Aparição é talvez o romance de Vergílio Ferreira no qual está presente toda a sua temática literária. A preocupação existencial da condição do homem é uma constante na obra do autor, sendo que é neste livro que se encontra mais aprofundada.
A história que nos é apresentada neste romance é secundária, é uma mera desculpa do autor para poder anunciar os seus pensamentos, as suas dúvidas e as suas cogitações mais profundas sobre o lugar do ser humano na insondável grandeza da existência. A história segue o atribulado quotidiano do narrador, Alberto Soares, após a sua chegada a Évora para dar aulas no liceu. As suas divagações levam-no a travar conhecimento com o doutor Moura, um velho amigo do seu falecido pai, através do qual conhece os restantes protagonistas deste romance. Por sugestão de Moura, Alberto propõe-se a dar lições de latim a uma das filhas deste, Sofia. Após vários serões com esta e com a família do doutor Moura, o narrador parte de férias em busca de tranquilidade, passando esse Natal com a sua família. Mas essa almejada tranquilidade é interrompida no final das férias, e eis que o protagonista regressa a Évora para retomar as suas aulas. A partir deste ponto, a história vai ficando muito pouco desenvolvida, sendo que apenas são narrados os eventos-chave do quotidiano do narrador e dos restantes personagens.
Mas a história é o que menos importa neste romance existencialista. Como já referi, a história neste livro não passa de uma desculpa quase que esfarrapada que o autor dá para poder escrever sobre as suas ideias e teorias sobre o lugar do homem no mundo. Todo o livro é percorrido de descrições magníficas dos diversos locais frequentados pelo narrador e por profundas meditações sobre a existência humana e a perceção que cada um tem sobre esta. O autor revela mais a sua faceta de ensaísta que de ficcionista neste romance, sendo que a obra não é mais que uma grande meditação sobre a vida e a existência humana mascarada de história.
Achei curioso esse aspeto da obra de Vergílio Ferreira, particularmente deste Aparição, o de que faz um esforço por agradar dois tipos de leitores. Tanto os leitores que preferirem um grande ensaio filosófico sobre o lugar do homem no mundo como os leitores que apreciarem uma história simples recheada de inquietações e de descrições maravilhosas da natureza encontram neste livro uma satisfação às suas preferências.
Recomendo, portanto, a leitura deste livro. Mas aviso que pode tornar-se maçudo por vezes, para quem não estiver habituado a leituras mais "pesadas" ou para quem olhe apenas para a história, esquecendo a faceta filosófica. Mas que deve ser lido, deve.
Citações:
"Por enquanto sinto a evidência de que sou eu que me habito, de que vivo, de que sou uma entidade, uma presença total, uma necessidade do que existe, porque só há eu a existir, porque eu estou aqui, arre!, estou aqui, EU, este vulcão sem começo nem fim, só atividade, só estar sendo, EU, esta obscura e incandescente e fascinante e terrível presença que está atrás de tudo o que digo e faço e vejo - e onde se perde e esquece."
"- Bem... Não sei como explicar. É assim: mastigar as palavras.
- Mastigar as palavras?
- Bem... É assim: a gente diz, por exemplo, pedra, madeira, estrelas ou qualquer coisa assim. E repete: pedra, pedra, pedra. Muitas vezes. E depois, pedra já não quer dizer nada."
"Nós, os homens das contas complexas de quem aprendeu mais do que as quatro operações, das bibliotecas de catacumbas de quem ousou mais do que o á-bê-cê, de quem arriscou as ideias e as não gastou em palavras, sabemos que a discussão se não esgotou num simples voltar de costas, numa troça de desprezo, embora soberana e eficaz como a das crianças."
Pontuação: 6.9/10
Meditativas leituras,
Gonçalo M. Matos
sexta-feira, 22 de julho de 2016
quinta-feira, 7 de julho de 2016
"Para Onde vão os Guarda-chuvas", de Afonso Cruz
O pano de fundo deste romance é um Oriente como julgamos, nós, ocidentais, que ele é, com todos os seus aspetos positivos e negativos. A história segue as vidas de Fazal Elahi, um homem modesto cuja maior ambição é passar despercebido, o seu primo Badini, um dervixe (monge errante) mudo, que fala com as mãos, sendo tudo o que diz a mais bela das poesias e a sua irmã Aminah, que berra muito e sonha casar um dia. Estes três personagens compõem a primeira parte do romance, juntamente com a mulher de Elahi, Bibi, e o filho deles, Salim. A segunda parte do romance conta com os mesmos três personagens, acompanhados agora por um indiano apaixonado, Nachiketa Mudaliar, e o filho adotivo de Elahi, Isa. Ao longo do romance vão aparecendo outros personagens que contribuem para o desenlace, como o general Ilia Vassilyevitch Krupin, o mulá Mossud e o jovem Dilawar Krupin. A história possui, do princípio ao fim, um teor de esperança mas de inevitável fatalismo, recheada de um cuidado humanismo na descrição e desenvolvimento dos personagens.
Agora, as características que acrescentam ao romance algo de artisticamente brilhante: imagens, fotografias e plasticidade textual. Afonso Cruz auxiliou-se de fotografias de um tabuleiro e das suas peças de xadrez que incluiu em páginas pontuais do romance, como ilustração da história que se desenvolvia. Estão também presentes algumas ilustrações do próprio autor. As páginas tinham por vezes plasticidades textuais, imagismos criados pela estruturação das frases e das palavras. Um exemplo que me ocorre agora, é uma página onde se lê a palavra "desculpa" várias vezes repetida, formando uma rua de um quarteirão de uma cidade. Outra característica, e desta gostei especialmente, foi o capítulo cujas páginas eram pretas e as letras brancas, que eu achei imensamente divertido e interessante do ponto de vista estético. Outro exemplo é um capítulo inteiro composto simplesmente pela repetição da mesma palavra três vezes: "Escarlatina, escarlatina, escarlatina", simplesmente.
É um romance brilhante de um autor genial que me deu um enorme prazer de leitura. Devo muito a este autor por me proporcionar momentos de verdadeiro prazer estético quando leio os seus escritos. E não vou parar por aqui. Irei ler tudo o resto de Afonso Cruz. Em suma, este romance é uma obra genial que deve ser lida. Afonso Cruz merece e deve ser lido. É maravilhoso.
Citações:
"
e um devoto como o mulá Mossud?
O devoto, num naufrágio,
salva o seu tapete de orações.
O sábio salva
o homem que se afoga."
"Já reparou que entre os animais é o líder que vai combater com o líder rival? Os animais não mandam os peões para debaixo dos cavalos. No reino animal, os líderes são os primeiros. Se nós fizéssemos o mesmo, os conflitos seriam substancialmente diferentes. E o mesmo princípio não seria aplicado apenas em casos de guerra, Sr. Elahi, mas também em todas as vertentes da sociedade."
"Para onde vão os guarda-chuvas? São como as luvas, são como uma das peúgas que formam um par. Desaparecem e ninguém sabe para onde. Nunca ninguém encontra guarda-chuvas, mas toda a gente os perde. Para onde vão as nossas memórias, a nossa infância, os nossos guarda-chuvas?"
Pontuação: 10/10
Brilhantes leituras,
Gonçalo M. Matos
terça-feira, 21 de junho de 2016
"Quando Ruiu a Ponte sobre o Tamisa", de Ana Gil Campos
Após a leitura desta obra, fico um bocado na dúvida. Fiquei não na dúvida quanto ao talento da escrita da autora, que é impecável, nem quanto aos temas, que são temas que atravessam a intemporalidade da literatura. Não, a dúvida que me foi deixada foi quanto à história que serve de base. Fiquei um bocado de pé atrás quanto à história, é da minha opinião que talvez a qualidade da escrita e a pertinência dos temas não se tenha bem enquadrado com a história deste livro. Posto isto, fico sem saber se é de mim ou se será do romance, mas não me satisfez a leitura deste Quando Ruiu a Ponte sobre o Tamisa tanto como o anterior livro desta autora.
Dito isto, a história. Chandni é uma princesa indiana que, durante uma visita à sua família na Índia, encontra na rua uma rapariga em péssimo estado e decide ajudá-la, levando-a para a sua casa e tratando dela lá. Quando a rapariga, que diz chamar-se Paula, recupera, convida Chandni a viver uma aventura consigo, em Goa. Este evento marca o início do resto da narração. A partir de Goa, Chandni entra em contacto direto com a vida, um contacto que nunca sentira plenamente antes, devido à infância privilegiada que teve e à ingenuidade de quem pensa que tudo é perfeito (a sua vida era percecionada por si como sendo perfeita). Após um regresso a Londres, Chandni e o seu marido, Nadir, viajam para Portugal, ficando a viver no Palácio da Pena, em Sintra. Aqui, a vida e as certezas de Chandni serão todas abaladas, um evento irá motivar uma série de dúvidas, questões e inseguranças que a farão questionar o porquê e o como de tudo o que a rodeia.
Os aspetos negativos que atribuo ao romance são a confusão que causa a sua leitura. Há vários aspetos e pormenores que são deixados sem resposta ou que parecem inseridos onde estão só porque sim que confundem a leitura. Se a intenção da autora era criar mistérios e ambiguidades, tentou-o sem sucesso, uma vez que este tipo de temáticas não encaixa bem com as ambiguidades que a autora tentou introduzir.
Ditos os aspetos negativos, passo aos positivos. Mais uma vez é revelado o enorme talento que a autora tem para as palavras. As descrições são imensamente belas e intensamente descritivas, têm vida, saltam das páginas. Podemos sentir com os sentidos todos as descrições que a autora faz. Há, dos elementos ambíguos que falei anteriormente, alguns que são muito bem aplicados. A existência, por exemplo, do seu confidente, que é nada mais que Gandhi, do seu protetor sempre vigilante, a coruja, e da sua alma representada fisicamente na figura do flamingo (isto, claro, de acordo com a interpretação subjetiva que fiz). Quero também mencionar e aplaudir a forma como a autora dividiu o livro. O livro está dividido em cinco partes, cada uma com uma especiaria específica atribuída a si, que representa um dos personagens descritos por Chandni, sendo que no início de cada parte está uma passagem que irá ser lida mais adiante nessa parte.
Colmatando, é um livro que revela, como o anterior da autora, o seu incrível talento como escritora, não obstante os aspetos que me deixaram um bocado de pé atrás desta vez. Mas pode ter sido apenas impressão minha. Não somos todos iguais e claro que recomendo a sua leitura a outros que talvez vejam o que não vi, compreendam o que não compreendi.
Citações:
"A alma de Paula tem um aroma intenso que permanece mesmo quando ela não se encontra presente, da sua voz quente saem palavras acres e o seu olhar tem um toque adstringente. A alma de Paula é como o cravo-da-índia."
"Não vale a pena enganarmo-nos de que um inimigo poderá vir a tornar-se num verdadeiro amigo, uma amizade assim é alimentada por interesses e nunca será inteiramente pura e desinteressada. Mas a sociedade é feita de relações assim."
"Só porque a verdade de hoje é diferente da verdade de ontem, não significa que a verdade de ontem fosse menos verdadeira. Se nós e o nosso contexto mudam, como não mudará a verdade também?"
Pontuação: 7.2/10
Boas leituras,
Gonçalo M. Matos
Dito isto, a história. Chandni é uma princesa indiana que, durante uma visita à sua família na Índia, encontra na rua uma rapariga em péssimo estado e decide ajudá-la, levando-a para a sua casa e tratando dela lá. Quando a rapariga, que diz chamar-se Paula, recupera, convida Chandni a viver uma aventura consigo, em Goa. Este evento marca o início do resto da narração. A partir de Goa, Chandni entra em contacto direto com a vida, um contacto que nunca sentira plenamente antes, devido à infância privilegiada que teve e à ingenuidade de quem pensa que tudo é perfeito (a sua vida era percecionada por si como sendo perfeita). Após um regresso a Londres, Chandni e o seu marido, Nadir, viajam para Portugal, ficando a viver no Palácio da Pena, em Sintra. Aqui, a vida e as certezas de Chandni serão todas abaladas, um evento irá motivar uma série de dúvidas, questões e inseguranças que a farão questionar o porquê e o como de tudo o que a rodeia.
Os aspetos negativos que atribuo ao romance são a confusão que causa a sua leitura. Há vários aspetos e pormenores que são deixados sem resposta ou que parecem inseridos onde estão só porque sim que confundem a leitura. Se a intenção da autora era criar mistérios e ambiguidades, tentou-o sem sucesso, uma vez que este tipo de temáticas não encaixa bem com as ambiguidades que a autora tentou introduzir.
Ditos os aspetos negativos, passo aos positivos. Mais uma vez é revelado o enorme talento que a autora tem para as palavras. As descrições são imensamente belas e intensamente descritivas, têm vida, saltam das páginas. Podemos sentir com os sentidos todos as descrições que a autora faz. Há, dos elementos ambíguos que falei anteriormente, alguns que são muito bem aplicados. A existência, por exemplo, do seu confidente, que é nada mais que Gandhi, do seu protetor sempre vigilante, a coruja, e da sua alma representada fisicamente na figura do flamingo (isto, claro, de acordo com a interpretação subjetiva que fiz). Quero também mencionar e aplaudir a forma como a autora dividiu o livro. O livro está dividido em cinco partes, cada uma com uma especiaria específica atribuída a si, que representa um dos personagens descritos por Chandni, sendo que no início de cada parte está uma passagem que irá ser lida mais adiante nessa parte.
Colmatando, é um livro que revela, como o anterior da autora, o seu incrível talento como escritora, não obstante os aspetos que me deixaram um bocado de pé atrás desta vez. Mas pode ter sido apenas impressão minha. Não somos todos iguais e claro que recomendo a sua leitura a outros que talvez vejam o que não vi, compreendam o que não compreendi.
Citações:
"A alma de Paula tem um aroma intenso que permanece mesmo quando ela não se encontra presente, da sua voz quente saem palavras acres e o seu olhar tem um toque adstringente. A alma de Paula é como o cravo-da-índia."
"Não vale a pena enganarmo-nos de que um inimigo poderá vir a tornar-se num verdadeiro amigo, uma amizade assim é alimentada por interesses e nunca será inteiramente pura e desinteressada. Mas a sociedade é feita de relações assim."
"Só porque a verdade de hoje é diferente da verdade de ontem, não significa que a verdade de ontem fosse menos verdadeira. Se nós e o nosso contexto mudam, como não mudará a verdade também?"
Pontuação: 7.2/10
Boas leituras,
Gonçalo M. Matos
domingo, 22 de maio de 2016
"O Evangelho segundo Jesus Cristo", de José Saramago
Se antes tive dúvidas sobre a importância e genialidade de José Saramago como escritor, estas foram completamente desfeitas por esta obra fenomenal, fruto de uma imaginação fértil como só Saramago sabe produzir. A sua acutilante visão sobre tudo é o que torna os seus livros cativantes, independentemente das formas de escrita diferentes do habitual e do uso peculiar que Saramago faz das regras ortográficas, que só não compreende quem não quer. O Evangelho segundo Jesus Cristo é o livro que causou a polémica que levou Saramago a exilar-se em Lanzarote, uma vez que o livro foi censurado de uma lista de candidatos a um prémio literário europeu pelo então subsecretário da cultura.
Como contar uma história que já foi contada mil vezes. Contá-la mais uma vez. A história narrada nesta obra é uma história com que toda a gente está familiarizada. José e Maria decidem um dia fazer um filho, ao qual dão o nem de Jesus, e desde o início o recém-nascido parece protegido por alguma providência divina, uma vez que se salva por sorte da morte certa, ordenada por Herodes, morte essa de que não tiveram a sorte de escapar todos os recém-nascidos de Belém. José, atormentado por pesadelos, dá o seu melhor para manter a sua família, composta de Maria, Jesus e mais nove filhos, mas a sua vida chega a um fim abrupto e inesperado, ficando Maria sozinha a cuidar dos seus filhos. Isto passa-se até Jesus sair de casa e ir fazer de pastor do maior rebanho do mundo, como ajudante de uma personagem que nos é apresentada simplesmente como Pastor. Após uns anos dessa vida, Jesus encontra Deus no deserto, que lhe apresenta um contrato que não pode ser debatido nem recusado. Regressado a casa, Jesus conhece Maria Madalena em Magdala, a quem promete regressar. Sendo desacreditado em sua própria casa, Jesus abandona a sua casa definitivamente e regressa a Maria Madalena, com quem passa o resto da sua vida. Jesus parte então pelas terras judias operando milagres de pouca envergadura, até que por força das circunstâncias se apercebe da sua real capacidade e começa a ajudar os menos afortunados. Após um diálogo com Deus num lago, Jesus sabe qual é a sua missão, e trata de a cumprir, contrariado, estes eventos todos resultando no desfecho que já nos é familiar.
O que há de inovador nesta obra de Saramago não é a história. A história de Jesus já foi mil vezes contada. Nem o modo peculiar de usar a ortografia, que em Saramago é uma constante. Não, o que torna este livro único é o enfoque que Saramago dá ao lado mais humano de Jesus, aos seus relacionamentos com os outros e com a sua família. Os milagres são de pouquíssima relevância nesta obra, completamente secundários. O que não é secundário é a crítica à religião que atravessa a obra do início ao fim. Saramago começa logo a arrasar com a descrição de uma imagem da crucificação de Cristo, dissecando todos os aspetos e pormenores da imagem. E pelo livro fora há essa crítica á religião, a Deus e a todos os aspetos mais negros da religião e da fé. Desde um inverter de papéis entre Deus e o Diabo, que segundo o livro, Deus é mau porque quer e o diabo é mau porque o fizeram assim. A maior crítica a Deus encontra-se no episódio do diálogo entre Jesus e Deus no lago. Deus revela a Jesus o que o futuro o espera e Jesus questiona todos os eventos, como as guerras intermináveis em nome da religião, sendo a resposta de Deus a tudo: porque tem de ser.
A crítica que Saramago fez nesta obra valeu-lhe muita má fama entre o público católico, desamor que Saramago sempre ignorou como sendo fruto de uma cultura conformista sem vontade de pensar. Independentemente das críticas que Saramago recebeu, é e será um dos maiores escritores da literatura portuguesa, e O Evangelho segundo Jesus Cristo uma dádiva que não é justamente apreciada. Independentemente de se ser religioso ou não, esta obra é uma das mais brilhantes e inspiradas da língua portuguesa. Mais não me resta que recomendar, mais, impor a leitura deste brilhantíssimo romance.
Citações:
"Jesus poderá dizer ao seu progenitor, Pai, não tens de levar contigo toda a culpa, e, no segredo do seu coração, quiçá ouse perguntar, Quando chegará, Senhor, o dia em que virás a nós para reconheceres os teus erros perante os homens."
"Este homem, que traz em si uma promessa de Deus, não tem outro sítio aonde ir se não a casa de uma prostituta. Não pode regressar ao rebanho, Vai-te, disse-lhe Pastor, nem tornar à sua própria casa, Não te cremos, disse-lhe a família, e agora os seus passos hesitam, tem medo de ir, tem medo de chegar, é como se estivesse novamente no meio do deserto"
"Serás a colher que eu mergulharei na humanidade para a retirar cheia dos homens que acreditarão no deus novo em que me vou tornar, Cheia de homens, para os devorares, Não precisa que eu o devore, quem a si mesmo se devorará."
Pontuação: 10/10
Inteligentes leituras,
Gonçalo M. Matos
Como contar uma história que já foi contada mil vezes. Contá-la mais uma vez. A história narrada nesta obra é uma história com que toda a gente está familiarizada. José e Maria decidem um dia fazer um filho, ao qual dão o nem de Jesus, e desde o início o recém-nascido parece protegido por alguma providência divina, uma vez que se salva por sorte da morte certa, ordenada por Herodes, morte essa de que não tiveram a sorte de escapar todos os recém-nascidos de Belém. José, atormentado por pesadelos, dá o seu melhor para manter a sua família, composta de Maria, Jesus e mais nove filhos, mas a sua vida chega a um fim abrupto e inesperado, ficando Maria sozinha a cuidar dos seus filhos. Isto passa-se até Jesus sair de casa e ir fazer de pastor do maior rebanho do mundo, como ajudante de uma personagem que nos é apresentada simplesmente como Pastor. Após uns anos dessa vida, Jesus encontra Deus no deserto, que lhe apresenta um contrato que não pode ser debatido nem recusado. Regressado a casa, Jesus conhece Maria Madalena em Magdala, a quem promete regressar. Sendo desacreditado em sua própria casa, Jesus abandona a sua casa definitivamente e regressa a Maria Madalena, com quem passa o resto da sua vida. Jesus parte então pelas terras judias operando milagres de pouca envergadura, até que por força das circunstâncias se apercebe da sua real capacidade e começa a ajudar os menos afortunados. Após um diálogo com Deus num lago, Jesus sabe qual é a sua missão, e trata de a cumprir, contrariado, estes eventos todos resultando no desfecho que já nos é familiar.
O que há de inovador nesta obra de Saramago não é a história. A história de Jesus já foi mil vezes contada. Nem o modo peculiar de usar a ortografia, que em Saramago é uma constante. Não, o que torna este livro único é o enfoque que Saramago dá ao lado mais humano de Jesus, aos seus relacionamentos com os outros e com a sua família. Os milagres são de pouquíssima relevância nesta obra, completamente secundários. O que não é secundário é a crítica à religião que atravessa a obra do início ao fim. Saramago começa logo a arrasar com a descrição de uma imagem da crucificação de Cristo, dissecando todos os aspetos e pormenores da imagem. E pelo livro fora há essa crítica á religião, a Deus e a todos os aspetos mais negros da religião e da fé. Desde um inverter de papéis entre Deus e o Diabo, que segundo o livro, Deus é mau porque quer e o diabo é mau porque o fizeram assim. A maior crítica a Deus encontra-se no episódio do diálogo entre Jesus e Deus no lago. Deus revela a Jesus o que o futuro o espera e Jesus questiona todos os eventos, como as guerras intermináveis em nome da religião, sendo a resposta de Deus a tudo: porque tem de ser.
A crítica que Saramago fez nesta obra valeu-lhe muita má fama entre o público católico, desamor que Saramago sempre ignorou como sendo fruto de uma cultura conformista sem vontade de pensar. Independentemente das críticas que Saramago recebeu, é e será um dos maiores escritores da literatura portuguesa, e O Evangelho segundo Jesus Cristo uma dádiva que não é justamente apreciada. Independentemente de se ser religioso ou não, esta obra é uma das mais brilhantes e inspiradas da língua portuguesa. Mais não me resta que recomendar, mais, impor a leitura deste brilhantíssimo romance.
Citações:
"Jesus poderá dizer ao seu progenitor, Pai, não tens de levar contigo toda a culpa, e, no segredo do seu coração, quiçá ouse perguntar, Quando chegará, Senhor, o dia em que virás a nós para reconheceres os teus erros perante os homens."
"Este homem, que traz em si uma promessa de Deus, não tem outro sítio aonde ir se não a casa de uma prostituta. Não pode regressar ao rebanho, Vai-te, disse-lhe Pastor, nem tornar à sua própria casa, Não te cremos, disse-lhe a família, e agora os seus passos hesitam, tem medo de ir, tem medo de chegar, é como se estivesse novamente no meio do deserto"
"Serás a colher que eu mergulharei na humanidade para a retirar cheia dos homens que acreditarão no deus novo em que me vou tornar, Cheia de homens, para os devorares, Não precisa que eu o devore, quem a si mesmo se devorará."
Pontuação: 10/10
Inteligentes leituras,
Gonçalo M. Matos
domingo, 20 de março de 2016
"As Cidades Invisíveis", de Italo Calvino
Concluindo este romance fica uma incerteza. Várias, talvez, mas uma principal: este romance relata o relato de cidades que são ou o devaneio por cidades que podem ser? É provavelmente a dúvida mais pertinente que este romance de Italo Calvino nos deixa. Confesso que, quando me falaram desta obra, eu não conhecia Calvino, não sabia com o que contar. Mas todos os livros são assim, um mergulho no desconhecido. E foi o que fiz. Mergulhei neste romance e ressurgi iluminado e intrigado. Talvez esta seja a palavra que melhor caracteriza este livro: intrigante. É intrigante no sentido da história, do estilo, do conceito, do conteúdo. É um livro filosófico sem ser filosofia. É uma obra interessante e bem escrita, de um dos maiores escritores italianos do século XX.
A narrativa do livro parte de uma premissa interessante. A obra é o relato que Marco Polo faz ao grande Kublai Khan das cidades que visitou no vasto império deste. E é basicamente esta a narrativa. Quando falei da parte intrigante deste romance referia-me a isto mesmo. Não consigo alongar-me pela historia porque história em si não existe. No entanto, não deixa de haver um fio condutor do desenrolar do romance. Entre cada capítulo Marco Polo e Kublai Kahn refletem sobre o que Polo relatou e enveredam por conversas filosóficas no sentido de apurar o verdadeiro propósito do espaço de uma cidade. Marco Polo descreve um total de 55 cidades, cada uma diferente da outra. As descrições das cidades são feitas através de prosas curtas que chegam a lembrar poemas devido à sua profundidade. As cidades são divididas em 11 grupos temáticos, havendo cinco de cada grupo. As descrições das cidades vão para além do espaço físico da cidade, entrando pelo componente humano em cada cidade. As cidades descritas por Marco Polo a Kublai Kahn largam a sua função espacial e funcionam como meio de analisar o comportamento humano, cada uma das descrições recorrendo ao fantástico e ao surreal. Por vezes, o grande Kahn desconfia se Polo estará a dizer a verdade ou não, sendo que Polo responde sempre de forma ambígua, deixando o leitor na dúvida se estará realmente a relatar ou a imaginar. A imaginação é o tema que atravessa o livro, a efabulação é o mecanismo de narrar a história. Mas o autor consegue deixar ambiguamente a dúvida se a efabulação não será uma forma de relatar a realidade ou se a verdade não será apenas a representação física do devaneio.
Tanto a nível formal como material, esta obra é muito interessante. Intrigante do ponto de vista de não ser uma história no seu sentido convencional. Mas a geração de Calvino é assim mesmo. Os escritores da segunda metade do século XX representam isso mesmo: o romper com os cânones tradicionais da primeira metade do século com o seguir outras vias alternativas às vias alternativas. As Cidades Invisíveis são isso mesmo, uma inovação de uma inovação, um pegar na vanguarda do início do século e levá-la por um caminho alternativo, igualmente inovador.
Posto isto, não posso deixar de elogiar a obra e o autor. Este intrigante livro merece ser lido por qualquer apreciador de literatura alternativa de final do século passado.
Citações:
"Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
Mas qual é a pedra que sustém a ponte? - pergunta Kublai Kan.
A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra - responde Marco, - mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, refletindo. Depois acrescenta: Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: Sem pedras não há arco."
Pontuação: 8.5/10
Intrigantes leituras,
Gonçalo M. Matos
A narrativa do livro parte de uma premissa interessante. A obra é o relato que Marco Polo faz ao grande Kublai Khan das cidades que visitou no vasto império deste. E é basicamente esta a narrativa. Quando falei da parte intrigante deste romance referia-me a isto mesmo. Não consigo alongar-me pela historia porque história em si não existe. No entanto, não deixa de haver um fio condutor do desenrolar do romance. Entre cada capítulo Marco Polo e Kublai Kahn refletem sobre o que Polo relatou e enveredam por conversas filosóficas no sentido de apurar o verdadeiro propósito do espaço de uma cidade. Marco Polo descreve um total de 55 cidades, cada uma diferente da outra. As descrições das cidades são feitas através de prosas curtas que chegam a lembrar poemas devido à sua profundidade. As cidades são divididas em 11 grupos temáticos, havendo cinco de cada grupo. As descrições das cidades vão para além do espaço físico da cidade, entrando pelo componente humano em cada cidade. As cidades descritas por Marco Polo a Kublai Kahn largam a sua função espacial e funcionam como meio de analisar o comportamento humano, cada uma das descrições recorrendo ao fantástico e ao surreal. Por vezes, o grande Kahn desconfia se Polo estará a dizer a verdade ou não, sendo que Polo responde sempre de forma ambígua, deixando o leitor na dúvida se estará realmente a relatar ou a imaginar. A imaginação é o tema que atravessa o livro, a efabulação é o mecanismo de narrar a história. Mas o autor consegue deixar ambiguamente a dúvida se a efabulação não será uma forma de relatar a realidade ou se a verdade não será apenas a representação física do devaneio.
Tanto a nível formal como material, esta obra é muito interessante. Intrigante do ponto de vista de não ser uma história no seu sentido convencional. Mas a geração de Calvino é assim mesmo. Os escritores da segunda metade do século XX representam isso mesmo: o romper com os cânones tradicionais da primeira metade do século com o seguir outras vias alternativas às vias alternativas. As Cidades Invisíveis são isso mesmo, uma inovação de uma inovação, um pegar na vanguarda do início do século e levá-la por um caminho alternativo, igualmente inovador.
Posto isto, não posso deixar de elogiar a obra e o autor. Este intrigante livro merece ser lido por qualquer apreciador de literatura alternativa de final do século passado.
Citações:
"Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
Kublai Kan permanece silencioso, refletindo. Depois acrescenta:
Polo responde:
Pontuação: 8.5/10
Intrigantes leituras,
Gonçalo M. Matos
sexta-feira, 11 de março de 2016
"Jesus Cristo bebia cerveja", de Afonso Cruz
Já antes o disse, gosto muito de descobrir qualidade em autores contemporâneos. E descobri qualidade em Afonso Cruz. Jesus Cristo bebia cerveja revelou-se, para mim, uma agradável surpresa, um exceder das expetativas que eu tinha criado quanto ao autor. Ao contrário do que aconteceu com outros, fui criando expetativas à medida que se aproximava a altura de conhecer a escrita de Afonso Cruz que foram mais que correspondidas. Confesso-me rendido a este autor de pensamento profundo e escrita leve. Este livro foi considerado o melhor livro do ano pelos leitores do Público. Afonso Cruz é considerado por muitos críticos como uma das vozes mais poderosas e originais da literatura portuguesa contemporânea e eu concordo. Mais acrescento que é dos melhores autores da Nova Geração literária.
A história segue o quotidiano de uma aldeia do Alentejo, mais especificamente, de alguns dos seus habitantes, com especial enfoque para Rosa e a sua avó, Antónia. Rosa é uma rapariga feita mulher recentemente e Antónia é uma mulher em final de vida, semi-impotente e enrugada pela vida. Ao longo do romance vamos tendo luz sobre alguns aspetos da vida de Antónia e de Rosa, especificamente do pai e da mãe de Rosa. O romance, segundo a minha perceção, pode ser dividido em duas partes: a primeira parte é composta pela apresentação dos variados personagens que compõem a história, dos seus presentes, passados, das suas inquietações e perversões. É-nos introduzido o professor Borja, um homem de ciência, descrente, o sargento Oliveira, cujo nome "lhe assenta que nem uma árvore", o padre Teves, um homem de Deus, pervertido e um tanto hipócrita (a hipocrisia da Igreja Católica, assim como o seu potencial a ser algo belo, é algo que atravessa o romance), a inglesa que comprou uma aldeia, o pastor Ari, que se apaixona por Rosa, entre outros mais personagens, coloridos ou não. A segunda parte é a narrativa que nos é prometida pela sinopse: os preparativos para que a aldeia da inglesa se transforme em Jerusalém. Nesta parte somos apresentados ao esforço e dedicação das pessoas para que seja feita uma reprodução fiel da Terra Santa. Antónia fica muito feliz por "cumprir" o seu desejo e essa felicidade contagia Rosa. E o romance parte daqui em crescendo até ao desenrolar final, simultaneamente trágico e revelador. No romance vão sendo feitas referências ao título do livro e ao "western" que acompanha este livro, o A Morte não Ouve o Pianista.
A história deste romance é um mimo. Um mimo humanístico. As suas personagens são tão humanas, com as suas complicações, as suas esquisitices e os seus passados complicados ou não. Ao longo da leitura deste romance, Afonso Cruz vai-nos deixando montes e montes de frases profundas e que nos deixam a pensar, de comparações muito engraçadas e de frases muito memoráveis. Inclusive, vai-nos apresentando pensamentos, quer do narrador, quer dos personagens, autênticas pérolas da efabulação literária.
Penso que é notório que gostei muito de ler este romance. E agora, tenho vontade de descobrir Afonso Cruz. Faço minhas as palavras de Valter Hugo Mãe: «Não vou descansar até que todos os leitores descubram o Afonso Cruz. Já prometi usar de violência física para obrigar um a um a ler a maravilha que ele escreve, e não estou a brincar.»
Citações:
"Há dois tipos de Deus: o que nasce da barriga vazia e o que nasce da barriga cheia. O primeiro é vazio, terroso, carnal, necessário para criar uma sensação de amparo e justiça num mundo em que não há nada disso. O segundo é um luxo, fruto de elucubrações. Não precisamos dele, mas ainda assim fazemo-lo existir."
" O povo - diz Fartaria, enquanto limpa os cardos no adro da igreja - é como as solas dos sapatos, serve para pisar, serve para que não nos magoemos ao tocar no pó."
"Uma corda estica até ao seu comprimento, mas pode passar uma vida dobrada sobre si mesma, enrolada para dentro."
Pontuação: 9.8/10
Curiosas leituras,
Gonçalo M. Matos
A história segue o quotidiano de uma aldeia do Alentejo, mais especificamente, de alguns dos seus habitantes, com especial enfoque para Rosa e a sua avó, Antónia. Rosa é uma rapariga feita mulher recentemente e Antónia é uma mulher em final de vida, semi-impotente e enrugada pela vida. Ao longo do romance vamos tendo luz sobre alguns aspetos da vida de Antónia e de Rosa, especificamente do pai e da mãe de Rosa. O romance, segundo a minha perceção, pode ser dividido em duas partes: a primeira parte é composta pela apresentação dos variados personagens que compõem a história, dos seus presentes, passados, das suas inquietações e perversões. É-nos introduzido o professor Borja, um homem de ciência, descrente, o sargento Oliveira, cujo nome "lhe assenta que nem uma árvore", o padre Teves, um homem de Deus, pervertido e um tanto hipócrita (a hipocrisia da Igreja Católica, assim como o seu potencial a ser algo belo, é algo que atravessa o romance), a inglesa que comprou uma aldeia, o pastor Ari, que se apaixona por Rosa, entre outros mais personagens, coloridos ou não. A segunda parte é a narrativa que nos é prometida pela sinopse: os preparativos para que a aldeia da inglesa se transforme em Jerusalém. Nesta parte somos apresentados ao esforço e dedicação das pessoas para que seja feita uma reprodução fiel da Terra Santa. Antónia fica muito feliz por "cumprir" o seu desejo e essa felicidade contagia Rosa. E o romance parte daqui em crescendo até ao desenrolar final, simultaneamente trágico e revelador. No romance vão sendo feitas referências ao título do livro e ao "western" que acompanha este livro, o A Morte não Ouve o Pianista.
A história deste romance é um mimo. Um mimo humanístico. As suas personagens são tão humanas, com as suas complicações, as suas esquisitices e os seus passados complicados ou não. Ao longo da leitura deste romance, Afonso Cruz vai-nos deixando montes e montes de frases profundas e que nos deixam a pensar, de comparações muito engraçadas e de frases muito memoráveis. Inclusive, vai-nos apresentando pensamentos, quer do narrador, quer dos personagens, autênticas pérolas da efabulação literária.
Penso que é notório que gostei muito de ler este romance. E agora, tenho vontade de descobrir Afonso Cruz. Faço minhas as palavras de Valter Hugo Mãe: «Não vou descansar até que todos os leitores descubram o Afonso Cruz. Já prometi usar de violência física para obrigar um a um a ler a maravilha que ele escreve, e não estou a brincar.»
Citações:
"Há dois tipos de Deus: o que nasce da barriga vazia e o que nasce da barriga cheia. O primeiro é vazio, terroso, carnal, necessário para criar uma sensação de amparo e justiça num mundo em que não há nada disso. O segundo é um luxo, fruto de elucubrações. Não precisamos dele, mas ainda assim fazemo-lo existir."
"
"Uma corda estica até ao seu comprimento, mas pode passar uma vida dobrada sobre si mesma, enrolada para dentro."
Pontuação: 9.8/10
Curiosas leituras,
Gonçalo M. Matos
quarta-feira, 9 de março de 2016
"A Confissão de Lúcio", de Mário de Sá-Carneiro
Não são, felizmente, raras as vezes em que leituras das quais não sabemos o que esperar nos surpreendem pela positiva. São, no entanto, mais raras a vezes em que já contamos com algo de bom e nos sai algo de espetacular. Com este A Confissão de Lúcio, confesso-me abismado, assombrado, arrebatado e positivamente surpreendido pela escrita e história deste belíssimo romance. É considerado, justamente, dos melhores romances da literatura portuguesa do século XX, pelo seu rompimento com os cânones tradicionais de escrever em português, principalmente, mas não só. O romance é, verdadeiramente, uma obra de génio, sendo que a sua história e o seu estilo de escrita servem como uma antevisão do que se seguiria na literatura portuguesa da segunda metade do século XX para a frente. Um romance à frente do seu tempo.
A história é intrigante, e a forma como o narrador a inicia, querendo declarar-se inocente pelo crime pelo qual cumpriu 10 anos, revela já o quão intrigante e espantosa esta será. A história segue a vida de Lúcio, o narrador, vivendo e estudando em Paris, onde se embrenhou nos meios literários da cidade, na altura, efervescente, coração pulsante das artes europeias. O narrador vai relatando o seu quotidiano na companhia de um escultor seu amigo, quando trava conhecimento com Ricardo Loureiro, com quem estabelece uma amizade muito íntima, plena de mútua compreensão. Nesta altura, o narrador relata-nos as inquietações de Loureiro, que este revelava a Lúcio nas suas muitas conversas. Certa altura, Lúcio decide partir para Lisboa, onde frequenta a casa do seu amigo e onde conhece Marta, que supõe ser mulher de Loureiro. Também em Lisboa este passa agradáveis serões na companhia de artistas, mas o seu interesse por Marta vai aumentando, mas também a sua inquietação, alimentada por um misto de mistério e de desassossego, ajudada por acontecimentos pontuais e bizarros. Tudo isto se acumula em catadupa para um final tão arrebatador como misterioso e simplesmente genial.
Este romance, digo-o, roça a perfeição. Não é extenso, não deixando de ser profundo, é extremamente culto, não deixando de ser acessível. É Sá-Carneiro no apogeu da sua prosa. É talvez um dos romances mais brilhantes e literariamente satisfatórios que alguma vez li. Não poupo nem nunca pouparei elogios ao brilhantismo de Sá-Carneiro em A Confissão de Lúcio. É tão provido de significado e profundidade que está aberto à interpretação de quem lê. Faz-nos pensar, e eu gosto muito da arte que nos obriga a refletir. O estilo de escrita e a forma de contar a história que Sá-Carneiro emprega neste romance assemelha-se às que surgiriam décadas mais tarde. Li este livro e ocorreu-me à mente uma escrita contemporânea, algo que autores atuais teriam escrito. Qual Edgar Allan Poe, Sá-Carneiro foi um homem à frente do seu tempo, ignorado pelos seus contemporâneos pela sua originalidade invulgar. Mesmo nos dias de hoje, Sá-Carneiro é recordado como poeta ou simplesmente como co-fundador da revista Orpheu, juntamente com Fernando Pessoa, o que, na minha opinião, é ingratidão para com a genialidade da obra que acabei de ler. O meu maior desejo com este texto é que outros leiam este romance e que reconheçam Sá-Carneiro como o genial escritor que ele é.
Recomendo esta leitura a todos os que desejem ser arrebatados por uma leitura tão surpreendente como brilhante.
Citações:
"Não importa que me acreditem, mas só digo a verdade mesmo quando ela é inverosímil."
"Simplesmente, não era essa a expressão do seu rosto. Sabendo tratar-se de um grande artista, os fotógrafos e os pintores ungiram-lhe a fronte numa expressão nimbada que lhe não pertencia. Convém desconfiar sempre dos retratos dos grandes homens..."
"Todo eu agora era dúvidas. Em coisa alguma acreditava. Nem sequer na minha obsessão"
Pontuação: 10/10
Arrebatadoras leituras,
Gonçalo M. Matos
A história é intrigante, e a forma como o narrador a inicia, querendo declarar-se inocente pelo crime pelo qual cumpriu 10 anos, revela já o quão intrigante e espantosa esta será. A história segue a vida de Lúcio, o narrador, vivendo e estudando em Paris, onde se embrenhou nos meios literários da cidade, na altura, efervescente, coração pulsante das artes europeias. O narrador vai relatando o seu quotidiano na companhia de um escultor seu amigo, quando trava conhecimento com Ricardo Loureiro, com quem estabelece uma amizade muito íntima, plena de mútua compreensão. Nesta altura, o narrador relata-nos as inquietações de Loureiro, que este revelava a Lúcio nas suas muitas conversas. Certa altura, Lúcio decide partir para Lisboa, onde frequenta a casa do seu amigo e onde conhece Marta, que supõe ser mulher de Loureiro. Também em Lisboa este passa agradáveis serões na companhia de artistas, mas o seu interesse por Marta vai aumentando, mas também a sua inquietação, alimentada por um misto de mistério e de desassossego, ajudada por acontecimentos pontuais e bizarros. Tudo isto se acumula em catadupa para um final tão arrebatador como misterioso e simplesmente genial.
Este romance, digo-o, roça a perfeição. Não é extenso, não deixando de ser profundo, é extremamente culto, não deixando de ser acessível. É Sá-Carneiro no apogeu da sua prosa. É talvez um dos romances mais brilhantes e literariamente satisfatórios que alguma vez li. Não poupo nem nunca pouparei elogios ao brilhantismo de Sá-Carneiro em A Confissão de Lúcio. É tão provido de significado e profundidade que está aberto à interpretação de quem lê. Faz-nos pensar, e eu gosto muito da arte que nos obriga a refletir. O estilo de escrita e a forma de contar a história que Sá-Carneiro emprega neste romance assemelha-se às que surgiriam décadas mais tarde. Li este livro e ocorreu-me à mente uma escrita contemporânea, algo que autores atuais teriam escrito. Qual Edgar Allan Poe, Sá-Carneiro foi um homem à frente do seu tempo, ignorado pelos seus contemporâneos pela sua originalidade invulgar. Mesmo nos dias de hoje, Sá-Carneiro é recordado como poeta ou simplesmente como co-fundador da revista Orpheu, juntamente com Fernando Pessoa, o que, na minha opinião, é ingratidão para com a genialidade da obra que acabei de ler. O meu maior desejo com este texto é que outros leiam este romance e que reconheçam Sá-Carneiro como o genial escritor que ele é.
Recomendo esta leitura a todos os que desejem ser arrebatados por uma leitura tão surpreendente como brilhante.
Citações:
"Não importa que me acreditem, mas só digo a verdade
"Simplesmente, não era essa a expressão do seu rosto. Sabendo tratar-se de um grande artista, os fotógrafos e os pintores ungiram-lhe a fronte numa expressão nimbada que lhe não pertencia. Convém desconfiar sempre dos retratos dos grandes homens..."
"Todo eu agora era dúvidas. Em coisa alguma acreditava. Nem sequer na minha obsessão"
Pontuação: 10/10
Arrebatadoras leituras,
Gonçalo M. Matos
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