William Faulkner é considerado um dos grandes romancistas do século XX, tendo a sua obra sido premiada com o Nobel da Literatura em 1949. Juntamente com James Joyce e Virginia Woolf, Faulkner foi um dos grandes cultores da técnica narrativa do fluxo de consciência. Esta técnica denota-se nas páginas deste que é o seu romance mais conhecido e considerado a sua obra-prima.
A narrativa prende-se com o declínio da família Bascomb Compson, uma grande família numa cidade fictícia no sul dos Estados Unidos, como símbolo da decadência do próprio Sul norte-americano. Esse declínio é relatado em quatro partes, que são as que compõem o romance. Na primeira parte, observamos o mondo aos olhos de Benjy Compson, um deficiente mental de 33 anos, que entre passado e presente nos tenta relatar o ambiente familiar que o rodeia. Na segunda parte, conhecemos a perspetiva de Quentin Compson, o filho mais velho, e somos conduzidos através dos processos mentais e das memórias marcantes que o conduziram a um final abrupto. Na terceira parte, conhecemos o mundo aos olhos de Jason Compson, o filho mais novo, um homem cínico e brutal, retrógrado, manipulador e calculista, enquanto vamos conhecendo as suas perspetivas sobre os outros e a sua própria família, para além da ação principal do romance. Na quarta e última parte, um narrador omnisciente relata-nos o dia de vários personagens que conhecemos ao longo da narrativa, principalmente, a criada negra dos Compson, a Dilsey. Entre estes quatro relatos navegam personagens como o Pai e a Mãe dos Compson, Jason e Caroline Compson, os criados negros destes, como Dilsey, Luster, T.P., entre outros, a quarta filha dos Compson, a irmã dos outros três, Caddy Compson e a sua filha Quentin. Todos eles caminham pelas páginas do romance em direção a um abismo do qual a outrora magnífica casa dos Compson já não tem possibilidade de fuga.
Conforme foi dito, o romance encontra-se dividido em quatro partes, as três primeiras tendo a estrutura de um relato, feito pelos três descendentes masculinos dos Compson, na primeira pessoa, e a última sob a forma de uma narração tradicional na terceira pessoa. O que é mais extraordinário neste romance é a estrutura de cada uma das partes. A técnica narrativa do fluxo de consciência é a regra nas três primeiras partes. A primeira parte é enigmática ao abrir o romance, pois trata-se de um relato impressionista levado a cabo por um deficiente mental. Isto leva a que a narração conheça saltos temporais e curvas e contracurvas de lógica, tudo formando um labirinto de fragmentos nos quais o leitor caminha perdido, como se atravessasse um denso nevoeiro. A segunda parte leva-nos ao fatídico derradeiro dia de Quentin Compson, pelo que somos guiados através de pensamentos, memórias e impressões que já nos vão fornecendo algumas luzes sobre a evolução do declínio familiar central do romance. No auge deste relato, uma parte destaca-se, na qual o narrador se expressa através de frases curtas, sem pontuação gráfica e sem regra, todas a frases em minúsculas, técnica utilizada para nos fazer sentir a dissolução mental que opera na cabeça de Quentin. A terceira parte é a que, dentro dos relatos, nos fornece mais luzes sobre o ambiente circundante, sendo que Jason Compson enceta numa busca no passado para a justificação do presente, sempre se colocando no papel da vítima, daquele que teve de fazer sacrifícios pela sua família, quando na realidade não passa de um oportunista manipulador que engana todos quantos o rodeiam, revelando também uma natureza brutal e violenta quando se trata do desafio que é controlar a filha da sua irmã Caddy, a Quentin, que foi enviada para a casa dos Compson pela mãe para que pudesse ter uma vida melhor que a que teria com ela. Na última parte, a narrativa segue uma técnica tradicional, na terceira pessoa. É nesta parte final que todas as peças do puzzle se encaixam e onde conhecemos por fim o abismo onde a família Compson caiu sem possibilidade de regresso. O retrato que é feito dos personagens não é lisongeiro, à exceção da criada negra, Dilsey, que é a única personagem no romance que parece controlar o rumo das vidas do romance. Caddy apresenta-se neste romance como uma protagonista silenciosa, figurando em todos os relatos, sem nunca nos ser dado a conhecer o seu lado dos acontecimentos. Caddy é a verdadeira vítima da decadência da família, acabando por ser a que sofre mais com tudo o que acontece, não lhe facilitando nada o feitio manipulador do irmão. Porque tal se verifica, a sua filha, Quentin, acaba por também sofrer, desejando sempre poder escapar do poço fundo onde rastejavam os Compson. Todos estes personagens, e o ambiente que os rodeia, são um símbolo da decadência do sul dos Estados Unidos e da perda do sentido que o Sonho Americano sofreu no século XX.
Nada mais há a acrescentar além de que se trata este de um romance de leitura obrigatória para todos quanto apreciam o experimentalismo modernista literário do século XX, claro que não descartando a própria história que enforma esta obra. Uma obra de arte total, portanto.
Citações:
"A Caddy abraçou-me e eu ouvia-nos a todos nós e à escuridão, e uma coisa que eu podia cheirar. Depois já conseguia ver as janelas onde as árvores estavam a zumbir. Então a escuridão começou a girar com formas suaves e brilhantes, como sempre acontece, mesmo quando a Caddy diz que eu estive a dormir."
"De todas as palavras, as mais tranquilizantes. As palavras mais tranquilizantes. Non fui. Sum. Fui. Non Sum. Algures um dia ouvi os sinos. No Mississipi ou no Massachussetts. Eu fui. Não sou. No Massachussetts ou no Mississipi. O Shreve tinha uma garrafa no baú. Não vais sequer abri-la Mr. e Mrs. Jason Richmond anunciam o Três vezes. Dias. Não vais sequer abri-la casamento da sua filha Candace a bebida ensina-nos a confundir os fins com os meios Eu sou. Bebe. Eu não fui."
"Ben começou de novo a soltar gemidos longos, desesperados. Mas não era nada de importância. Apenas sons. Dir-se-ia que, por uma conjunção de planetas, nele encontravam voz por um instante todo o tempo, toda a injustiça e toda a pena."
Pontuação: 10/10
Gonçalo Martins de Matos
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
quinta-feira, 18 de julho de 2019
"O paraíso segundo Lars D.", de João Tordo
O paraíso segundo Lars D. é o segundo romance da "trilogia" dos lugares sem nome, série de três livros de João Tordo sem ligação sequencial entre eles. É-lhes atribuída a mudança de paradigma na escrita do autor, e neste segundo romance nota-se com mais força esse fator. Mas mais para a frente analisaremos isso melhor.
Neste romance, conhecemos a narradora, uma mulher sexagenária, casada com Lars, um escritor da mesma idade. Este tem uma personalidade solitária e ensimesmada, e vive coberto de uma angústia profunda. Há largos anos que não publica nenhum livro. Na primeira parte do livro, conhecemos Lars pelos olhos da sua mulher, que vai discorrendo sobre episódios antigos ou recentes da sua vida conjugal e da tarefa nem sempre simples de partilhar a sua vida com Lars. Nesta primeira parte, sabemos de antemão que o escritor desapareceu, e que a narradora também tenta levar a sua vida com o peso dessa ausência. No seu prédio, no último andar, mora um jovem estudante de Teologia de seu nome Xavier, que se torna uma companhia para as inquietações da narradora. Na segunda parte, é-nos relatada, já por uma terceira pessoa omnisciente, a trama "principal" do romance: a madrugada de insónia que leva Lars a descobrir no seu carro uma jovem desmaiada, de seu nome Gloria, a levá-la para a sua e a cuidar dela. O escritor e a mulher decidem ajudar a rapariga, que diz ter sido assaltada e ter-se refugiado do frio no carro de Lars, levando-a o escritor até à estação de comboios. Só que, em vez de fazer isso, ambos seguem até uma zona de praia e ficam ambos a morar numa casa de verão. Na terceira parte, regressamos ao relato da narradora, mas desta vez apenas localizando-se temporalmente no presente sem Lars e nos dias com Xavier, em busca do consolo da inquietude que a ausência do escritor deixou na sua mulher.
Anteriormente, referi que estes abrem um novo capítulo na escrita do autor, colocando de seguida a dúvida se não estariam antes a encerrar o capítulo anterior. Bem, as dúvidas dissiparam-se neste segundo romance. Neste, a mudança nota-se com mais força. Os temas típicos da obra de João Tordo mantêm-se, mas o estilo de romancear transfigura-se. Assistimos, assim, aqui, à metamorfose estilística do autor e da sua obra, mais do que no romance anterior. O romance encontra-se dividido em três partes, sendo o narrador, na primeira e na terceira, autodiegético, e na segunda heterodiegético. Esta segunda parte do romance demarca-se, não só por essa diferença narrativa, mas também por nela ocorrer a ação "física" do romance. No resto do livro, a ação é mais psicológica, focada na memória e nos mundos interiores dos personagens (note-se que há passagem de tempo em todas elas, mas é diferente a perceção que temos dessa passagem). Na segunda parte, vemos o enredo principal ocorrer, a fuga de Lars com Gloria, e que vida levaram eles nessa fuga. É fascinante a reutilização que João Tordo faz das personagens cujos nomes já ouvimos em O luto de Elias Gro. Nomes como o de Lars, de Xavier, de Alma e de Cecilia, personagens fulcrais no romance anterior, também aparecem aqui, com o mesmo peso existencial, mas com as suas importâncias narrativas modificadas. O simbolismo que marca o romance anterior também se faz sentir neste. A ilha, o farol e a ideia de paraíso são marcas presentes e indispensáveis neste universo de lugares sem nome. Como nos anteriores romances do autor, há uma grande melancolia e angústia que se faz sentir nas páginas deste romance. Um último pormenor curioso é o romance inédito que Lars deixa antes de desaparecer, um manuscrito de seu nome O luto de Elias Gro. Este exemplo de metatextualidade proporciona uma delícia acrescentada à leitura do romance, na medida em que o autor nos guia através dos pensamentos e angústias de Lars para percebermos as angústias do narrador d' O luto. A perspetiva que nos é trazida neste romance altera-nos a perspetiva inicial que tivemos do romance anterior, o que constituiu um exercício fabuloso por parte de João Tordo. Mais uma pedra na pirâmide literária que este autor tem vindo a erguer.
Posto isto, trata-se de uma obra que deve merece, e bem, ser lida por todos aqueles que procurem uma leitura carregada de sentimento, mas simultaneamente sóbria e inovadora.
Citações:
"Ultimamente, tenho reparado nisto. Que somos abraçados pelo pó; que entre o nosso corpo e as restantes coisas existe um espaço que julgamos vazio, mas que está cheio de uma matéria qualquer que é pó e mais do que pó, que é sombra e mais do que sombra."
"Tacteia o caminho até à sala e, uma vez aí, abre as janelas de par em par. A noite é um hino sobre o mar, a Lua enorme e imóvel no meio do céu, ainda uma nuvem pardacenta chorando sobre as águas. O brilho do céu provoca-lhe um horror intenso."
"(...) espreitou pelas ripas de madeira e pensou, nesse momento, que todos os sons aconteciam a todos os instantes mas viviam soterrados por outros ruídos, mais prementes, menos graciosos, que os escondiam: as marés ocultas pelas obras de um prédio, o grasnar de patos bebés pelas vozes de um grupo de italianos, o bocejar de um urso na floresta pelo motor de um avião. Tudo estava escondido por outra coisa qualquer e, debaixo de tudo, um avassalador silêncio."
Pontuação: 9/10
Gonçalo Martins de Matos
Neste romance, conhecemos a narradora, uma mulher sexagenária, casada com Lars, um escritor da mesma idade. Este tem uma personalidade solitária e ensimesmada, e vive coberto de uma angústia profunda. Há largos anos que não publica nenhum livro. Na primeira parte do livro, conhecemos Lars pelos olhos da sua mulher, que vai discorrendo sobre episódios antigos ou recentes da sua vida conjugal e da tarefa nem sempre simples de partilhar a sua vida com Lars. Nesta primeira parte, sabemos de antemão que o escritor desapareceu, e que a narradora também tenta levar a sua vida com o peso dessa ausência. No seu prédio, no último andar, mora um jovem estudante de Teologia de seu nome Xavier, que se torna uma companhia para as inquietações da narradora. Na segunda parte, é-nos relatada, já por uma terceira pessoa omnisciente, a trama "principal" do romance: a madrugada de insónia que leva Lars a descobrir no seu carro uma jovem desmaiada, de seu nome Gloria, a levá-la para a sua e a cuidar dela. O escritor e a mulher decidem ajudar a rapariga, que diz ter sido assaltada e ter-se refugiado do frio no carro de Lars, levando-a o escritor até à estação de comboios. Só que, em vez de fazer isso, ambos seguem até uma zona de praia e ficam ambos a morar numa casa de verão. Na terceira parte, regressamos ao relato da narradora, mas desta vez apenas localizando-se temporalmente no presente sem Lars e nos dias com Xavier, em busca do consolo da inquietude que a ausência do escritor deixou na sua mulher.
Anteriormente, referi que estes abrem um novo capítulo na escrita do autor, colocando de seguida a dúvida se não estariam antes a encerrar o capítulo anterior. Bem, as dúvidas dissiparam-se neste segundo romance. Neste, a mudança nota-se com mais força. Os temas típicos da obra de João Tordo mantêm-se, mas o estilo de romancear transfigura-se. Assistimos, assim, aqui, à metamorfose estilística do autor e da sua obra, mais do que no romance anterior. O romance encontra-se dividido em três partes, sendo o narrador, na primeira e na terceira, autodiegético, e na segunda heterodiegético. Esta segunda parte do romance demarca-se, não só por essa diferença narrativa, mas também por nela ocorrer a ação "física" do romance. No resto do livro, a ação é mais psicológica, focada na memória e nos mundos interiores dos personagens (note-se que há passagem de tempo em todas elas, mas é diferente a perceção que temos dessa passagem). Na segunda parte, vemos o enredo principal ocorrer, a fuga de Lars com Gloria, e que vida levaram eles nessa fuga. É fascinante a reutilização que João Tordo faz das personagens cujos nomes já ouvimos em O luto de Elias Gro. Nomes como o de Lars, de Xavier, de Alma e de Cecilia, personagens fulcrais no romance anterior, também aparecem aqui, com o mesmo peso existencial, mas com as suas importâncias narrativas modificadas. O simbolismo que marca o romance anterior também se faz sentir neste. A ilha, o farol e a ideia de paraíso são marcas presentes e indispensáveis neste universo de lugares sem nome. Como nos anteriores romances do autor, há uma grande melancolia e angústia que se faz sentir nas páginas deste romance. Um último pormenor curioso é o romance inédito que Lars deixa antes de desaparecer, um manuscrito de seu nome O luto de Elias Gro. Este exemplo de metatextualidade proporciona uma delícia acrescentada à leitura do romance, na medida em que o autor nos guia através dos pensamentos e angústias de Lars para percebermos as angústias do narrador d' O luto. A perspetiva que nos é trazida neste romance altera-nos a perspetiva inicial que tivemos do romance anterior, o que constituiu um exercício fabuloso por parte de João Tordo. Mais uma pedra na pirâmide literária que este autor tem vindo a erguer.
Posto isto, trata-se de uma obra que deve merece, e bem, ser lida por todos aqueles que procurem uma leitura carregada de sentimento, mas simultaneamente sóbria e inovadora.
Citações:
"Ultimamente, tenho reparado nisto. Que somos abraçados pelo pó; que entre o nosso corpo e as restantes coisas existe um espaço que julgamos vazio, mas que está cheio de uma matéria qualquer que é pó e mais do que pó, que é sombra e mais do que sombra."
"Tacteia o caminho até à sala e, uma vez aí, abre as janelas de par em par. A noite é um hino sobre o mar, a Lua enorme e imóvel no meio do céu, ainda uma nuvem pardacenta chorando sobre as águas. O brilho do céu provoca-lhe um horror intenso."
"(...) espreitou pelas ripas de madeira e pensou, nesse momento, que todos os sons aconteciam a todos os instantes mas viviam soterrados por outros ruídos, mais prementes, menos graciosos, que os escondiam: as marés ocultas pelas obras de um prédio, o grasnar de patos bebés pelas vozes de um grupo de italianos, o bocejar de um urso na floresta pelo motor de um avião. Tudo estava escondido por outra coisa qualquer e, debaixo de tudo, um avassalador silêncio."
Pontuação: 9/10
Gonçalo Martins de Matos
sexta-feira, 12 de julho de 2019
"Aprender a rezar na Era da Técnica", de Gonçalo M. Tavares
Após um início meio conturbado com a obra e a escrita de Gonçalo M. Tavares, queria aqui desde já retificar o génio literário que se observa na sua obra. Se antes vacilei neste reconhecimento ao autor, nada mais foi que imaturidade literária. Reconheço-o agora. Gonçalo M. Tavares é, de facto, um dos escritores contemporâneos mais originais e brilhantes e merece, sem dúvida, todos os prémios e reconhecimentos que lhe são atribuídos. Este Aprender a rezar na Era da Técnica é o quarto e último volume da tetralogia O Reino, da qual fazem parte Um Homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalém.
O protagonista desta história, Lenz Buchmann, teve uma educação cruel e militarista por parte do seu pai Frederich, o que o marcou e moldou na sua idade adulta. Lenz é um médico muito competente, um dos melhores profissionais do hospital, precisamente por causa da sua educação. Desprovido de sentimentos fúteis, trata-se de um "homem forte", objetivo e pragmático, para além de frio e calculista. Depois de nos ser dada a conhecer muita da ideologia pessoal de Lenz, entramos naquela que parece ser a história chave deste romance: o abandono do exercício da medicina por Lenz para se poder dedicar à política. Possuindo as características já referidas, a ascensão de Lenz no Partido do poder é rápida, eficaz e impiedosa, conseguindo ele chegar, no pouco tempo que esteve no Partido, ao lugar de vice-presidente. No intermédio de tudo isto, é-lhe atribuída uma secretária, de seu nome Julia Liegnitz, que o irá acompanhar o resto da narrativa. Todo este sucesso tem um final abrupto, dando-se um acontecimento definitivo que marca o fim de todo o seu sucesso. A posição de Lenz no mundo é abalada e este nunca mais a recupera.
Como os anteriores, este romance trabalha a perspetiva pessoal dos seus personagens sobre o mundo. Neste caso, a perspetiva do protagonista, Lenz Buchmann. O subtítulo do romance, "Posição no mundo de Lenz Buchmann", demonstra isso mesmo. E que perspetiva! Através dos seus olhos, conhecemos as suas ideias sobre os fortes e os fracos, sobre a natureza e o homem, sobre a paz e a guerra, e sobre como estes conceitos andam sempre em conflito, na luta pela posição mais vantajosa no mundo. Como nos romances anteriores, estas ideias servem para traçar um retrato negro sobre o poder, a crueldade, a ambição e a loucura na alma humana. O romance encontra-se dividido em três partes, cujos nomes não referirei pois oferecem revelações fundamentais sobre a história. Na primeira parte, conhecemos o "homem forte" e as suas ideias, para além da sua ascensão no Partido; na segunda parte, vemos a alteração da posição no mundo de Lenz; a terceira parte consagra em definitivo esta alteração. Lenz é um homem cujas ideias e percurso nos levam, de início, a não torcer por ele, porque não conseguimos concordar com a sua visão do mundo. No entanto, curiosamente, não conseguimos de deixar de reconhecer a lógica por trás dos seus pensamentos. Aí reside um dos pontos fortes deste romance (e dos outros, no geral), a lógica aos serviço da loucura e da crueldade. O duelo força vs fraqueza percorre o romance de uma ponta a outra. Nos aspetos formais, este romance, como já escrevi para Jerusalém, possui uma escrita que parece objetiva e analítica, mas que está carregada de subjetividade e simbolismo quanto baste, que é fácil não repararmos numa primeira leitura de qualquer dos romances que compõem esta teralogia. Também a forma dos capítulos é fascinante e peculiar, sendo estes compostos por capítulos principais divididos em sub-capítulos, cada qual com uma frase que espelha a ideia ínsita a cada um deles.
Concluindo, portanto, trata-se esta de uma leitura fascinante e intrigante que não pode deixar de ser feita por todos quanto adorem a leitura de uma astuta análise das profundezas mais obscuras da alma humana.
Citações:
"Todas as frases de simpatia podiam ser vistas, segundo um outro olhar, como frases de ataque. Ao deixar passar o outro à frente, um homem não estava a aceitar ser segundo mas sim a preparar o mapa do terreno para poder controlar visualmente o homem que por instantes se julgava em primeiro lugar. A vantagem de alguém estar à nossa frente, dissera uma vez o pai de Lenz, é estar de costas viradas para nós. Não importa o lugar onde estamos mas o campo de visão e a posição relativa."
"Frederich apontava para o jardim e para o seu jardineiro, há muito entrado na decadência física, e dizia para os filhos que aquilo era bem o exemplo do que é a natureza nos tempos de paz: até um velho, analfabeto, com pouca força de braços, e incapaz de dizer uma única frase sensata, até um homem desses, um homem secundário, conseguia controlar aquele jardim, aquela outra máquina, aquela máquina verde."
"Todas as estratégias militares diziam o óbvio: apanhar o inimigo de costas, quando muito frente a frente se formos mais poderosos, e de cima, claro - quem está em cima tem vantagem, desde a construção dos castelos altos que todos o sabem - no entanto nenhuma referência era feita a um inimigo que viesse por baixo; o ataque, por baixo não era considerado."
Pontuação: 9.5/10
Gonçalo Martins de Matos
O protagonista desta história, Lenz Buchmann, teve uma educação cruel e militarista por parte do seu pai Frederich, o que o marcou e moldou na sua idade adulta. Lenz é um médico muito competente, um dos melhores profissionais do hospital, precisamente por causa da sua educação. Desprovido de sentimentos fúteis, trata-se de um "homem forte", objetivo e pragmático, para além de frio e calculista. Depois de nos ser dada a conhecer muita da ideologia pessoal de Lenz, entramos naquela que parece ser a história chave deste romance: o abandono do exercício da medicina por Lenz para se poder dedicar à política. Possuindo as características já referidas, a ascensão de Lenz no Partido do poder é rápida, eficaz e impiedosa, conseguindo ele chegar, no pouco tempo que esteve no Partido, ao lugar de vice-presidente. No intermédio de tudo isto, é-lhe atribuída uma secretária, de seu nome Julia Liegnitz, que o irá acompanhar o resto da narrativa. Todo este sucesso tem um final abrupto, dando-se um acontecimento definitivo que marca o fim de todo o seu sucesso. A posição de Lenz no mundo é abalada e este nunca mais a recupera.
Como os anteriores, este romance trabalha a perspetiva pessoal dos seus personagens sobre o mundo. Neste caso, a perspetiva do protagonista, Lenz Buchmann. O subtítulo do romance, "Posição no mundo de Lenz Buchmann", demonstra isso mesmo. E que perspetiva! Através dos seus olhos, conhecemos as suas ideias sobre os fortes e os fracos, sobre a natureza e o homem, sobre a paz e a guerra, e sobre como estes conceitos andam sempre em conflito, na luta pela posição mais vantajosa no mundo. Como nos romances anteriores, estas ideias servem para traçar um retrato negro sobre o poder, a crueldade, a ambição e a loucura na alma humana. O romance encontra-se dividido em três partes, cujos nomes não referirei pois oferecem revelações fundamentais sobre a história. Na primeira parte, conhecemos o "homem forte" e as suas ideias, para além da sua ascensão no Partido; na segunda parte, vemos a alteração da posição no mundo de Lenz; a terceira parte consagra em definitivo esta alteração. Lenz é um homem cujas ideias e percurso nos levam, de início, a não torcer por ele, porque não conseguimos concordar com a sua visão do mundo. No entanto, curiosamente, não conseguimos de deixar de reconhecer a lógica por trás dos seus pensamentos. Aí reside um dos pontos fortes deste romance (e dos outros, no geral), a lógica aos serviço da loucura e da crueldade. O duelo força vs fraqueza percorre o romance de uma ponta a outra. Nos aspetos formais, este romance, como já escrevi para Jerusalém, possui uma escrita que parece objetiva e analítica, mas que está carregada de subjetividade e simbolismo quanto baste, que é fácil não repararmos numa primeira leitura de qualquer dos romances que compõem esta teralogia. Também a forma dos capítulos é fascinante e peculiar, sendo estes compostos por capítulos principais divididos em sub-capítulos, cada qual com uma frase que espelha a ideia ínsita a cada um deles.
Concluindo, portanto, trata-se esta de uma leitura fascinante e intrigante que não pode deixar de ser feita por todos quanto adorem a leitura de uma astuta análise das profundezas mais obscuras da alma humana.
Citações:
"Todas as frases de simpatia podiam ser vistas, segundo um outro olhar, como frases de ataque. Ao deixar passar o outro à frente, um homem não estava a aceitar ser segundo mas sim a preparar o mapa do terreno para poder controlar visualmente o homem que por instantes se julgava em primeiro lugar. A vantagem de alguém estar à nossa frente, dissera uma vez o pai de Lenz, é estar de costas viradas para nós. Não importa o lugar onde estamos mas o campo de visão e a posição relativa."
"Frederich apontava para o jardim e para o seu jardineiro, há muito entrado na decadência física, e dizia para os filhos que aquilo era bem o exemplo do que é a natureza nos tempos de paz: até um velho, analfabeto, com pouca força de braços, e incapaz de dizer uma única frase sensata, até um homem desses, um homem secundário, conseguia controlar aquele jardim, aquela outra máquina, aquela máquina verde."
"Todas as estratégias militares diziam o óbvio: apanhar o inimigo de costas, quando muito frente a frente se formos mais poderosos, e de cima, claro - quem está em cima tem vantagem, desde a construção dos castelos altos que todos o sabem - no entanto nenhuma referência era feita a um inimigo que viesse por baixo; o ataque, por baixo não era considerado."
Pontuação: 9.5/10
Gonçalo Martins de Matos
segunda-feira, 1 de julho de 2019
"Lunário", de Al Berto
Al Berto é sem dúvida um dos nomes incontornáveis da poesia portuguesa do final do século XX. Como acontece com inúmeros outros poetas, a sua obra em prosa acaba por muitas vezes ser secundarizada face à sua obra poética. Esse pormenor costuma levar-me a indagar aquela.
Beno, o protagonista desta narrativa, recorda a vida errante e excessiva que o levou até ao momento em que começamos a história. Uma vida deambulatória, de excessos e noturna. Desde logo nos é dito que nos primeiros tempos, Beno não se apegava a nada, viajando de cidade em cidade e nunca ficando em nenhuma demasiado tempo. Uma noite, no café que frequentava, o Lura, é abordado por um homem que não lhe diz o seu nome, mas os dois começam a viver juntos, dando-lhe Beno o nome de Nému. E juntos viveram. Um dia são visitados por Alba, que sabemos ser amiga de ambos e mãe de um filho com Beno, para voltarem a sair à noite. Mais para frente conhecemos Kid e Zohía, ambos amigos de Beno, que no auge do romance serão peças fulcrais. Mais tarde ainda, conheceremos Alaíno, companheiro de Zohía. Todos estes personagens se movem nas suas vidas, errantes, sem saber com o que contar no dia seguinte, até que cada uma das histórias abertas se vai fechando até à conclusão final.
Antes de mais, este livro trata-se de um texto autobiográfico, desde logo se evidenciando com as semelhanças entre o nome do autor e o nome de Beno, passando pelo gosto pela escrita e pela pintura por que ambos são conhecidos. Sendo assim, todas as vidas e todas as histórias que encontramos nesta obra são reflexos do próprio autor, desdobrado em ambos, procurando alguma lógica na fragmentação diária da sua vida. Há, no caráter deambulatório da vida dos personagens, uma reflexão do próprio autor na sua própria deambulação. O livro é soberbamente escrito, denotando-se uma sensibilidade e uma inquietação fora do comum que, nunca é de mais repetir, sempre marcaram a vida de Al Berto, evidentes a quem conhecer a sua obra. A construção dos capítulos é fascinante. Cada capítulo é uma fase lunar (daí o nome do romance), sendo que no início e no fim temos o anoitecer e o amanhecer, o "Crepúsculo" e a "Umbria", culminando tudo num "Cântico" final. Tudo se desenvolve em crescendo até ao apogeu, à "Lua Cheia", decrescendo o ritmo e o passo a partir de aí. É toda a prosa, no fundo, um enorme poema. E que poema. É fascinante observar a desfragmentação do autor nas suas personas literárias, de modo a conseguir alguma fuga da inquietação que o assombra. Um outro aspeto, mais formal, que me fascinou neste livro foi a capa. Apesar do que diz o acertado ditado popular sobre as capas dos livros, a verdade é que esta capa faz parte da primeira atração que este livro provoca (esta edição da Assírio & Alvim, claro). Da capa deste livro fita-nos intensamente um jovem Al Berto, enigmático, convidando-nos a vir conhecê-lo. É uma capa muito bem pensada para o objetivo do livro (sendo até por isso mesmo que as edições desta chancela da Porto Editora colocam os seus poetas nas capas dos seus livros), uma complementaridade entre o conteúdo e a forma. E isso apenas contribuiu para o fascínio por esta obra.
Resta portanto recomendar a leitura desta obra, especialmente se alguma inquietação incomodar o hipotético leitor; pode ser que assim encontre uma fuga para o que o assola.
Citações:
"Uma brisa noturna e carregada de sal desatou a soprar. O dia começava a morrer. A espuma das ondas tornara-se quase vermelha, a água ardia. Beno sentiu-se envolto numa espécie de torpor que o cegava. Olhava o mar, pressentia-o mais do que, na verdade, o via. E tudo o que via, afinal, não era senão uma mancha azulada estendendo-se a perder de vista, metalizada e ondulante, onde o crepúsculo derramava breves incêndios."
"Disseram um ao outro como se chamavam. Compraram cigarros e livros. Beberam café numa esplanada junto ao rio. Passearam-se até que o halo avermelhado do crepúsculo caiu sobre a cidade. A noite tornou-se densa, e os asfaltos refletiam a feérica luminosidade dos néons e dos semáforos."
" - Há tempos, aprisionei o tigre com olhos de rubi numa imagem de papel. Levei-o para dentro do meu sonho e passei noites inteiras a domá-lo, e agora ele anda à solta, muito manos, sedutor, por toda a casa. Já não sonho com ele, sonho com Beno. Mas o tigre só é verdadeiramente visível quando me dói alguma coisa e os espelhos me prendem o olhar. Pergunto-me sempre que estranho sonho me terá acordado..."
Pontuação: 8.9/10
Gonçalo Martins de Matos
Beno, o protagonista desta narrativa, recorda a vida errante e excessiva que o levou até ao momento em que começamos a história. Uma vida deambulatória, de excessos e noturna. Desde logo nos é dito que nos primeiros tempos, Beno não se apegava a nada, viajando de cidade em cidade e nunca ficando em nenhuma demasiado tempo. Uma noite, no café que frequentava, o Lura, é abordado por um homem que não lhe diz o seu nome, mas os dois começam a viver juntos, dando-lhe Beno o nome de Nému. E juntos viveram. Um dia são visitados por Alba, que sabemos ser amiga de ambos e mãe de um filho com Beno, para voltarem a sair à noite. Mais para frente conhecemos Kid e Zohía, ambos amigos de Beno, que no auge do romance serão peças fulcrais. Mais tarde ainda, conheceremos Alaíno, companheiro de Zohía. Todos estes personagens se movem nas suas vidas, errantes, sem saber com o que contar no dia seguinte, até que cada uma das histórias abertas se vai fechando até à conclusão final.
Antes de mais, este livro trata-se de um texto autobiográfico, desde logo se evidenciando com as semelhanças entre o nome do autor e o nome de Beno, passando pelo gosto pela escrita e pela pintura por que ambos são conhecidos. Sendo assim, todas as vidas e todas as histórias que encontramos nesta obra são reflexos do próprio autor, desdobrado em ambos, procurando alguma lógica na fragmentação diária da sua vida. Há, no caráter deambulatório da vida dos personagens, uma reflexão do próprio autor na sua própria deambulação. O livro é soberbamente escrito, denotando-se uma sensibilidade e uma inquietação fora do comum que, nunca é de mais repetir, sempre marcaram a vida de Al Berto, evidentes a quem conhecer a sua obra. A construção dos capítulos é fascinante. Cada capítulo é uma fase lunar (daí o nome do romance), sendo que no início e no fim temos o anoitecer e o amanhecer, o "Crepúsculo" e a "Umbria", culminando tudo num "Cântico" final. Tudo se desenvolve em crescendo até ao apogeu, à "Lua Cheia", decrescendo o ritmo e o passo a partir de aí. É toda a prosa, no fundo, um enorme poema. E que poema. É fascinante observar a desfragmentação do autor nas suas personas literárias, de modo a conseguir alguma fuga da inquietação que o assombra. Um outro aspeto, mais formal, que me fascinou neste livro foi a capa. Apesar do que diz o acertado ditado popular sobre as capas dos livros, a verdade é que esta capa faz parte da primeira atração que este livro provoca (esta edição da Assírio & Alvim, claro). Da capa deste livro fita-nos intensamente um jovem Al Berto, enigmático, convidando-nos a vir conhecê-lo. É uma capa muito bem pensada para o objetivo do livro (sendo até por isso mesmo que as edições desta chancela da Porto Editora colocam os seus poetas nas capas dos seus livros), uma complementaridade entre o conteúdo e a forma. E isso apenas contribuiu para o fascínio por esta obra.
Resta portanto recomendar a leitura desta obra, especialmente se alguma inquietação incomodar o hipotético leitor; pode ser que assim encontre uma fuga para o que o assola.
Citações:
"Uma brisa noturna e carregada de sal desatou a soprar. O dia começava a morrer. A espuma das ondas tornara-se quase vermelha, a água ardia. Beno sentiu-se envolto numa espécie de torpor que o cegava. Olhava o mar, pressentia-o mais do que, na verdade, o via. E tudo o que via, afinal, não era senão uma mancha azulada estendendo-se a perder de vista, metalizada e ondulante, onde o crepúsculo derramava breves incêndios."
"Disseram um ao outro como se chamavam. Compraram cigarros e livros. Beberam café numa esplanada junto ao rio. Passearam-se até que o halo avermelhado do crepúsculo caiu sobre a cidade. A noite tornou-se densa, e os asfaltos refletiam a feérica luminosidade dos néons e dos semáforos."
" - Há tempos, aprisionei o tigre com olhos de rubi numa imagem de papel. Levei-o para dentro do meu sonho e passei noites inteiras a domá-lo, e agora ele anda à solta, muito manos, sedutor, por toda a casa. Já não sonho com ele, sonho com Beno. Mas o tigre só é verdadeiramente visível quando me dói alguma coisa e os espelhos me prendem o olhar. Pergunto-me sempre que estranho sonho me terá acordado..."
Pontuação: 8.9/10
Gonçalo Martins de Matos
domingo, 16 de junho de 2019
"O luto de Elias Gro", de João Tordo
O luto de Elias Gro é o primeiro romance da denominada "trilogia" dos lugares sem nome, série de três livros de João Tordo que exploram temas íntimos da alma humana. Sem ligação sequencial entre os três, estes abrem um novo capítulo na escrita do autor (ou será que encerram? mais para a frente analisaremos melhor este ponto).
A história começa com o narrador a contar-nos a vez em que habitou um farol numa ilha, de modo a fugir por momentos da sua vida. Este narrador, lúgubre e melancólico, dependente do álcool para atenuar a sua dor, apresenta-nos de início como conheceu um alemão que lhe arrendou um farol numa ilha para poder viver longe da sua anterior existência, descrevendo-nos a ilha e os seus habitantes. Após a primeira apresentação que nos é feita da Casa das Águas, uma casa vitoriana que tinha sido habitada por um escritor, Lars Drosler, e que fora engolida pelo mar, o narrador descreve-nos a breve rotina que levou nos primeiros tempos na ilha. Rotina que mudou quando, distraído, o narrador atropelou, de bicicleta, Cecilia, uma pequena rapariga espirituosa e perita em anatomia, e Alma, uma mulher muito carinhosa com quem Cecilia passava grande parte do seu tempo livre. Num dos dias subsequentes, o narrador conhece Elias Gro, um padre anglicano, pai de Cecilia, que lhe pede o favor de acompanhar a partir de aí a sua filha até à escola, que era no continente. Estranhando tal pedido, mas aquiescendo de forma a compensar o remorso que sentia em ter atropelado Cecilia, o narrador assim o faz. E é assim que eles começam a passar muito tempo juntos e a trocar as suas ideias e pensamentos. A certa altura, Elias Gro expressa os seus desejos em recuperar a Casa das Águas, recuperando tudo o que pudesse ser dos restos afundados da casa. É assim que o narrador e Cecilia têm acesso aos escritos de Lars Drosler, e encetam numa análise dos mesmos. A parte final da história revela-nos como o narrador vai aos poucos aprendendo a lidar com a sua dor, e como o luto não é algo que pertence a cada um individualmente, mas é um sentimento partilhado por todos nós. O narrador apercebe-se disso quando fica a conhecer os lutos de Alma e, especialmente, de Elias Gro. É com esta renovada perceção que a história avança para uma conclusão inconclusiva, na qual a dor e a renovação se enlaçam e aproximam.
A história começa pelo final. É uma afirmação curiosa e é o eufemismo perfeito para descrever a analepse inicial deste romance. O narrador, como muitos outros antes na obra de João Tordo, é um personagem melancólico, perseguido pelos seu passado e pelos seus demónios, procurando uma fuga e uma expiação dos mesmos. É assim que o narrador decide, primeiro, escrever a sua peculiar história, como terapia, e, em segundo, viajar para a ilha e morar num farol. O farol é um símbolo universal de isolamento mas de esperança, metáfora ideal para a melancolia, a dor e a esperança amalgamadas num mesmo sentimento, numa mesma torre de ferro, fria e distante, mas cuja luz orienta os barcos perdidos no mar. A Casa das Águas também tem a sua função metafórica, quer a que se afundou, quer a que Elias Gro sonhou reconstruir. O luto, como esta casa, consome e afunda, sem nunca conseguirmos recuperar totalmente. Mas isso não quer dizer que não seja possível iludir essa dor. João Tordo é um autor que se apoia em imagens metafóricas de uma forma muito bem conseguida, e este livro é talvez aquele que, até agora, mais evidenciou essa sua capacidade. Todos os personagens fulcrais deste romance, o narrador, Elias Gro, Cecilia, Alma, Lars Drosler, e François Xavier (o faroleiro que habitava no farol), exprimem as suas formas de dor e as suas maneiras de lidar com a dor, de fazer o seu luto e de aprender a, aos poucos, recuperar dela. O final do romance é deixado em aberto, na opinião deste que vos escreve, precisamente para exprimir essa ideia de inconclusão que a dor nos destina. Os temas da expiação, da inquietude, da melancolia e da tristeza são temas recorrentes na obra de João Tordo, aqui encontrando uma espécie de súmula, precisamente porque, pelo menos é dado a entender, nesta obra (e talvez na "trilogia") o autor procura um encerramento temático, e, em simultâneo, um início.
Portanto, remato este texto com a habitual recomendação desta obra. Trata-se de uma leitura que se funde com os nossos demónios, estejam eles ocultos ou não, e que nos ajuda, também, a orientar a dor e o luto que tão inerentes são a todos nós. Um livro que vale a pena ser lido.
Citações:
"O isolamento é uma doença dos nossos dias, disse ele. E tanto é uma doença que, como em todos os estados patológicos, só encontramos alívio quando nos apercebemos de que, sem darmos por isso, perpetuámos essa condição porque é mais doloroso sair dela do que permanecer doente. A sanidade tem um preço."
"Por alguma razão Noé construiu uma arca em forma de um barco. Deus disse-lhe para a construir de boa madeira resinosa e com betume por dentro e por fora. (...) Já nesses tempos se sabia que a água, que é vida por dentro quando a bebemos, corrói tudo por fora. Pense nas marés. A erosão consome ilhas inteiras e, se for preciso, continentes. Contra a água não há nada a fazer. O fogo? A água apaga-o. O ar? A água consome-o. A terra? A água inunda-a. Não é por acaso que o Senhor decretou um dilúvio em vez de um incêndio."
"E os milagres são hiperbólicos porque o verdadeiro milagre passa despercebido. Cristo teve de ressuscitar os mortos e curar os leprosos para que nós percebêssemos que até as coisas mais simples são divinas. Se Cristo se limitasse a construir uma casa, diríamos: Mas isso posso eu fazer. A hipérbole é a fundação de toda a religião. Sim, é isso mesmo: temos de ser confrontados com as coisas que estão fora do nosso alcance para darmos valor àquelas que nos são permitidas."
Pontuação: 8.5/10
Gonçalo Martins de Matos
A história começa com o narrador a contar-nos a vez em que habitou um farol numa ilha, de modo a fugir por momentos da sua vida. Este narrador, lúgubre e melancólico, dependente do álcool para atenuar a sua dor, apresenta-nos de início como conheceu um alemão que lhe arrendou um farol numa ilha para poder viver longe da sua anterior existência, descrevendo-nos a ilha e os seus habitantes. Após a primeira apresentação que nos é feita da Casa das Águas, uma casa vitoriana que tinha sido habitada por um escritor, Lars Drosler, e que fora engolida pelo mar, o narrador descreve-nos a breve rotina que levou nos primeiros tempos na ilha. Rotina que mudou quando, distraído, o narrador atropelou, de bicicleta, Cecilia, uma pequena rapariga espirituosa e perita em anatomia, e Alma, uma mulher muito carinhosa com quem Cecilia passava grande parte do seu tempo livre. Num dos dias subsequentes, o narrador conhece Elias Gro, um padre anglicano, pai de Cecilia, que lhe pede o favor de acompanhar a partir de aí a sua filha até à escola, que era no continente. Estranhando tal pedido, mas aquiescendo de forma a compensar o remorso que sentia em ter atropelado Cecilia, o narrador assim o faz. E é assim que eles começam a passar muito tempo juntos e a trocar as suas ideias e pensamentos. A certa altura, Elias Gro expressa os seus desejos em recuperar a Casa das Águas, recuperando tudo o que pudesse ser dos restos afundados da casa. É assim que o narrador e Cecilia têm acesso aos escritos de Lars Drosler, e encetam numa análise dos mesmos. A parte final da história revela-nos como o narrador vai aos poucos aprendendo a lidar com a sua dor, e como o luto não é algo que pertence a cada um individualmente, mas é um sentimento partilhado por todos nós. O narrador apercebe-se disso quando fica a conhecer os lutos de Alma e, especialmente, de Elias Gro. É com esta renovada perceção que a história avança para uma conclusão inconclusiva, na qual a dor e a renovação se enlaçam e aproximam.
A história começa pelo final. É uma afirmação curiosa e é o eufemismo perfeito para descrever a analepse inicial deste romance. O narrador, como muitos outros antes na obra de João Tordo, é um personagem melancólico, perseguido pelos seu passado e pelos seus demónios, procurando uma fuga e uma expiação dos mesmos. É assim que o narrador decide, primeiro, escrever a sua peculiar história, como terapia, e, em segundo, viajar para a ilha e morar num farol. O farol é um símbolo universal de isolamento mas de esperança, metáfora ideal para a melancolia, a dor e a esperança amalgamadas num mesmo sentimento, numa mesma torre de ferro, fria e distante, mas cuja luz orienta os barcos perdidos no mar. A Casa das Águas também tem a sua função metafórica, quer a que se afundou, quer a que Elias Gro sonhou reconstruir. O luto, como esta casa, consome e afunda, sem nunca conseguirmos recuperar totalmente. Mas isso não quer dizer que não seja possível iludir essa dor. João Tordo é um autor que se apoia em imagens metafóricas de uma forma muito bem conseguida, e este livro é talvez aquele que, até agora, mais evidenciou essa sua capacidade. Todos os personagens fulcrais deste romance, o narrador, Elias Gro, Cecilia, Alma, Lars Drosler, e François Xavier (o faroleiro que habitava no farol), exprimem as suas formas de dor e as suas maneiras de lidar com a dor, de fazer o seu luto e de aprender a, aos poucos, recuperar dela. O final do romance é deixado em aberto, na opinião deste que vos escreve, precisamente para exprimir essa ideia de inconclusão que a dor nos destina. Os temas da expiação, da inquietude, da melancolia e da tristeza são temas recorrentes na obra de João Tordo, aqui encontrando uma espécie de súmula, precisamente porque, pelo menos é dado a entender, nesta obra (e talvez na "trilogia") o autor procura um encerramento temático, e, em simultâneo, um início.
Portanto, remato este texto com a habitual recomendação desta obra. Trata-se de uma leitura que se funde com os nossos demónios, estejam eles ocultos ou não, e que nos ajuda, também, a orientar a dor e o luto que tão inerentes são a todos nós. Um livro que vale a pena ser lido.
Citações:
"O isolamento é uma doença dos nossos dias, disse ele. E tanto é uma doença que, como em todos os estados patológicos, só encontramos alívio quando nos apercebemos de que, sem darmos por isso, perpetuámos essa condição porque é mais doloroso sair dela do que permanecer doente. A sanidade tem um preço."
"Por alguma razão Noé construiu uma arca em forma de um barco. Deus disse-lhe para a construir de boa madeira resinosa e com betume por dentro e por fora. (...) Já nesses tempos se sabia que a água, que é vida por dentro quando a bebemos, corrói tudo por fora. Pense nas marés. A erosão consome ilhas inteiras e, se for preciso, continentes. Contra a água não há nada a fazer. O fogo? A água apaga-o. O ar? A água consome-o. A terra? A água inunda-a. Não é por acaso que o Senhor decretou um dilúvio em vez de um incêndio."
"E os milagres são hiperbólicos porque o verdadeiro milagre passa despercebido. Cristo teve de ressuscitar os mortos e curar os leprosos para que nós percebêssemos que até as coisas mais simples são divinas. Se Cristo se limitasse a construir uma casa, diríamos: Mas isso posso eu fazer. A hipérbole é a fundação de toda a religião. Sim, é isso mesmo: temos de ser confrontados com as coisas que estão fora do nosso alcance para darmos valor àquelas que nos são permitidas."
Pontuação: 8.5/10
Gonçalo Martins de Matos
terça-feira, 23 de abril de 2019
"O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago
Quando O Ano da Morte de Ricardo Reis foi adicionado ao programa de leitura em Língua Portuguesa, substituindo o Memorial do Convento, ficou-me a pulga atrás da orelha e tive que verificar por mim de que trata este romance, e se fará sentido uma tal substituição no programa educativo. Adianto desde já que não, não faz sentido uma tal substituição, apesar da leitura peculiar que este, como os outros romances de Saramago, proporciona. A crítica que é feita pelo autor neste é mais direcionada ao Portugal salazarista, ao contrário do Memorial, que tem uma crítica mais universal, mais enquadrada num sistema de ensino que pretenda abrir os horizontes dos estudantes. Apesar disso, estamos perante mais um romance magnificamente composto por um escritor tão peculiar como o nosso Nobel.
Passados 16 anos de vida no Brasil, Ricardo Reis regressa a Lisboa, de vapor, instalando-se no Hotel Bragança, onde ficará nos próximos meses. Nos tempos em que vive no hotel, a vida vai-se desenrolando, a seu passo e sem pressa, quando uma das criadas, de seu nome Lídia, e ele começam a ter encontros noturnos. Ricardo Reis ocupa os seus dias passeando por Lisboa, observando as suas gentes e as suas paisagens, redescobrindo os seus aspetos e pormenores. Pouco depois, Ricardo Reis conhece Marcenda Sampaio, a quem começa a cortejar, mantendo, no entanto, a sua relação com Lídia. Paralelamente, Ricardo Reis é visitado pelo fantasma de Fernando Pessoa, com quem se encontrará por diversas vezes ao longo da obra. Tudo isto se passa até ao dia em que, após uma situação desagradável para Ricardo Reis, este decide finalmente abandonar o hotel e morar em casa própria, arranjando também um emprego. Os seus encontros com os três personagens mencionados continuam, tornando-se, até, mais frequentes. E é assim que se desenvolve o resto da narrativa até a um final tão poético como agridoce.
Conforme acima foi dito, este é um romance que se foca nos primórdios do Portugal salazarista e da sociedade vigente à época, pelo que, ao bom estilo saramaguiano, essa crítica é feita de forma extremamente sarcástica e certeira, atravessando o romance como seu fio condutor. Só nos apercebemos no final, ao refletir sobre o início, que essa crítica é feita de princípio a fim. Pode ser feita uma divisão deste romance em duas partes: a parte da ingenuidade, que corresponde aos meses que Ricardo Reis passa no Hotel Bragança, não se passando grandes coisas no seu dia-a-dia, não desconfiando este do quanto Lisboa mudara (ou mudava); e a parte da descoberta da verdade, que começa com a saída de Ricardo Reis do hotel. Este último momento marca bem essa divisão. Antes, Ricardo Reis, confinado ao seu quarto de hotel e à sua rotina, ignora que o Estado Novo se vai fixando em Portugal, mas, após a saída do hotel, Ricardo Reis apercebe-se dos movimentos estranhos que se vão passando à sua volta. Marcante desta nova realidade que se lhe afigura perante os olhos é as notícias que chegam do resto do Mundo (principalmente de Espanha), que pintam o quadro do surgimento da Europa ditatorial. Claro, o estilo que distingue Saramago não deixa de se verificar neste romance. O uso comedido de vírgulas, os parágrafos longos, a narração e o discurso impregnados de oralidade. E, claro, a mordacidade do sarcasmo nas críticas. Os personagens que povoam este romance têm o papel de representar um aspeto da sociedade em inícios do Estado Novo, e mesmo da sociedade que será no durante. Destaque seja feito a Salvador, o vigilante e controlador gerente do Hotel Bragança, ao qual nada escapa no seu hotel, a Victor, um agente da PIDE que se faz sempre acompanhar de um forte e incontrolável fedor a cebola, e ao par de velhos que se senta todos os dias no mesmo banco do Alto de Santa Catarina, a nova morada de Ricardo Reis. A estátua de Camões e o busto do Adamastor são presença constante no romance, como que relembrando a simultânea grandeza e pobreza de Portugal, país complexo de grandes heróis mas de brandos costumes.
Reitero, antes de mais, algo que afirmei acima, este não é um romance indicado para leitura obrigatória num programa escolar. No entanto, trata-se de mais um lúcido romance por parte de um autor particularmente propenso a fazê-los. Por isso, este romance deve ser lido por todos quantos apreciem a obra saramaguiana e, no geral, um bom romance.
Citações:
"Um homem grisalho, seco de carnes, assina os últimos papéis, recebe as cópias deles, pode-se ir embora, sair, continuar em terra firme a vida. Acompanha-o um bagageiro cujo aspeto físico não deve ser explicado em pormenor, ou teríamos de prosseguir infinitamente o exame, para que não se instalasse a confusão na cabeça de quem viesse a precisar de distinguir um do outro, se tal se requer, porque deste teríamos de dizer que é seco de carnes, grisalho, e moreno, e de cara rapada, como daquele foi dito já, contudo tão diferentes, passageiro um, bagageiro outro."
"Outras fontes que venham a descobrir-se serão duvidosas, por apócrifas, ainda que verosímeis, certamente não coincidentes entre si e todas com a verdade dos factos, que ignoramos, quem sabe se, faltando-nos tudo, não teremos nós de inventar uma verdade, um diálogo com alguma coerência, um Victor, um doutor-adjunto, uma manhã de chuva e vento, uma natureza compadecida, falso tudo, e verdadeiro."
"Também o Chiado, que mal lhes fez o Chiado, Que foi chocarreiro, desbocado, nada próprio do lugar elegante onde o puseram, Pelo contrário, o Chiado não podia estar em melhor sítio, não é possível imaginar um Camões sem um Chiado, estão muito bem assim, ainda por cima viveram no mesmo século, se houver alguma coisa a corrigir é a posição em que puseram o frade, devia estar virado para o épico, com a mão estendida, não como quem pede, mas como quem oferece e dá"
Pontuação: 7.2/10
Gonçalo Martins de Matos
Passados 16 anos de vida no Brasil, Ricardo Reis regressa a Lisboa, de vapor, instalando-se no Hotel Bragança, onde ficará nos próximos meses. Nos tempos em que vive no hotel, a vida vai-se desenrolando, a seu passo e sem pressa, quando uma das criadas, de seu nome Lídia, e ele começam a ter encontros noturnos. Ricardo Reis ocupa os seus dias passeando por Lisboa, observando as suas gentes e as suas paisagens, redescobrindo os seus aspetos e pormenores. Pouco depois, Ricardo Reis conhece Marcenda Sampaio, a quem começa a cortejar, mantendo, no entanto, a sua relação com Lídia. Paralelamente, Ricardo Reis é visitado pelo fantasma de Fernando Pessoa, com quem se encontrará por diversas vezes ao longo da obra. Tudo isto se passa até ao dia em que, após uma situação desagradável para Ricardo Reis, este decide finalmente abandonar o hotel e morar em casa própria, arranjando também um emprego. Os seus encontros com os três personagens mencionados continuam, tornando-se, até, mais frequentes. E é assim que se desenvolve o resto da narrativa até a um final tão poético como agridoce.
Conforme acima foi dito, este é um romance que se foca nos primórdios do Portugal salazarista e da sociedade vigente à época, pelo que, ao bom estilo saramaguiano, essa crítica é feita de forma extremamente sarcástica e certeira, atravessando o romance como seu fio condutor. Só nos apercebemos no final, ao refletir sobre o início, que essa crítica é feita de princípio a fim. Pode ser feita uma divisão deste romance em duas partes: a parte da ingenuidade, que corresponde aos meses que Ricardo Reis passa no Hotel Bragança, não se passando grandes coisas no seu dia-a-dia, não desconfiando este do quanto Lisboa mudara (ou mudava); e a parte da descoberta da verdade, que começa com a saída de Ricardo Reis do hotel. Este último momento marca bem essa divisão. Antes, Ricardo Reis, confinado ao seu quarto de hotel e à sua rotina, ignora que o Estado Novo se vai fixando em Portugal, mas, após a saída do hotel, Ricardo Reis apercebe-se dos movimentos estranhos que se vão passando à sua volta. Marcante desta nova realidade que se lhe afigura perante os olhos é as notícias que chegam do resto do Mundo (principalmente de Espanha), que pintam o quadro do surgimento da Europa ditatorial. Claro, o estilo que distingue Saramago não deixa de se verificar neste romance. O uso comedido de vírgulas, os parágrafos longos, a narração e o discurso impregnados de oralidade. E, claro, a mordacidade do sarcasmo nas críticas. Os personagens que povoam este romance têm o papel de representar um aspeto da sociedade em inícios do Estado Novo, e mesmo da sociedade que será no durante. Destaque seja feito a Salvador, o vigilante e controlador gerente do Hotel Bragança, ao qual nada escapa no seu hotel, a Victor, um agente da PIDE que se faz sempre acompanhar de um forte e incontrolável fedor a cebola, e ao par de velhos que se senta todos os dias no mesmo banco do Alto de Santa Catarina, a nova morada de Ricardo Reis. A estátua de Camões e o busto do Adamastor são presença constante no romance, como que relembrando a simultânea grandeza e pobreza de Portugal, país complexo de grandes heróis mas de brandos costumes.
Reitero, antes de mais, algo que afirmei acima, este não é um romance indicado para leitura obrigatória num programa escolar. No entanto, trata-se de mais um lúcido romance por parte de um autor particularmente propenso a fazê-los. Por isso, este romance deve ser lido por todos quantos apreciem a obra saramaguiana e, no geral, um bom romance.
Citações:
"Um homem grisalho, seco de carnes, assina os últimos papéis, recebe as cópias deles, pode-se ir embora, sair, continuar em terra firme a vida. Acompanha-o um bagageiro cujo aspeto físico não deve ser explicado em pormenor, ou teríamos de prosseguir infinitamente o exame, para que não se instalasse a confusão na cabeça de quem viesse a precisar de distinguir um do outro, se tal se requer, porque deste teríamos de dizer que é seco de carnes, grisalho, e moreno, e de cara rapada, como daquele foi dito já, contudo tão diferentes, passageiro um, bagageiro outro."
"Outras fontes que venham a descobrir-se serão duvidosas, por apócrifas, ainda que verosímeis, certamente não coincidentes entre si e todas com a verdade dos factos, que ignoramos, quem sabe se, faltando-nos tudo, não teremos nós de inventar uma verdade, um diálogo com alguma coerência, um Victor, um doutor-adjunto, uma manhã de chuva e vento, uma natureza compadecida, falso tudo, e verdadeiro."
"Também o Chiado, que mal lhes fez o Chiado, Que foi chocarreiro, desbocado, nada próprio do lugar elegante onde o puseram, Pelo contrário, o Chiado não podia estar em melhor sítio, não é possível imaginar um Camões sem um Chiado, estão muito bem assim, ainda por cima viveram no mesmo século, se houver alguma coisa a corrigir é a posição em que puseram o frade, devia estar virado para o épico, com a mão estendida, não como quem pede, mas como quem oferece e dá"
Pontuação: 7.2/10
Gonçalo Martins de Matos
terça-feira, 6 de novembro de 2018
"Uma Família Inglesa", de Júlio Dinis
Uma Família Inglesa é uma das (se não a) mais conhecidas obras de Júlio Dinis. Trata-se de uma obra bastante acarinhada pelos leitores portugueses, situada a meio caminho entre o romantismo e o realismo. Por muitos apelidada como a obra-prima do autor, mais que uma história de amor, é um grande retrato da sociedade portuense na segunda metade do século XIX, e das idiossincrasias dominantes da época.
Desde logo são-nos apresentados, numa "Espécie de prólogo em que se faz uma apresentação ao leitor", os personagens nucleares deste romance: Richard Whitestone, um comerciante inglês, Jenny Whitestone, sua generosa filha, e Carlos (Charles) Whitestone, seu leviano filho. Desde logo lhes são atribuídas estas características elementares, que os acompanharão ao longo do romance. Gravitando à volta destas três personagens situam-se as duas últimas personagens principais: Manuel Quintino, guarda-livros da firma Whitestone, e a sua filha, Cecília. Entre a atividade comercial de Mr. Whitestone, a vida doméstica da família inglesa (corporizada no "anjo doméstico" Jenny) e a existência desregrada de Carlos, vão-se sucedendo os dias até Carlos travar conhecimento com uma misteriosa mulher mascarada, na noite de Carnaval, que lhe fica remoendo na memória. Mais tarde vem a saber que essa mulher é Cecília, e, incapaz de deixar de pensar nela, começa a desenvolver-se por ela um sentimento forte. Por seu turno, Cecília já desde o Carnaval que pensava incessantemente no irmão da sua amiga Jenny, desenvolve com o passar do tempo uma paixão pelo jovem inglês. Mediada por Jenny, que escuta os desabafos, quer do seu irmão, quer da sua amiga, a paixão vai-se desenvolvendo à revelia dos restantes personagens, não obstante uma certa resistência inicial de Jenny. Posteriormente, Carlos e Jenny aproximam-se mais devido a um acontecimento mundano envolvendo o velho guarda-livros do comerciante inglês. No entanto, mais próximos do que nunca, surgem entraves atrás de entraves à felicidade de ambos. Por fim, após a transposição desses entraves, Carlos e Cecília podem ser felizes, sendo essa felicidade transmissível a todos os personagens principais apresentados.
O estilo dinisiano é, como foi dito, um misto de romantismo com realismo-naturalismo. Este romance não é exceção. A história que serve de base ao romance encaixa no enredo romântico típico, mas a forma que assume apresenta já os traços do naturalismo que viria a surgir na década posterior à publicação do romance. As personagens trágicas e o fatalismo que assombra as suas vidas marca a maior parte do romance. Mas esse tipo de enredo é secundarizado em função da descrição da vida familiar, comercial e social portuense, já para não falar de um ou outro ocasional deslize para a crítica social (não tão marcada como em obras realistas posteriores). No entanto, o que mais se destaca é a toda a envolvência psicológica que rodeia os personagens, e a evolução que os acompanha do início para o final. Todos atravessam mudanças nas suas opiniões, ideias e personalidades, de uma forma natural, sem parecer fictícia ou forçada. Esta obra é soberba no seu espírito, pois a história mil vezes foi contada antes, sem deixar de ser, no entanto, cativante. Júlio Dinis é um exímio prosador. O vernáculo que emprega e as construções frásicas em que o inclui, sem perder nunca o seu domínio, são sem dúvida os pontos mais fortes do romance (num romance onde não existem per se pontos fracos).
Nunca é de mais recomendar a leitura dos clássicos. E este é um daqueles clássicos de leitura obrigatória na literatura portuguesa. Pela sua qualidade e, acima de tudo, pela boa dose de português (mesmo sendo a história sobre uma família inglesa) que nos apresenta.
Citações:
"- Ho Butterfly, good morning! How do you do sir? - exclamou Mr. Richard, saudando o seu cão perdileto, que lhe estendeu a pata como para um shake-hand. Havia nisto um requerimento para uma fatia de fiambre, o qual o inglês não indeferiu.
"Parece que o tipo nacional é indigno de referência (...). A causa disto é o sermos nós uma nação pequena e pouco à moda, acanhada e bisonha nesta grande e luzidia sociedade europeia, onde por obséquio somos admitidos, dando-nos já por muito lisonjeados, quando os estrangeiros se deixam, benevolamente, admirar por nós."
"Mais uma vez se verificou a eterna luta entre a teoria e a prática; uma, com seus instintos de jovem, com seus hábitos de atividade, com seus amores pelo futuro e pelo progresso; outra, com a frieza da idade madura, com uma índole essencialmente prosaica e conservadora (...) enquanto o jovem letrado desenvolve teorias de ciência social, vistas transcendentes de filosofia de direito, o jurista, encanecido no foro, examina os artigos do código, esmiúça a letra da lei, aconselha as partes e despacha os autos."
Pontuação: 9.9/10
Gonçalo Martins de Matos
Desde logo são-nos apresentados, numa "Espécie de prólogo em que se faz uma apresentação ao leitor", os personagens nucleares deste romance: Richard Whitestone, um comerciante inglês, Jenny Whitestone, sua generosa filha, e Carlos (Charles) Whitestone, seu leviano filho. Desde logo lhes são atribuídas estas características elementares, que os acompanharão ao longo do romance. Gravitando à volta destas três personagens situam-se as duas últimas personagens principais: Manuel Quintino, guarda-livros da firma Whitestone, e a sua filha, Cecília. Entre a atividade comercial de Mr. Whitestone, a vida doméstica da família inglesa (corporizada no "anjo doméstico" Jenny) e a existência desregrada de Carlos, vão-se sucedendo os dias até Carlos travar conhecimento com uma misteriosa mulher mascarada, na noite de Carnaval, que lhe fica remoendo na memória. Mais tarde vem a saber que essa mulher é Cecília, e, incapaz de deixar de pensar nela, começa a desenvolver-se por ela um sentimento forte. Por seu turno, Cecília já desde o Carnaval que pensava incessantemente no irmão da sua amiga Jenny, desenvolve com o passar do tempo uma paixão pelo jovem inglês. Mediada por Jenny, que escuta os desabafos, quer do seu irmão, quer da sua amiga, a paixão vai-se desenvolvendo à revelia dos restantes personagens, não obstante uma certa resistência inicial de Jenny. Posteriormente, Carlos e Jenny aproximam-se mais devido a um acontecimento mundano envolvendo o velho guarda-livros do comerciante inglês. No entanto, mais próximos do que nunca, surgem entraves atrás de entraves à felicidade de ambos. Por fim, após a transposição desses entraves, Carlos e Cecília podem ser felizes, sendo essa felicidade transmissível a todos os personagens principais apresentados.
O estilo dinisiano é, como foi dito, um misto de romantismo com realismo-naturalismo. Este romance não é exceção. A história que serve de base ao romance encaixa no enredo romântico típico, mas a forma que assume apresenta já os traços do naturalismo que viria a surgir na década posterior à publicação do romance. As personagens trágicas e o fatalismo que assombra as suas vidas marca a maior parte do romance. Mas esse tipo de enredo é secundarizado em função da descrição da vida familiar, comercial e social portuense, já para não falar de um ou outro ocasional deslize para a crítica social (não tão marcada como em obras realistas posteriores). No entanto, o que mais se destaca é a toda a envolvência psicológica que rodeia os personagens, e a evolução que os acompanha do início para o final. Todos atravessam mudanças nas suas opiniões, ideias e personalidades, de uma forma natural, sem parecer fictícia ou forçada. Esta obra é soberba no seu espírito, pois a história mil vezes foi contada antes, sem deixar de ser, no entanto, cativante. Júlio Dinis é um exímio prosador. O vernáculo que emprega e as construções frásicas em que o inclui, sem perder nunca o seu domínio, são sem dúvida os pontos mais fortes do romance (num romance onde não existem per se pontos fracos).
Nunca é de mais recomendar a leitura dos clássicos. E este é um daqueles clássicos de leitura obrigatória na literatura portuguesa. Pela sua qualidade e, acima de tudo, pela boa dose de português (mesmo sendo a história sobre uma família inglesa) que nos apresenta.
Citações:
"- Ho Butterfly, good morning! How do you do sir? - exclamou Mr. Richard, saudando o seu cão perdileto, que lhe estendeu a pata como para um shake-hand. Havia nisto um requerimento para uma fatia de fiambre, o qual o inglês não indeferiu.
"Parece que o tipo nacional é indigno de referência (...). A causa disto é o sermos nós uma nação pequena e pouco à moda, acanhada e bisonha nesta grande e luzidia sociedade europeia, onde por obséquio somos admitidos, dando-nos já por muito lisonjeados, quando os estrangeiros se deixam, benevolamente, admirar por nós."
"Mais uma vez se verificou a eterna luta entre a teoria e a prática; uma, com seus instintos de jovem, com seus hábitos de atividade, com seus amores pelo futuro e pelo progresso; outra, com a frieza da idade madura, com uma índole essencialmente prosaica e conservadora (...) enquanto o jovem letrado desenvolve teorias de ciência social, vistas transcendentes de filosofia de direito, o jurista, encanecido no foro, examina os artigos do código, esmiúça a letra da lei, aconselha as partes e despacha os autos."
Pontuação: 9.9/10
Gonçalo Martins de Matos
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
"A Boneca de Kokoschka", de Afonso Cruz
Este é o terceiro livro de Afonso Cruz que leio e, apesar da sua inegável qualidade e novidade, faltou-lhe qualquer coisa que não o elevou ao nível de outros livros que li do autor. Não obstante, tratou-se de um prazer enorme de leitura como Afonso Cruz sabe bem proporcionar aos seus leitores. Compõe histórias como um pintor compõe uma tela, pincela, traça e adiciona camadas, e desse trabalho resulta um belo fresco que é difícil não admirar.
A história é dividida em três partes. Na primeira parte conhecemos aqueles que podem ser chamados os protagonistas principais da narrativa. São eles Isaac Dresner, um jovem rapaz, Bonifaz Vogel, dono de uma loja de pássaros, e Tsilia Kacev, aprendiz de pintora. Todos moram na cidade de Dresden aquando da Segunda Guerra Mundial, período em que a cidade alemã foi devastada pela queda de toneladas e toneladas de bombas. Esta parte foca-se na forma como os seus destinos aparentemente autónomos se cruzam. A segunda parte apresenta-nos Dresner, Tsilia e Vogel vivendo juntos em Paris, onde Dresner possui uma editora pequena chamada Eurídice! Eurídice! e uma livraria de seu nome Humilhados & Ofendidos, que apenas publica autores rejeitados. Um desses autores é Mathias Popa, autor de várias obras que não conheceram sucesso algum, que oferece a Dresner um último manuscrito para este publicar: A Boneca de Kokoschka. Por fim, a terceira parte apresenta-nos os protagonistas secundários, que são Miro Korda, um músico português, e Adele Varga, uma jovem que procura o amante perdido da sua avó moribunda. Todas as histórias se relacionam umas com as outras de forma a tecer um enredo de vidas que, numa aparente autonomia, dependem umas das outras.
Este é um livro sobre a importância do outro. As vidas e a forma como a diversidade de vidas é fulcral para que estas existam são uma constante ao longo da obra. O livro, como muitos de Afonso Cruz, é uma maravilha da plasticidade que uma obra literária pode ter, ou seja, é um excelente exemplo de como as diferentes formas de arte não são estanques. Para além do texto brilhantemente construído, o próprio livro é visualmente aliciante. Entre parágrafos mais curtos, fotografias e desenhos do próprio autor, as duas formas de arte presentes complementam-se. Ainda neste particular, o pormenor que mais me deleitou e que mais contribui para a referida plasticidade foi o facto de nos ser apresentado, no final da segunda parte, um livro dentro de um livro. O romance A Boneca de Kokoschka escrito por Mathias Popa é-nos dado a ler, incluído na narrativa. Neste, a numeração dos capítulos segue a sequência de Fibonacci (1, 1, 2, 3, 5, 8, 13...), o que foi um pormenor mesmo interessante que o autor acrescentou para enfatizar uma das mensagens principais que pretende transmitir. A construção dessas páginas que dão corpo ao livro de Popa assemelha-se mesmo a um livro, com uma página a servir de capa e uma de contracapa, com biografia do autor e resumo do livro incluídos. Outro pormenor interessante é o facto de alguns dos personagens (e até algumas das obras) referidos fazerem parte de um outro universo que Afonso Cruz constrói em paralelo, com a sua obra Enciclopédia da Estória Universal, o que cria uma sensação de realidade ao universo literário por si criado.
Trata-se de uma leitura interessante e emotiva sobre a importância do outro na construção de nós mesmos que merece indubitavelmente ser lida por todos os apreciadores de uma obra original e criativa.
Citações:
"A sua relação com o mundo e com o tempo podia ser vivida de três maneiras: a) suava quando fazia calor, sem qualquer relação causal, mas apenas simultaneidade, ou b) suava porque fazia calor (que é, aliás, o sistema que costumamos usar para interpretar os fenómenos que acontecem à nossa volta, uma explicação causa/efeito), ou, ainda, c) porque suava, fazia calor(uma maneira de ver as coisas que Aristóteles não aprovaria)."
"Repare que o bigode do Hitler tinha muita piada no Charlot. E o bigode do Charlot era abominável num Hitler. Uma coisa igualzinha, se mudarmos o contexto, determina a nossa alegria ou a nossa tragédia. Duchamp é que tinha razão com aquilo do urinol: é o contexto que cria a arte e o drama e a desgraça e a felicidade."
"Todos dentro de nós para que nos seja fácil compreender aquelas diferenças e, eventualmente, encontrar uma paz no meio dessa tensão. As guerras têm mais dificuldade de existir quando as pessoas se compreendem umas às outras. As bombas caem menos, os prédios tendem a ficar de pé, os corpos não se despedaçam com a mesma frequência, os braços deixam de voar e é possível que as gaiolas deixem de existir, os campos de concentração passem a ser museus para a nossa memória."
Pontuação: 8.9/10
Gonçalo Martins de Matos
A história é dividida em três partes. Na primeira parte conhecemos aqueles que podem ser chamados os protagonistas principais da narrativa. São eles Isaac Dresner, um jovem rapaz, Bonifaz Vogel, dono de uma loja de pássaros, e Tsilia Kacev, aprendiz de pintora. Todos moram na cidade de Dresden aquando da Segunda Guerra Mundial, período em que a cidade alemã foi devastada pela queda de toneladas e toneladas de bombas. Esta parte foca-se na forma como os seus destinos aparentemente autónomos se cruzam. A segunda parte apresenta-nos Dresner, Tsilia e Vogel vivendo juntos em Paris, onde Dresner possui uma editora pequena chamada Eurídice! Eurídice! e uma livraria de seu nome Humilhados & Ofendidos, que apenas publica autores rejeitados. Um desses autores é Mathias Popa, autor de várias obras que não conheceram sucesso algum, que oferece a Dresner um último manuscrito para este publicar: A Boneca de Kokoschka. Por fim, a terceira parte apresenta-nos os protagonistas secundários, que são Miro Korda, um músico português, e Adele Varga, uma jovem que procura o amante perdido da sua avó moribunda. Todas as histórias se relacionam umas com as outras de forma a tecer um enredo de vidas que, numa aparente autonomia, dependem umas das outras.
Este é um livro sobre a importância do outro. As vidas e a forma como a diversidade de vidas é fulcral para que estas existam são uma constante ao longo da obra. O livro, como muitos de Afonso Cruz, é uma maravilha da plasticidade que uma obra literária pode ter, ou seja, é um excelente exemplo de como as diferentes formas de arte não são estanques. Para além do texto brilhantemente construído, o próprio livro é visualmente aliciante. Entre parágrafos mais curtos, fotografias e desenhos do próprio autor, as duas formas de arte presentes complementam-se. Ainda neste particular, o pormenor que mais me deleitou e que mais contribui para a referida plasticidade foi o facto de nos ser apresentado, no final da segunda parte, um livro dentro de um livro. O romance A Boneca de Kokoschka escrito por Mathias Popa é-nos dado a ler, incluído na narrativa. Neste, a numeração dos capítulos segue a sequência de Fibonacci (1, 1, 2, 3, 5, 8, 13...), o que foi um pormenor mesmo interessante que o autor acrescentou para enfatizar uma das mensagens principais que pretende transmitir. A construção dessas páginas que dão corpo ao livro de Popa assemelha-se mesmo a um livro, com uma página a servir de capa e uma de contracapa, com biografia do autor e resumo do livro incluídos. Outro pormenor interessante é o facto de alguns dos personagens (e até algumas das obras) referidos fazerem parte de um outro universo que Afonso Cruz constrói em paralelo, com a sua obra Enciclopédia da Estória Universal, o que cria uma sensação de realidade ao universo literário por si criado.
Trata-se de uma leitura interessante e emotiva sobre a importância do outro na construção de nós mesmos que merece indubitavelmente ser lida por todos os apreciadores de uma obra original e criativa.
Citações:
"A sua relação com o mundo e com o tempo podia ser vivida de três maneiras: a) suava quando fazia calor, sem qualquer relação causal, mas apenas simultaneidade, ou b) suava porque fazia calor (que é, aliás, o sistema que costumamos usar para interpretar os fenómenos que acontecem à nossa volta, uma explicação causa/efeito), ou, ainda, c) porque suava, fazia calor(uma maneira de ver as coisas que Aristóteles não aprovaria)."
"Repare que o bigode do Hitler tinha muita piada no Charlot. E o bigode do Charlot era abominável num Hitler. Uma coisa igualzinha, se mudarmos o contexto, determina a nossa alegria ou a nossa tragédia. Duchamp é que tinha razão com aquilo do urinol: é o contexto que cria a arte e o drama e a desgraça e a felicidade."
"Todos dentro de nós para que nos seja fácil compreender aquelas diferenças e, eventualmente, encontrar uma paz no meio dessa tensão. As guerras têm mais dificuldade de existir quando as pessoas se compreendem umas às outras. As bombas caem menos, os prédios tendem a ficar de pé, os corpos não se despedaçam com a mesma frequência, os braços deixam de voar e é possível que as gaiolas deixem de existir, os campos de concentração passem a ser museus para a nossa memória."
Pontuação: 8.9/10
Gonçalo Martins de Matos
sexta-feira, 24 de agosto de 2018
"Biografia involuntária dos amantes", de João Tordo
Na carreira dos escritores, é muito frequente a mudança. Mudança de estilo, de escrita, de tema, de mensagem. Enquanto um escritor não encontra a sua voz, é frequente que experimente em busca dessa mesma voz. Ou pode acontecer também que se esgote o que uma certa voz tinha a dizer e seja necessário procurar novas vozes com novas mensagens a transmitir. Estou inclinado a encaixar nesta segunda categoria este romance de João Tordo, visto que neste este parece procurar, mais do que a expiação da sua inquietude (mais à frente será melhor analisado), uma nova voz.
A história começa com dois homens e um facto. O narrador, um professor universitário galego, e Saldaña Paris, poeta mexicano, atropelam um javali numa viajem que faziam entre Pontevedra e Compostela. Parte deste facto o narrador para nos introduzir o ambiente do romance. O narrador conta-nos, depois, como conheceu Saldaña Paris e como se criou entre eles uma improvável amizade. Algo no poeta mexicano marca o narrador: uma persistente melancolia. Após esse acidente numa estrada galega, Saldaña Paris pede ao narrador que leia um manuscrito deixado pela sua mulher, Teresa, morta de cancro. A leitura que o espera é a narração de uma vida inquieta e marcada pela dor. Após a leitura, o narrador não conta ao poeta o que leu, o que culmina num ataque de ansiedade que o deixa letárgico. Cabe ao narrador, enquanto o poeta se encontra nesse estado, deslindar o complexo passado de Teresa e conseguir alguma paz para Saldaña Paris e para si próprio. De revelação em revelação, o narrador vai compondo a razão da persistente melancolia de Saldaña Paris, em busca de redenção e alguma paz.
O romance tem um tom obsessivo. No sentido em que há uma inquietação que remói a cabeça do narrador e este faz de tudo para encontrar algum consolo. As dúvidas e o desencanto assaltam-no e ele envereda numa procura que não sabe bem explicar porquê para amenizar a inquietação que o assola. A melancolia que embrenha o texto, atrevo-me a dizer, é a melancolia do próprio autor. Em muitas das suas intervenções, João Tordo fala do ato da escrita como a amenização de dúvidas e inquietações, como a procura por paz para a alma. E é bem patente neste romance essa inquietação, mais do que noutros do autor. A busca por uma resposta que acalme as dúvidas que o assaltam. Algo que também sobressai deste romance é a mudança que se anuncia no estilo do autor. Este foi o último romance que João Tordo publicou antes da sua famosa "Trilogia dos Lugares sem Nome", livros que são já uma fase diferente do escritor. Este romance tem muito desse desejo de mudança. É mais experimental, ensaia formas de escrever e pensar diferentes e varia entre estas ao longo da obra. Mais uma vez, João Tordo consegue transformar algum aspeto da sua vida (Saldaña Paris tem um correspondente na vida real) num romance de qualidade que nos prende até ao fim, sendo construído, como os anteriores, em crescendo, sendo desvelados aspetos nos momentos em que têm de o ser de forma a que tudo se encaixe a caminho do final. Final esse que deixa uma nota de esperança, após toda a angústia do resto da obra. Novamente, o autor revisita personagens de outros textos para criar a sensação de realidade de que falei anteriormente, dando a impressão que sim, tudo isto aconteceu, não é mentira. Um pormenor interessante é a transfiguração que o autor faz para um personagem seu, referido no texto, que será descoberto por quem o ler se estiver atento. Achei interessante o autor colocar-se dessa forma e da forma como é escrito, o que acaba por confirmar a minha suspeita da inquietação do autor.
Recomendo esta leitura. É um texto pesado e extremamente melancólico, mas é facilmente ultrapassável com a leitura das suas páginas e com a descoberta, pouco a pouco, de alguma luz nessa escuridão.
Citações:
"Era a sua melancolia que me encantava, uma melancolia que ele não procurava abater; uma melancolia duradoura e persistente, que chegara para ficar. Essa condição insalubre que chama a si fantasmas e que abre brechas nas convicções mais empedernidas. (...) Saldaña Paris era verdadeiramente melancólico: um homem de outro tempo que vivia aprisionado neste"
"Nunca entendi esta espécie de maldade, Benxamín. Ou, pelo menos, não a entendia então. Que prazer poderiam ter eles em rir-se da incapacidade de alguém? Se vissem um cego esbarrar numa parede teriam a mesma reação? Ou um aleijado a cair das escadas?"
"Permanecia entre nós o grito de velhos terrores; a constatação de que, ainda que as respostas fossem surgindo, a melancolia que era agora minha me mostrava que o mundo era feito de uma matéria porosa que se desfazia assim que a tentávamos tocar; que tudo aquilo que julgávamos sólido não passava de gelo, e que esse gelo, à luz morna que sempre transportávamos quando procurávamos respostas (...), se derretia e se transformava em água; e que, por mais perfeita que fosse a concha que formávamos com as mãos, essa água era impossível de suster."
Pontuação: 8.3/10
Gonçalo Martins de Matos
A história começa com dois homens e um facto. O narrador, um professor universitário galego, e Saldaña Paris, poeta mexicano, atropelam um javali numa viajem que faziam entre Pontevedra e Compostela. Parte deste facto o narrador para nos introduzir o ambiente do romance. O narrador conta-nos, depois, como conheceu Saldaña Paris e como se criou entre eles uma improvável amizade. Algo no poeta mexicano marca o narrador: uma persistente melancolia. Após esse acidente numa estrada galega, Saldaña Paris pede ao narrador que leia um manuscrito deixado pela sua mulher, Teresa, morta de cancro. A leitura que o espera é a narração de uma vida inquieta e marcada pela dor. Após a leitura, o narrador não conta ao poeta o que leu, o que culmina num ataque de ansiedade que o deixa letárgico. Cabe ao narrador, enquanto o poeta se encontra nesse estado, deslindar o complexo passado de Teresa e conseguir alguma paz para Saldaña Paris e para si próprio. De revelação em revelação, o narrador vai compondo a razão da persistente melancolia de Saldaña Paris, em busca de redenção e alguma paz.
O romance tem um tom obsessivo. No sentido em que há uma inquietação que remói a cabeça do narrador e este faz de tudo para encontrar algum consolo. As dúvidas e o desencanto assaltam-no e ele envereda numa procura que não sabe bem explicar porquê para amenizar a inquietação que o assola. A melancolia que embrenha o texto, atrevo-me a dizer, é a melancolia do próprio autor. Em muitas das suas intervenções, João Tordo fala do ato da escrita como a amenização de dúvidas e inquietações, como a procura por paz para a alma. E é bem patente neste romance essa inquietação, mais do que noutros do autor. A busca por uma resposta que acalme as dúvidas que o assaltam. Algo que também sobressai deste romance é a mudança que se anuncia no estilo do autor. Este foi o último romance que João Tordo publicou antes da sua famosa "Trilogia dos Lugares sem Nome", livros que são já uma fase diferente do escritor. Este romance tem muito desse desejo de mudança. É mais experimental, ensaia formas de escrever e pensar diferentes e varia entre estas ao longo da obra. Mais uma vez, João Tordo consegue transformar algum aspeto da sua vida (Saldaña Paris tem um correspondente na vida real) num romance de qualidade que nos prende até ao fim, sendo construído, como os anteriores, em crescendo, sendo desvelados aspetos nos momentos em que têm de o ser de forma a que tudo se encaixe a caminho do final. Final esse que deixa uma nota de esperança, após toda a angústia do resto da obra. Novamente, o autor revisita personagens de outros textos para criar a sensação de realidade de que falei anteriormente, dando a impressão que sim, tudo isto aconteceu, não é mentira. Um pormenor interessante é a transfiguração que o autor faz para um personagem seu, referido no texto, que será descoberto por quem o ler se estiver atento. Achei interessante o autor colocar-se dessa forma e da forma como é escrito, o que acaba por confirmar a minha suspeita da inquietação do autor.
Recomendo esta leitura. É um texto pesado e extremamente melancólico, mas é facilmente ultrapassável com a leitura das suas páginas e com a descoberta, pouco a pouco, de alguma luz nessa escuridão.
Citações:
"Era a sua melancolia que me encantava, uma melancolia que ele não procurava abater; uma melancolia duradoura e persistente, que chegara para ficar. Essa condição insalubre que chama a si fantasmas e que abre brechas nas convicções mais empedernidas. (...) Saldaña Paris era verdadeiramente melancólico: um homem de outro tempo que vivia aprisionado neste"
"Nunca entendi esta espécie de maldade, Benxamín. Ou, pelo menos, não a entendia então. Que prazer poderiam ter eles em rir-se da incapacidade de alguém? Se vissem um cego esbarrar numa parede teriam a mesma reação? Ou um aleijado a cair das escadas?"
"Permanecia entre nós o grito de velhos terrores; a constatação de que, ainda que as respostas fossem surgindo, a melancolia que era agora minha me mostrava que o mundo era feito de uma matéria porosa que se desfazia assim que a tentávamos tocar; que tudo aquilo que julgávamos sólido não passava de gelo, e que esse gelo, à luz morna que sempre transportávamos quando procurávamos respostas (...), se derretia e se transformava em água; e que, por mais perfeita que fosse a concha que formávamos com as mãos, essa água era impossível de suster."
Pontuação: 8.3/10
Gonçalo Martins de Matos
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
"O Manual dos Inquisidores", de António Lobo Antunes
Poucos romanceiam como António Lobo Antunes. Se com a leitura d' As Naus fiquei maravilhado, o fôlego com que este O Manual dos Inquisidores nos é narrado apanhou-me desprevenido. Mas não me surpreendeu, visto que, como antes disse, de Lobo Antunes podemos esperar uma visão muito particular e desafiadora. Aos poucos, com as leituras que vou fazendo de ambos, compreendo porque é depositado em Lobo Antunes e Saramago o domínio da arte do romance do final do século XX.
A história é simples. Seguimos os percursos de um pai e de um filho: João, o engenheiro, o filho; e Francisco, o ministro, o pai. Francisco é (ou foi) ministro de Salazar durante o Estado Novo, e o que vemos desenvolver-se diante nós é a ruína dessa figura e da sua família (e da sua quinta em Palmela), principalmente com a Revolução dos Cravos e posteriores acontecimentos. Desde a infância de João à velhice de Francisco seguimos os seus pensamentos e inquietações, acompanhados dos pensamentos, inquietações e cogitações de outros personagens que os rodeiam ou que de alguma forma intervieram na sua particular história, tais como Albertina (Titina), governanta de Francisco e João, Paula, irmã de João, Milá, amante de Francisco após a sua separação, entre outros. Todas estas vozes compõem o retrato de uma família que não mais é que um retrato de uma era na História do país (ou do final desta).
Formalmente, o romance é composto por cinco relatos, os quais se dividem em três relatos e três comentários (tirando o último relato, que apenas tem dois comentários). Os relatos são narrados pela voz de um personagem em específico, pertencendo estas, por ordem, a João, a Titina, a Paula, a Milá e a Francisco, cada um relatando as suas preocupações e recordações. Os comentários são feitos pelas vozes dos que rodeiam estas personagens centrais, como a mulher de João, a cozinheira da quinta de Palmela, um funcionário de um prédio, a mãe de Milá, entre outros. O estilo de Lobo Antunes é labiríntico, é preciso ter atenção ao que se está a ler. A sua escrita segue o estilo de fluxo de consciência, o que reproduz o processo mental das personagens, acompanhado ocasionalmente de traços de oralidade, principalmente quando os personagens interrompem os seus pensamentos para dizer ao narrador para não escrever certa passagem ou para tomar certa ação. Acima de tudo, aqui se evidencia a característica marcante da obra posterior de Lobo Antunes, que é a quebra da frase para adensar o fluxo de consciência, o que leva a que a falta de conclusão, de pontos finais, nos leve a continuar a ler até encontrarmos essa conclusão. Pelo menos foi esse o efeito que surtiu em mim. O vernáculo é também ponto assente do estilo antuniano, acompanhado de assíndetos e analepses, que suportam a oralidade e fluxo de consciência da escrita, e, acima de tudo, pelas suas metáforas e imagens paradoxais, que são um deleite tão bom de leitura. Por sua vez, a quinta de Palmela representa Francisco e o seu elemento. Degrada-se e desaparece no final, assim como tudo o que Francisco defendeu e representou. Para mim, o pormenor que neste romance me mais marcou a nível de estrutura foi o final (sem entrar em revelações de enredo). Este romance termina em aberto, o último parágrafo da narração não tem um ponto final nem uma conclusão lógica, termina com um simples "que apesar de tudo eu", o que me ofereceu uma cereja no topo do bolo da leitura desta obra.
Esta leitura afigura-se como obrigatória para qualquer apreciador de um bom e apreciável relato em bom português e soberbamente escrito.
Citações:
"um corredor com empregados que escreviam à máquina, convocatórias e avisos que proibiam fumar num painel de cortiça, pessoas à espera e ao fim do corredor uma prateleira de livros, um calendário de parede, dossiers no soalho, uma mesa de repartição pública preenchida por códigos e processos e o juiz entrincheirado de caneta em riste por detrás das leis como para se defender de nós, (...)"
"(...), o som das vozes calou-se, escutei passos a afastarem-se a caminho da estação de comboios lá em baixo ao pé da baía, e uma serenidade enorme como se fôssemos morrer sem morrer, como se deixássemos de respirar continuando vivos, (...)"
"(...), o ano passado vi um homem arrastar-se para o santuário de barriga no chão como uma osga e a mulher a protegê-lo da chuva com a sombrinha, o homem, exausto de ser cobra, sentava-se a descansar e ela, aborrecida, alfinetando-lhe as nádegas com as varetas
- Com o raio da promessa que fizeste nem daqui a um mês lá chegamos"
" - Se calhar o meu pai esqueceu-se madrinha
e a minha madrinha a precisar de soro também
- Cala-te
ela a dizer
- Cala-te
e a baterem à porta como se o
- Cala-te
fosse uma senha, um código, um sinal, (...)"
Pontuação: 9.8/10
Gonçalo Martins de Matos
A história é simples. Seguimos os percursos de um pai e de um filho: João, o engenheiro, o filho; e Francisco, o ministro, o pai. Francisco é (ou foi) ministro de Salazar durante o Estado Novo, e o que vemos desenvolver-se diante nós é a ruína dessa figura e da sua família (e da sua quinta em Palmela), principalmente com a Revolução dos Cravos e posteriores acontecimentos. Desde a infância de João à velhice de Francisco seguimos os seus pensamentos e inquietações, acompanhados dos pensamentos, inquietações e cogitações de outros personagens que os rodeiam ou que de alguma forma intervieram na sua particular história, tais como Albertina (Titina), governanta de Francisco e João, Paula, irmã de João, Milá, amante de Francisco após a sua separação, entre outros. Todas estas vozes compõem o retrato de uma família que não mais é que um retrato de uma era na História do país (ou do final desta).
Formalmente, o romance é composto por cinco relatos, os quais se dividem em três relatos e três comentários (tirando o último relato, que apenas tem dois comentários). Os relatos são narrados pela voz de um personagem em específico, pertencendo estas, por ordem, a João, a Titina, a Paula, a Milá e a Francisco, cada um relatando as suas preocupações e recordações. Os comentários são feitos pelas vozes dos que rodeiam estas personagens centrais, como a mulher de João, a cozinheira da quinta de Palmela, um funcionário de um prédio, a mãe de Milá, entre outros. O estilo de Lobo Antunes é labiríntico, é preciso ter atenção ao que se está a ler. A sua escrita segue o estilo de fluxo de consciência, o que reproduz o processo mental das personagens, acompanhado ocasionalmente de traços de oralidade, principalmente quando os personagens interrompem os seus pensamentos para dizer ao narrador para não escrever certa passagem ou para tomar certa ação. Acima de tudo, aqui se evidencia a característica marcante da obra posterior de Lobo Antunes, que é a quebra da frase para adensar o fluxo de consciência, o que leva a que a falta de conclusão, de pontos finais, nos leve a continuar a ler até encontrarmos essa conclusão. Pelo menos foi esse o efeito que surtiu em mim. O vernáculo é também ponto assente do estilo antuniano, acompanhado de assíndetos e analepses, que suportam a oralidade e fluxo de consciência da escrita, e, acima de tudo, pelas suas metáforas e imagens paradoxais, que são um deleite tão bom de leitura. Por sua vez, a quinta de Palmela representa Francisco e o seu elemento. Degrada-se e desaparece no final, assim como tudo o que Francisco defendeu e representou. Para mim, o pormenor que neste romance me mais marcou a nível de estrutura foi o final (sem entrar em revelações de enredo). Este romance termina em aberto, o último parágrafo da narração não tem um ponto final nem uma conclusão lógica, termina com um simples "que apesar de tudo eu", o que me ofereceu uma cereja no topo do bolo da leitura desta obra.
Esta leitura afigura-se como obrigatória para qualquer apreciador de um bom e apreciável relato em bom português e soberbamente escrito.
Citações:
"um corredor com empregados que escreviam à máquina, convocatórias e avisos que proibiam fumar num painel de cortiça, pessoas à espera e ao fim do corredor uma prateleira de livros, um calendário de parede, dossiers no soalho, uma mesa de repartição pública preenchida por códigos e processos e o juiz entrincheirado de caneta em riste por detrás das leis como para se defender de nós, (...)"
"(...), o som das vozes calou-se, escutei passos a afastarem-se a caminho da estação de comboios lá em baixo ao pé da baía, e uma serenidade enorme como se fôssemos morrer sem morrer, como se deixássemos de respirar continuando vivos, (...)"
"(...), o ano passado vi um homem arrastar-se para o santuário de barriga no chão como uma osga e a mulher a protegê-lo da chuva com a sombrinha, o homem, exausto de ser cobra, sentava-se a descansar e ela, aborrecida, alfinetando-lhe as nádegas com as varetas
- Com o raio da promessa que fizeste nem daqui a um mês lá chegamos"
" - Se calhar o meu pai esqueceu-se madrinha
e a minha madrinha a precisar de soro também
- Cala-te
ela a dizer
- Cala-te
e a baterem à porta como se o
- Cala-te
fosse uma senha, um código, um sinal, (...)"
Pontuação: 9.8/10
Gonçalo Martins de Matos
segunda-feira, 30 de julho de 2018
"As Dez Figuras Negras", de Agatha Christie
And then there were none. Esta expressão, bastante enraizada na cultura popular anglófona, tem a sua origem nesta que é uma das melhores e mais conhecidas histórias de mistério de Agatha Christie, e da própria literatura policial. Há muitos anos que alimentava em mim a vontade de ler esta história tão icónica e, por fim, consegui-o. E as minhas expetativas foram mais do que preenchidas, foram completamente abaladas. Esperava uma história muito boa, mas descobri um romance brilhantemente escrito, pensado e composto, merecedor da fama que detém. Este romance é, inclusive, um dos maiores best-sellers de sempre.
A premissa da história é igualmente famosa. Dez pessoas são convidadas a ficar uns dias numa ilha privada, a convite de um misterioso U. N. Owen. São convidados o juiz Wargrave, o dr. Armstrong, Vera Claythorne, Philip Lombard, o general Macarthur, Emily Brent, Anthony Marston, William Blore e Thomas e Ethel Rogers, todos por motivos distintos, mas de forma semelhante. Depois de ouvirem uma voz misteriosa que os acusa a cada um de ter cometido um assassínio, começam a ser assassinados, um a um, a seguir a letra de uma lengalenga infantil. Caberá aos sobreviventes determinar quem deles é o misterioso assassino, sendo que reviravolta atrás de reviravolta, a história segue por caminhos tortuosos até ao seu arrebatador final.
Agatha Christie foi um génio da literatura policial. Há histórias suas que fazem parte do imaginário de milhões de leitores, e esta é uma delas. Não só pelo romance, mas por todas as adaptações cinematográficas e paródias da história. A escrita é simples, sem grandes descrições, é objetiva e direta. No entanto, o que maravilha nesta história é o suspense criado com mestria pela autora que nos cola à leitura e nos agarra, sem termos intenções de alguma vez pousar o livro. É brilhante o seguimento do crime de acordo com a canção infantil, é brilhante a forma como nos sentimos compelidos a continuar. É brilhante a explicação final de como foram perpetrados os assassínios. É brilhante o desaparecimento de cada figurinha de loiça à medida que se vão desaparecendo os dez personagens. É brilhante, em suma. Mas acima de tudo, o que se destaca deste romance é o terror psicológico a que são submetidos os que vão sobrevivendo, prostrados pelo medo, mas acometidos pela culpa que os persegue devido aos seus crimes pessoais. É esse ponto que efetiva a mestria de Agatha Christie. As personagens que conhecemos e que acompanhamos são pessoas que conseguiram cometer os seus crimes à margem da lei, não podendo esta ser aplicada quanto àqueles. É com esta premissa que o assassino age, e as revelações que são feitas ao longo da história adensam e enriquecem a trama. É um romance magistralmente composto, sem dúvida alguma.
Este livro é um dos obrigatórias da literatura policial. E é por isso que deve ser lido, quer por admiradores do género, quer por admiradores de outros géneros que não este. Trata-se de uma obra indispensável de leitura.
Citações:
"Vera inclinou-separa a frente. - Curioso! Quantas são? Dez? - E logo exclamou: - Tem graça! Acho que são os dez meninos negros da lengalenga infantil. A lengalenga está encaixilhada no meu quartoe pendurada por cima da lareira."
"- Quero dizer - esclareceu Lombard - que assim se explica a Ilha do Negro. Há crimes pelos quais não se pode fazer pagar quem os perpetrou. É o caso dos Rogers. Outro caso é o do juiz Wargrave que cometeu o assassínio dele estritamente nos quadros da lei."
"E todos eles, subitamente, tinham menos a aparência de seres humanos. Assumiam formas mais animais. Como uma velha tartaruga cansada, o juiz Wargrave estava sentado, corcovado e imóvel, os olhos vivos e alerta. (...) Os sentidos de Philip Lombard pareciam ter-se intensificado e não diminuído. Os seus ouvidos reagiam ao mínimo som. (...) E sorria constantemente, os lábios arreganhando-se e mostrando dentes compridos e brancos."
Pontuação: 10/10
Gonçalo Martins de Matos
A premissa da história é igualmente famosa. Dez pessoas são convidadas a ficar uns dias numa ilha privada, a convite de um misterioso U. N. Owen. São convidados o juiz Wargrave, o dr. Armstrong, Vera Claythorne, Philip Lombard, o general Macarthur, Emily Brent, Anthony Marston, William Blore e Thomas e Ethel Rogers, todos por motivos distintos, mas de forma semelhante. Depois de ouvirem uma voz misteriosa que os acusa a cada um de ter cometido um assassínio, começam a ser assassinados, um a um, a seguir a letra de uma lengalenga infantil. Caberá aos sobreviventes determinar quem deles é o misterioso assassino, sendo que reviravolta atrás de reviravolta, a história segue por caminhos tortuosos até ao seu arrebatador final.
Agatha Christie foi um génio da literatura policial. Há histórias suas que fazem parte do imaginário de milhões de leitores, e esta é uma delas. Não só pelo romance, mas por todas as adaptações cinematográficas e paródias da história. A escrita é simples, sem grandes descrições, é objetiva e direta. No entanto, o que maravilha nesta história é o suspense criado com mestria pela autora que nos cola à leitura e nos agarra, sem termos intenções de alguma vez pousar o livro. É brilhante o seguimento do crime de acordo com a canção infantil, é brilhante a forma como nos sentimos compelidos a continuar. É brilhante a explicação final de como foram perpetrados os assassínios. É brilhante o desaparecimento de cada figurinha de loiça à medida que se vão desaparecendo os dez personagens. É brilhante, em suma. Mas acima de tudo, o que se destaca deste romance é o terror psicológico a que são submetidos os que vão sobrevivendo, prostrados pelo medo, mas acometidos pela culpa que os persegue devido aos seus crimes pessoais. É esse ponto que efetiva a mestria de Agatha Christie. As personagens que conhecemos e que acompanhamos são pessoas que conseguiram cometer os seus crimes à margem da lei, não podendo esta ser aplicada quanto àqueles. É com esta premissa que o assassino age, e as revelações que são feitas ao longo da história adensam e enriquecem a trama. É um romance magistralmente composto, sem dúvida alguma.
Este livro é um dos obrigatórias da literatura policial. E é por isso que deve ser lido, quer por admiradores do género, quer por admiradores de outros géneros que não este. Trata-se de uma obra indispensável de leitura.
Citações:
"Vera inclinou-separa a frente. - Curioso! Quantas são? Dez? - E logo exclamou: - Tem graça! Acho que são os dez meninos negros da lengalenga infantil. A lengalenga está encaixilhada no meu quartoe pendurada por cima da lareira."
"- Quero dizer - esclareceu Lombard - que assim se explica a Ilha do Negro. Há crimes pelos quais não se pode fazer pagar quem os perpetrou. É o caso dos Rogers. Outro caso é o do juiz Wargrave que cometeu o assassínio dele estritamente nos quadros da lei."
"E todos eles, subitamente, tinham menos a aparência de seres humanos. Assumiam formas mais animais. Como uma velha tartaruga cansada, o juiz Wargrave estava sentado, corcovado e imóvel, os olhos vivos e alerta. (...) Os sentidos de Philip Lombard pareciam ter-se intensificado e não diminuído. Os seus ouvidos reagiam ao mínimo som. (...) E sorria constantemente, os lábios arreganhando-se e mostrando dentes compridos e brancos."
Pontuação: 10/10
Gonçalo Martins de Matos
sábado, 28 de julho de 2018
"Maresia e Fortuna", de Andreia Ferreira
Este livro representa a incursão de Andreia Ferreira num género novo, o que tanto pode ser positivo como negativo. Neste caso, felizmente, foi positivo. E muito. A autora aventura-se num novo género sem medo e confiante, e isso nota-se, e bem, aquando da leitura. A piada de ler os livros da autora está no facto de conseguir o feito surpreendente, e, diga-se de passagem, não tão fácil, de conjugar a leitura rápida que é ler literatura light (termo aqui despegado da conotação negativa que se atribui a esse tipo de literatura), mas que de suave e sereno nada tem.
O jovem Eduardo vive na Apúlia juntamente com o seu irmão Simão e a sua mãe Adelaide, e leva uma vida serena no seu último verão como menor de idade. Não tem grandes preocupações que o ocupem e pacatamente leva a sua vida. Júlia, uma mulher bela com uma história conturbada, visita a pequena vila piscatória na companhia da sua sobrinha Vanessa, que julga que vem passar férias com a sua tia, quando esta tem os seus propósitos ocultos. É com o cruzamento destas duas histórias paralelas que a ação do livro se inicia. Quase como que in media res, são-nos apresentados os intervenientes principais desta história, para depois nos irem ser desvendados os pormenores. E é assim, de pormenor em pormenor, que vamos descobrindo as vidas destes personagens e as suas preocupações e inquietações. Eduardo preocupa-se que o seu relacionamento com Bianca esteja prestes a terminar e Júlia preocupa-se em desvendar algo no seu passado que acredita ser uma mentira que todos lhe contaram (é-nos apresentada a personalidade errática de Júlia). Assim é a primeira parte da história. A segunda parte é mais reveladora, sendo que irá escrutinar o passado de Júlia e a conexão desta com a família de Eduardo. E assim, de revelação em revelação, avançamos em catadupa a um trágico final. E, não se satisfazendo com o abalo que faz da história toda, a autora termina a história com um último retirar do tapete debaixo dos nossos pés.
A história, como disse, encaixa mais no conceito de literatura light. Mas, ao contrário do que este tipo de literatura normalmente nos apresenta, esta narrativa nada tem de segurança, felicidade, paz, sossego e tranquilidade. É uma história trágica, mas contada de uma forma sóbria, sem ser crua, e crua sem ser pobre. As suas descrições não são extensas e o melodramatismo que poderia resultar de uma história deste género não revela a sua face. A sua escrita conduz-nos, e nós deixamos que o faça, pelos sinuosos caminhos que vai desnovelando, pega-nos por uma mão e leva-nos, quase como que em corrida, pelas páginas do livro. A maior qualidade de Andreia Ferreira é a sua análise e construção da psique humana, sendo que os seus personagens estão muito bem construídos e não nos parecem falsos ou forçados. Não senti grande apego ao protagonista, Eduardo, principalmente à medida que avançava a história, mas a sua co-protagonista, Júlia, é a verdadeira personagem trágica. Não podemos deixar de sentir pena pela sua história, mesmo que condenemos as suas ações e os seus pensamentos. Simão é, efetivamente, o personagem com que mais simpatizei, uma boa pessoa a quem a tragédia decidiu derrear e subjugar, injustamente. Os nossos personagens nada mais são que os peões da Fortuna (aqui no sentido de destino) a que alude o título. Por falar no título, a Maresia que é também referenciada no título é omnipresente na narrativa, o Mar é uma presença constante ao longo da história que se desenrola alheia a si (ou talvez não). A Apúlia é uma das praias mais frequentadas pelos habitantes do Distrito de Braga, pelo que este livro possui um traço de familiaridade que nos embala, a nós que crescemos a frequentar aquela praia e a visitar os famosos moinhos apulienses. Conseguimos sentir o cheiro a maresia quando lemos as páginas deste livro.
Resta-me recomendar esta leitura. É acessível, sóbria, viciante e, acima de tudo, tem qualidade. Prevejo e desejo o crescimento de Andreia Ferreira, ocupando o seu lugar nas suas surpreendentes histórias de que tanto gostamos.
Citações:
"O poder da maresia, esse odor que trazia ao presente o passado nostálgico e memórias boas, memórias que a enlevavam dentro de si mesma, memórias que não se lembrava de terem ocorrido."
"Não era fã desses temas e mantinha-se cético quanto à purificação das almas pela tragédia. A existirem deuses, terão mais com que se entreter do que brincar com o destino dos homens."
"A tarde recusava-se a dar lugar ao crepúsculo, e foram os ponteiros do relógio a desmembrar a reunião de uma juventude sem problemas, enviando-os de volta aos seus lares."
Pontuação: 7.6/10
Gonçalo Martins de Matos
O jovem Eduardo vive na Apúlia juntamente com o seu irmão Simão e a sua mãe Adelaide, e leva uma vida serena no seu último verão como menor de idade. Não tem grandes preocupações que o ocupem e pacatamente leva a sua vida. Júlia, uma mulher bela com uma história conturbada, visita a pequena vila piscatória na companhia da sua sobrinha Vanessa, que julga que vem passar férias com a sua tia, quando esta tem os seus propósitos ocultos. É com o cruzamento destas duas histórias paralelas que a ação do livro se inicia. Quase como que in media res, são-nos apresentados os intervenientes principais desta história, para depois nos irem ser desvendados os pormenores. E é assim, de pormenor em pormenor, que vamos descobrindo as vidas destes personagens e as suas preocupações e inquietações. Eduardo preocupa-se que o seu relacionamento com Bianca esteja prestes a terminar e Júlia preocupa-se em desvendar algo no seu passado que acredita ser uma mentira que todos lhe contaram (é-nos apresentada a personalidade errática de Júlia). Assim é a primeira parte da história. A segunda parte é mais reveladora, sendo que irá escrutinar o passado de Júlia e a conexão desta com a família de Eduardo. E assim, de revelação em revelação, avançamos em catadupa a um trágico final. E, não se satisfazendo com o abalo que faz da história toda, a autora termina a história com um último retirar do tapete debaixo dos nossos pés.
A história, como disse, encaixa mais no conceito de literatura light. Mas, ao contrário do que este tipo de literatura normalmente nos apresenta, esta narrativa nada tem de segurança, felicidade, paz, sossego e tranquilidade. É uma história trágica, mas contada de uma forma sóbria, sem ser crua, e crua sem ser pobre. As suas descrições não são extensas e o melodramatismo que poderia resultar de uma história deste género não revela a sua face. A sua escrita conduz-nos, e nós deixamos que o faça, pelos sinuosos caminhos que vai desnovelando, pega-nos por uma mão e leva-nos, quase como que em corrida, pelas páginas do livro. A maior qualidade de Andreia Ferreira é a sua análise e construção da psique humana, sendo que os seus personagens estão muito bem construídos e não nos parecem falsos ou forçados. Não senti grande apego ao protagonista, Eduardo, principalmente à medida que avançava a história, mas a sua co-protagonista, Júlia, é a verdadeira personagem trágica. Não podemos deixar de sentir pena pela sua história, mesmo que condenemos as suas ações e os seus pensamentos. Simão é, efetivamente, o personagem com que mais simpatizei, uma boa pessoa a quem a tragédia decidiu derrear e subjugar, injustamente. Os nossos personagens nada mais são que os peões da Fortuna (aqui no sentido de destino) a que alude o título. Por falar no título, a Maresia que é também referenciada no título é omnipresente na narrativa, o Mar é uma presença constante ao longo da história que se desenrola alheia a si (ou talvez não). A Apúlia é uma das praias mais frequentadas pelos habitantes do Distrito de Braga, pelo que este livro possui um traço de familiaridade que nos embala, a nós que crescemos a frequentar aquela praia e a visitar os famosos moinhos apulienses. Conseguimos sentir o cheiro a maresia quando lemos as páginas deste livro.
Resta-me recomendar esta leitura. É acessível, sóbria, viciante e, acima de tudo, tem qualidade. Prevejo e desejo o crescimento de Andreia Ferreira, ocupando o seu lugar nas suas surpreendentes histórias de que tanto gostamos.
Citações:
"O poder da maresia, esse odor que trazia ao presente o passado nostálgico e memórias boas, memórias que a enlevavam dentro de si mesma, memórias que não se lembrava de terem ocorrido."
"Não era fã desses temas e mantinha-se cético quanto à purificação das almas pela tragédia. A existirem deuses, terão mais com que se entreter do que brincar com o destino dos homens."
"A tarde recusava-se a dar lugar ao crepúsculo, e foram os ponteiros do relógio a desmembrar a reunião de uma juventude sem problemas, enviando-os de volta aos seus lares."
Pontuação: 7.6/10
Gonçalo Martins de Matos
segunda-feira, 23 de julho de 2018
"2666", de Roberto Bolaño - Parte 3
A Parte de Archimboldi
Por fim, chegamos à parte relativa ao esquivo escritor alemão que tanta paixão despertou nos críticos referidos na primeira parte deste monumental romance. Começamos por saber que o seu nome é Hans Reiter, nascido numa aldeia alemã no período entre guerras, filho de um ex-soldado prussiano e de uma mulher que apenas tinha um olho, chamados apenas por "o coxo" e "a zarolha". Também sabemos que tem uma irmã, de seu nome Lotte. Após uma pequena introdução à sua infância na sua pequena aldeia, acompanhamos a existência de Reiter na Segunda Guerra Mundial, enfileirado nas tropas alemãs. Terminando a guerra, Hans, após uma temporada num campo de prisioneiros, vai viver para Colónia com uma rapariga que conhecera ainda durante a guerra, Ingeborg. É então que Reiter adota o seu pseudónimo Benno von Archimboldi. Após o seu primeiro contacto com um editor de Hamburgo, o senhor Bubis, não só este consegue uma editora para todas as suas obras como reencontra alguém do seu passado, que é a esposa do editor. Após mais deambulações de Archimboldi, chegamos à vez da história de Lotte, que vivera a sua vida paralela à do irmão, até o reencontrar muitos anos depois, não sem antes ter casado e produzido um filho. Este jovem, fruto da irmã de Archimboldi, é a ligação entre a história anterior e esta. Entre todos estes momentos-chave, conhecemos variadíssimos personagens que compõem, mais do que a história de Archimboldi, a história da devastação que a guerra causa e do seu rescaldo.
Também nesta parte se nota o estilo particular do autor, com as descrições a roçar o inverosímil das personagens e do ambiente que as rodeia. O que mais nos marca nesta parte é as experiências diversas do personagem principal que, juntas, contribuem para a sua história pessoal e literária. As vivências que acompanhamos nesta parte do romance versam sobre a devastação e a reconstrução, e a impotência do ser humano perante isto tudo. Nota-se, mais do que nunca, o caráter inacabado da obra, nota-se demasiado, infelizmente, o caminho que ficou por percorrer, algo que não afeta, no entanto, a solidez do romance.
E assim terminou a monumental obra que é 2666. Com o fecho do círculo que iniciou, sem se deixar abater pela sua imensidão. As partes que abriram alguma linha vieram todas dar ao ponto que queriam, e as que ficaram por atar decididamente foi devido à morte do autor e à inevitável interrupção que tal provoca.
Citações:
"A quarta dimensão, dizia, é a riqueza absoluta dos sentidos e do Espírito (com maiúscula), é o olho (com maiúscula), isto é, o Olho, que se abre e anula os olhos, que comparados com o Olho são apenas uns pobres orifícios de lodo, fixos na contemplação ou na equação nascimento-aprendizagem-trabalho-morte, enquanto o Olho sobe pelo rio da filosofia, pelo rio da existência, pelo rio (rápido) do destino. (...) A quarta dimensão, dizia, só era exprimível através da música. Bach, Mozart, Beethoven."
"(...) quando é bem sabido, pensou Archimboldi, que a História, que é uma puta simples, não tem momentos determinantes, mas é sim uma proliferação de instantes, de brevidades que rivalizam entre si em monstruosidade."
Pontuação d' A Parte de Archimboldi: 1.9/2
Apreciação geral de 2666
Que leitura! Sinto-me diferente após a leitura de uma obra tão extensa e exigente. Mas sinto-me satisfeito com a leitura da obra e, principalmente, da marca pessoal de 1025 páginas lidas. Foi tão extensa que tive de a fasear ao longo de um ano, com receio de me aborrecer e perder o interesse na monumental leitura que acabei de efetuar. Dito isto, pontos a considerar quanto a esta obra de Roberto Bolaño:
- Por um lado, é uma pena que a obra esteja inacabada, pois deixa um sabor agridoce ver o evoluir da narração para terminar numa nota tão claramente incompleta. Por outro, talvez não fosse o que é se tivesse sido acabada. Nunca se sabe que caminhos teriam sido tomados em vez de outros que o foram efetivamente caso a história desembocasse num final diferente.
- Nunca saberemos, também, que caminho teria tomado Bolaño com o final deste monumento literário, mas sabemos, graças a uma nota editorial, que o autor tinha algo grande em mente, um final que, se tivesse sido concretizado, seria a catarse perfeita para uma obra tão extensa e exigente.
- Foi uma leitura de altos e baixos, umas vezes viciante, outras vezes aborrecida, marcas de uma obra ainda em construção, ainda em busca da sua estrutura elementar.
- Sem sombra de dúvida que é um enorme testemunho sobre a humanidade, naquilo que nos distingue uns dos outros, mas mais, talvez, naquilo que nos aproxima. Também é uma obra que versa sobre a loucura, o medo, a destruição e a reconstrução.
Uma obra prima, no fundo. E se merece ser lida... caberá aos curiosos (e corajosos) descobrir por si mesmos.
Citação final:
"A resposta de Archimboldi surpreendeu Bubis. Nela dizia-lhe que Sísifo, uma vez morto, fugira do Inferno através de um estratagema de ordem legal. Antes que Zeus libertasse Tânato, e sabendo Sísifo que a primeira coisa que a morte faria seria ir à procura dele, pediu à sua mulher que não cumprisse os requisitos fúnebres estabelecidos. Assim, ao chegar aos Infernos, Hades censurou-o por isso e todas as potestades infernais clamaram, como é normal, aos céus ou na abóbada do Inferno e arrancaram cabelos e sentiram-se ofendidas. Sísifo, não obstante, disse que a culpa não era sua, mas sim da sua mulher e pediu, digamos, uma autorização penal para subir à terra e castigá-la.
Hades pensou: a proposta de Sísifo era razoável e foi-lhe concedida a liberdade sob fiança, válida unicamente para três ou quatro jornadas, as suficientes para proceder à justa vingança e pôr em marcha, nem que fosse um pouco tarde, os requisitos fúnebres oficiais. Claro que Sísifo não esperou que lhe dissessem duas vezes e voltou à terra, onde viveu de forma feliz até ser muito velho, não era em vão que era o homem mais astuto da terra, e só regressou aos Infernos quando o seu corpo não deu mais de si.
Segundo alguns, o castigo da rocha só tinha uma finalidade: a de manter Sísifo ocupado e não permitir que a sua mente inventasse novas argúcias. Mas no dia em que Sísifo menos pensar vai-lhe acontecer alguma coisa e vai voltar a subir à terra, concluía Archimboldi na sua carta."
Pontuação de 2666: 7.5/10
Gonçalo Martins de Matos
quinta-feira, 28 de junho de 2018
"2666", de Roberto Bolaño - Parte 2
A Parte de Fate
Nesta parte é-nos relatada a existência monótona de Oscar Fate, um jornalista nova-iorquino a quem é dado o trabalho de fazer uma reportagem sobre um combate de boxe a ocorrer no México. Durante esta sua viagem, a sua estadia em Santa Teresa divide-se entre a sua persistente solidão e a sensação de irrealidade que rodeia o ambiente da pequena cidade. As personagens com quem se cruza apenas servem para perpetuar esta sensação de sonho do qual não é possível acordar. Consegue-se dividir a narração num antes e num depois do combate de boxe, sendo que a realidade e irrealidade se distorcem conforme se passa do antes para o depois. Na história, aparece novamente Amalfitano e a sua filha, sendo-nos apresentados outros personagens, destacando Chucho Flores, o jornalista mexicano que recebeu Fate e o introduziu à irrealidade da cidade, e Guadalupe Roncal, jornalista, também mexicana, com a função de escrever sobre os assassinatos das mulheres nessa região de Sonora.
A narrativa tem uma construção descendente, ou seja, os factos narrados começam estáveis e "normais" (aquela falsa normalidade que é a rotina), passando lentamente para o caos e a irrealidade, com o combate de boxe que tudo começou a servir de interlúdio entre a estabilidade e o caos. A escrita segue o formato da parte anterior. Mais uma vez, não há conexão direta entre esta e as partes anteriores, mas aos poucos vais sendo desenredada a história principal do romance, principalmente focada, nestas duas últimas partes, nos assassinatos das mulheres no deserto de Sonora.
Esta parte obrigou-me a suspender a leitura do livro, pois a leitura não me estava a colar. Apesar desse pequeno facto, a retoma da leitura renovou a minha vontade em descobrir esta história que dizem ser memorável. Mal posso esperar por ler mais.
Citações:
"DINHEIRO. Em poucas palavras, para Seaman o dinheiro era necessário, mas não tão necessário como as pessoas diziam. Pôs-se a falar do que chamou «relativismo económico». Na prisão de Folsom, disse ele, um cigarro equivalia a uma vigésima parte de uma lata pequena de compota de morango. Na prisão de Soledad, pelo contrário, um cigarro equivalia a uma trigésima parte dessa mesma lata de compota de morango. Em Walla-Walla, no entanto, um cigarro equivalia à lata de compota [...]"
"Charly Cruz, como já se disse, era um homem tranquilo, e durante aqueles segundos a sua tranquilidade propriamente dita, a sua disposição calma, não variou, mas aconteceu algo no interior do seu rosto, como se a lente através da qual observava o seu pai, recordava Rosa, já não lhe servisse e começasse, calmamente, a mudá-la, uma operação que durava menos de uma fração de segundo, mas durante a qual, necessariamente, o seu olhar ficava nu ou vazio, de qualquer modo desocupado, pois retirava-se uma lente e colocava-se outra e as duas operações não se podiam fazer ao mesmo tempo [...]"
Pontuação d' A Parte de Fate: 1.1/2
A Parte dos Crimes
Esta parte da obra é a mais extensa, e tem as suas razões. A narrativa desta parte tem um enredo principal que a atravessa do início ao fim: os assassinatos irresolúveis de mulheres na cidade de Santa Teresa. Pontualmente, existem vários sub-enredos que introduzem outros temas, mas todos eles, como os afluentes de um rio, vão desaguar no enredo principal. É nesses sub-enredos que conhecemos personagens como Juan de Dios Martínez, inspetor da Polícia Judiciária, Epifanio Galindo, agente da polícia de Santa Teresa, Lalo Cura, protegido de Epifanio, Klaus Haas, acusado e preso pelos assassinatos das mulheres, Sérgio González, jornalista da Cidade do México, Florita Almada, uma senhora que afirma ser vidente e que dá a conhecer ao público televisivo os assassinatos que decorrem em Santa Teresa, entre outros. Estes outros são personagens que pontuam a história, abrindo certos caminhos ou fechando outros por onde a história flui.
Quanto à estrutura da narrativa, pode ser dividida em duas partes temporais e quatro partes temáticas. Temporalmente, há um antes e um depois de Klaus Haas ser preso, sem julgamento e sem provas concretas que o condenem, ficando nós sem saber realmente se este é culpado ou não, o que coincide com a atenção que os meios de comunicação dão aos assassinatos em Santa Teresa. Tematicamente, temos quatro momentos: as investigações da Judiciária aos assassinatos das mulheres em conjugação com outros delitos ocasionais; a investigação de Juan de Dios ao caso do profanador de igrejas conhecido como o "Penitente" e a sua relação com Elvira Campos, em conjugação com a entrada de Lalo Cura para a polícia ao abrigo de Epifanio; a denúncia de Florita Almada ao caso dos assassinatos de Santa Teresa e a procura de Harry Magaña por Miguel Montes; e a conferência de imprensa de Klaus Haas (já preso) desvendando os verdadeiros culpados dos crimes, a história que a deputada Azucena Esquivel Plata conta a Sérgio González sobre o porquê de se insistir em investigar sobre os assassinatos das mulheres e a perícia que o ex-agente do FBI Albert Kessler faz a convite das autoridades mexicanas relativa aos assassinatos.
Esta parte foi a mais interventiva do autor, até agora, pois notava-se a sua vontade de denunciar. Denunciar tudo. A brutalidade contra mulheres que ainda hoje é um problema na América Latina, a incompetência do poder estabelecido em contrariar, causado por uma apatia conjugada com dinheiro e jogos de poder, a promiscuidade entre política e narcotráfico, um problema atualíssimo, entre outros países da América Latina, no México. Nota-se a sua vontade de denunciar, mas acima de tudo nota-se o embate entre a vontade de mudar a situação com a apatia da sociedade face a isso tudo. O que marca esta parte de início ao fim é a enumeração taxativa que o autor faz dos assassinatos das mulheres, apresentando os elementos-chave de cada caso. Nenhum caso é resolvido pela incompetência (ou aparente incompetência) da polícia e das autoridades. Os únicos que questionam e desejam que se investiguem melhor os casos são Juan de Dios e Lalo Cura, mas são sempre demovidos de o fazer. Todos são culpados, parece gritar esta parte do romance.
Esta parte sim, fascinou-me e prendeu-me de uma maneira à sua leitura. Foi uma leitura extensa, mas emergi vencedor. Agora que passei o meio do livro, masi vontade ainda tenho de descobrir esta imensa obra e, acima de tudo, descobrir o nó que irá atar todas estas partes.
Citações:
"O ataque à igrejas de San Rafael e de San Tadeo teve mais eco na imprensa local do que as mulheres assassinadas nos meses anteriores." em conjunto com "embora o padre da igreja de Santa Catalina lhe tenha sugerido que abrisse bem os olhos, pois o profanador de igrejas e agora assassino não era, a seu ver, a pior mácula de Santa Teresa."
"O senhor interrogar-se-á [...] porque é que o edifício está tão vazio. Sérgio disse-lhe que o mais lógico seria pensar que todos os inspetores estavam na rua, a trabalhar. A esta hora, não, disse Márquez. Então, porquê?, disse Sérgio. Porque hoje é o jogo de futsal entre a equipa da polícia de Santa Teresa e a nossa. [...] o inspetor disse-lhe para ele não tentar encontrar uma explicação lógica para os crimes. Isto é uma merda, esta é a única explicação, disse Márquez."
Pontuação d' A Parte dos Crimes: 1.8/2
Quanto à estrutura da narrativa, pode ser dividida em duas partes temporais e quatro partes temáticas. Temporalmente, há um antes e um depois de Klaus Haas ser preso, sem julgamento e sem provas concretas que o condenem, ficando nós sem saber realmente se este é culpado ou não, o que coincide com a atenção que os meios de comunicação dão aos assassinatos em Santa Teresa. Tematicamente, temos quatro momentos: as investigações da Judiciária aos assassinatos das mulheres em conjugação com outros delitos ocasionais; a investigação de Juan de Dios ao caso do profanador de igrejas conhecido como o "Penitente" e a sua relação com Elvira Campos, em conjugação com a entrada de Lalo Cura para a polícia ao abrigo de Epifanio; a denúncia de Florita Almada ao caso dos assassinatos de Santa Teresa e a procura de Harry Magaña por Miguel Montes; e a conferência de imprensa de Klaus Haas (já preso) desvendando os verdadeiros culpados dos crimes, a história que a deputada Azucena Esquivel Plata conta a Sérgio González sobre o porquê de se insistir em investigar sobre os assassinatos das mulheres e a perícia que o ex-agente do FBI Albert Kessler faz a convite das autoridades mexicanas relativa aos assassinatos.
Esta parte foi a mais interventiva do autor, até agora, pois notava-se a sua vontade de denunciar. Denunciar tudo. A brutalidade contra mulheres que ainda hoje é um problema na América Latina, a incompetência do poder estabelecido em contrariar, causado por uma apatia conjugada com dinheiro e jogos de poder, a promiscuidade entre política e narcotráfico, um problema atualíssimo, entre outros países da América Latina, no México. Nota-se a sua vontade de denunciar, mas acima de tudo nota-se o embate entre a vontade de mudar a situação com a apatia da sociedade face a isso tudo. O que marca esta parte de início ao fim é a enumeração taxativa que o autor faz dos assassinatos das mulheres, apresentando os elementos-chave de cada caso. Nenhum caso é resolvido pela incompetência (ou aparente incompetência) da polícia e das autoridades. Os únicos que questionam e desejam que se investiguem melhor os casos são Juan de Dios e Lalo Cura, mas são sempre demovidos de o fazer. Todos são culpados, parece gritar esta parte do romance.
Esta parte sim, fascinou-me e prendeu-me de uma maneira à sua leitura. Foi uma leitura extensa, mas emergi vencedor. Agora que passei o meio do livro, masi vontade ainda tenho de descobrir esta imensa obra e, acima de tudo, descobrir o nó que irá atar todas estas partes.
Citações:
"O ataque à igrejas de San Rafael e de San Tadeo teve mais eco na imprensa local do que as mulheres assassinadas nos meses anteriores." em conjunto com "embora o padre da igreja de Santa Catalina lhe tenha sugerido que abrisse bem os olhos, pois o profanador de igrejas e agora assassino não era, a seu ver, a pior mácula de Santa Teresa."
"O senhor interrogar-se-á [...] porque é que o edifício está tão vazio. Sérgio disse-lhe que o mais lógico seria pensar que todos os inspetores estavam na rua, a trabalhar. A esta hora, não, disse Márquez. Então, porquê?, disse Sérgio. Porque hoje é o jogo de futsal entre a equipa da polícia de Santa Teresa e a nossa. [...] o inspetor disse-lhe para ele não tentar encontrar uma explicação lógica para os crimes. Isto é uma merda, esta é a única explicação, disse Márquez."
Pontuação d' A Parte dos Crimes: 1.8/2
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