Se antes tive dúvidas sobre a importância e genialidade de José Saramago como escritor, estas foram completamente desfeitas por esta obra fenomenal, fruto de uma imaginação fértil como só Saramago sabe produzir. A sua acutilante visão sobre tudo é o que torna os seus livros cativantes, independentemente das formas de escrita diferentes do habitual e do uso peculiar que Saramago faz das regras ortográficas, que só não compreende quem não quer. O Evangelho segundo Jesus Cristo é o livro que causou a polémica que levou Saramago a exilar-se em Lanzarote, uma vez que o livro foi censurado de uma lista de candidatos a um prémio literário europeu pelo então subsecretário da cultura.
Como contar uma história que já foi contada mil vezes. Contá-la mais uma vez. A história narrada nesta obra é uma história com que toda a gente está familiarizada. José e Maria decidem um dia fazer um filho, ao qual dão o nem de Jesus, e desde o início o recém-nascido parece protegido por alguma providência divina, uma vez que se salva por sorte da morte certa, ordenada por Herodes, morte essa de que não tiveram a sorte de escapar todos os recém-nascidos de Belém. José, atormentado por pesadelos, dá o seu melhor para manter a sua família, composta de Maria, Jesus e mais nove filhos, mas a sua vida chega a um fim abrupto e inesperado, ficando Maria sozinha a cuidar dos seus filhos. Isto passa-se até Jesus sair de casa e ir fazer de pastor do maior rebanho do mundo, como ajudante de uma personagem que nos é apresentada simplesmente como Pastor. Após uns anos dessa vida, Jesus encontra Deus no deserto, que lhe apresenta um contrato que não pode ser debatido nem recusado. Regressado a casa, Jesus conhece Maria Madalena em Magdala, a quem promete regressar. Sendo desacreditado em sua própria casa, Jesus abandona a sua casa definitivamente e regressa a Maria Madalena, com quem passa o resto da sua vida. Jesus parte então pelas terras judias operando milagres de pouca envergadura, até que por força das circunstâncias se apercebe da sua real capacidade e começa a ajudar os menos afortunados. Após um diálogo com Deus num lago, Jesus sabe qual é a sua missão, e trata de a cumprir, contrariado, estes eventos todos resultando no desfecho que já nos é familiar.
O que há de inovador nesta obra de Saramago não é a história. A história de Jesus já foi mil vezes contada. Nem o modo peculiar de usar a ortografia, que em Saramago é uma constante. Não, o que torna este livro único é o enfoque que Saramago dá ao lado mais humano de Jesus, aos seus relacionamentos com os outros e com a sua família. Os milagres são de pouquíssima relevância nesta obra, completamente secundários. O que não é secundário é a crítica à religião que atravessa a obra do início ao fim. Saramago começa logo a arrasar com a descrição de uma imagem da crucificação de Cristo, dissecando todos os aspetos e pormenores da imagem. E pelo livro fora há essa crítica á religião, a Deus e a todos os aspetos mais negros da religião e da fé. Desde um inverter de papéis entre Deus e o Diabo, que segundo o livro, Deus é mau porque quer e o diabo é mau porque o fizeram assim. A maior crítica a Deus encontra-se no episódio do diálogo entre Jesus e Deus no lago. Deus revela a Jesus o que o futuro o espera e Jesus questiona todos os eventos, como as guerras intermináveis em nome da religião, sendo a resposta de Deus a tudo: porque tem de ser.
A crítica que Saramago fez nesta obra valeu-lhe muita má fama entre o público católico, desamor que Saramago sempre ignorou como sendo fruto de uma cultura conformista sem vontade de pensar. Independentemente das críticas que Saramago recebeu, é e será um dos maiores escritores da literatura portuguesa, e O Evangelho segundo Jesus Cristo uma dádiva que não é justamente apreciada. Independentemente de se ser religioso ou não, esta obra é uma das mais brilhantes e inspiradas da língua portuguesa. Mais não me resta que recomendar, mais, impor a leitura deste brilhantíssimo romance.
Citações:
"Jesus poderá dizer ao seu progenitor, Pai, não tens de levar contigo toda a culpa, e, no segredo do seu coração, quiçá ouse perguntar, Quando chegará, Senhor, o dia em que virás a nós para reconheceres os teus erros perante os homens."
"Este homem, que traz em si uma promessa de Deus, não tem outro sítio aonde ir se não a casa de uma prostituta. Não pode regressar ao rebanho, Vai-te, disse-lhe Pastor, nem tornar à sua própria casa, Não te cremos, disse-lhe a família, e agora os seus passos hesitam, tem medo de ir, tem medo de chegar, é como se estivesse novamente no meio do deserto"
"Serás a colher que eu mergulharei na humanidade para a retirar cheia dos homens que acreditarão no deus novo em que me vou tornar, Cheia de homens, para os devorares, Não precisa que eu o devore, quem a si mesmo se devorará."
Pontuação: 10/10
Inteligentes leituras,
Gonçalo M. Matos
domingo, 22 de maio de 2016
domingo, 20 de março de 2016
"As Cidades Invisíveis", de Italo Calvino
Concluindo este romance fica uma incerteza. Várias, talvez, mas uma principal: este romance relata o relato de cidades que são ou o devaneio por cidades que podem ser? É provavelmente a dúvida mais pertinente que este romance de Italo Calvino nos deixa. Confesso que, quando me falaram desta obra, eu não conhecia Calvino, não sabia com o que contar. Mas todos os livros são assim, um mergulho no desconhecido. E foi o que fiz. Mergulhei neste romance e ressurgi iluminado e intrigado. Talvez esta seja a palavra que melhor caracteriza este livro: intrigante. É intrigante no sentido da história, do estilo, do conceito, do conteúdo. É um livro filosófico sem ser filosofia. É uma obra interessante e bem escrita, de um dos maiores escritores italianos do século XX.
A narrativa do livro parte de uma premissa interessante. A obra é o relato que Marco Polo faz ao grande Kublai Khan das cidades que visitou no vasto império deste. E é basicamente esta a narrativa. Quando falei da parte intrigante deste romance referia-me a isto mesmo. Não consigo alongar-me pela historia porque história em si não existe. No entanto, não deixa de haver um fio condutor do desenrolar do romance. Entre cada capítulo Marco Polo e Kublai Kahn refletem sobre o que Polo relatou e enveredam por conversas filosóficas no sentido de apurar o verdadeiro propósito do espaço de uma cidade. Marco Polo descreve um total de 55 cidades, cada uma diferente da outra. As descrições das cidades são feitas através de prosas curtas que chegam a lembrar poemas devido à sua profundidade. As cidades são divididas em 11 grupos temáticos, havendo cinco de cada grupo. As descrições das cidades vão para além do espaço físico da cidade, entrando pelo componente humano em cada cidade. As cidades descritas por Marco Polo a Kublai Kahn largam a sua função espacial e funcionam como meio de analisar o comportamento humano, cada uma das descrições recorrendo ao fantástico e ao surreal. Por vezes, o grande Kahn desconfia se Polo estará a dizer a verdade ou não, sendo que Polo responde sempre de forma ambígua, deixando o leitor na dúvida se estará realmente a relatar ou a imaginar. A imaginação é o tema que atravessa o livro, a efabulação é o mecanismo de narrar a história. Mas o autor consegue deixar ambiguamente a dúvida se a efabulação não será uma forma de relatar a realidade ou se a verdade não será apenas a representação física do devaneio.
Tanto a nível formal como material, esta obra é muito interessante. Intrigante do ponto de vista de não ser uma história no seu sentido convencional. Mas a geração de Calvino é assim mesmo. Os escritores da segunda metade do século XX representam isso mesmo: o romper com os cânones tradicionais da primeira metade do século com o seguir outras vias alternativas às vias alternativas. As Cidades Invisíveis são isso mesmo, uma inovação de uma inovação, um pegar na vanguarda do início do século e levá-la por um caminho alternativo, igualmente inovador.
Posto isto, não posso deixar de elogiar a obra e o autor. Este intrigante livro merece ser lido por qualquer apreciador de literatura alternativa de final do século passado.
Citações:
"Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
Mas qual é a pedra que sustém a ponte? - pergunta Kublai Kan.
A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra - responde Marco, - mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, refletindo. Depois acrescenta: Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: Sem pedras não há arco."
Pontuação: 8.5/10
Intrigantes leituras,
Gonçalo M. Matos
A narrativa do livro parte de uma premissa interessante. A obra é o relato que Marco Polo faz ao grande Kublai Khan das cidades que visitou no vasto império deste. E é basicamente esta a narrativa. Quando falei da parte intrigante deste romance referia-me a isto mesmo. Não consigo alongar-me pela historia porque história em si não existe. No entanto, não deixa de haver um fio condutor do desenrolar do romance. Entre cada capítulo Marco Polo e Kublai Kahn refletem sobre o que Polo relatou e enveredam por conversas filosóficas no sentido de apurar o verdadeiro propósito do espaço de uma cidade. Marco Polo descreve um total de 55 cidades, cada uma diferente da outra. As descrições das cidades são feitas através de prosas curtas que chegam a lembrar poemas devido à sua profundidade. As cidades são divididas em 11 grupos temáticos, havendo cinco de cada grupo. As descrições das cidades vão para além do espaço físico da cidade, entrando pelo componente humano em cada cidade. As cidades descritas por Marco Polo a Kublai Kahn largam a sua função espacial e funcionam como meio de analisar o comportamento humano, cada uma das descrições recorrendo ao fantástico e ao surreal. Por vezes, o grande Kahn desconfia se Polo estará a dizer a verdade ou não, sendo que Polo responde sempre de forma ambígua, deixando o leitor na dúvida se estará realmente a relatar ou a imaginar. A imaginação é o tema que atravessa o livro, a efabulação é o mecanismo de narrar a história. Mas o autor consegue deixar ambiguamente a dúvida se a efabulação não será uma forma de relatar a realidade ou se a verdade não será apenas a representação física do devaneio.
Tanto a nível formal como material, esta obra é muito interessante. Intrigante do ponto de vista de não ser uma história no seu sentido convencional. Mas a geração de Calvino é assim mesmo. Os escritores da segunda metade do século XX representam isso mesmo: o romper com os cânones tradicionais da primeira metade do século com o seguir outras vias alternativas às vias alternativas. As Cidades Invisíveis são isso mesmo, uma inovação de uma inovação, um pegar na vanguarda do início do século e levá-la por um caminho alternativo, igualmente inovador.
Posto isto, não posso deixar de elogiar a obra e o autor. Este intrigante livro merece ser lido por qualquer apreciador de literatura alternativa de final do século passado.
Citações:
"Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
Kublai Kan permanece silencioso, refletindo. Depois acrescenta:
Polo responde:
Pontuação: 8.5/10
Intrigantes leituras,
Gonçalo M. Matos
sexta-feira, 11 de março de 2016
"Jesus Cristo bebia cerveja", de Afonso Cruz
Já antes o disse, gosto muito de descobrir qualidade em autores contemporâneos. E descobri qualidade em Afonso Cruz. Jesus Cristo bebia cerveja revelou-se, para mim, uma agradável surpresa, um exceder das expetativas que eu tinha criado quanto ao autor. Ao contrário do que aconteceu com outros, fui criando expetativas à medida que se aproximava a altura de conhecer a escrita de Afonso Cruz que foram mais que correspondidas. Confesso-me rendido a este autor de pensamento profundo e escrita leve. Este livro foi considerado o melhor livro do ano pelos leitores do Público. Afonso Cruz é considerado por muitos críticos como uma das vozes mais poderosas e originais da literatura portuguesa contemporânea e eu concordo. Mais acrescento que é dos melhores autores da Nova Geração literária.
A história segue o quotidiano de uma aldeia do Alentejo, mais especificamente, de alguns dos seus habitantes, com especial enfoque para Rosa e a sua avó, Antónia. Rosa é uma rapariga feita mulher recentemente e Antónia é uma mulher em final de vida, semi-impotente e enrugada pela vida. Ao longo do romance vamos tendo luz sobre alguns aspetos da vida de Antónia e de Rosa, especificamente do pai e da mãe de Rosa. O romance, segundo a minha perceção, pode ser dividido em duas partes: a primeira parte é composta pela apresentação dos variados personagens que compõem a história, dos seus presentes, passados, das suas inquietações e perversões. É-nos introduzido o professor Borja, um homem de ciência, descrente, o sargento Oliveira, cujo nome "lhe assenta que nem uma árvore", o padre Teves, um homem de Deus, pervertido e um tanto hipócrita (a hipocrisia da Igreja Católica, assim como o seu potencial a ser algo belo, é algo que atravessa o romance), a inglesa que comprou uma aldeia, o pastor Ari, que se apaixona por Rosa, entre outros mais personagens, coloridos ou não. A segunda parte é a narrativa que nos é prometida pela sinopse: os preparativos para que a aldeia da inglesa se transforme em Jerusalém. Nesta parte somos apresentados ao esforço e dedicação das pessoas para que seja feita uma reprodução fiel da Terra Santa. Antónia fica muito feliz por "cumprir" o seu desejo e essa felicidade contagia Rosa. E o romance parte daqui em crescendo até ao desenrolar final, simultaneamente trágico e revelador. No romance vão sendo feitas referências ao título do livro e ao "western" que acompanha este livro, o A Morte não Ouve o Pianista.
A história deste romance é um mimo. Um mimo humanístico. As suas personagens são tão humanas, com as suas complicações, as suas esquisitices e os seus passados complicados ou não. Ao longo da leitura deste romance, Afonso Cruz vai-nos deixando montes e montes de frases profundas e que nos deixam a pensar, de comparações muito engraçadas e de frases muito memoráveis. Inclusive, vai-nos apresentando pensamentos, quer do narrador, quer dos personagens, autênticas pérolas da efabulação literária.
Penso que é notório que gostei muito de ler este romance. E agora, tenho vontade de descobrir Afonso Cruz. Faço minhas as palavras de Valter Hugo Mãe: «Não vou descansar até que todos os leitores descubram o Afonso Cruz. Já prometi usar de violência física para obrigar um a um a ler a maravilha que ele escreve, e não estou a brincar.»
Citações:
"Há dois tipos de Deus: o que nasce da barriga vazia e o que nasce da barriga cheia. O primeiro é vazio, terroso, carnal, necessário para criar uma sensação de amparo e justiça num mundo em que não há nada disso. O segundo é um luxo, fruto de elucubrações. Não precisamos dele, mas ainda assim fazemo-lo existir."
" O povo - diz Fartaria, enquanto limpa os cardos no adro da igreja - é como as solas dos sapatos, serve para pisar, serve para que não nos magoemos ao tocar no pó."
"Uma corda estica até ao seu comprimento, mas pode passar uma vida dobrada sobre si mesma, enrolada para dentro."
Pontuação: 9.8/10
Curiosas leituras,
Gonçalo M. Matos
A história segue o quotidiano de uma aldeia do Alentejo, mais especificamente, de alguns dos seus habitantes, com especial enfoque para Rosa e a sua avó, Antónia. Rosa é uma rapariga feita mulher recentemente e Antónia é uma mulher em final de vida, semi-impotente e enrugada pela vida. Ao longo do romance vamos tendo luz sobre alguns aspetos da vida de Antónia e de Rosa, especificamente do pai e da mãe de Rosa. O romance, segundo a minha perceção, pode ser dividido em duas partes: a primeira parte é composta pela apresentação dos variados personagens que compõem a história, dos seus presentes, passados, das suas inquietações e perversões. É-nos introduzido o professor Borja, um homem de ciência, descrente, o sargento Oliveira, cujo nome "lhe assenta que nem uma árvore", o padre Teves, um homem de Deus, pervertido e um tanto hipócrita (a hipocrisia da Igreja Católica, assim como o seu potencial a ser algo belo, é algo que atravessa o romance), a inglesa que comprou uma aldeia, o pastor Ari, que se apaixona por Rosa, entre outros mais personagens, coloridos ou não. A segunda parte é a narrativa que nos é prometida pela sinopse: os preparativos para que a aldeia da inglesa se transforme em Jerusalém. Nesta parte somos apresentados ao esforço e dedicação das pessoas para que seja feita uma reprodução fiel da Terra Santa. Antónia fica muito feliz por "cumprir" o seu desejo e essa felicidade contagia Rosa. E o romance parte daqui em crescendo até ao desenrolar final, simultaneamente trágico e revelador. No romance vão sendo feitas referências ao título do livro e ao "western" que acompanha este livro, o A Morte não Ouve o Pianista.
A história deste romance é um mimo. Um mimo humanístico. As suas personagens são tão humanas, com as suas complicações, as suas esquisitices e os seus passados complicados ou não. Ao longo da leitura deste romance, Afonso Cruz vai-nos deixando montes e montes de frases profundas e que nos deixam a pensar, de comparações muito engraçadas e de frases muito memoráveis. Inclusive, vai-nos apresentando pensamentos, quer do narrador, quer dos personagens, autênticas pérolas da efabulação literária.
Penso que é notório que gostei muito de ler este romance. E agora, tenho vontade de descobrir Afonso Cruz. Faço minhas as palavras de Valter Hugo Mãe: «Não vou descansar até que todos os leitores descubram o Afonso Cruz. Já prometi usar de violência física para obrigar um a um a ler a maravilha que ele escreve, e não estou a brincar.»
Citações:
"Há dois tipos de Deus: o que nasce da barriga vazia e o que nasce da barriga cheia. O primeiro é vazio, terroso, carnal, necessário para criar uma sensação de amparo e justiça num mundo em que não há nada disso. O segundo é um luxo, fruto de elucubrações. Não precisamos dele, mas ainda assim fazemo-lo existir."
"
"Uma corda estica até ao seu comprimento, mas pode passar uma vida dobrada sobre si mesma, enrolada para dentro."
Pontuação: 9.8/10
Curiosas leituras,
Gonçalo M. Matos
quarta-feira, 9 de março de 2016
"A Confissão de Lúcio", de Mário de Sá-Carneiro
Não são, felizmente, raras as vezes em que leituras das quais não sabemos o que esperar nos surpreendem pela positiva. São, no entanto, mais raras a vezes em que já contamos com algo de bom e nos sai algo de espetacular. Com este A Confissão de Lúcio, confesso-me abismado, assombrado, arrebatado e positivamente surpreendido pela escrita e história deste belíssimo romance. É considerado, justamente, dos melhores romances da literatura portuguesa do século XX, pelo seu rompimento com os cânones tradicionais de escrever em português, principalmente, mas não só. O romance é, verdadeiramente, uma obra de génio, sendo que a sua história e o seu estilo de escrita servem como uma antevisão do que se seguiria na literatura portuguesa da segunda metade do século XX para a frente. Um romance à frente do seu tempo.
A história é intrigante, e a forma como o narrador a inicia, querendo declarar-se inocente pelo crime pelo qual cumpriu 10 anos, revela já o quão intrigante e espantosa esta será. A história segue a vida de Lúcio, o narrador, vivendo e estudando em Paris, onde se embrenhou nos meios literários da cidade, na altura, efervescente, coração pulsante das artes europeias. O narrador vai relatando o seu quotidiano na companhia de um escultor seu amigo, quando trava conhecimento com Ricardo Loureiro, com quem estabelece uma amizade muito íntima, plena de mútua compreensão. Nesta altura, o narrador relata-nos as inquietações de Loureiro, que este revelava a Lúcio nas suas muitas conversas. Certa altura, Lúcio decide partir para Lisboa, onde frequenta a casa do seu amigo e onde conhece Marta, que supõe ser mulher de Loureiro. Também em Lisboa este passa agradáveis serões na companhia de artistas, mas o seu interesse por Marta vai aumentando, mas também a sua inquietação, alimentada por um misto de mistério e de desassossego, ajudada por acontecimentos pontuais e bizarros. Tudo isto se acumula em catadupa para um final tão arrebatador como misterioso e simplesmente genial.
Este romance, digo-o, roça a perfeição. Não é extenso, não deixando de ser profundo, é extremamente culto, não deixando de ser acessível. É Sá-Carneiro no apogeu da sua prosa. É talvez um dos romances mais brilhantes e literariamente satisfatórios que alguma vez li. Não poupo nem nunca pouparei elogios ao brilhantismo de Sá-Carneiro em A Confissão de Lúcio. É tão provido de significado e profundidade que está aberto à interpretação de quem lê. Faz-nos pensar, e eu gosto muito da arte que nos obriga a refletir. O estilo de escrita e a forma de contar a história que Sá-Carneiro emprega neste romance assemelha-se às que surgiriam décadas mais tarde. Li este livro e ocorreu-me à mente uma escrita contemporânea, algo que autores atuais teriam escrito. Qual Edgar Allan Poe, Sá-Carneiro foi um homem à frente do seu tempo, ignorado pelos seus contemporâneos pela sua originalidade invulgar. Mesmo nos dias de hoje, Sá-Carneiro é recordado como poeta ou simplesmente como co-fundador da revista Orpheu, juntamente com Fernando Pessoa, o que, na minha opinião, é ingratidão para com a genialidade da obra que acabei de ler. O meu maior desejo com este texto é que outros leiam este romance e que reconheçam Sá-Carneiro como o genial escritor que ele é.
Recomendo esta leitura a todos os que desejem ser arrebatados por uma leitura tão surpreendente como brilhante.
Citações:
"Não importa que me acreditem, mas só digo a verdade mesmo quando ela é inverosímil."
"Simplesmente, não era essa a expressão do seu rosto. Sabendo tratar-se de um grande artista, os fotógrafos e os pintores ungiram-lhe a fronte numa expressão nimbada que lhe não pertencia. Convém desconfiar sempre dos retratos dos grandes homens..."
"Todo eu agora era dúvidas. Em coisa alguma acreditava. Nem sequer na minha obsessão"
Pontuação: 10/10
Arrebatadoras leituras,
Gonçalo M. Matos
A história é intrigante, e a forma como o narrador a inicia, querendo declarar-se inocente pelo crime pelo qual cumpriu 10 anos, revela já o quão intrigante e espantosa esta será. A história segue a vida de Lúcio, o narrador, vivendo e estudando em Paris, onde se embrenhou nos meios literários da cidade, na altura, efervescente, coração pulsante das artes europeias. O narrador vai relatando o seu quotidiano na companhia de um escultor seu amigo, quando trava conhecimento com Ricardo Loureiro, com quem estabelece uma amizade muito íntima, plena de mútua compreensão. Nesta altura, o narrador relata-nos as inquietações de Loureiro, que este revelava a Lúcio nas suas muitas conversas. Certa altura, Lúcio decide partir para Lisboa, onde frequenta a casa do seu amigo e onde conhece Marta, que supõe ser mulher de Loureiro. Também em Lisboa este passa agradáveis serões na companhia de artistas, mas o seu interesse por Marta vai aumentando, mas também a sua inquietação, alimentada por um misto de mistério e de desassossego, ajudada por acontecimentos pontuais e bizarros. Tudo isto se acumula em catadupa para um final tão arrebatador como misterioso e simplesmente genial.
Este romance, digo-o, roça a perfeição. Não é extenso, não deixando de ser profundo, é extremamente culto, não deixando de ser acessível. É Sá-Carneiro no apogeu da sua prosa. É talvez um dos romances mais brilhantes e literariamente satisfatórios que alguma vez li. Não poupo nem nunca pouparei elogios ao brilhantismo de Sá-Carneiro em A Confissão de Lúcio. É tão provido de significado e profundidade que está aberto à interpretação de quem lê. Faz-nos pensar, e eu gosto muito da arte que nos obriga a refletir. O estilo de escrita e a forma de contar a história que Sá-Carneiro emprega neste romance assemelha-se às que surgiriam décadas mais tarde. Li este livro e ocorreu-me à mente uma escrita contemporânea, algo que autores atuais teriam escrito. Qual Edgar Allan Poe, Sá-Carneiro foi um homem à frente do seu tempo, ignorado pelos seus contemporâneos pela sua originalidade invulgar. Mesmo nos dias de hoje, Sá-Carneiro é recordado como poeta ou simplesmente como co-fundador da revista Orpheu, juntamente com Fernando Pessoa, o que, na minha opinião, é ingratidão para com a genialidade da obra que acabei de ler. O meu maior desejo com este texto é que outros leiam este romance e que reconheçam Sá-Carneiro como o genial escritor que ele é.
Recomendo esta leitura a todos os que desejem ser arrebatados por uma leitura tão surpreendente como brilhante.
Citações:
"Não importa que me acreditem, mas só digo a verdade
"Simplesmente, não era essa a expressão do seu rosto. Sabendo tratar-se de um grande artista, os fotógrafos e os pintores ungiram-lhe a fronte numa expressão nimbada que lhe não pertencia. Convém desconfiar sempre dos retratos dos grandes homens..."
"Todo eu agora era dúvidas. Em coisa alguma acreditava. Nem sequer na minha obsessão"
Pontuação: 10/10
Arrebatadoras leituras,
Gonçalo M. Matos
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
"Capitães da Areia", de Jorge Amado
Capitães da Areia é o romance de Jorge Amado que lhe conferiu fama internacional. É um romance que é sobretudo um relato coberto de lirismo sobre um tema tão cruel que é a problemática das crianças abandonadas nas ruas de São Salvador da Bahia. O romance é considerado como um dos mais populares de Jorge Amado. A sua história humanista é relembrada como tendo uma visão socialista sobre o problema das crianças abandonadas.
A história segue as vidas dos capitães da areia, um grupo de menores abandonados que vivem do furto. Desde cedo somos apresentados aos personagens cujas aventuras iremos acompanhar ao longo da obra. Como protagonista temos Pedro Bala, o chefe dos capitães da areia, tão temido pelos baianos como um homem. Coadjuvam-no durante a narrativa o «burro, mas bom negrinho» João Grande e o único dos capitães da areia que sabe ler, e que lê para os outros, o Professor. A estes juntam-se personagens variados, que auxiliam os seus companheiros nos roubos. O elegante Gato, o religioso Pirulito, o sádico Sem-Pernas, o sombrio Volta Seca, entre outros. A primeira parte da obra narra as diversas aventuras que os meninos vivem nas ruas da Bahia, realçando sempre a coragem dos capitães da areia e do seu código de honra. A meio da primeira parte junta-se um dos poucos adultos que participa ativamente na história, o padre José Pedro, cuja intenção é ajudar os meninos e lutar para que eles tenham acesso ao que lhes foi vedado. Vê em Pirulito um futuro sacerdote e foca-se no menino. Na segunda parte, junta-se aos capitães da areia a jovem Dora, que serve como mãe para os meninos, dando-lhes o afeto que nunca tinham tido. A partir deste ponto, a história desenvolve-se numa narrativa mais poética e dramática que a primeira parte, culminando num final arrebatador a nível do lirismo.
Tendo sido este romance escrito durante o Estado Novo brasileiro, foi queimado em praça pública pelos ideias socialistas que manifestamente pregava. Jorge Amado, como humanista que era, dizia que não tinha escrito o livro com o objetivo de fazer propagando política, mas com o simples objetivo de qualquer escritor: contar uma história, cujo fundo era uma desconcertante realidade. Resta-me apenas recomendar a leitura deste livro incrivelmente lírico.
Citações:
"A grande noite de paz da Bahia veio do cais, envolveu os saveiros, o forte, o quebra-mar, se estendeu sobre as ladeiras e as torres das igrejas."
"Omolu mandou a bexiga negra para a cidade. Mas lá em cima os homens ricos se vacinaram, e Omolu era um deus das florestas da África, não sabia destas coisas de vacina."
"A voz o chama. Uma voz que o alegra, que faz bater seu coração. Ajudar a mudar o destino de todos os pobres."
Pontuação: 9/10
Belíssimas leituras,
Gonçalo M. Matos
A história segue as vidas dos capitães da areia, um grupo de menores abandonados que vivem do furto. Desde cedo somos apresentados aos personagens cujas aventuras iremos acompanhar ao longo da obra. Como protagonista temos Pedro Bala, o chefe dos capitães da areia, tão temido pelos baianos como um homem. Coadjuvam-no durante a narrativa o «burro, mas bom negrinho» João Grande e o único dos capitães da areia que sabe ler, e que lê para os outros, o Professor. A estes juntam-se personagens variados, que auxiliam os seus companheiros nos roubos. O elegante Gato, o religioso Pirulito, o sádico Sem-Pernas, o sombrio Volta Seca, entre outros. A primeira parte da obra narra as diversas aventuras que os meninos vivem nas ruas da Bahia, realçando sempre a coragem dos capitães da areia e do seu código de honra. A meio da primeira parte junta-se um dos poucos adultos que participa ativamente na história, o padre José Pedro, cuja intenção é ajudar os meninos e lutar para que eles tenham acesso ao que lhes foi vedado. Vê em Pirulito um futuro sacerdote e foca-se no menino. Na segunda parte, junta-se aos capitães da areia a jovem Dora, que serve como mãe para os meninos, dando-lhes o afeto que nunca tinham tido. A partir deste ponto, a história desenvolve-se numa narrativa mais poética e dramática que a primeira parte, culminando num final arrebatador a nível do lirismo.
Tendo sido este romance escrito durante o Estado Novo brasileiro, foi queimado em praça pública pelos ideias socialistas que manifestamente pregava. Jorge Amado, como humanista que era, dizia que não tinha escrito o livro com o objetivo de fazer propagando política, mas com o simples objetivo de qualquer escritor: contar uma história, cujo fundo era uma desconcertante realidade. Resta-me apenas recomendar a leitura deste livro incrivelmente lírico.
Citações:
"A grande noite de paz da Bahia veio do cais, envolveu os saveiros, o forte, o quebra-mar, se estendeu sobre as ladeiras e as torres das igrejas."
"Omolu mandou a bexiga negra para a cidade. Mas lá em cima os homens ricos se vacinaram, e Omolu era um deus das florestas da África, não sabia destas coisas de vacina."
"A voz o chama. Uma voz que o alegra, que faz bater seu coração. Ajudar a mudar o destino de todos os pobres."
Pontuação: 9/10
Belíssimas leituras,
Gonçalo M. Matos
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
"Ulisses", de James Joyce
Muita tinta correu já sobre Ulisses. E muita tinta pode, ainda correr. Alguma dessa tinta será minha, aqui. Muito bem, o problema principal quando se pretende escrever sobre esta obra é que é tão densa, tão monumental que não se sabe por onde começar. Mas darei o meu melhor. A obra que se apresenta sob o nome de Ulisses é um dos maiores monumentos à prosa do século XX, e sem dúvida uma das maiores produções literárias de toda a história da literatura. É uma leitura densa e arrebatadora, sem dúvida. Uma pessoa que não esteja habituada a ler não deve ler Ulisses, e mesmo estando habituado não o deve decidir ler de ânimo leve. Trata-se de uma obra ímpar, com personagens, eventos e detalhes tão complicados como espantosos.
Passemos então à história. Outro problema se levanta neste ponto. Que história? Aliás, como classificar ou descrever a história narrada em Ulisses? Pode ser simples, pode ser complexo. Começamos pelo simples. O esqueleto da história, o fio condutor é o quotidiano de Leopold Bloom em Dublin, prosseguindo com as suas atividades, tão comuns como particulares ao dia específico que se passa. Começa de manhã e termina de madrugada. Esta é a ação principal. A ação secundária divide-se em diversos episódios, cada um ilustrando um momento desse dia de Bloom, tudo para terminar na sua chegada, cansado, a casa. A obra é demasiado extensa para entrar em pormenores sobre os vários enredos secundários, mas fica aqui o aviso de que são vários e cada um com uma particularidade associada a si.
Agora que foi introduzida a história, irei falar daquilo que torna Ulisses tão único: a estrutura. E estrutura da obra é, maioritariamente, não ter estrutura. Ulisses é narrado em prosa, sendo o estilo da narração o fluxo de consciência. Os pensamentos do narrador e dos personagens narrados misturam-se muitas vezes, criando uma armadilha literária para os leitores mais incautos. Os capítulos de Ulisses têm cada um o seu estilo próprio, apropriando-se ou não ao evento que relatam. O capítulo 7 tem a estrutura de uma editora jornalística, tendo cada segmento de texto um título. A narração,no capítulo 15, é feita na forma de um texto dramático (este é também o capítulo mais extenso do livro, sendo que constitui 1/4 do livro). O capítulo 17 é composto por um conjunto de perguntas e respostas, sendo que as perguntas impulsionam a narração que se passa nas respostas (sendo este o meu favorito em termos de estilo). De muitos mais poderia eu falar, mas escolho falar do último capítulo, onde os críticos afirmam que Joyce atingiu o apogeu da sua arte narrativa. Neste 18.º capítulo, a narração é-nos feita pelo pensamento interior da esposa de Bloom, Molly, onde as ideias, por mais díspares que possam parecer, se juntam por uma associação que representa fielmente o próprio processo cognitivo. Por esta razão se louva tanto Joyce enquanto escritor. Foi o primeiro a conseguir reproduzir com tanta fidelidade o processo mental de recordação, associação e cognição por escrito.
Muitos críticos chamam a Ulisses uma anti-epopeia, uma vez que Joyce criou um paralelismo entre a sua obra e a Odisseia. Daí o nome escolhido para o título do seu livro. Os três personagens principais representam os três pontos de vista da Odisseia: Leopold Bloom é Ulisses, Molly Bloom é Penélope e Stephen Dedalus é Telémaco. Os episódios de Ulisses evocam sempre o episódio da Odisseia que representam. E assim processa-se o calhamaço de monumental literatura que é Ulisses.
Não escrevo mais porque esta obra de Joyce tem material suficiente para se escrever um livro. No entanto, pode-se recorrer ao intensivo estudo de Ulisses efetuado por Stuart Gilbert.
Não tendo mais do que falar, basta-me recomendar esta leitura a qualquer corajoso que deseje passar pela experiência de leitura mais intensa e espantosa que pode imaginar. Não recomendo aos que não estão habituados a ler, porque se trata de uma obra que requer paciência, experiência e, acima de tudo, um espírito literário muito aberto, aliado à paixão pela literatura.
Citações:
"Olhos de ostra. Não interessa. Senti-lo-á depois quando cair em si. Ter, desse modo, vantagens sobre ele.
Obrigado. Que grandes estamos esta manhã!"
"Fff! Uuu. Rrpr.
As nações da terra. Ninguém atrás. Ela já passou. Então e não até então. O elétrico cran, cran, cran. Boa oportu. Vem aí. Crancrancran. Tenho a certeza que é do borgonha. Sim. Um, dois. Deixai que o meu epitáfio seja. Craaa. Escrito. Tenho.
Pprrpffrrppfff.
Dito."
"Quais, reduzidas às suas formas recíprocas mais simples, eram os pensamentos de Bloom acerca dos pensamentos de Stephen sobre Bloom e os pensamentos de Bloom acerca dos pensamentos de Stephen sobre os pensamentos de Bloom acerca de Stephen?
Ele pensava que ele pensava que era judeu enquanto ele sabia que ele sabia que ele sabia que sabia que não era."
Pontuação: 10/10
Aventurosas leituras,
Gonçalo M. Matos
Passemos então à história. Outro problema se levanta neste ponto. Que história? Aliás, como classificar ou descrever a história narrada em Ulisses? Pode ser simples, pode ser complexo. Começamos pelo simples. O esqueleto da história, o fio condutor é o quotidiano de Leopold Bloom em Dublin, prosseguindo com as suas atividades, tão comuns como particulares ao dia específico que se passa. Começa de manhã e termina de madrugada. Esta é a ação principal. A ação secundária divide-se em diversos episódios, cada um ilustrando um momento desse dia de Bloom, tudo para terminar na sua chegada, cansado, a casa. A obra é demasiado extensa para entrar em pormenores sobre os vários enredos secundários, mas fica aqui o aviso de que são vários e cada um com uma particularidade associada a si.
Agora que foi introduzida a história, irei falar daquilo que torna Ulisses tão único: a estrutura. E estrutura da obra é, maioritariamente, não ter estrutura. Ulisses é narrado em prosa, sendo o estilo da narração o fluxo de consciência. Os pensamentos do narrador e dos personagens narrados misturam-se muitas vezes, criando uma armadilha literária para os leitores mais incautos. Os capítulos de Ulisses têm cada um o seu estilo próprio, apropriando-se ou não ao evento que relatam. O capítulo 7 tem a estrutura de uma editora jornalística, tendo cada segmento de texto um título. A narração,no capítulo 15, é feita na forma de um texto dramático (este é também o capítulo mais extenso do livro, sendo que constitui 1/4 do livro). O capítulo 17 é composto por um conjunto de perguntas e respostas, sendo que as perguntas impulsionam a narração que se passa nas respostas (sendo este o meu favorito em termos de estilo). De muitos mais poderia eu falar, mas escolho falar do último capítulo, onde os críticos afirmam que Joyce atingiu o apogeu da sua arte narrativa. Neste 18.º capítulo, a narração é-nos feita pelo pensamento interior da esposa de Bloom, Molly, onde as ideias, por mais díspares que possam parecer, se juntam por uma associação que representa fielmente o próprio processo cognitivo. Por esta razão se louva tanto Joyce enquanto escritor. Foi o primeiro a conseguir reproduzir com tanta fidelidade o processo mental de recordação, associação e cognição por escrito.
Muitos críticos chamam a Ulisses uma anti-epopeia, uma vez que Joyce criou um paralelismo entre a sua obra e a Odisseia. Daí o nome escolhido para o título do seu livro. Os três personagens principais representam os três pontos de vista da Odisseia: Leopold Bloom é Ulisses, Molly Bloom é Penélope e Stephen Dedalus é Telémaco. Os episódios de Ulisses evocam sempre o episódio da Odisseia que representam. E assim processa-se o calhamaço de monumental literatura que é Ulisses.
Não escrevo mais porque esta obra de Joyce tem material suficiente para se escrever um livro. No entanto, pode-se recorrer ao intensivo estudo de Ulisses efetuado por Stuart Gilbert.
Não tendo mais do que falar, basta-me recomendar esta leitura a qualquer corajoso que deseje passar pela experiência de leitura mais intensa e espantosa que pode imaginar. Não recomendo aos que não estão habituados a ler, porque se trata de uma obra que requer paciência, experiência e, acima de tudo, um espírito literário muito aberto, aliado à paixão pela literatura.
Citações:
"Olhos de ostra. Não interessa. Senti-lo-á depois quando cair em si. Ter, desse modo, vantagens sobre ele.
Obrigado. Que grandes estamos esta manhã!"
"Fff! Uuu. Rrpr.
As nações da terra. Ninguém atrás. Ela já passou. Então e não até então. O elétrico cran, cran, cran. Boa oportu. Vem aí. Crancrancran. Tenho a certeza que é do borgonha. Sim. Um, dois. Deixai que o meu epitáfio seja. Craaa. Escrito. Tenho.
Pprrpffrrppfff.
Dito."
"Quais, reduzidas às suas formas recíprocas mais simples, eram os pensamentos de Bloom acerca dos pensamentos de Stephen sobre Bloom e os pensamentos de Bloom acerca dos pensamentos de Stephen sobre os pensamentos de Bloom acerca de Stephen?
Ele pensava que ele pensava que era judeu enquanto ele sabia que ele sabia que ele sabia que sabia que não era."
Pontuação: 10/10
Aventurosas leituras,
Gonçalo M. Matos
domingo, 12 de julho de 2015
"As Três Vidas", de João Tordo
As Três Vidas. Por onde começar quando se fala de um dos melhores livros de um dos meus autores favoritos? Talvez começar por dizer que este livro é espantoso. É viciante a sua leitura. Acabamos um capítulo e desejamos avançar para o próximo, ansiamos por saber o desenlace de uma história misteriosa do princípio ao fim. Tem o seu toque de inevitabilidade, de negrume, de esperança, de desilusão, de amor, de obsessão, um livro à la João Tordo, podemos afirmar. Mais uma vez nos apresenta uma história inusitada, bizarra e misteriosa, mais uma vez nos vai colando às páginas, deixando em suspenso as descobertas e os desenvolvimentos, e mais uma vez nos tira o tapete debaixo dos pés num final tão melancólico como iluminado.
Agora, a história. O narrador, um jovem, é convidado por Artur Faria, um jardineiro, a trabalhar como secretário de um homem misterioso, chamado António Augusto Millhouse Pascal. Os trabalhos do narrador resumem-se a organizar os ficheiros dos clientes de Millhouse Pascal e de responder às cartas dos mesmos. Tudo parece normal até este ponto. Mas quando o narrador se apercebe que os clientes de MP não são aquilo a que se possa chamar de "normais", dúvidas lhe surgem quanto ao que será ao certo a atividade do seu patrão. A este mistério se juntam muitos outros, como os misteriosos encontros entre o jardineiro e um corcunda, a altas horas da madrugada, a diferença entre os clientes que chegam e os que partem, tudo intensificado pela sensação que o narrador sente de não pertencer àquele lugar e pela insónia causada por essa sensação. No entanto, luz ilumina essa sensação, sob a forma da neta mais velha de Millhouse Pascal, Camila, adepta e praticante de funambulismo, por quem o narrador desenvolve uma paixão. Após muitas reviravoltas tão surpreendentes como bizarras, tal como a descoberta do narrador sobre as atividades reais do seu patrão, que são a redenção dos pecados dos seus clientes obtidas com o auxílio de alucinógeneos e através da hipnose, Millhouse Pascal e o narrador acabam em Nova Iorque, à procura de Camila. A partir daí, e após o reencontro entre esta e o narrador, a vida deste transforma-se numa missão, a missão de juntar os cacos da sua vida e resolvê-los, resolver os mistérios. Mas essa missão revela-se morosa e inconclusiva.
É uma história que nos prende. Nunca quis pousar o livro para dormir, queria sempre avançar mais no mistério. Escrito soberbamente por um autor talentoso e genial, é um relato fantástico. Os eventos do século XX estão intrinsecamente ligados à vida de Millhouse Pascal, eventos sangrentos e monstruosos. No final, não chegamos a uma conclusão. No entanto, e aproveitando-me da metáfora do livro, a vida é como um funambulista sobre a sua corda bamba, nunca sabemos como irá acabar e a caminhada é perigosa e precária. As três vidas do título têm várias interpretações. No livro, são as três fases pelas quais o narrador passou, cada uma parecendo, aos seus olhos, uma vida completamente diferente. Pessoalmente, interpreto-as como sendo o passado, o presente e o futuro. O livro divide-se em quatro partes, sendo a primeira a mais longa destas.
Que mais posso acrescentar? Este foi o livro de João Tordo que lhe rendeu o Prémio José Saramago de 2009. É, sem dúvida, o melhor que li dele. Mas ainda há muitos para ler. E sei que João Tordo não me irá desapontar. Recomendo, recomendo e recomendo a leitura desta obra genial.
Citações:
"Ainda hoje, sempre que o mundo se apresenta como um espetáculo enfadonho e miserável, sou incapaz de resistir à tentação de relembrar o tempo em que, por força da necessidade, fui obrigado a aprender a difícil arte do funambumlismo."
"O segundo acontecimento foi de uma natureza mais sinistra. Mesmo agora, ao escrever estas palavras, sinto um calafrio ao invocar a memória daquela noite, a primeira de muito frio no Alentejo."
"Achei, naquela altura, que o meu patrão tinha poderes mágicos. Que, através da sua refinada arte, era mesmo capaz de invocar fantasmas, de nos fazer entrar numa dimensão alternativa por onde vagueavam os mortos."
Pontuação: 9.8/10
Requintadas leituras,
Gonçalo M. Matos
Agora, a história. O narrador, um jovem, é convidado por Artur Faria, um jardineiro, a trabalhar como secretário de um homem misterioso, chamado António Augusto Millhouse Pascal. Os trabalhos do narrador resumem-se a organizar os ficheiros dos clientes de Millhouse Pascal e de responder às cartas dos mesmos. Tudo parece normal até este ponto. Mas quando o narrador se apercebe que os clientes de MP não são aquilo a que se possa chamar de "normais", dúvidas lhe surgem quanto ao que será ao certo a atividade do seu patrão. A este mistério se juntam muitos outros, como os misteriosos encontros entre o jardineiro e um corcunda, a altas horas da madrugada, a diferença entre os clientes que chegam e os que partem, tudo intensificado pela sensação que o narrador sente de não pertencer àquele lugar e pela insónia causada por essa sensação. No entanto, luz ilumina essa sensação, sob a forma da neta mais velha de Millhouse Pascal, Camila, adepta e praticante de funambulismo, por quem o narrador desenvolve uma paixão. Após muitas reviravoltas tão surpreendentes como bizarras, tal como a descoberta do narrador sobre as atividades reais do seu patrão, que são a redenção dos pecados dos seus clientes obtidas com o auxílio de alucinógeneos e através da hipnose, Millhouse Pascal e o narrador acabam em Nova Iorque, à procura de Camila. A partir daí, e após o reencontro entre esta e o narrador, a vida deste transforma-se numa missão, a missão de juntar os cacos da sua vida e resolvê-los, resolver os mistérios. Mas essa missão revela-se morosa e inconclusiva.
É uma história que nos prende. Nunca quis pousar o livro para dormir, queria sempre avançar mais no mistério. Escrito soberbamente por um autor talentoso e genial, é um relato fantástico. Os eventos do século XX estão intrinsecamente ligados à vida de Millhouse Pascal, eventos sangrentos e monstruosos. No final, não chegamos a uma conclusão. No entanto, e aproveitando-me da metáfora do livro, a vida é como um funambulista sobre a sua corda bamba, nunca sabemos como irá acabar e a caminhada é perigosa e precária. As três vidas do título têm várias interpretações. No livro, são as três fases pelas quais o narrador passou, cada uma parecendo, aos seus olhos, uma vida completamente diferente. Pessoalmente, interpreto-as como sendo o passado, o presente e o futuro. O livro divide-se em quatro partes, sendo a primeira a mais longa destas.
Que mais posso acrescentar? Este foi o livro de João Tordo que lhe rendeu o Prémio José Saramago de 2009. É, sem dúvida, o melhor que li dele. Mas ainda há muitos para ler. E sei que João Tordo não me irá desapontar. Recomendo, recomendo e recomendo a leitura desta obra genial.
Citações:
"Ainda hoje, sempre que o mundo se apresenta como um espetáculo enfadonho e miserável, sou incapaz de resistir à tentação de relembrar o tempo em que, por força da necessidade, fui obrigado a aprender a difícil arte do funambumlismo."
"O segundo acontecimento foi de uma natureza mais sinistra. Mesmo agora, ao escrever estas palavras, sinto um calafrio ao invocar a memória daquela noite, a primeira de muito frio no Alentejo."
"Achei, naquela altura, que o meu patrão tinha poderes mágicos. Que, através da sua refinada arte, era mesmo capaz de invocar fantasmas, de nos fazer entrar numa dimensão alternativa por onde vagueavam os mortos."
Pontuação: 9.8/10
Requintadas leituras,
Gonçalo M. Matos
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