Não são, felizmente, raras as vezes em que leituras das quais não sabemos o que esperar nos surpreendem pela positiva. São, no entanto, mais raras a vezes em que já contamos com algo de bom e nos sai algo de espetacular. Com este A Confissão de Lúcio, confesso-me abismado, assombrado, arrebatado e positivamente surpreendido pela escrita e história deste belíssimo romance. É considerado, justamente, dos melhores romances da literatura portuguesa do século XX, pelo seu rompimento com os cânones tradicionais de escrever em português, principalmente, mas não só. O romance é, verdadeiramente, uma obra de génio, sendo que a sua história e o seu estilo de escrita servem como uma antevisão do que se seguiria na literatura portuguesa da segunda metade do século XX para a frente. Um romance à frente do seu tempo.
A história é intrigante, e a forma como o narrador a inicia, querendo declarar-se inocente pelo crime pelo qual cumpriu 10 anos, revela já o quão intrigante e espantosa esta será. A história segue a vida de Lúcio, o narrador, vivendo e estudando em Paris, onde se embrenhou nos meios literários da cidade, na altura, efervescente, coração pulsante das artes europeias. O narrador vai relatando o seu quotidiano na companhia de um escultor seu amigo, quando trava conhecimento com Ricardo Loureiro, com quem estabelece uma amizade muito íntima, plena de mútua compreensão. Nesta altura, o narrador relata-nos as inquietações de Loureiro, que este revelava a Lúcio nas suas muitas conversas. Certa altura, Lúcio decide partir para Lisboa, onde frequenta a casa do seu amigo e onde conhece Marta, que supõe ser mulher de Loureiro. Também em Lisboa este passa agradáveis serões na companhia de artistas, mas o seu interesse por Marta vai aumentando, mas também a sua inquietação, alimentada por um misto de mistério e de desassossego, ajudada por acontecimentos pontuais e bizarros. Tudo isto se acumula em catadupa para um final tão arrebatador como misterioso e simplesmente genial.
Este romance, digo-o, roça a perfeição. Não é extenso, não deixando de ser profundo, é extremamente culto, não deixando de ser acessível. É Sá-Carneiro no apogeu da sua prosa. É talvez um dos romances mais brilhantes e literariamente satisfatórios que alguma vez li. Não poupo nem nunca pouparei elogios ao brilhantismo de Sá-Carneiro em A Confissão de Lúcio. É tão provido de significado e profundidade que está aberto à interpretação de quem lê. Faz-nos pensar, e eu gosto muito da arte que nos obriga a refletir. O estilo de escrita e a forma de contar a história que Sá-Carneiro emprega neste romance assemelha-se às que surgiriam décadas mais tarde. Li este livro e ocorreu-me à mente uma escrita contemporânea, algo que autores atuais teriam escrito. Qual Edgar Allan Poe, Sá-Carneiro foi um homem à frente do seu tempo, ignorado pelos seus contemporâneos pela sua originalidade invulgar. Mesmo nos dias de hoje, Sá-Carneiro é recordado como poeta ou simplesmente como co-fundador da revista Orpheu, juntamente com Fernando Pessoa, o que, na minha opinião, é ingratidão para com a genialidade da obra que acabei de ler. O meu maior desejo com este texto é que outros leiam este romance e que reconheçam Sá-Carneiro como o genial escritor que ele é.
Recomendo esta leitura a todos os que desejem ser arrebatados por uma leitura tão surpreendente como brilhante.
Citações:
"Não importa que me acreditem, mas só digo a verdade mesmo quando ela é inverosímil."
"Simplesmente, não era essa a expressão do seu rosto. Sabendo tratar-se de um grande artista, os fotógrafos e os pintores ungiram-lhe a fronte numa expressão nimbada que lhe não pertencia. Convém desconfiar sempre dos retratos dos grandes homens..."
"Todo eu agora era dúvidas. Em coisa alguma acreditava. Nem sequer na minha obsessão"
Pontuação: 10/10
Arrebatadoras leituras,
Gonçalo M. Matos
Capitães da Areia é o romance de Jorge Amado que lhe conferiu fama internacional. É um romance que é sobretudo um relato coberto de lirismo sobre um tema tão cruel que é a problemática das crianças abandonadas nas ruas de São Salvador da Bahia. O romance é considerado como um dos mais populares de Jorge Amado. A sua história humanista é relembrada como tendo uma visão socialista sobre o problema das crianças abandonadas.
A história segue as vidas dos capitães da areia, um grupo de menores abandonados que vivem do furto. Desde cedo somos apresentados aos personagens cujas aventuras iremos acompanhar ao longo da obra. Como protagonista temos Pedro Bala, o chefe dos capitães da areia, tão temido pelos baianos como um homem. Coadjuvam-no durante a narrativa o «burro, mas bom negrinho» João Grande e o único dos capitães da areia que sabe ler, e que lê para os outros, o Professor. A estes juntam-se personagens variados, que auxiliam os seus companheiros nos roubos. O elegante Gato, o religioso Pirulito, o sádico Sem-Pernas, o sombrio Volta Seca, entre outros. A primeira parte da obra narra as diversas aventuras que os meninos vivem nas ruas da Bahia, realçando sempre a coragem dos capitães da areia e do seu código de honra. A meio da primeira parte junta-se um dos poucos adultos que participa ativamente na história, o padre José Pedro, cuja intenção é ajudar os meninos e lutar para que eles tenham acesso ao que lhes foi vedado. Vê em Pirulito um futuro sacerdote e foca-se no menino. Na segunda parte, junta-se aos capitães da areia a jovem Dora, que serve como mãe para os meninos, dando-lhes o afeto que nunca tinham tido. A partir deste ponto, a história desenvolve-se numa narrativa mais poética e dramática que a primeira parte, culminando num final arrebatador a nível do lirismo.
Tendo sido este romance escrito durante o Estado Novo brasileiro, foi queimado em praça pública pelos ideias socialistas que manifestamente pregava. Jorge Amado, como humanista que era, dizia que não tinha escrito o livro com o objetivo de fazer propagando política, mas com o simples objetivo de qualquer escritor: contar uma história, cujo fundo era uma desconcertante realidade. Resta-me apenas recomendar a leitura deste livro incrivelmente lírico.
Citações:
"A grande noite de paz da Bahia veio do cais, envolveu os saveiros, o forte, o quebra-mar, se estendeu sobre as ladeiras e as torres das igrejas."
"Omolu mandou a bexiga negra para a cidade. Mas lá em cima os homens ricos se vacinaram, e Omolu era um deus das florestas da África, não sabia destas coisas de vacina."
"A voz o chama. Uma voz que o alegra, que faz bater seu coração. Ajudar a mudar o destino de todos os pobres."
Pontuação: 9/10
Belíssimas leituras,
Gonçalo M. Matos
Muita tinta correu já sobre Ulisses. E muita tinta pode, ainda correr. Alguma dessa tinta será minha, aqui. Muito bem, o problema principal quando se pretende escrever sobre esta obra é que é tão densa, tão monumental que não se sabe por onde começar. Mas darei o meu melhor. A obra que se apresenta sob o nome de Ulisses é um dos maiores monumentos à prosa do século XX, e sem dúvida uma das maiores produções literárias de toda a história da literatura. É uma leitura densa e arrebatadora, sem dúvida. Uma pessoa que não esteja habituada a ler não deve ler Ulisses, e mesmo estando habituado não o deve decidir ler de ânimo leve. Trata-se de uma obra ímpar, com personagens, eventos e detalhes tão complicados como espantosos.
Passemos então à história. Outro problema se levanta neste ponto. Que história? Aliás, como classificar ou descrever a história narrada em Ulisses? Pode ser simples, pode ser complexo. Começamos pelo simples. O esqueleto da história, o fio condutor é o quotidiano de Leopold Bloom em Dublin, prosseguindo com as suas atividades, tão comuns como particulares ao dia específico que se passa. Começa de manhã e termina de madrugada. Esta é a ação principal. A ação secundária divide-se em diversos episódios, cada um ilustrando um momento desse dia de Bloom, tudo para terminar na sua chegada, cansado, a casa. A obra é demasiado extensa para entrar em pormenores sobre os vários enredos secundários, mas fica aqui o aviso de que são vários e cada um com uma particularidade associada a si.
Agora que foi introduzida a história, irei falar daquilo que torna Ulisses tão único: a estrutura. E estrutura da obra é, maioritariamente, não ter estrutura. Ulisses é narrado em prosa, sendo o estilo da narração o fluxo de consciência. Os pensamentos do narrador e dos personagens narrados misturam-se muitas vezes, criando uma armadilha literária para os leitores mais incautos. Os capítulos de Ulisses têm cada um o seu estilo próprio, apropriando-se ou não ao evento que relatam. O capítulo 7 tem a estrutura de uma editora jornalística, tendo cada segmento de texto um título. A narração,no capítulo 15, é feita na forma de um texto dramático (este é também o capítulo mais extenso do livro, sendo que constitui 1/4 do livro). O capítulo 17 é composto por um conjunto de perguntas e respostas, sendo que as perguntas impulsionam a narração que se passa nas respostas (sendo este o meu favorito em termos de estilo). De muitos mais poderia eu falar, mas escolho falar do último capítulo, onde os críticos afirmam que Joyce atingiu o apogeu da sua arte narrativa. Neste 18.º capítulo, a narração é-nos feita pelo pensamento interior da esposa de Bloom, Molly, onde as ideias, por mais díspares que possam parecer, se juntam por uma associação que representa fielmente o próprio processo cognitivo. Por esta razão se louva tanto Joyce enquanto escritor. Foi o primeiro a conseguir reproduzir com tanta fidelidade o processo mental de recordação, associação e cognição por escrito.
Muitos críticos chamam a Ulisses uma anti-epopeia, uma vez que Joyce criou um paralelismo entre a sua obra e a Odisseia. Daí o nome escolhido para o título do seu livro. Os três personagens principais representam os três pontos de vista da Odisseia: Leopold Bloom é Ulisses, Molly Bloom é Penélope e Stephen Dedalus é Telémaco. Os episódios de Ulisses evocam sempre o episódio da Odisseia que representam. E assim processa-se o calhamaço de monumental literatura que é Ulisses.
Não escrevo mais porque esta obra de Joyce tem material suficiente para se escrever um livro. No entanto, pode-se recorrer ao intensivo estudo de Ulisses efetuado por Stuart Gilbert.
Não tendo mais do que falar, basta-me recomendar esta leitura a qualquer corajoso que deseje passar pela experiência de leitura mais intensa e espantosa que pode imaginar. Não recomendo aos que não estão habituados a ler, porque se trata de uma obra que requer paciência, experiência e, acima de tudo, um espírito literário muito aberto, aliado à paixão pela literatura.
Citações:
"Olhos de ostra. Não interessa. Senti-lo-á depois quando cair em si. Ter, desse modo, vantagens sobre ele.
Obrigado. Que grandes estamos esta manhã!"
"Fff! Uuu. Rrpr.
As nações da terra. Ninguém atrás. Ela já passou. Então e não até então. O elétrico cran, cran, cran. Boa oportu. Vem aí. Crancrancran. Tenho a certeza que é do borgonha. Sim. Um, dois. Deixai que o meu epitáfio seja. Craaa. Escrito. Tenho.
Pprrpffrrppfff.
Dito."
"Quais, reduzidas às suas formas recíprocas mais simples, eram os pensamentos de Bloom acerca dos pensamentos de Stephen sobre Bloom e os pensamentos de Bloom acerca dos pensamentos de Stephen sobre os pensamentos de Bloom acerca de Stephen?
Ele pensava que ele pensava que era judeu enquanto ele sabia que ele sabia que ele sabia que sabia que não era."
Pontuação: 10/10
Aventurosas leituras,
Gonçalo M. Matos
As Três Vidas. Por onde começar quando se fala de um dos melhores livros de um dos meus autores favoritos? Talvez começar por dizer que este livro é espantoso. É viciante a sua leitura. Acabamos um capítulo e desejamos avançar para o próximo, ansiamos por saber o desenlace de uma história misteriosa do princípio ao fim. Tem o seu toque de inevitabilidade, de negrume, de esperança, de desilusão, de amor, de obsessão, um livro à la João Tordo, podemos afirmar. Mais uma vez nos apresenta uma história inusitada, bizarra e misteriosa, mais uma vez nos vai colando às páginas, deixando em suspenso as descobertas e os desenvolvimentos, e mais uma vez nos tira o tapete debaixo dos pés num final tão melancólico como iluminado.
Agora, a história. O narrador, um jovem, é convidado por Artur Faria, um jardineiro, a trabalhar como secretário de um homem misterioso, chamado António Augusto Millhouse Pascal. Os trabalhos do narrador resumem-se a organizar os ficheiros dos clientes de Millhouse Pascal e de responder às cartas dos mesmos. Tudo parece normal até este ponto. Mas quando o narrador se apercebe que os clientes de MP não são aquilo a que se possa chamar de "normais", dúvidas lhe surgem quanto ao que será ao certo a atividade do seu patrão. A este mistério se juntam muitos outros, como os misteriosos encontros entre o jardineiro e um corcunda, a altas horas da madrugada, a diferença entre os clientes que chegam e os que partem, tudo intensificado pela sensação que o narrador sente de não pertencer àquele lugar e pela insónia causada por essa sensação. No entanto, luz ilumina essa sensação, sob a forma da neta mais velha de Millhouse Pascal, Camila, adepta e praticante de funambulismo, por quem o narrador desenvolve uma paixão. Após muitas reviravoltas tão surpreendentes como bizarras, tal como a descoberta do narrador sobre as atividades reais do seu patrão, que são a redenção dos pecados dos seus clientes obtidas com o auxílio de alucinógeneos e através da hipnose, Millhouse Pascal e o narrador acabam em Nova Iorque, à procura de Camila. A partir daí, e após o reencontro entre esta e o narrador, a vida deste transforma-se numa missão, a missão de juntar os cacos da sua vida e resolvê-los, resolver os mistérios. Mas essa missão revela-se morosa e inconclusiva.
É uma história que nos prende. Nunca quis pousar o livro para dormir, queria sempre avançar mais no mistério. Escrito soberbamente por um autor talentoso e genial, é um relato fantástico. Os eventos do século XX estão intrinsecamente ligados à vida de Millhouse Pascal, eventos sangrentos e monstruosos. No final, não chegamos a uma conclusão. No entanto, e aproveitando-me da metáfora do livro, a vida é como um funambulista sobre a sua corda bamba, nunca sabemos como irá acabar e a caminhada é perigosa e precária. As três vidas do título têm várias interpretações. No livro, são as três fases pelas quais o narrador passou, cada uma parecendo, aos seus olhos, uma vida completamente diferente. Pessoalmente, interpreto-as como sendo o passado, o presente e o futuro. O livro divide-se em quatro partes, sendo a primeira a mais longa destas.
Que mais posso acrescentar? Este foi o livro de João Tordo que lhe rendeu o Prémio José Saramago de 2009. É, sem dúvida, o melhor que li dele. Mas ainda há muitos para ler. E sei que João Tordo não me irá desapontar. Recomendo, recomendo e recomendo a leitura desta obra genial.
Citações:
"Ainda hoje, sempre que o mundo se apresenta como um espetáculo enfadonho e miserável, sou incapaz de resistir à tentação de relembrar o tempo em que, por força da necessidade, fui obrigado a aprender a difícil arte do funambumlismo."
"O segundo acontecimento foi de uma natureza mais sinistra. Mesmo agora, ao escrever estas palavras, sinto um calafrio ao invocar a memória daquela noite, a primeira de muito frio no Alentejo."
"Achei, naquela altura, que o meu patrão tinha poderes mágicos. Que, através da sua refinada arte, era mesmo capaz de invocar fantasmas, de nos fazer entrar numa dimensão alternativa por onde vagueavam os mortos."
Pontuação: 9.8/10
Requintadas leituras,
Gonçalo M. Matos
A Marcha é o terceiro livro de Daniel Silva, e o segundo protagonizado por Michael Osbourne. É a continuação dos eventos sucedidos em A Marca do Assassino, cuja leitura já efetuei. Aliás, foi a leitura deste último que me introduziu Daniel Silva, de quem sou fã há algum tempo. Mas considero-me um fã dentro da medida de que sou fã de Dan Brown: na escrita. Porque considero este tipo de literatura como entretenimento, como não-literária. Mas deixemos as especificidades.
É um livro muito interessante para quem se interesse por uma boa história de espiões e pela situação irlandesa que se arrasta à demasiados anos: a eterna luta entre os protestantes e os católicos. Muito sangue foi derramado à conta deste problema que dura à séculos, e este livro demonstra bem esse derramamento de sangue. A história passa-se maioritariamente entre os Estados Unidos da América e o Reino Unido. Michael Osbourne, após os acontecimentos do primeiro livro, encontra-se reformado da CIA e a viver com a sua mulher e os seus filhos. No entanto, regressa ao ativo para poder fornecer proteção ao seu sogro, Douglas Cannon, nomeado embaixador dos EUA em Londres. Douglas torna-se alvo de um grupo terrorista protestante chamado Brigada de Libertação do Ulster, que tem como objetivo a sabotagem do acordo de paz entre os católicos e os protestantes. A sociedade secreta que nos foi apresentada no primeiro livro participa também nesta narrativa, ajudando a Brigada a cumprir os seus objetivos. Mas quando a Brigada é desmantelada e apenas um dos seus elementos, Rebecca Wells, escapa, a sociedade recorre a Outubro, o assassino contratado do primeiro livro. E assim assistimos a mais um jogo de gato e rato entre Osbourne, que continua com o desejo de se vingar da morte de Sarah Randolph às mãos do assassino e do inferno que fez Osbourne e a sua mulher passar no primeiro livro, e o assassino.
Embora seja um livro muito interessante, as pessoas não o receberam tão bem quando saiu. E eu compreendo o porquê. Trata-se de um thriller de espionagem igual a tantos outros, com os mesmo clichés de sempre e os lugares-comuns habituais no género. O livro seguinte iria revestir-se de uma história tão radicalmente diferente que iria tornar-se um sucesso, e cada livro seguinte sendo mais bem recebido que o anterior. Assim termino a minha opinião. É um livro para ser lido, e Daniel Silva é um autor que merece ser lido. Fica a recomendação.
Citações:
"Eamonn Dillon, do Sinn Fein, foi o primeiro a morrer, e morreu porque tinha planeado parar para beber uma caneca de cerveja no Celtic Bar antes de subir a Falls Road a caminho de uma reunião em Andersontown."
"- Muito bem - disse Leroux. - Mas sinto-me um bocadinho como aquele idiota que deu umas marteladas na Pietà."
"- Adrian Carter [disse Michael], gostaria de te apresentar o Jean-Paul Delaroche. És capaz de o conhecer melhor como Outubro."
Pontuação: 7.5/10
Agradáveis leituras,
Gonçalo M. Matos

Jerusalém pode muito bem ter sido uma das grandes desilusões que já tive quanto à relação entre expetativa e leitura. Ou não. A verdade é que cheguei ao final do livro sem saber o que dizer dele. Não sei dizer se gostei. Sei que quis ler, nunca pensei em parar a meio, mas sempre que lia, ficava com a sensação que as palavras não me convidavam a ficar, fiquei com a sensação que as palavras eram robots, desprovidos de sentimentos e antipáticos. No entanto, essas mesmas palavras faziam-me querer continuar. Este autor é muito elogiado (e com razão, este livro não é o meu primeiro contacto com o autor), e esta obra também. Quanto à obra, não compreendo o porquê de ser tão elogiada. As palavras são desprovidas de sentimento, os personagens não são identificáveis (com isto quero dizer que o narrador não as conseguiu tornar apelativas). Resumindo, fiquei com a sensação de estar a ler um livro de Ciências, de Matemática, um livro objetivo, racional, lógico. Talvez resida aí a sua novidade e o seu cariz inovador. Afirmo que para mim a literatura não é objetiva, não é racional, não é lógica. Mas isto no caráter da narrativa. Dito isto, avanço para os pontos a favor. A história narrada no livro é interessante, tem um desfecho interessante e um final igualmente interessante. Mas mais do que isso não. Tem também a organização dos capítulos como ponto a favor.
Avançando agora para a história em si. À medida que a narrativa progride, são-nos introduzidos os vários personagens desta obra. Mylia, Ernst Spengler, Theodor e Kaas Busbeck, Hinnerk Obst e Hanna. Outros são introduzidos, mas estes são os principais. Mylia e Ernst, dois esquizofrénicos, Theodor, médico e investigador reputado, Kaas, filho de Theodor, miúdo com problemas na fala e uma deficiência nas pernas, Hinnerk, ex-combatente e... nada mais digo, terá de ler, e Hanna, uma prostituta. A narrativa foca-se nas relações que se estabelecem entre cada um dos personagens, e das suas relações com os outros e consigo mesmas. E é basicamente isto. Eu sei, dito assim parece muito desinteressante. E para mim foi. Mas aconselho a ler. Se muitos outros gostaram, há a hipótese de gostar também. Apenas digo que existem, de facto, algumas reviravoltas, mas são previsíveis (pelo menos, eu previa-as a chegar enquanto lia). No entanto, não deixam de ser interessantes e até surpreendentes, num caso ou noutro. Refiro-me brevemente ao aspeto que mais confuso me deixou: o final. Quando cheguei ao final, aí é que fiquei sem saber o que pensar da leitura. Foi fraco? Foi bom? Foi...? Não sei. Foi talvez um dos finais mais bizarros que já li.
E foi isto. Há um velho ditado português que afirma: "não te iludas, que não te desiludes". Infelizmente, iludi-me, tive altas expetativas quanto a este livro, li-o e desiludi-me. Achei o livro medianamente interessante. Já o disse, é um tipo de literatura que não é, na minha modesta visão, literatura. Dito isto, não compreendo como foi este o livro vencedor do Prémio José Saramago de 2005. Nem compreendo o porquê de Saramago o ter catalogado como pertencente à grande literatura ocidental. Mas mais uma vez, trata-se da minha opinião. Posto isto, não recomendo a sua leitura, mas aconselho-a. Ou seja, não recomendo a leitura de Jerusalém, mas se me perguntar se o deve ler, deve. Penso que um livro deve sempre ser lido, independentemente do que dizem os outros. Teremos sempre uma opinião diferente. No meu caso, tive uma opinião diferente.
Citações:
"Ernst Spengler estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para se atirar quando, subitamente, o telefone tocou. Uma vez, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, Ernst atendeu"
"Kaas estava zangado. Como médico e como pai, Theodor não tinha o direito de o deixar sozinho meio da noite. Uma cobardia, murmurava."
"Conta os teus dedos, quantos dedos?
Cinco, responde Mylia.
Vês?, diz Witold, tens a mão toda.
Falta a mão, insiste Mylia."
Pontuação: 5.8/10
Boas leituras,
Gonçalo M. Matos

o remorso de baltazar serapião é uma obra interessante. E aborrecida. E cativante. E bizarra. Sinceramente, não sei o que dizer deste livro. Fiquei sem certeza se gostei, se não gostei. Não consigo chegar a uma conclusão quanto a isso. Não ajudou o facto de estar completamente escrito em minúsculas. Pois, porque há ainda esse ponto. Valter Hugo Mãe (valter hugo mãe, na altura em que escreveu este livro) escreveu os seus primeiros quatro romances completamente em minúsculas, sem nenhuma distinção qualquer e não ser pontos finais e vírgulas. Isso torna só por si a leitura muito labiríntica, e por consequência, muito confusa e maçadora. Houve alturas em que eu não conseguia sair de um parágrafo porque tentava perceber quem estava a falar, quem não estava, se era o narrador ou se já eram personagens... Enfim, essa parte estragou-me ligeiramente a leitura. Porque Saramago ainda se lê, que ele, quando iniciava o diálogo, escrevia uma vírgula e a seguir maiúscula. Agora, tudo em minúsculas, peço desculpa, torna tudo confuso. Quanto à história, achei-a maçadora no início, cativante a meio. Mas o final... argh!... o final foi uma desilusão. Foi muito bizarro, muito apagado, muito... não sei dizer! Não consigo dizer o que foi, o que sinto quanto ao final, quanto ao livro!
Bom, a história trata de baltazar serapião, chamado sarga porque este é o apelido que o povo deu à sua família, por causa da vaca da família, a sarga. baltazar é um homem feito da idade média. O que implica isso? Talvez tenha adivinhado. É machista. Mas um machista ferrenho e inquebrável. E as sua opiniões quanto às mulheres irritaram-me durante a leitura da obra. Não consegui criar empatia pelo protagonista. Talvez fosse essa a intenção de Valter Hugo Mãe. Bom, não quero narrar muito da história porque qualquer momento (e este é um ponto positivo) é impossível de resumir, ou por se tratar de uma reviravolta, ou por se ter de referir os antecedentes e algumas das consequências. Apenas refiro que estes vivem numa propriedade pertencente a um nobre, de seu nome dom afonso (cuja mulher, dona catarina, é uma vaca, uma cobra), que a sarga é como o "cão" da família, que baltazar casa com ermesinda, a mulher mais bela da vila e que acontecem inúmeras peripécias, não felizes e infelizes, juntamente com o seu irmão aldegundes. Digo apenas que eu não gostei particularmente da história (e da forma como foi narrada), mas admito a sua criatividade e a sua novidade.
Agora, aquele que foi para mim o aspeto mais positivo da leitura: a mensagem. A mensagem que Valter Hugo Mãe transmite é grande, é forte, é intemporal, é verdadeira, é infelizmente atual e verdadeira, é direta. No fundo, a mensagem que o autor transmite é, sem querer revelar muito mais, que sempre houve uma mentalidade bruta e imoral contra as mulheres, e que esta ainda se manifesta (cada vez menos, mas ainda lá está).
Foi esta a obra de Valter Hugo Mãe que venceu o Prémio José Saramago de 2007. Saramago considerou o remorso de baltazar serapião um fenómeno revolucionário. E, de facto, não discordo. As minúsculas e a forma como o autor brinca com o português, fazendo deste uma bola de plasticina, a qual molda à mercê da sua imaginação. Para mim, não foi muito interessante, mas não deixo de reconhecer a originalidade da narrativa.
Não tenho mais nada a dizer. Mas recomendo-o. Recomendo que este livro seja lido. Não gostei, mas não desgostei. E olhando para o seu sucesso com a crítica e com o público geral, muitos hão de haver por aí que gostem da escrita e da narrativa.
Citações:
"a voz das mulheres estava sob a terra, vinha de caldeiras fundas onde só o diabo e gente a arder tinham destino. a voz das mulheres, perigosa e burra, estava abaixo de mugido e atitude da nossa vaca, a sarga, como lhe chamávamos."
"e foi o teodolindo quem gritou, matas a rapariga, e eu só olhei depois e vi que era a teresa diaba, carga descarregada, como se ela me tivesse saído do cu."
"abre, parecia dizer o próprio sol, abre-te, e abri os olhos e boca pouco vendo e bocejando, ganhando lenta consciência da diferença daquela manhã para com todas as outras."
Pontuação: 6.7/10
Alegres leituras,
Gonçalo M. Matos