este lado gostamos imenso de conhecer Crisóstomo e de o deixar contagiar-nos com a sua bondade. A forma como a sociedade tacanha oprime o potencial humano de cada um é soberbamente tratada neste romance. A anã (falecida mãe de Camilo) é empurrada para o seu lugar de coitada pelas suas vizinhas, demasiado cristãs para deixarem a pobre alma desenrascar-se sozinha, a Isaura é castigada e repreendida por não cumprir as expetativas que outros haviam construído para si, o Antonino é desde cedo reprimido por ser homossexual e, portanto, diferente do que um homem deve ser. É preciso Crisóstomo mostrar aos párias da sociedade que o melhor que podemos fazer é ser nós mesmos para que nos aceitemos tal como somos, e assim, o mundo tornar-se um lugar menos sombrio e solitário. É a mensagem positiva e otimista deste romance que nos comove e toca especialmente, particularmente na apologia que faz da auto-aceitação. Trata-se esta obra de uma pérola de humanismo, escasso cada vez mais numa sociedade construída por cruéis expetativas de terceiros e preconceitos tacanhos.
   Este luminoso romance não pode, portanto, deixar de ser lido. 

Citações:
"Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía."
"O Antonino explicou-lhe que não queria ser mulher e que gostava de mulheres e que lhes prestava atenção. Disse que admirava a liberdade que tinham para a expressão da sensibilidade, achava que era como uma permissão para ter a alma à solta, autorizada a manifestar-se pela beleza ou pelo espanto de cada coisa. Estava autorizada à sensibilidade que fazia da vida uma travessia mais intensa."
"Aos quarenta anos, o Crisóstomo deitou-se sobre a areia e inventou que estava ligado a todas as pequenas e grandes coisas do mundo, como se lhes pertencesse por igual e cada pedaço de matéria fosse uma extensão longínqua de si. Ia do centro do seu peito aos pinheiros ao fundo, ia do centro do seu peito ao à rocha despontando no meio do mar, ia do centro do seu peito até ao telhado de cada casa."


Pontuação: 9/10


Gonçalo Martins de Matos

quinta-feira, 19 de março de 2020

"Orgulho e Preconceito", de Jane Austen

   Orgulho e Preconceito é uma das obras essenciais da literatura inglesa, sendo também uma das mais acarinhadas pelo público anglófono. E tal não se deve apenas às inúmeras adaptações cinematográficas, televisivas e teatrais deste romance, mas também, e principalmente, aos seus temas e às suas personagens. 
   O romance começa por nos apresentar um dos temas que o atravessam, que é o casamento e a sua importância na Inglaterra no início do século XIX. A protagonista da obra é Elizabeth Bennet, segunda de cinco filhas do casal Bennet. A principal preocupação da mãe de Elizabeth é casar bem pelo menos uma das suas filhas, uma vez que os Bennet não possuem nenhum filho herdeiro dos seus bens. Mr. e a Mrs. Bennet constituem um casal muito díspar em génio e filosofia, repercutindo-se tal no próprio génio e educação das suas filhas. Sendo tão fulcral para Mrs. Bennet o bom casamento das suas filhas, é natural que a chegada de novos vizinhos à pequena localidade de Merryton despolete a sua intenção de as apresentar imediatamente. É assim que os protagonistas desta obra se cruzam todos pela primeira vez, num baile social organizado pelo novo vizinho, Mr. Bingley. Desde o início que Bingley e Jane, a irmã mais velha de Elisabeth, se dão muito bem, facto que orgulha muito a sua mãe. Já Elizabeth não pôde deixar de considerar o amigo de Bingley, Mr. Darcy, um homem arrogante e orgulhoso, tão diferente da personalidade do primeiro. Estão assim lançadas as bases para uma sucessão de eventos que levam Elizabeth numa viagem sentimental tão vincada que deitam por terra todas as suas convicções e seguranças, demonstrando também alguma da mesquinhez e futilidade da sociedade inglesa do início do séc. XIX. Tudo se conjuga para que no final, esses orgulho e preconceito que dominam as normas sociais serão afastados por sentimentos mais profundos da alma humana, tudo terminando em bem, como se de um conto de fadas se tratasse. 
    O estilo de Jane Austen encaixa no período de transição para o realismo, uma vez que, apesar de a história constituir uma narrativa romântica, a autora introduz já vários dos motivos literários da estética realista. Nomeadamente, o narrador de Austen discorre em discurso indireto livre, narrando os acontecimentos na terceira pessoa mas sempre através dos olhos e das ideias de Elizabeth. Vamos aprendendo todos os factos que rodeiam os personagens e as situações à medida que a própria Elizabeth as descobre. A autora socorre-se igualmente da ironia para desmontar as farsas da sociedade inglesa do seu tempo, outra grande marca do estilo realista. Escreverei agora sobre o ponto mais forte deste romance e o porquê de, em minha opinião, ser uma obra ainda tão apreciada nos dias de hoje. As personagens de Austen não são meras criações escritas em papel e tinta, são seres mais do que tridimensionais, são seres vivos que respiram, sentem e sofrem. Jane Austen tem um enormíssimo talento para criar personagens vivas, e Elizabeth está entre as melhores personagens de ficção que alguma vez li, não pelas suas ações, mas porque vivi com ela as suas inquietações, as suas frustrações e as suas alegrias. Elizabeth Bennet está viva e respira, sorri e sofre como qualquer leitor que leia esta obra. E esse é um dos fatores que impulsiona este romance para junto dos grandes romances anglófonos. É também, conforme disse, por essa razão que ainda hoje esta obra é tão apreciada, não pelas inúmeras adaptações, mas pelas personagens reais, humanas e tangíveis que Austen nos apresenta. Sem dúvida esta é a pedra angular do romance, as personagens vivas, de carne e osso. As personagens-tipo não são tão desenvolvidas como as principais, mas lá se encontram a cumprir o seu papel, da mãe de Elizabeth até à comunidade mesquinha e coscuvilheira de Merryton, passando por Mrs. Catherine de Bourgh, uma personagem odiosa que representa a futilidade da aristocracia até a Mr. Collins, primo de Mr. Bennet e representante de uma burguesia tecnocrata e bajuladora dessa mesma nobreza decadente. Uma última referência deve ser feita a Mr. Darcy, que, tal como Elizabeth, cresce com o evoluir da história, contribuindo para esse realismo humano de Austen. 
   Trata-se este de um dos romances de leitura obrigatória da literatura mundial. 

Citações:
"É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna necessita de uma esposa."
"Permita-me dizer-lhe, então, minha querida prima, que considero a sua recusa ao meu pedido destituída de qualquer fundamento e que, por conseguinte, não passa de uma mera formalidade. As razões que me levam a pensar assim são, em resumo, as seguintes: não me parece que a minha mão seja indigna de do seu acolhimento ou que as condições que eu lhe posso oferecer não sejam mais do que altamente desejáveis."
"Merryton em peso parecia esforçar-se por denegrir o homem que três meses antes fora quase como um anjo de bondade. Diziam que ele devia dinheiro a todos os comerciantes da localidade e que as suas aventuras, todas designadas por «seduções», se tinham estendido às famílias dos vários comerciantes. Todos eram unânimes em declarar que ele era o homem mais perverso do mundo e todos começaram a descobrir que sempre haviam desconfiado dele, apesar da sua aparência de distinção." 


Pontuação: 8.5/10


Gonçalo Martins de Matos

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

"Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis

   Machado de Assis é considerado unanimemente como o maior escritor da literatura brasileira. A ele se deve a existência da Academia Brasileira de Letras e, no plano literário, a introdução da estética realista na literatura brasileira, devendo-se a ele uma grande inovação na literatura do Brasil derivada dessa nova estética. Memórias Póstumas de Brás Cubas integra-se na chamada "Trilogia Realista", dos quais fazem parte Dom Casmurro e Quincas Borba, trilogia essa considerada a magnum opus do autor brasileiro. Memórias Póstumas de Brás Cubas é também considerada como a maior obra de Machado de Assis. 
   Começando este romance pelo fim, ou seja, pelo óbito do autor, cedo percebemos que a história que se nos apresenta será peculiar. Brás Cubas começa as suas memórias póstumas pela descrição dos seus momentos finais e falecimento, fazendo depois a transição para o dia do seu nascimento, começando a partir daí a narração dos factos que compõem a sua vida. O narrador apresenta-nos o seu pai e a sua mãe, além de dois tios seus, figuras que marcaram a sua educação, que o próprio reconhece, agora que morreu, como tendo sido "viciosa, incompleta e, em partes, negativa". Adorado pelo seu pai, que tinha grandes projetos para o seu filho, o narrador "sofreu" de demasiada liberdade que, como consequência, o levou no caminho que seguiu pelo resto da vida. Acompanhamos a vida de Brás Cubas nas suas muitas dimensões através de episódios que o próprio nos revela, como a sua educação básica, os seus estudos em Coimbra, as suas desventuras académicas e amorosas e as suas ideias sobre o mundo e a sociedade que o rodeavam. Os vários personagens que povoam estes episódios todos têm a sua parte de influência no perfil do narrador, seja o seu grande amor, Virgília, o seu cunhado Cotrim, o marido de Virgília, Lobo Neves, ou o seu amigo de infância, Quincas Borba. Todos estes episódios se juntam na construção de uma vida no Brasil do século XIX, em tudo o que tem de trágico e irónico. 
   Machado de Assis é justamente considerado um dos génios da literatura lusófona, e mesmo mundial. Neste romance temos expostos diante de nós os motivos que o levam a ser considerado dessa forma pela crítica. O romance é dominado por um sentido humorístico tão apurado e por uma ironia tão refinada que nos arrancam sonoras gargalhadas a meio da leitura (pelo menos comigo assim foi). Notam-se em todas as suas páginas as características da estética realista, incluindo o mote romântico que guia a história narrada, que é em si utilizado para mais ainda ironizar as idiossincrasias da sociedade brasileira oitocentista. O humor e a ironia a que aludimos notam-se logo na dedicatória do "autor", quando redige "Ao verme/que/primeiro roeu as frias carnes/do meu cadáver/dedico/como saudosa lembrança/estas/memórias póstumas", assim colocada na dianteira do romance de forma a anunciar-nos qual o tom e o espírito da obra. Escusado será acrescentar que o brilhante uso do vernáculo pelo autor é também um elemento que contribuiu para o génio geral do romance. Passamos agora a um dos aspetos mais brilhantes de todo o romance: os seus capítulos. Com o impressionante número de 160 capítulos, estes são o que torna esta obra tão distinta e marcante na literatura lusófona. Tratam-se estes de capítulos curtos, que não ultrapassam as quatro páginas, redigidos tanto de forma a relatar factos da vida do narrador, quanto de forma a expor as suas reflexões e cogitações, quer quanto aos factos relatados, quer quanto a aspetos da vida em geral. A forma como estão estruturados estes capítulos é a expressão última da ironia e do humor que Machado de Assis emprega neste romance. Eles variam muito entre si, destacando aqui quatro que, na minha opinião, se distinguem dos demais. O primeiro é o Capítulo LV, que é composto em forma de texto dramático, mas em vez de possuir qualquer texto, é apenas composto pelos nomes dos dois protagonistas e por sinais gráficos ("........!" ou "................?...................!"), que compõem o "diálogo". O segundo é o Capítulo CII, que constitui uma pausa da narração para o leitor poder recuperar o fôlego. O terceiro é o Capítulo CXIX, que constitui um parêntesis do narrador para partilhar com o leitor algumas máximas que ele escrevera em certa altura da vida. Por fim, o Capítulo CXXXVI, cujo subtítulo é "INUTILIDADE", no qual se lê: "Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capítulo inútil.", que, confesso, me apanhou completamente desarmado e me arrancou uma valente gargalhada! Estes, entre outros igualmente divertidos e originais, compõem uma obra verdadeiramente peculiar no panorama literário mundial! As personagens tipo que rodeiam o narrador servem precisamente esse grande propósito de satirizar a sociedade brasileira do século XIX. 
   Resta referir que este romance, no seu estilo e na sua forma, está muito próximo do que viria a ser a literatura modernista no século seguinte, o que revela a componente genial da obra de Machado de Assis, um escritor verdadeiramente à frente do seu tempo. Uma leitura a não perder!

Citações:
"Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. (...) Súbito, deu um grande salto estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te."
"Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes."
"Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas (...) porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem..." 


Pontuação 10/10


Gonçalo Martins de Matos

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

"As Intermitências da Morte", de José Saramago

   José Saramago é sem sombra de dúvida uma das figuras fulcrais da literatura portuguesa. Grande parte dos seus romances constituem uma experiência de pensamento, uma colocação a si próprio de um e se?. Este romance é uma dessas experiências, adiantando nós já que da sua premissa resultam diversas conclusões tão brilhantes quanto profundas. Um último pormenor quanto a esta edição em particular: as capas dos romances do autor publicados pela Porto Editora são escritas por diversas figuras conhecidas das artes e cultura portuguesas, pertencendo a caligrafia deste romance a Valter Hugo Mãe. 
   "No dia seguinte ninguém morreu." É assim que esta maravilhosa narrativa começa, preconizando desde a sua abertura a singular sequência de eventos que se passarão ao longo deste romance. Podemos fazer a divisão da narrativa em duas partes. Na primeira parte acompanhamos as inquietações, frustrações e reações sentidas pelos diferentes setores de uma sociedade que se apercebe que a morte deixou de cumprir a sua finalidade. Acompanhamos os diferentes intervenientes nestes insólitos acontecimentos, quer sejam os que sofrem com a falta da morte, quer sejam os que lucram com tal facto, desde as famílias que não sabem o que mais fazer com os seus não-mortos até às companhias de seguros, lares e agências funerárias que perderam as suas principais fontes de rendimento. Na segunda parte, já voltou a morte a cumprir o seu trabalho, mas com uma pequena diferença em relação ao passado, fulcral nesta nova sociedade. Tudo parece correr conforme, até ao dia em que um acontecimento inesperado leva a que a morte tenha de repensar todos os fundamentos que sempre considerou como certos, tudo indo desaguar a um apoteótico final carregado de lirismo. 
   Conforme foi dito, o romance pode ser dividido em duas partes: a primeira parte servindo como profunda análise às hipotéticas reações que uma sociedade teria se um insólito destes se verificasse; a segunda aterrando na componente romanesca, no sentido em que trata mais do desenvolvimento da restante história. Este romance é brilhante, deve ser desde já dito. Principalmente as reações que o autor teoriza que se verificariam caso algo assim sucedesse. A reflexão que é descrita na primeira parte do romance é tão sabiamente ponderada quanto verosímil. Olhando para o mundo que nos rodeia sabemos bem que, caso um dia deixasse de se morrer, a nossa sociedade teria atitudes quase exatamente iguais às que se verificam nesta obra. Esta reflexão povoa-se de personagens-tipo brilhantemente caricaturadas. A segunda parte acompanha uma nova sociedade em que a morte já voltou a cumprir o seu papel, mas de uma forma diferente que altera novamente todo o paradigma da vida e da morte. É nesta parte que o romance se individualiza, descendo do olhar geral para o particular e abandonando a reflexão para encetar na simples narração. As personagens principais desta parte já são mais humanizadas, sendo mais efetivos protagonistas que caricaturas. O violoncelista e o seu cão, para além da própria morte, constituirão a história principal desta parte, história essa que é ao mesmo tempo inerentemente poética e extraordinariamente composta. A estética que caracteriza a obra de José Saramago também se apresenta neste romance. O vernáculo, a inerente oralidade e a construção frásica de registo popular (entre tantos outros, o emprego da palavra "cousa") conferem a esta obra a tal oralidade do discurso tão brilhantemente praticada pelo autor. Também os parágrafos longos e o uso não convencional da ortografia marcam a sua presença neste romance, tudo indo de encontro à estética característica do romancista. Esta obra tem também um caráter altamente simbólico, sendo o romance povoado por diversos símbolos relativos à vida e à morte. Das cores à borboleta-caveira, passando pelo violoncelo e pelos elementos paisagísticos, como certas árvores ou certos estados do tempo, todos os símbolos caminham no sentido comum do romance de dar a conhecer algo que na natureza é tão inerentemente humano, isto é, a reflexão sobre a mortalidade e sobre a humanidade. Um último apontamento, não menos curioso, prende-se com o espaço físico do romance. A narrativa que nos é apresentada passa-se num país pequeno, habitado por dez milhões de pessoas, o que encaixa na descrição de Portugal, desviando-nos, no entanto, o autor dessa conclusão com a introdução de certos elementos, como o sistema político (monarquia constitucional) ou as fronteiras com outros países. Demarco este apontamento porque a sua intenção é claramente criticar certos aspetos da sociedade portuguesa sem, no entanto, o fazer expressamente, o que é demonstrativo da ironia saramaguiana que povoa os seus romances. 
   Cada vez mais me convenço que a leitura das obras de José Saramago é indispensável para o desenvolvimento, além do gosto estético, do pensamento crítico e da reflexão construtiva. Lendo este romance, não me engano ao fazer esta afirmação. É uma obra brilhante e acutilante, que merece ser lida e, quiçá, relida. 

Citações:
"Desativados, Sim, creio que a palavra é bastante clara, Sem dúvida, senhor ministro, apenas manifestei a minha surpresa, Não vejo de quê, é a única maneira que temos de não parecer que cedemos à chantagem desse bando de patifes, Ainda que em realidade tenhamos cedido, O importante é que não pareça, que mantenhamos a fachada, o que acontecer por trás dela já não será da nossa responsabilidade."
"e quando falo de diferença real estou a referir-me a algo que as palavras jamais poderão exprimir, relativo, absoluto, cheio, vazio, ser ainda, não ser já, que é isso, senhor diretor, porque as palavras, se o não sabe, movem-se muito, mudam de um dia para o outro, são instáveis, como sombras, sombras elas mesmas, que tanto estão como deixam de estar, bolas de sabão, conchas de que mal se sente a respiração, troncos cortados"
"A morte afagou as cordas do violoncelo, passou suavemente as pontas dos dedos pelas teclas do piano, mas só ela podia ter distinguido o som dos instrumentos, um longo e grave queixume primeiro, um breve gorjeio de pássaro depois, ambos inaudíveis para ouvidos humanos, mas claros e precisos para quem desde há tanto tempo tinha aprendido a interpretar o sentido dos suspiros."


Pontuação: 10/10


Gonçalo Martins de Matos

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

"O Processo", de Franz Kafka

   É famosa a história de como Franz Kafka legou ao seu amigo, Max Brod, a missão de destruir todos os seus escritos após a sua morte. Após uma análise do espólio do escritor, Max Brod decidiu publicar os seus escritos não obstante. E ainda bem que assim o fez. Toda a literatura ganhou com essa atuação. Um dos romances que nos foi dado a conhecer, então, foi O Processo
   A história começa com Josef K., o protagonista do romance, a ser preso na sua própria casa, um quarto arrendado, para sua surpresa. A partir daí, inicia-se uma série de acontecimentos tão improváveis quanto bizarros. Após uma breve entrevista com os guardas que o vigiavam, e com a sua senhoria, a senhora Grubach, K. intervém junto da menina Burstner, sua vizinha, tentando deslindar o insólito que lhe ocorrera. No entanto, nesta tal como em outras situações posteriores, o que seria de esperar do correr dos acontecimentos resvala para a bizarria. K. tenta levar a sua vida como se nada se tivesse sucedido, mas é óbvio que nunca mais nada será o mesmo. Depois de um primeiro interrogatório peculiar e de uma visita ás repartições, para além de diversos episódios inusitados, o tio de K. leva-o a casa de um advogado seu amigo, para que este seja o seu representante legal no seu processo. É a partir deste momento que K. começa a ceder e a considerar que se calhar o seu processo não deve ser encarado tão levianamente como até então. Após mais uma série de episódios insólitos, como as visitas à casa do advogado e do pintor e a visita à catedral, e de alguns personagens peculiares como o advogado, Leni, o pintor Titorelli, o comerciante Block e o padre, O romance desemboca num final tão bizarro quanto inesperado. 
   Existe um tema e um estilo que perpassam a obra de Franz Kafka: aquele, o absurdo, este, o surrealismo. De facto, o surrealismo está bem patente no desenrolar das situações que os seus personagens enfrentam. Mas o que confere a Kafka a sua particularidade é a conjugação magistral deste surrealismo com o absurdo das situações deste resultantes com que o autor recheia os seus romances. Em O Processo encontramos o pico da sua estética. Nada na existência de Josef K. é passível de ser considerado normal a partir do momento da sua prisão. As situações que se lhe apresentam são tão surreais e inverosímeis que a K. não lhe resta outra opção que não saber como reagir perante elas. A absoluta incapacidade de K. em compreender e agir quanto a tudo o que lhe sucede constitui outro aspeto fundamental da obra de Kafka. O pânico existencial provocado pelas situações absurdas e pela incapacidade de lidar com elas oprime os protagonistas kafkianos até ao limiar da razão. Josef K. nunca conhece do que crime se encontra acusado, não conhece os fundamentos do seu processo nem tampouco tem acesso aos documentos que constituem a sua causa. A justiça que julga o seu processo é inatingível, nunca podendo K. saber como contactar sequer as instâncias judiciais. Quando contacta por demasiado tempo com qualquer elemento que se relacione com "a justiça" não consegue controlar o seu próprio corpo, que vai gradualmente enfraquecendo. É através de terceiros que K. consegue obter algumas luzes quanto à situação em que se vê aprisionado. É extremamente difícil não verificar no protagonista do romance um reflexo do próprio autor, e em toda a narrativa um grito silencioso de revolta perante a situação opressiva que o subjuga. Na obra é patente um brilhante uso de simbologia como reforço da mensagem que o autor deseja partilhar: os personagens com que Josef K. contacta, os locais que este frequenta, o espaço do seu escritório no banco, entre outros. É notável o pormenor de que, à medida que vai avançando, os locais a que Josef K. se dirige vão progressivamente encolhendo. A sala de audiências, as repartições da justiça, o quarto do advogado, a casa do pintor e, por fim, o púlpito na catedral. Tudo isso constitui um "caminho de migalhas" que nos conduz até à sensação de impotência e de resignação do protagonista. 
   Trata-se de uma obra genial, fundamental na literatura mundial, que mais não merece que a nossa mais profunda leitura e reflexão. 

Citações:
"K. pensou que tinha ido dar a uma reunião. Numa sala de dimensões médias e com duas janelas, apinhavam-se as mais diferentes pessoas; nenhuma delas, porém, ligou a mínima importância ao recém-chegado. Numa galeria instalada a toda a volta da sala e que quase chegava ao tecto, amontoava-se igualmente gente sem conta que, por falta de espaço, era obrigada a manter-se curvada e a bater no tecto com as costas e a cabeça."
"A Lei, no entanto, não prescrevia tal possibilidade. Por consequência, ao réu e à defesa ficava vedado o acesso aos documentos do tribunal e acima de tudo ao libelo. (...) De facto, no fundo, a defesa não era permitida pela Lei mas simplesmente tolerada, e constituía até motivo de polémica saber se do código se podia mesmo extrair a confirmação dessa tolerância."
"Porém, em torno da figura da Justiça manteve-se um impercetível matiz claro; envolta por essa claridade, a figura parecia destacar-se do quadro e mal dava já a ideia de ser quer deusa da Justiça quer deusa da Vitória; antes tinha o perfeito aspeto de ser a deusa da Caça."


Pontuação: 10/10


Gonçalo Martins de Matos

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

"A Relíquia", de Eça de Queirós

   Eça de Queirós é um dos grandes vultos da literatura portuguesa, e entrar na sua prosa é sempre esperar uma leitura rica, fluída e bem-humorada. Este A Relíquia não é exceção. Ao título deste romance veio acoplado o subtítulo mais famosos de Eça, que sintetiza o conjunto da sua obra: "Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia".
   A obra começa com uma breve apresentação do narrador e do contexto familiar em que cresceu. Teodorico Raposo, nascido numa família relativamente abastada, herdeira de uma enorme fortuna, vê-se órfão de pai e mãe e obrigado a viver com a sua tia, D. Patrocínio das Neves, uma senhora maldisposta, devota beata e única herdeira da fortuna da família. Crescendo num ambiente familiar rigoroso, não é senão quando chega a Coimbra, para estudar Direito, que Teodorico conhece a liberdade e os prazeres da vida boémia, abandonando a dedicação à religião. No entanto, com a sua tia mantinha a postura de um homem convictamente devoto, tendo em vista a herança da fortuna familiar. Disposto a tudo para cumprir esse objetivo, Teodorico, por sugestão de um amigo da sua tia num dos inúmeros serões que este frequentava, decide encetar numa peregrinação a Jerusalém na altura da Páscoa, prometendo trazer a sua tia uma relíquia da Terra Santa. É assim que parte. Acompanhado de um académico alemão, de sue nome Topsius, Teodorico conhecerá os mistérios e os prazeres do Oriente Médio, conhecendo inclusive em Alexandria uma inglesa chamada Mary, que na hora da partida lhe oferece a sua camisa de noite, num embrulho e com uma nota, para que se recordasse dela. Chegados à Palestina, Teodorico congemina um plano infalível para seduzir finalmente a tia, que consistia em levar-lhe um raminho de um arbusto, afirmando que era a coroa de espinhos. Encontrada a relíquia, embrulha-a com todo o carinho. Uma noite, Teodorico sonha que ele e o seu companheiro de viagem assistem ao processo de condenação de Jesus Cristo, ponto chave da obra que referiremos mais adiante. Findo o sonho, Teodorico e Topsius visitam a Jerusalém do século XIX, com tudo o que tem de santo e devasso. Terminada a peregrinação, Teodorico regressa então a Lisboa, para poder exibir a sua tia a relíquia que lhe trouxera. No entanto, as coisas tomam um caminho imprevisto para o jovem, que terá de saber lidar com a sua nova situação. 
   A obra de Eça, principalmente na fase do realismo crítico, na qual se insere A Relíquia, é uma irónica e crítica análise à sociedade e pensamento portugueses no seu século, sendo que muitos dos vícios que o olho atento do autor ainda hoje se encontram por aí. É com isto em mente que não conseguimos deixar de nos rir ao ler as desventuras de Teodorico, da beatitude da sua tia e da hipocrisia dos padres e conselheiros que a rodeiam. É Teodorico quem nos narra a sua história, emprestando sempre a sua visão e a sua lógica à descrição dos factos que relata. O romance tem como objeto da sua crítica a religião e a religiosidade, quando levadas ao extremo. A tia de Teodorico, D. Patrocínio, é o expoente desta crítica, sendo uma senhora desagradável e constantemente maldisposta, possuindo uma religiosidade tal que o seu oratório maravilhou até Teodorico, o personagem mais desinteressado da religião no romance. É com esta crítica patente que chegamos ao ponto chave do romance, que é o imenso capítulo que o autor dedica ao sonho de Teodorico com o processo de Jesus Cristo, e sua posterior condenação. Este capítulo pega na figura de Jesus e trá-la da sua intocável santidade para a humanidade, apresentando não só Jesus como uma figura não livre de erros, como também desconstruindo o milagre da ressurreição, apresentando-nos uma versão alternativa, e deveras realista, do que se poderá ter passado. Esta desconstrução atinge o seu propósito quando no final Teodorico ouve uma voz que associa a Jesus, mas que não é mais que a sua própria consciência. A obra de Eça também se caracteriza pelo seu brilhante uso do vernáculo, sendo que este romance não é exceção, tendo o autor um domínio total das palavras que emprega e das frases que constrói com elas. 
   Trata-se este romance realista de uma das obras de leitura obrigatória para todos os que apreciam o génio de Eça de Queirós, pelo que não pode deixar de ser vivamente recomendada.

Citações:
"O Jordão, fio de água barrento e peco que se arrasta entre areais, nem pode ser comparado a esse claro e suave Lima que lá em baixo, ao fundo do Mosteiro, banha as raízes dos meus amieiros: e todavia, vede!, estas meigas águas portuguesas não correram jamais entre os joelhos de um Messias, nem jamais as roçaram as asas dos anjos, armados e rutilantes, trazendo do Céu à Terra as ameaças do Altíssimo!
"Aqui e além, no meio de devotos embevecidos, dois doutores disputavam, com as faces assanhadas, sobre temerosos pontos da doutrina: «Pode-se comer um ovo de galinha posto no dia de Sabat? Por que osso da espinha dorsal começa a Ressurreição?» 
"Já não tens Deus por quem se combata, Alpedrinha! nem rei por quem se navegue, Alpedrinha!... Por isso, entre os povos do Oriente, te gastas nas ocupações únicas que comportam a fé, o ideal, o valor dos modernos Lusíadas - descansar encostado às esquinas, ou tristemente carregar fardos alheios..."


Pontuação: 8.9/10


Gonçalo Martins de Matos

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

"O Beco da Liberdade", de Álvaro Laborinho Lúcio

   O nome de Álvaro Laborinho Lúcio é sobremaneira associado à área da qual fez carreira, tendo as suas publicações mais antigas sido dedicadas principalmente à área do direito. No entanto, desde 2014 que Laborinho Lúcio apresenta aos leitores os seus romances, sendo este o seu terceiro. 
   Neste romance, conhecemos uma aldeia portuguesa do Interior Norte, povoada por um leque de personagens singulares. O narrador é um escritor à procura de uma história para escrever, sendo assim que entra em contacto com Floriano Antunes, jornalista, que tinha uma história para partilhar. A história que o jornalista traz é a de Guilherme Augusto Marreiro Lessa, juiz jubilado, que há cinquenta anos atrás proferira uma sentença tão leve para o arguido que suscitara dúvidas quanto aos verdadeiros motivos que a teriam determinado. Na altura, fora Floriano quem acompanhara o caso, tendo sido o seu artigo cortado pela censura, pelo que achou que retomar o caso poderia trazer-lhe alguma conclusão quanto a esses tempos. Também porque o próprio Marreiro Lessa se encontrava, agora, ele mesmo no lugar de arguido, acusado da prática de um crime. É então que conhecemos, os factos de então, analisados pela distância que o tempo permite, e os de agora, tão inesperados como estranhamente conectados com os acontecimentos de há cinquenta anos atrás. Aos poucos, vamos ficando a conhecer as teias que se urdem em volta dos vários intervenientes de então, como Maria Cacilda, a viúva da primeira vítima e possuidora de estranhos poderes divinatórios, Joaquim Quitério, tolo da aldeia, Gervásio Ventura, subinspetor da PJ e encarregue do caso, Hildebrando Moreira de Castro, notário reformado, Narcisa, fiel governanta da família Marreiro Lessa, e Júlia, amante de Guilherme Augusto, entre outros personagens peculiares. Tudo conduzindo a revelações surpreendentes sobre os vários envolvidos e sobre o próprio Marreiro Lessa. 
   O romance é narrado a duas vozes, mas "coordenado" por uma delas. As vozes são as do escritor em busca de uma história e a de Floriano Antunes, aquando dos seus encontros com o juiz. Estas duas vozes distinguem-se pelas partes que compõem o romance. A primeira parte é narrada pelo escritor, que relata, na terceira pessoa, os factos ocorridos então, retirados dos pedaços de informação que o jornalista lhe colocou à disposição. A segunda parte é já o relato completo de Floriano Antunes sobre as conversas que manteve com o juiz nos dias anteriores ao seu julgamento. Ambas as partes se conjugam no sentido de ir revelando aos poucos os factos e as ficções que compõem os acontecimentos em causa. O uso do vernáculo pelo autor ganha a sua arte nas imagens que este consegue exprimir através das palavras, sejam elas pictóricas ou metafóricas. O tema fulcral do romance é a contradição que a justiça consegue abarcar, pondo em conflito a justiça formal, do direito, e a justiça material, da ética e da moral. Todo o texto pretende exprimir a enorme diferença que existe entre o ato de julgar e o ato de compreender, através, precisamente, da contradição atrás referida. E essa diferença é representada pelo juiz Marreiro Lessa jovem, no papel de julgador, e pelo mesmo, velho, agora no papel de julgado. As suas ideias e opiniões sobre o modo como a sociedade se organiza e sobre a realização da justiça mudam com o seu contacto com uma nova realidade, que lhe põe em evidência a diferença abismal que existe entre o que ele tinha como certo e o que de facto se verifica nas vidas das pessoas reais. As figuras da mulher de Marreiro Lessa, Maria da Graça, e da sua amante, Julinha, representam precisamente essa diferença entre o formal e o que é tido como certo e entre o material e o que se verifica na realidade. 
   Resta agora recomendar a leitura deste romance de indagação sobre a diferença de perspetivas humanas quanto à justiça, à moral e à própria liberdade.

Citações: 
"Aos pés da cama, nasciam duas poltronas revestidas a damasco rosa-velho replicando o dossel, e apontando a uma mesa de camilha de manto grosso, com braseira elétrica, acolitada por duas cadeiras rabo de bacalhau, com almofadinhas de atilho."
"Ali, atirado para o sofá, sorria, olhos postos na aranha afadigada a tecer a teia junto ao teto. Não lera Kafka e, talvez por isso, gostou da companhia. Afinal, pensava, bem pode haver um ponto onde as linhas do bem se encontrem com as do mal e fiem um véu que ora mostra, ora esconde, num jogo de sombras onde nem tudo é o que parece, nem tudo parece aquilo que é."
"A lei surgia-lhe como uma síntese, um traço de cada tempo, uma grosseira simplificação. De fora ficava toda a vida que nela não cabia. Talvez o direito na ilusão do absoluto tivesse a solução. Fora nisso que sempre acreditara. Mas toda a solução? À lei e ao direito poderia pedir a resposta para a tentativa de emigração clandestina, e de nenhuma dificuldade seria o percurso lógico até à condenação. Mas teriam a lei e o direito resposta para a tentativa de emigração clandestina daquele Manuel Santos, de quarenta anos, analfabeto, parecendo um velho?"


Pontuação: 8/10


Gonçalo Martins de Matos

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

"O Esplendor de Portugal", de António Lobo Antunes

   Não há dúvida que a voz de António Lobo Antunes é ímpar na literatura portuguesa contemporânea. Poucos autores conseguem jogar com a língua portuguesa de uma forma tão luxuriante e genuína, mantendo a crueza da realidade circundante. Nunca é de mais repetir que poucos romanceiam como Lobo Antunes, e este romance é mais uma pedra nesse seu grande castelo literário. 
   A história que nos é narrada é a de uma família de colonos portugueses, contada pelos olhos de Isilda, a mãe, e dos seus três filhos, Carlos, Rui e Clarisse. Pelos olhos de Isilda, vemos o passado recheado de um poder ilusório desta família, que detinha uma fazenda de algodão e os seus criados, e um presente de incerteza e de melancolia, de fuga dos soldados da UNITA e dos revoltosos angolanos. Articulando-se com as memórias e relatos de Isilda estão as vozes dos seus três filhos. Primeiro, vemos pela perspetiva de Carlos a sua existência medíocre num apartamento pequeno de mais para si e para a sua mulher, Lena. Carlos recorda os seus tempos na fazenda em Angola ao mesmo tempo que tenta interpretar o seu presente longe da sua família e casado com uma mulher que nunca o quis verdadeiramente. O grande mote da perspetiva de Carlos é a sua intenção gorada de reatar as suas relações familiares com os seus irmãos, assaltado pelos remorsos do seu passado. De seguida, seguimos a perspetiva de Rui, internado numa clínica pobre devido à sua epilepsia. Observamos a sua versão do passado como sendo o ator de acontecimentos brutais, mesmo cruéis, mas desculpado pela sua condição. As suas ações passadas são por si vistas sem remorso, com algum regozijo até. Por fim, seguimos a visão de Clarisse. Amante de um político importante da capital, Clarisse recorda, como o seu irmão Carlos, o seu passado e invoca-o para poder interpretar o seu presente. No entanto, não é o remorso que sente pelas suas ações, mas antes, um misto de arrependimento e de alívio, num desapego do passado e da sua família (tirando o seu irmão Rui, a quem oferece inclusive casa), mas sempre com um fio de ligação a essas memórias. Aqui e ali encontramos fragmentos de pensamentos e impressões de outros familiares e relacionados com a família, como para complementar certos acontecimentos com os factos completos. Tudo isto no sentido de explorar um capítulo duro na história de Portugal e os seus efeitos em todos os envolvidos. Sente-se o desmembramento e a dissolução dos laços familiares e afetivos como que refletindo a realidade portuguesa ultramarina. 
   Existem neste romance dois tempos: um estático e um dinâmico. O tempo estático é a noite de Natal de 1995. O tempo dinâmico vai de 24 de julho de 1978 a 24 de dezembro de 1995, a mesma noite de Natal. Estes dois tempos são os pontos chave do romance. As vozes de Carlos, Rui e Clarisse desfiam as suas narrativas nessa noite de Natal, ao passo que a voz de Isilda vai acompanhando o evoluir da situação em Angola, na sua fazenda cercada e isolada. O romance encontra-se dividido em três partes, que separam precisamente as três vozes narrativas, intercalando os capítulos entre a voz de Carlos, Rui ou Clarisse e a de Isilda. Muitas vezes, vemos uma impressão ou uma memória do ponto de vista de um dos três para no capítulo a seguir vermos uma versão diferente contada pela mãe, tudo de forma a compor melhor o retrato da dissolução familiar que é o enredo central do romance. António Lobo Antunes é luxuriante nas suas impressões. Existe um imagismo muito acentuado que nos permite aparecer no meio do caos que se viveu em Angola no pós 25 de Abril. Ou talvez, no meio da confusão psicológica que esse acontecimento teve nos seus envolvidos. Essa luxúria imagética alia-se ao recurso magistral ao vernáculo. Um mestre da linguagem, Lobo Antunes consegue encher-nos de palavras e ainda assim nos deixar ansiosos por mais. É notável o anacoluto empregue pelo autor, que é mesmo uma marca distintiva de toda a sua obra narrativa. Aliado ás quebras de parágrafo e ao uso reduzido de vírgulas, o autor aproxima-se da fala coloquial no sentido de conferir uma maior oralidade à sua escrita. Como no conjunto da sua obra (e na maior parte das obras literárias modernas e pós-modernas), a narrativa é desfiada em fluxo de consciência, no qual o passado e o presente se tornam plásticos e mutuamente intrusivos, e se sucedem as quebras de lógica e de sequência narrativa. Todos estes recursos são empregues no sentido de conferir ao romance um caráter labiríntico, que é também uma marca notável da escrita antuniana. Terminando esta análise, uma referência à ironia que, apesar de não ser uma característica literária deste autor, neste romance é empregue. Refiro-me, nomeadamente, à ligação entre o título e a história narrada. Tanto a atribuição do título O Esplendor de Portugal, como a referência ao Hino Nacional no início do livro, atribuem uma carga irónica ao texto todo, uma vez que Lobo Antunes não retrata uma realidade assim tão esplendorosa ou digna de orgulho nacional de Portugal. 
   António Lobo Antunes é um romancista notável e este é mais um dos seus contributos para essa sua classificação, pelo que mais não tenho a fazer a não ser recomendar a leitura deste romance, e de outros, do autor. São sem dúvida leituras inevitáveis para todos quantos apreciam o magistral uso do português.

Citações:
"Há qualquer coisa de terrível em mim. Às vezes à noite o murmúrio dos girassóis acorda-me e sinto o ventre aumentar na escuridão do quarto com aquilo que não é um filho, não é um inchaço, não é um tumor, não é uma doença, é uma espécie de grito que vai sair não pela boca mas pelo corpo inteiro e encher os campos como o uivo dos cães."
"e eu era diferente daquele nome, não era aquele nome, não podia ser aquele nome, as pessoas ao chamarem
   Carlos
   chamavam um Carlos que era eu em elas não era eu nem eu em eu, era um outro da mesma forma que se lhes respondia não era eu quem respondia era o eu deles que falava, o eu em eu calava-se em mim e portanto sabiam apenas do Carlos delas"
"o meu pai todo desaparecido salvo as pernas, o pedaço de pele de frango que separava a meia da calça, combatendo as páginas do jornal de súbito vivas, que se torciam, espadanavam, espalhavam no chão, o relógio a caminhar de número em número em passadas de peru ao comprido do tempo"


Pontuação: 7.5/10


Gonçalo Martins de Matos

domingo, 1 de setembro de 2019

"Um beijo dado mais tarde", de Maria Gabriela Llansol

   A obra de Maria Gabriela Llansol é ainda relativamente desconhecida do grande público, mas nos meios literários, é considerada uma das autoras mais criativas da literatura portuguesa contemporânea. Muitos são os trabalhos académicos e os artigos que se versam sobre um obra singular de uma autora sem par como esta. Um beijo dado mais tarde foi galardoado em 1990 com o Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB.
   A história deste romance prende-se com a indagação psicológica da narradora pelas imagens e cenas da sua infância à luz das suas vivências e dos seus receios atuais. Como ponto de partida, a narradora enceta nessa navegação após a morte da sua tia Assafora, percorrendo os corredores e as memórias da casa onde habitou, e recordando as impressões, sentimentos e receios que sentiu na sua infância, acompanhada das diversas peças e objetos que recheiam a casa, testemunhas desses momentos do crescimento da narradora. A história é marcante no plano formal, do qual já falarei, sendo que o seu espírito, o seu âmago (pelo menos, assim parece) é descrever a desfragmentação familiar que o tempo opera, para além do crescimento que esse mesmo tempo nos oferece. 
   Conforme disse, é nos aspetos formais que a obra de Maria Gabriela Llansol se distingue. Desde logo, pela forma como a história é apresentada. A autora apresenta-nos uma fusão de estilos e de géneros, sem que cheguemos a conclusão se estaremos perante um diário, um romance, uma novela, ou mesmo se estamos perante um livro de prosa, de poesia ou de outro género. Já no que toca à história, esta não é linear na forma como vai sendo discorrida. Nesse campo, encontramos a resposta na própria obra da autora. Llansol refere-se aos fragmentos que povoam a sua obra como cenas-fulgor, fragmentos impressionistas que espelham o teor geral da narração. Estas cenas-fulgor povoam-se de figuras, que tanto podem corresponder a pessoas reais como a imaginárias, animais, objetos e mesmo frases ou conceitos abstratos. E nesta obra nota-se bem essa característica única. Em cenas breves sabemos os pensamentos da autora através de figuras como "Témia, a rapariga que temia a impostura da língua", Aossê, a estátua de Myriam ensinando Ana a ler, a Nuvem Pairando, Bach, entre muitas outras. É através desta neblina de cenas e de figuras que o leitor vai percorrendo a narrativa e absorvendo as impressões e os sentimentos conexos ao espírito geral da obra. Quanto à forma da escrita, também somos apanhados por uma estrutura muito pouco convencional, plena de quebras de parágrafo, de espaços entre palavras, de sublinhados vazios e até de palavras destacadas a negrito. Todos estes aspetos gráficos servem para reforçar o caráter fragmentário do texto. 
   Não recomendo a leitura de Maria Gabriela Llansol para os leitores de ocasião. Mas recomendo muito a leitura desta autora peculiar aos leitores mais preparados para uma experiência literária diferente de tudo o que já leram. 

Citações:
"Minha tia Assafora está com grilhões deitada na cama, e uma melodia cantada por Johann desce no quarto porque ela comigo entra em toda a parte; ela tem um volume mínimo, à mercê dos ventos. Seus olhos vêem ainda menos do que dantes, e traço intimamente, sobre eles, o sinal da música"
"1  dias de dores terríveis               sentei-me, com meu barro, junto de Johann; há muito tempo que ele não é músico               e a música,     quem me chama? Debaixo do seu peito pesado está a resposta a esta pergunta; mas eu não vejo em visão o seu corpo, não o determino; ele tornou-se agora um objeto, um grande ser móvel, que se define pelo esplendor que eu dou à sua presença."
"O antiquário deu-lhes uma pancada seca com o dedo, e verificou que eram de cristal. O som cria o ouvido, o ouvido faz o cérebro, o cérebro concebe a existência do homem só vulto que passou por aqui hoje. E levou Témia, dizendo-me: «téme-a»."


Pontuação: 8.5/10


Gonçalo Martins de Matos

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

"a máquina de fazer espanhóis", de valter hugo mãe

   As reservas que ainda tinha com a escrita de Valter Hugo Mãe, derivadas daquela primeira leitura e posterior redescoberta de o remorso de baltazar serapião, dissiparam-se definitivamente com este romance. Romance que encerra a "tetralogia das minúsculas", trata-se este a máquina de fazer espanhóis de um belíssimo romance por um dos autores mais originais da literatura portuguesa contemporânea.
   A vida de antónio jorge da silva muda drasticamente com a morte de laura, a sua mulher. De repente e sem aviso, aos 83 anos, viúvo e amargurado com o resto de vida que teria sem a sua mulher a seu lado, antónio silva é posto num lar de idade, o tempos felizes, onde passará o resto dos seus dias. De início misantropo e ensimesmado, de luto pela sua situação, aos poucos vais travando conhecimento com outros dos habitantes do lar. É assim que conhecemos personagens como o senhor pereira, o silva da europa, o anísio e o esteves, que, juntos, terão as suas conversas, os seus debates e as suas galhofas de forma a enfrentarem a depressão que tende a assaltar-lhes os pensamentos no resto de vida que ainda têm. É principalmente nestes personagens, e noutros, como por exemplo américo, médico que se afeiçoa a antónio silva, que se foca o romance, sendo tudo e todos perscrutados e relatados pelos olhos de antónio silva, a par com as suas reflexões sobre os temas que percorrem este romance: a velhice, a morte, a viuvez, a amizade e a vida. É este o andamento do romance, em vagas e acalmias, até a um final agridoce, tão brilhante quanto poético.
   Como é sabido, este é o último romance da "tetralogia das minúsculas", que, como o nome indica, se demarca por os seus quatro títulos estarem compostos completamente em minúsculas, sem qualquer distinção ortográfica de início ou fim de discurso direto e sem qualquer tipo de pontuação que não sejam pontos e vírgulas. Esta inteligente forma de o autor homenagear a intenção de Saramago de aproximar a escrita da linguagem oral é, assim, levada ao extremo. No entanto, é uma forma que não choca de modo nenhum com a narrativa, chegando nós mesmo a certo ponto da leitura que nem nos faz diferença se existem maiúsculas ou se não há travessão a iniciar o diálogo. No entanto, este livro tem um pormenor que os outros não têm. Dois capítulos neste romance estão escritos de forma tradicional, com maiúsculas e com outra pontuação, para além de estar escrito na terceira pessoa. Os temas e os personagens deste romance são sublimemente tratados, cada um dos velhos do lar, com as suas histórias, servem o seu propósito de dar a conhecer a antónio silva o conforto da amizade no difícil luto que atravessa. Dois aspetos devem aqui ser relevados. O primeiro é a existência o lar de um esteves com metafísica, em contraponto com o Esteves sem metafísica do poema de Álvaro de Campos. O outro é as ominosas visitas que o protagonista sofre de pássaros negros que entram pela janela para o magoar. A escrita de Valter Hugo Mãe é lírica e luminosa. No entanto, há uma crueza bem característica no tratamento da narrativa, que nos confronta com o que julgamos ser o acertado e nos retira a tapete algumas vezes, deixando-nos suspensos no seu significado. Há sem dúvida uma grande carga emocional na escrita deste autor, e não nos deixa indiferentes a tudo quanto sofrem os seus personagens. Um pormenor muito curioso é o destino da estatueta da nossa senhora, apelidada pelo protagonista de "mariazinha", que o acompanha pelas páginas desta obra. Não sendo antónio silva um homem religioso, a sua afeição à estatueta é ao mesmo tempo comovente e simbólica, uma vez que não representa a espiritualidade normalmente associada à imagética católica, mas acaba por representar todas as suas "aventuras" no lar, todos os bons momentos que passou com os seus novos amigos. 
   Resta-me recomendar, naturalmente, o romance. Todos quanto apreciem o lirismo e o esteticismo das construções de Valter Hugo Mãe devem ler esta sublime obra. Não imagino melhor elogio que o fornecido por António Lobo Antunes na contracapa deste livro: "A maior parte dos livros são escritos para o público; este é um livro escrito para os leitores."

Citações:
"com a morte, também amor devia acabar. ato contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro e nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade."
"o senhor pereira soltou uma gargalhada  e disse, e a sorte é não ter os pastorinhas agarrados ali também, de joelhos a rezar, sabe, é costume. e eu respondi, que pena, ia dar-me um gozo ainda maior poder desparasitar a mariazinha dessa biches toda. coitada da rapariga, que até lhe põem uma expressão com vontade, mas depois não reage, fica como se a casa de banho estivesse ocupada."  
"quando dizemos que antigamente é que era bom estamos só a ter saudades, queremos na verdade dizer que antigamente éramos novos, reconhecíamos o mundo como nosso e não tínhamos dores de costas nem reumatismo. é uma saudade de nós próprios, e não exatamente do regime e menos ainda de salazar."


Pontuação: 9.5/10


Gonçalo Martins de Matos

terça-feira, 13 de agosto de 2019

"O deslumbre de Cecilia Fluss", de João Tordo

   Eis que chegamos ao terceiro e último romance da "trilogia dos lugares sem nome. É atribuída a esta série de três romances, sem ligação sequencial entre eles, a mudança de paradigma na escrita de João Tordo. De facto, neste romance assistimos a um encerrar de algo. Cumpre saber o que foi encerrado. 
   Neste romance, conhecemos um protagonista ativo e um protagonista passivo. Conhecemos Matias Fluss, o narrador da primeira parte da obra, e Cecilia Fluss, a sua irmã. Matias é um rapaz plácido que atravessa as inquietações normais da adolescência, às quais acrescenta um gosto especial pelas fábulas budistas. Cecilia é uma rapariga já com os seus 17 anos, indomável e sofrendo os efeitos da descoberta da idade adulta. Pela voz de Matias, na primeira parte do romance, conhecemos pedaços da vida quotidiana de ambos, as fábulas budistas que fazem parte da existência de Matias, os seus passeios com os seus colegas de escola, as inquietações da sua primeira paixão e a sua existência conjunta com Cecilia, nos momentos em que esta desperta para as atribulações do primeiro amor. Além disso, conhecemos o gosto que Matias tem pelo tempo que passa na cabana do seu tio Elias, que sofre de uma espécie de demência. O suceder dos dias é interrompido por um acontecimento abrupto e chocante, que interrompe e muda o rumo dos acontecimentos. Na segunda parte, conhecemos um pouco da existência de Matias com as sombras do passado que o atormentam e da sua convivência com a sua própria estirpe de demência, além da sua vida quotidiana com o seu cão Lars, passados já muitos anos sobre os acontecimentos da primeira parte. A sua vida de professor universitário é interrompida pelos seus demónios, que vieram do passado para o atormentarem novamente. Na terceira parte, conhecemos a viagem que Matias faz em conjunto com o seu tio Elias, Lars e Deanie, uma estudante da universidade na qual Matias leciona, a uma ilha na qual habitou Elias, alguns anos antes de ser internado definitivamente no hospital psiquiátrico. Nesta ilha, finalmente o passado e Matias irão reencontrar-se e procurar uma forma de ambos se aceitarem e de se redimirem um ao outro. 
   Conforme foi referido, o livro divide-se em três partes. Na primeira, a narração é feita na primeira pessoa por Matias Fluss. Na segunda, é um narrador omnisciente que nos narra na terceira pessoa. Na terceira parte, regressamos à primeira pessoa, desta feita na voz de Deanie. Neste romance já se sente a mudança estilística. As temáticas que circundam os primeiros dois romances desta "trilogia" fazem-se anunciar vivamente também neste, mas a forma como o autor as explora encontra-se transfigurada da forma como foram tratadas em obras anteriores. As temáticas da melancolia, do passado, do paraíso, da solidão e do isolamento são o tema fulcral deste romance, anunciando-se expressamente ou através de símbolos, como nos romances anteriores. O farol, São Paulo, a ilha, todos eles símbolos fulcrais deste universo de lugares sem nome. Como no romance anterior, nomes anteriores são revisitados: Alma, a mãe de Matias e de Cecilia, Elias, a própria Cecilia, Pedersen, A., a ex-mulher de Matias, Lars... Os locais familiares dos dois romances anteriores reencontram-se também no espaço deste romance. Gostei principalmente do jogo metatextual que João Tordo faz com os nomes, lugares e objetos dos três romances, criando um universo próprio, verosímil e pulsante, criador de uma sensação de realidade (à semelhança dos seus romances anteriores, que também recorriam a mesmas personagens para criar uma sensação semelhante, mais exacerbada, no entanto, nestes três romances). Não deixam de ser também curiosos os paralelos que o autor estabelece entre a história que pretende narrar e as fábulas budistas, as suas lições oferecendo-nos pistas para interpretar os acontecimentos descritos. Regressando à metatextualidade, é muito curiosa a forma como o autor consegue interligar os três romances. O próprio afirmou tantas vezes antes que os livros não possuem uma ordem sequencial, pelo que não podem ser considerados uma trilogia (daí o nosso cuidado uso das aspas). Apenas neste romance final percebemos o que nos quis transmitir com essa afirmação. Não o direi aqui, pois trata-se de uma aventura que terão de ter por vós mesmos.
   Enfim, trata-se de uma obra que deve ser lida, mas aqui acrescento o seguinte: devem ser lidos os três romances, pois a verdadeira obra, a verdadeira maravilha de leitura, é este universo de lugares sem nome, convidando-nos a nele mergulhar e a explorarmos os seus recantos. Um prazer de leitura, em suma.

Citações:
"Há muitos anos ouvi alguém dizer que a memória, que serve para muitas coisas, tem como função mais importante impedir que o tempo nos engane. Sim: a decadência das faculdades cognitivas, a relatividade do sujeito na existência e mais não sei o quê. Como se existisse uma fórmula qualquer parecida com isto: Memória + Tempo - Decadência = Verdade."
"chamam-se suicidas, aqueles que sucumbem ao medo e a outras formas de intimidação, aqueles que sucumbem porque não se permitem sentir, porque não se dão autorização de perder. Eu sou um perdedor. (...) E continuo a perder, disse ele, mas, sabes que mais?, quanto mais perco, menos tenho medo."
"(...) Matias observou a maneira como a luz inundava a rua. Lembrou-lhe um quadro de Joseph Mallord William Turner chamado Ulysses Deriding Polyphemus. Vira-o há muitos anos na National Gallery, em Londres, com A.; um quadro que a fizera chorar e a ele dera a impressão de estar a olhar para a realidade propriamente dita, como se o lugar de onde o estivessem a ver fosse, na verdade, um esboço inacabado, insatisfatório."


Pontuação: 9.6 (9.5 + 0.1 pela "trilogia")/10


Gonçalo Martins de Matos