José Saramago é sem sombra de dúvida uma das figuras fulcrais da literatura portuguesa. Grande parte dos seus romances constituem uma experiência de pensamento, uma colocação a si próprio de um e se?. Este romance é uma dessas experiências, adiantando nós já que da sua premissa resultam diversas conclusões tão brilhantes quanto profundas. Um último pormenor quanto a esta edição em particular: as capas dos romances do autor publicados pela Porto Editora são escritas por diversas figuras conhecidas das artes e cultura portuguesas, pertencendo a caligrafia deste romance a Valter Hugo Mãe.
"No dia seguinte ninguém morreu." É assim que esta maravilhosa narrativa começa, preconizando desde a sua abertura a singular sequência de eventos que se passarão ao longo deste romance. Podemos fazer a divisão da narrativa em duas partes. Na primeira parte acompanhamos as inquietações, frustrações e reações sentidas pelos diferentes setores de uma sociedade que se apercebe que a morte deixou de cumprir a sua finalidade. Acompanhamos os diferentes intervenientes nestes insólitos acontecimentos, quer sejam os que sofrem com a falta da morte, quer sejam os que lucram com tal facto, desde as famílias que não sabem o que mais fazer com os seus não-mortos até às companhias de seguros, lares e agências funerárias que perderam as suas principais fontes de rendimento. Na segunda parte, já voltou a morte a cumprir o seu trabalho, mas com uma pequena diferença em relação ao passado, fulcral nesta nova sociedade. Tudo parece correr conforme, até ao dia em que um acontecimento inesperado leva a que a morte tenha de repensar todos os fundamentos que sempre considerou como certos, tudo indo desaguar a um apoteótico final carregado de lirismo.
Conforme foi dito, o romance pode ser dividido em duas partes: a primeira parte servindo como profunda análise às hipotéticas reações que uma sociedade teria se um insólito destes se verificasse; a segunda aterrando na componente romanesca, no sentido em que trata mais do desenvolvimento da restante história. Este romance é brilhante, deve ser desde já dito. Principalmente as reações que o autor teoriza que se verificariam caso algo assim sucedesse. A reflexão que é descrita na primeira parte do romance é tão sabiamente ponderada quanto verosímil. Olhando para o mundo que nos rodeia sabemos bem que, caso um dia deixasse de se morrer, a nossa sociedade teria atitudes quase exatamente iguais às que se verificam nesta obra. Esta reflexão povoa-se de personagens-tipo brilhantemente caricaturadas. A segunda parte acompanha uma nova sociedade em que a morte já voltou a cumprir o seu papel, mas de uma forma diferente que altera novamente todo o paradigma da vida e da morte. É nesta parte que o romance se individualiza, descendo do olhar geral para o particular e abandonando a reflexão para encetar na simples narração. As personagens principais desta parte já são mais humanizadas, sendo mais efetivos protagonistas que caricaturas. O violoncelista e o seu cão, para além da própria morte, constituirão a história principal desta parte, história essa que é ao mesmo tempo inerentemente poética e extraordinariamente composta. A estética que caracteriza a obra de José Saramago também se apresenta neste romance. O vernáculo, a inerente oralidade e a construção frásica de registo popular (entre tantos outros, o emprego da palavra "cousa") conferem a esta obra a tal oralidade do discurso tão brilhantemente praticada pelo autor. Também os parágrafos longos e o uso não convencional da ortografia marcam a sua presença neste romance, tudo indo de encontro à estética característica do romancista. Esta obra tem também um caráter altamente simbólico, sendo o romance povoado por diversos símbolos relativos à vida e à morte. Das cores à borboleta-caveira, passando pelo violoncelo e pelos elementos paisagísticos, como certas árvores ou certos estados do tempo, todos os símbolos caminham no sentido comum do romance de dar a conhecer algo que na natureza é tão inerentemente humano, isto é, a reflexão sobre a mortalidade e sobre a humanidade. Um último apontamento, não menos curioso, prende-se com o espaço físico do romance. A narrativa que nos é apresentada passa-se num país pequeno, habitado por dez milhões de pessoas, o que encaixa na descrição de Portugal, desviando-nos, no entanto, o autor dessa conclusão com a introdução de certos elementos, como o sistema político (monarquia constitucional) ou as fronteiras com outros países. Demarco este apontamento porque a sua intenção é claramente criticar certos aspetos da sociedade portuguesa sem, no entanto, o fazer expressamente, o que é demonstrativo da ironia saramaguiana que povoa os seus romances.
Cada vez mais me convenço que a leitura das obras de José Saramago é indispensável para o desenvolvimento, além do gosto estético, do pensamento crítico e da reflexão construtiva. Lendo este romance, não me engano ao fazer esta afirmação. É uma obra brilhante e acutilante, que merece ser lida e, quiçá, relida.
Citações:
"Desativados, Sim, creio que a palavra é bastante clara, Sem dúvida, senhor ministro, apenas manifestei a minha surpresa, Não vejo de quê, é a única maneira que temos de não parecer que cedemos à chantagem desse bando de patifes, Ainda que em realidade tenhamos cedido, O importante é que não pareça, que mantenhamos a fachada, o que acontecer por trás dela já não será da nossa responsabilidade."
"e quando falo de diferença real estou a referir-me a algo que as palavras jamais poderão exprimir, relativo, absoluto, cheio, vazio, ser ainda, não ser já, que é isso, senhor diretor, porque as palavras, se o não sabe, movem-se muito, mudam de um dia para o outro, são instáveis, como sombras, sombras elas mesmas, que tanto estão como deixam de estar, bolas de sabão, conchas de que mal se sente a respiração, troncos cortados"
"A morte afagou as cordas do violoncelo, passou suavemente as pontas dos dedos pelas teclas do piano, mas só ela podia ter distinguido o som dos instrumentos, um longo e grave queixume primeiro, um breve gorjeio de pássaro depois, ambos inaudíveis para ouvidos humanos, mas claros e precisos para quem desde há tanto tempo tinha aprendido a interpretar o sentido dos suspiros."
Pontuação: 10/10
Gonçalo Martins de Matos
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
"O Processo", de Franz Kafka
É famosa a história de como Franz Kafka legou ao seu amigo, Max Brod, a missão de destruir todos os seus escritos após a sua morte. Após uma análise do espólio do escritor, Max Brod decidiu publicar os seus escritos não obstante. E ainda bem que assim o fez. Toda a literatura ganhou com essa atuação. Um dos romances que nos foi dado a conhecer, então, foi O Processo.
A história começa com Josef K., o protagonista do romance, a ser preso na sua própria casa, um quarto arrendado, para sua surpresa. A partir daí, inicia-se uma série de acontecimentos tão improváveis quanto bizarros. Após uma breve entrevista com os guardas que o vigiavam, e com a sua senhoria, a senhora Grubach, K. intervém junto da menina Burstner, sua vizinha, tentando deslindar o insólito que lhe ocorrera. No entanto, nesta tal como em outras situações posteriores, o que seria de esperar do correr dos acontecimentos resvala para a bizarria. K. tenta levar a sua vida como se nada se tivesse sucedido, mas é óbvio que nunca mais nada será o mesmo. Depois de um primeiro interrogatório peculiar e de uma visita ás repartições, para além de diversos episódios inusitados, o tio de K. leva-o a casa de um advogado seu amigo, para que este seja o seu representante legal no seu processo. É a partir deste momento que K. começa a ceder e a considerar que se calhar o seu processo não deve ser encarado tão levianamente como até então. Após mais uma série de episódios insólitos, como as visitas à casa do advogado e do pintor e a visita à catedral, e de alguns personagens peculiares como o advogado, Leni, o pintor Titorelli, o comerciante Block e o padre, O romance desemboca num final tão bizarro quanto inesperado.
Existe um tema e um estilo que perpassam a obra de Franz Kafka: aquele, o absurdo, este, o surrealismo. De facto, o surrealismo está bem patente no desenrolar das situações que os seus personagens enfrentam. Mas o que confere a Kafka a sua particularidade é a conjugação magistral deste surrealismo com o absurdo das situações deste resultantes com que o autor recheia os seus romances. Em O Processo encontramos o pico da sua estética. Nada na existência de Josef K. é passível de ser considerado normal a partir do momento da sua prisão. As situações que se lhe apresentam são tão surreais e inverosímeis que a K. não lhe resta outra opção que não saber como reagir perante elas. A absoluta incapacidade de K. em compreender e agir quanto a tudo o que lhe sucede constitui outro aspeto fundamental da obra de Kafka. O pânico existencial provocado pelas situações absurdas e pela incapacidade de lidar com elas oprime os protagonistas kafkianos até ao limiar da razão. Josef K. nunca conhece do que crime se encontra acusado, não conhece os fundamentos do seu processo nem tampouco tem acesso aos documentos que constituem a sua causa. A justiça que julga o seu processo é inatingível, nunca podendo K. saber como contactar sequer as instâncias judiciais. Quando contacta por demasiado tempo com qualquer elemento que se relacione com "a justiça" não consegue controlar o seu próprio corpo, que vai gradualmente enfraquecendo. É através de terceiros que K. consegue obter algumas luzes quanto à situação em que se vê aprisionado. É extremamente difícil não verificar no protagonista do romance um reflexo do próprio autor, e em toda a narrativa um grito silencioso de revolta perante a situação opressiva que o subjuga. Na obra é patente um brilhante uso de simbologia como reforço da mensagem que o autor deseja partilhar: os personagens com que Josef K. contacta, os locais que este frequenta, o espaço do seu escritório no banco, entre outros. É notável o pormenor de que, à medida que vai avançando, os locais a que Josef K. se dirige vão progressivamente encolhendo. A sala de audiências, as repartições da justiça, o quarto do advogado, a casa do pintor e, por fim, o púlpito na catedral. Tudo isso constitui um "caminho de migalhas" que nos conduz até à sensação de impotência e de resignação do protagonista.
Trata-se de uma obra genial, fundamental na literatura mundial, que mais não merece que a nossa mais profunda leitura e reflexão.
Citações:
"K. pensou que tinha ido dar a uma reunião. Numa sala de dimensões médias e com duas janelas, apinhavam-se as mais diferentes pessoas; nenhuma delas, porém, ligou a mínima importância ao recém-chegado. Numa galeria instalada a toda a volta da sala e que quase chegava ao tecto, amontoava-se igualmente gente sem conta que, por falta de espaço, era obrigada a manter-se curvada e a bater no tecto com as costas e a cabeça."
"A Lei, no entanto, não prescrevia tal possibilidade. Por consequência, ao réu e à defesa ficava vedado o acesso aos documentos do tribunal e acima de tudo ao libelo. (...) De facto, no fundo, a defesa não era permitida pela Lei mas simplesmente tolerada, e constituía até motivo de polémica saber se do código se podia mesmo extrair a confirmação dessa tolerância."
"Porém, em torno da figura da Justiça manteve-se um impercetível matiz claro; envolta por essa claridade, a figura parecia destacar-se do quadro e mal dava já a ideia de ser quer deusa da Justiça quer deusa da Vitória; antes tinha o perfeito aspeto de ser a deusa da Caça."
Pontuação: 10/10
Gonçalo Martins de Matos
A história começa com Josef K., o protagonista do romance, a ser preso na sua própria casa, um quarto arrendado, para sua surpresa. A partir daí, inicia-se uma série de acontecimentos tão improváveis quanto bizarros. Após uma breve entrevista com os guardas que o vigiavam, e com a sua senhoria, a senhora Grubach, K. intervém junto da menina Burstner, sua vizinha, tentando deslindar o insólito que lhe ocorrera. No entanto, nesta tal como em outras situações posteriores, o que seria de esperar do correr dos acontecimentos resvala para a bizarria. K. tenta levar a sua vida como se nada se tivesse sucedido, mas é óbvio que nunca mais nada será o mesmo. Depois de um primeiro interrogatório peculiar e de uma visita ás repartições, para além de diversos episódios inusitados, o tio de K. leva-o a casa de um advogado seu amigo, para que este seja o seu representante legal no seu processo. É a partir deste momento que K. começa a ceder e a considerar que se calhar o seu processo não deve ser encarado tão levianamente como até então. Após mais uma série de episódios insólitos, como as visitas à casa do advogado e do pintor e a visita à catedral, e de alguns personagens peculiares como o advogado, Leni, o pintor Titorelli, o comerciante Block e o padre, O romance desemboca num final tão bizarro quanto inesperado.
Existe um tema e um estilo que perpassam a obra de Franz Kafka: aquele, o absurdo, este, o surrealismo. De facto, o surrealismo está bem patente no desenrolar das situações que os seus personagens enfrentam. Mas o que confere a Kafka a sua particularidade é a conjugação magistral deste surrealismo com o absurdo das situações deste resultantes com que o autor recheia os seus romances. Em O Processo encontramos o pico da sua estética. Nada na existência de Josef K. é passível de ser considerado normal a partir do momento da sua prisão. As situações que se lhe apresentam são tão surreais e inverosímeis que a K. não lhe resta outra opção que não saber como reagir perante elas. A absoluta incapacidade de K. em compreender e agir quanto a tudo o que lhe sucede constitui outro aspeto fundamental da obra de Kafka. O pânico existencial provocado pelas situações absurdas e pela incapacidade de lidar com elas oprime os protagonistas kafkianos até ao limiar da razão. Josef K. nunca conhece do que crime se encontra acusado, não conhece os fundamentos do seu processo nem tampouco tem acesso aos documentos que constituem a sua causa. A justiça que julga o seu processo é inatingível, nunca podendo K. saber como contactar sequer as instâncias judiciais. Quando contacta por demasiado tempo com qualquer elemento que se relacione com "a justiça" não consegue controlar o seu próprio corpo, que vai gradualmente enfraquecendo. É através de terceiros que K. consegue obter algumas luzes quanto à situação em que se vê aprisionado. É extremamente difícil não verificar no protagonista do romance um reflexo do próprio autor, e em toda a narrativa um grito silencioso de revolta perante a situação opressiva que o subjuga. Na obra é patente um brilhante uso de simbologia como reforço da mensagem que o autor deseja partilhar: os personagens com que Josef K. contacta, os locais que este frequenta, o espaço do seu escritório no banco, entre outros. É notável o pormenor de que, à medida que vai avançando, os locais a que Josef K. se dirige vão progressivamente encolhendo. A sala de audiências, as repartições da justiça, o quarto do advogado, a casa do pintor e, por fim, o púlpito na catedral. Tudo isso constitui um "caminho de migalhas" que nos conduz até à sensação de impotência e de resignação do protagonista.
Trata-se de uma obra genial, fundamental na literatura mundial, que mais não merece que a nossa mais profunda leitura e reflexão.
Citações:
"K. pensou que tinha ido dar a uma reunião. Numa sala de dimensões médias e com duas janelas, apinhavam-se as mais diferentes pessoas; nenhuma delas, porém, ligou a mínima importância ao recém-chegado. Numa galeria instalada a toda a volta da sala e que quase chegava ao tecto, amontoava-se igualmente gente sem conta que, por falta de espaço, era obrigada a manter-se curvada e a bater no tecto com as costas e a cabeça."
"A Lei, no entanto, não prescrevia tal possibilidade. Por consequência, ao réu e à defesa ficava vedado o acesso aos documentos do tribunal e acima de tudo ao libelo. (...) De facto, no fundo, a defesa não era permitida pela Lei mas simplesmente tolerada, e constituía até motivo de polémica saber se do código se podia mesmo extrair a confirmação dessa tolerância."
"Porém, em torno da figura da Justiça manteve-se um impercetível matiz claro; envolta por essa claridade, a figura parecia destacar-se do quadro e mal dava já a ideia de ser quer deusa da Justiça quer deusa da Vitória; antes tinha o perfeito aspeto de ser a deusa da Caça."
Pontuação: 10/10
Gonçalo Martins de Matos
quarta-feira, 1 de janeiro de 2020
"A Relíquia", de Eça de Queirós
Eça de Queirós é um dos grandes vultos da literatura portuguesa, e entrar na sua prosa é sempre esperar uma leitura rica, fluída e bem-humorada. Este A Relíquia não é exceção. Ao título deste romance veio acoplado o subtítulo mais famosos de Eça, que sintetiza o conjunto da sua obra: "Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia".
A obra começa com uma breve apresentação do narrador e do contexto familiar em que cresceu. Teodorico Raposo, nascido numa família relativamente abastada, herdeira de uma enorme fortuna, vê-se órfão de pai e mãe e obrigado a viver com a sua tia, D. Patrocínio das Neves, uma senhora maldisposta, devota beata e única herdeira da fortuna da família. Crescendo num ambiente familiar rigoroso, não é senão quando chega a Coimbra, para estudar Direito, que Teodorico conhece a liberdade e os prazeres da vida boémia, abandonando a dedicação à religião. No entanto, com a sua tia mantinha a postura de um homem convictamente devoto, tendo em vista a herança da fortuna familiar. Disposto a tudo para cumprir esse objetivo, Teodorico, por sugestão de um amigo da sua tia num dos inúmeros serões que este frequentava, decide encetar numa peregrinação a Jerusalém na altura da Páscoa, prometendo trazer a sua tia uma relíquia da Terra Santa. É assim que parte. Acompanhado de um académico alemão, de sue nome Topsius, Teodorico conhecerá os mistérios e os prazeres do Oriente Médio, conhecendo inclusive em Alexandria uma inglesa chamada Mary, que na hora da partida lhe oferece a sua camisa de noite, num embrulho e com uma nota, para que se recordasse dela. Chegados à Palestina, Teodorico congemina um plano infalível para seduzir finalmente a tia, que consistia em levar-lhe um raminho de um arbusto, afirmando que era a coroa de espinhos. Encontrada a relíquia, embrulha-a com todo o carinho. Uma noite, Teodorico sonha que ele e o seu companheiro de viagem assistem ao processo de condenação de Jesus Cristo, ponto chave da obra que referiremos mais adiante. Findo o sonho, Teodorico e Topsius visitam a Jerusalém do século XIX, com tudo o que tem de santo e devasso. Terminada a peregrinação, Teodorico regressa então a Lisboa, para poder exibir a sua tia a relíquia que lhe trouxera. No entanto, as coisas tomam um caminho imprevisto para o jovem, que terá de saber lidar com a sua nova situação.
A obra de Eça, principalmente na fase do realismo crítico, na qual se insere A Relíquia, é uma irónica e crítica análise à sociedade e pensamento portugueses no seu século, sendo que muitos dos vícios que o olho atento do autor ainda hoje se encontram por aí. É com isto em mente que não conseguimos deixar de nos rir ao ler as desventuras de Teodorico, da beatitude da sua tia e da hipocrisia dos padres e conselheiros que a rodeiam. É Teodorico quem nos narra a sua história, emprestando sempre a sua visão e a sua lógica à descrição dos factos que relata. O romance tem como objeto da sua crítica a religião e a religiosidade, quando levadas ao extremo. A tia de Teodorico, D. Patrocínio, é o expoente desta crítica, sendo uma senhora desagradável e constantemente maldisposta, possuindo uma religiosidade tal que o seu oratório maravilhou até Teodorico, o personagem mais desinteressado da religião no romance. É com esta crítica patente que chegamos ao ponto chave do romance, que é o imenso capítulo que o autor dedica ao sonho de Teodorico com o processo de Jesus Cristo, e sua posterior condenação. Este capítulo pega na figura de Jesus e trá-la da sua intocável santidade para a humanidade, apresentando não só Jesus como uma figura não livre de erros, como também desconstruindo o milagre da ressurreição, apresentando-nos uma versão alternativa, e deveras realista, do que se poderá ter passado. Esta desconstrução atinge o seu propósito quando no final Teodorico ouve uma voz que associa a Jesus, mas que não é mais que a sua própria consciência. A obra de Eça também se caracteriza pelo seu brilhante uso do vernáculo, sendo que este romance não é exceção, tendo o autor um domínio total das palavras que emprega e das frases que constrói com elas.
Trata-se este romance realista de uma das obras de leitura obrigatória para todos os que apreciam o génio de Eça de Queirós, pelo que não pode deixar de ser vivamente recomendada.
Citações:
"O Jordão, fio de água barrento e peco que se arrasta entre areais, nem pode ser comparado a esse claro e suave Lima que lá em baixo, ao fundo do Mosteiro, banha as raízes dos meus amieiros: e todavia, vede!, estas meigas águas portuguesas não correram jamais entre os joelhos de um Messias, nem jamais as roçaram as asas dos anjos, armados e rutilantes, trazendo do Céu à Terra as ameaças do Altíssimo!"
"Aqui e além, no meio de devotos embevecidos, dois doutores disputavam, com as faces assanhadas, sobre temerosos pontos da doutrina: «Pode-se comer um ovo de galinha posto no dia de Sabat? Por que osso da espinha dorsal começa a Ressurreição?»
"Já não tens Deus por quem se combata, Alpedrinha! nem rei por quem se navegue, Alpedrinha!... Por isso, entre os povos do Oriente, te gastas nas ocupações únicas que comportam a fé, o ideal, o valor dos modernos Lusíadas - descansar encostado às esquinas, ou tristemente carregar fardos alheios..."
Pontuação: 8.9/10
Gonçalo Martins de Matos
A obra começa com uma breve apresentação do narrador e do contexto familiar em que cresceu. Teodorico Raposo, nascido numa família relativamente abastada, herdeira de uma enorme fortuna, vê-se órfão de pai e mãe e obrigado a viver com a sua tia, D. Patrocínio das Neves, uma senhora maldisposta, devota beata e única herdeira da fortuna da família. Crescendo num ambiente familiar rigoroso, não é senão quando chega a Coimbra, para estudar Direito, que Teodorico conhece a liberdade e os prazeres da vida boémia, abandonando a dedicação à religião. No entanto, com a sua tia mantinha a postura de um homem convictamente devoto, tendo em vista a herança da fortuna familiar. Disposto a tudo para cumprir esse objetivo, Teodorico, por sugestão de um amigo da sua tia num dos inúmeros serões que este frequentava, decide encetar numa peregrinação a Jerusalém na altura da Páscoa, prometendo trazer a sua tia uma relíquia da Terra Santa. É assim que parte. Acompanhado de um académico alemão, de sue nome Topsius, Teodorico conhecerá os mistérios e os prazeres do Oriente Médio, conhecendo inclusive em Alexandria uma inglesa chamada Mary, que na hora da partida lhe oferece a sua camisa de noite, num embrulho e com uma nota, para que se recordasse dela. Chegados à Palestina, Teodorico congemina um plano infalível para seduzir finalmente a tia, que consistia em levar-lhe um raminho de um arbusto, afirmando que era a coroa de espinhos. Encontrada a relíquia, embrulha-a com todo o carinho. Uma noite, Teodorico sonha que ele e o seu companheiro de viagem assistem ao processo de condenação de Jesus Cristo, ponto chave da obra que referiremos mais adiante. Findo o sonho, Teodorico e Topsius visitam a Jerusalém do século XIX, com tudo o que tem de santo e devasso. Terminada a peregrinação, Teodorico regressa então a Lisboa, para poder exibir a sua tia a relíquia que lhe trouxera. No entanto, as coisas tomam um caminho imprevisto para o jovem, que terá de saber lidar com a sua nova situação.
A obra de Eça, principalmente na fase do realismo crítico, na qual se insere A Relíquia, é uma irónica e crítica análise à sociedade e pensamento portugueses no seu século, sendo que muitos dos vícios que o olho atento do autor ainda hoje se encontram por aí. É com isto em mente que não conseguimos deixar de nos rir ao ler as desventuras de Teodorico, da beatitude da sua tia e da hipocrisia dos padres e conselheiros que a rodeiam. É Teodorico quem nos narra a sua história, emprestando sempre a sua visão e a sua lógica à descrição dos factos que relata. O romance tem como objeto da sua crítica a religião e a religiosidade, quando levadas ao extremo. A tia de Teodorico, D. Patrocínio, é o expoente desta crítica, sendo uma senhora desagradável e constantemente maldisposta, possuindo uma religiosidade tal que o seu oratório maravilhou até Teodorico, o personagem mais desinteressado da religião no romance. É com esta crítica patente que chegamos ao ponto chave do romance, que é o imenso capítulo que o autor dedica ao sonho de Teodorico com o processo de Jesus Cristo, e sua posterior condenação. Este capítulo pega na figura de Jesus e trá-la da sua intocável santidade para a humanidade, apresentando não só Jesus como uma figura não livre de erros, como também desconstruindo o milagre da ressurreição, apresentando-nos uma versão alternativa, e deveras realista, do que se poderá ter passado. Esta desconstrução atinge o seu propósito quando no final Teodorico ouve uma voz que associa a Jesus, mas que não é mais que a sua própria consciência. A obra de Eça também se caracteriza pelo seu brilhante uso do vernáculo, sendo que este romance não é exceção, tendo o autor um domínio total das palavras que emprega e das frases que constrói com elas.
Trata-se este romance realista de uma das obras de leitura obrigatória para todos os que apreciam o génio de Eça de Queirós, pelo que não pode deixar de ser vivamente recomendada.
Citações:
"O Jordão, fio de água barrento e peco que se arrasta entre areais, nem pode ser comparado a esse claro e suave Lima que lá em baixo, ao fundo do Mosteiro, banha as raízes dos meus amieiros: e todavia, vede!, estas meigas águas portuguesas não correram jamais entre os joelhos de um Messias, nem jamais as roçaram as asas dos anjos, armados e rutilantes, trazendo do Céu à Terra as ameaças do Altíssimo!"
"Aqui e além, no meio de devotos embevecidos, dois doutores disputavam, com as faces assanhadas, sobre temerosos pontos da doutrina: «Pode-se comer um ovo de galinha posto no dia de Sabat? Por que osso da espinha dorsal começa a Ressurreição?»
"Já não tens Deus por quem se combata, Alpedrinha! nem rei por quem se navegue, Alpedrinha!... Por isso, entre os povos do Oriente, te gastas nas ocupações únicas que comportam a fé, o ideal, o valor dos modernos Lusíadas - descansar encostado às esquinas, ou tristemente carregar fardos alheios..."
Pontuação: 8.9/10
Gonçalo Martins de Matos
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
"O Beco da Liberdade", de Álvaro Laborinho Lúcio
O nome de Álvaro Laborinho Lúcio é sobremaneira associado à área da qual fez carreira, tendo as suas publicações mais antigas sido dedicadas principalmente à área do direito. No entanto, desde 2014 que Laborinho Lúcio apresenta aos leitores os seus romances, sendo este o seu terceiro.
Neste romance, conhecemos uma aldeia portuguesa do Interior Norte, povoada por um leque de personagens singulares. O narrador é um escritor à procura de uma história para escrever, sendo assim que entra em contacto com Floriano Antunes, jornalista, que tinha uma história para partilhar. A história que o jornalista traz é a de Guilherme Augusto Marreiro Lessa, juiz jubilado, que há cinquenta anos atrás proferira uma sentença tão leve para o arguido que suscitara dúvidas quanto aos verdadeiros motivos que a teriam determinado. Na altura, fora Floriano quem acompanhara o caso, tendo sido o seu artigo cortado pela censura, pelo que achou que retomar o caso poderia trazer-lhe alguma conclusão quanto a esses tempos. Também porque o próprio Marreiro Lessa se encontrava, agora, ele mesmo no lugar de arguido, acusado da prática de um crime. É então que conhecemos, os factos de então, analisados pela distância que o tempo permite, e os de agora, tão inesperados como estranhamente conectados com os acontecimentos de há cinquenta anos atrás. Aos poucos, vamos ficando a conhecer as teias que se urdem em volta dos vários intervenientes de então, como Maria Cacilda, a viúva da primeira vítima e possuidora de estranhos poderes divinatórios, Joaquim Quitério, tolo da aldeia, Gervásio Ventura, subinspetor da PJ e encarregue do caso, Hildebrando Moreira de Castro, notário reformado, Narcisa, fiel governanta da família Marreiro Lessa, e Júlia, amante de Guilherme Augusto, entre outros personagens peculiares. Tudo conduzindo a revelações surpreendentes sobre os vários envolvidos e sobre o próprio Marreiro Lessa.
O romance é narrado a duas vozes, mas "coordenado" por uma delas. As vozes são as do escritor em busca de uma história e a de Floriano Antunes, aquando dos seus encontros com o juiz. Estas duas vozes distinguem-se pelas partes que compõem o romance. A primeira parte é narrada pelo escritor, que relata, na terceira pessoa, os factos ocorridos então, retirados dos pedaços de informação que o jornalista lhe colocou à disposição. A segunda parte é já o relato completo de Floriano Antunes sobre as conversas que manteve com o juiz nos dias anteriores ao seu julgamento. Ambas as partes se conjugam no sentido de ir revelando aos poucos os factos e as ficções que compõem os acontecimentos em causa. O uso do vernáculo pelo autor ganha a sua arte nas imagens que este consegue exprimir através das palavras, sejam elas pictóricas ou metafóricas. O tema fulcral do romance é a contradição que a justiça consegue abarcar, pondo em conflito a justiça formal, do direito, e a justiça material, da ética e da moral. Todo o texto pretende exprimir a enorme diferença que existe entre o ato de julgar e o ato de compreender, através, precisamente, da contradição atrás referida. E essa diferença é representada pelo juiz Marreiro Lessa jovem, no papel de julgador, e pelo mesmo, velho, agora no papel de julgado. As suas ideias e opiniões sobre o modo como a sociedade se organiza e sobre a realização da justiça mudam com o seu contacto com uma nova realidade, que lhe põe em evidência a diferença abismal que existe entre o que ele tinha como certo e o que de facto se verifica nas vidas das pessoas reais. As figuras da mulher de Marreiro Lessa, Maria da Graça, e da sua amante, Julinha, representam precisamente essa diferença entre o formal e o que é tido como certo e entre o material e o que se verifica na realidade.
Resta agora recomendar a leitura deste romance de indagação sobre a diferença de perspetivas humanas quanto à justiça, à moral e à própria liberdade.
Citações:
"Aos pés da cama, nasciam duas poltronas revestidas a damasco rosa-velho replicando o dossel, e apontando a uma mesa de camilha de manto grosso, com braseira elétrica, acolitada por duas cadeiras rabo de bacalhau, com almofadinhas de atilho."
"Ali, atirado para o sofá, sorria, olhos postos na aranha afadigada a tecer a teia junto ao teto. Não lera Kafka e, talvez por isso, gostou da companhia. Afinal, pensava, bem pode haver um ponto onde as linhas do bem se encontrem com as do mal e fiem um véu que ora mostra, ora esconde, num jogo de sombras onde nem tudo é o que parece, nem tudo parece aquilo que é."
"A lei surgia-lhe como uma síntese, um traço de cada tempo, uma grosseira simplificação. De fora ficava toda a vida que nela não cabia. Talvez o direito na ilusão do absoluto tivesse a solução. Fora nisso que sempre acreditara. Mas toda a solução? À lei e ao direito poderia pedir a resposta para a tentativa de emigração clandestina, e de nenhuma dificuldade seria o percurso lógico até à condenação. Mas teriam a lei e o direito resposta para a tentativa de emigração clandestina daquele Manuel Santos, de quarenta anos, analfabeto, parecendo um velho?"
Pontuação: 8/10
Gonçalo Martins de Matos
Neste romance, conhecemos uma aldeia portuguesa do Interior Norte, povoada por um leque de personagens singulares. O narrador é um escritor à procura de uma história para escrever, sendo assim que entra em contacto com Floriano Antunes, jornalista, que tinha uma história para partilhar. A história que o jornalista traz é a de Guilherme Augusto Marreiro Lessa, juiz jubilado, que há cinquenta anos atrás proferira uma sentença tão leve para o arguido que suscitara dúvidas quanto aos verdadeiros motivos que a teriam determinado. Na altura, fora Floriano quem acompanhara o caso, tendo sido o seu artigo cortado pela censura, pelo que achou que retomar o caso poderia trazer-lhe alguma conclusão quanto a esses tempos. Também porque o próprio Marreiro Lessa se encontrava, agora, ele mesmo no lugar de arguido, acusado da prática de um crime. É então que conhecemos, os factos de então, analisados pela distância que o tempo permite, e os de agora, tão inesperados como estranhamente conectados com os acontecimentos de há cinquenta anos atrás. Aos poucos, vamos ficando a conhecer as teias que se urdem em volta dos vários intervenientes de então, como Maria Cacilda, a viúva da primeira vítima e possuidora de estranhos poderes divinatórios, Joaquim Quitério, tolo da aldeia, Gervásio Ventura, subinspetor da PJ e encarregue do caso, Hildebrando Moreira de Castro, notário reformado, Narcisa, fiel governanta da família Marreiro Lessa, e Júlia, amante de Guilherme Augusto, entre outros personagens peculiares. Tudo conduzindo a revelações surpreendentes sobre os vários envolvidos e sobre o próprio Marreiro Lessa.
O romance é narrado a duas vozes, mas "coordenado" por uma delas. As vozes são as do escritor em busca de uma história e a de Floriano Antunes, aquando dos seus encontros com o juiz. Estas duas vozes distinguem-se pelas partes que compõem o romance. A primeira parte é narrada pelo escritor, que relata, na terceira pessoa, os factos ocorridos então, retirados dos pedaços de informação que o jornalista lhe colocou à disposição. A segunda parte é já o relato completo de Floriano Antunes sobre as conversas que manteve com o juiz nos dias anteriores ao seu julgamento. Ambas as partes se conjugam no sentido de ir revelando aos poucos os factos e as ficções que compõem os acontecimentos em causa. O uso do vernáculo pelo autor ganha a sua arte nas imagens que este consegue exprimir através das palavras, sejam elas pictóricas ou metafóricas. O tema fulcral do romance é a contradição que a justiça consegue abarcar, pondo em conflito a justiça formal, do direito, e a justiça material, da ética e da moral. Todo o texto pretende exprimir a enorme diferença que existe entre o ato de julgar e o ato de compreender, através, precisamente, da contradição atrás referida. E essa diferença é representada pelo juiz Marreiro Lessa jovem, no papel de julgador, e pelo mesmo, velho, agora no papel de julgado. As suas ideias e opiniões sobre o modo como a sociedade se organiza e sobre a realização da justiça mudam com o seu contacto com uma nova realidade, que lhe põe em evidência a diferença abismal que existe entre o que ele tinha como certo e o que de facto se verifica nas vidas das pessoas reais. As figuras da mulher de Marreiro Lessa, Maria da Graça, e da sua amante, Julinha, representam precisamente essa diferença entre o formal e o que é tido como certo e entre o material e o que se verifica na realidade.
Resta agora recomendar a leitura deste romance de indagação sobre a diferença de perspetivas humanas quanto à justiça, à moral e à própria liberdade.
Citações:
"Aos pés da cama, nasciam duas poltronas revestidas a damasco rosa-velho replicando o dossel, e apontando a uma mesa de camilha de manto grosso, com braseira elétrica, acolitada por duas cadeiras rabo de bacalhau, com almofadinhas de atilho."
"Ali, atirado para o sofá, sorria, olhos postos na aranha afadigada a tecer a teia junto ao teto. Não lera Kafka e, talvez por isso, gostou da companhia. Afinal, pensava, bem pode haver um ponto onde as linhas do bem se encontrem com as do mal e fiem um véu que ora mostra, ora esconde, num jogo de sombras onde nem tudo é o que parece, nem tudo parece aquilo que é."
"A lei surgia-lhe como uma síntese, um traço de cada tempo, uma grosseira simplificação. De fora ficava toda a vida que nela não cabia. Talvez o direito na ilusão do absoluto tivesse a solução. Fora nisso que sempre acreditara. Mas toda a solução? À lei e ao direito poderia pedir a resposta para a tentativa de emigração clandestina, e de nenhuma dificuldade seria o percurso lógico até à condenação. Mas teriam a lei e o direito resposta para a tentativa de emigração clandestina daquele Manuel Santos, de quarenta anos, analfabeto, parecendo um velho?"
Pontuação: 8/10
Gonçalo Martins de Matos
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
"O Esplendor de Portugal", de António Lobo Antunes
Não há dúvida que a voz de António Lobo Antunes é ímpar na literatura portuguesa contemporânea. Poucos autores conseguem jogar com a língua portuguesa de uma forma tão luxuriante e genuína, mantendo a crueza da realidade circundante. Nunca é de mais repetir que poucos romanceiam como Lobo Antunes, e este romance é mais uma pedra nesse seu grande castelo literário.
A história que nos é narrada é a de uma família de colonos portugueses, contada pelos olhos de Isilda, a mãe, e dos seus três filhos, Carlos, Rui e Clarisse. Pelos olhos de Isilda, vemos o passado recheado de um poder ilusório desta família, que detinha uma fazenda de algodão e os seus criados, e um presente de incerteza e de melancolia, de fuga dos soldados da UNITA e dos revoltosos angolanos. Articulando-se com as memórias e relatos de Isilda estão as vozes dos seus três filhos. Primeiro, vemos pela perspetiva de Carlos a sua existência medíocre num apartamento pequeno de mais para si e para a sua mulher, Lena. Carlos recorda os seus tempos na fazenda em Angola ao mesmo tempo que tenta interpretar o seu presente longe da sua família e casado com uma mulher que nunca o quis verdadeiramente. O grande mote da perspetiva de Carlos é a sua intenção gorada de reatar as suas relações familiares com os seus irmãos, assaltado pelos remorsos do seu passado. De seguida, seguimos a perspetiva de Rui, internado numa clínica pobre devido à sua epilepsia. Observamos a sua versão do passado como sendo o ator de acontecimentos brutais, mesmo cruéis, mas desculpado pela sua condição. As suas ações passadas são por si vistas sem remorso, com algum regozijo até. Por fim, seguimos a visão de Clarisse. Amante de um político importante da capital, Clarisse recorda, como o seu irmão Carlos, o seu passado e invoca-o para poder interpretar o seu presente. No entanto, não é o remorso que sente pelas suas ações, mas antes, um misto de arrependimento e de alívio, num desapego do passado e da sua família (tirando o seu irmão Rui, a quem oferece inclusive casa), mas sempre com um fio de ligação a essas memórias. Aqui e ali encontramos fragmentos de pensamentos e impressões de outros familiares e relacionados com a família, como para complementar certos acontecimentos com os factos completos. Tudo isto no sentido de explorar um capítulo duro na história de Portugal e os seus efeitos em todos os envolvidos. Sente-se o desmembramento e a dissolução dos laços familiares e afetivos como que refletindo a realidade portuguesa ultramarina.
Existem neste romance dois tempos: um estático e um dinâmico. O tempo estático é a noite de Natal de 1995. O tempo dinâmico vai de 24 de julho de 1978 a 24 de dezembro de 1995, a mesma noite de Natal. Estes dois tempos são os pontos chave do romance. As vozes de Carlos, Rui e Clarisse desfiam as suas narrativas nessa noite de Natal, ao passo que a voz de Isilda vai acompanhando o evoluir da situação em Angola, na sua fazenda cercada e isolada. O romance encontra-se dividido em três partes, que separam precisamente as três vozes narrativas, intercalando os capítulos entre a voz de Carlos, Rui ou Clarisse e a de Isilda. Muitas vezes, vemos uma impressão ou uma memória do ponto de vista de um dos três para no capítulo a seguir vermos uma versão diferente contada pela mãe, tudo de forma a compor melhor o retrato da dissolução familiar que é o enredo central do romance. António Lobo Antunes é luxuriante nas suas impressões. Existe um imagismo muito acentuado que nos permite aparecer no meio do caos que se viveu em Angola no pós 25 de Abril. Ou talvez, no meio da confusão psicológica que esse acontecimento teve nos seus envolvidos. Essa luxúria imagética alia-se ao recurso magistral ao vernáculo. Um mestre da linguagem, Lobo Antunes consegue encher-nos de palavras e ainda assim nos deixar ansiosos por mais. É notável o anacoluto empregue pelo autor, que é mesmo uma marca distintiva de toda a sua obra narrativa. Aliado ás quebras de parágrafo e ao uso reduzido de vírgulas, o autor aproxima-se da fala coloquial no sentido de conferir uma maior oralidade à sua escrita. Como no conjunto da sua obra (e na maior parte das obras literárias modernas e pós-modernas), a narrativa é desfiada em fluxo de consciência, no qual o passado e o presente se tornam plásticos e mutuamente intrusivos, e se sucedem as quebras de lógica e de sequência narrativa. Todos estes recursos são empregues no sentido de conferir ao romance um caráter labiríntico, que é também uma marca notável da escrita antuniana. Terminando esta análise, uma referência à ironia que, apesar de não ser uma característica literária deste autor, neste romance é empregue. Refiro-me, nomeadamente, à ligação entre o título e a história narrada. Tanto a atribuição do título O Esplendor de Portugal, como a referência ao Hino Nacional no início do livro, atribuem uma carga irónica ao texto todo, uma vez que Lobo Antunes não retrata uma realidade assim tão esplendorosa ou digna de orgulho nacional de Portugal.
António Lobo Antunes é um romancista notável e este é mais um dos seus contributos para essa sua classificação, pelo que mais não tenho a fazer a não ser recomendar a leitura deste romance, e de outros, do autor. São sem dúvida leituras inevitáveis para todos quantos apreciam o magistral uso do português.
Citações:
"Há qualquer coisa de terrível em mim. Às vezes à noite o murmúrio dos girassóis acorda-me e sinto o ventre aumentar na escuridão do quarto com aquilo que não é um filho, não é um inchaço, não é um tumor, não é uma doença, é uma espécie de grito que vai sair não pela boca mas pelo corpo inteiro e encher os campos como o uivo dos cães."
"e eu era diferente daquele nome, não era aquele nome, não podia ser aquele nome, as pessoas ao chamarem
Carlos
chamavam um Carlos que era eu em elas não era eu nem eu em eu, era um outro da mesma forma que se lhes respondia não era eu quem respondia era o eu deles que falava, o eu em eu calava-se em mim e portanto sabiam apenas do Carlos delas"
"o meu pai todo desaparecido salvo as pernas, o pedaço de pele de frango que separava a meia da calça, combatendo as páginas do jornal de súbito vivas, que se torciam, espadanavam, espalhavam no chão, o relógio a caminhar de número em número em passadas de peru ao comprido do tempo"
Pontuação: 7.5/10
Gonçalo Martins de Matos
A história que nos é narrada é a de uma família de colonos portugueses, contada pelos olhos de Isilda, a mãe, e dos seus três filhos, Carlos, Rui e Clarisse. Pelos olhos de Isilda, vemos o passado recheado de um poder ilusório desta família, que detinha uma fazenda de algodão e os seus criados, e um presente de incerteza e de melancolia, de fuga dos soldados da UNITA e dos revoltosos angolanos. Articulando-se com as memórias e relatos de Isilda estão as vozes dos seus três filhos. Primeiro, vemos pela perspetiva de Carlos a sua existência medíocre num apartamento pequeno de mais para si e para a sua mulher, Lena. Carlos recorda os seus tempos na fazenda em Angola ao mesmo tempo que tenta interpretar o seu presente longe da sua família e casado com uma mulher que nunca o quis verdadeiramente. O grande mote da perspetiva de Carlos é a sua intenção gorada de reatar as suas relações familiares com os seus irmãos, assaltado pelos remorsos do seu passado. De seguida, seguimos a perspetiva de Rui, internado numa clínica pobre devido à sua epilepsia. Observamos a sua versão do passado como sendo o ator de acontecimentos brutais, mesmo cruéis, mas desculpado pela sua condição. As suas ações passadas são por si vistas sem remorso, com algum regozijo até. Por fim, seguimos a visão de Clarisse. Amante de um político importante da capital, Clarisse recorda, como o seu irmão Carlos, o seu passado e invoca-o para poder interpretar o seu presente. No entanto, não é o remorso que sente pelas suas ações, mas antes, um misto de arrependimento e de alívio, num desapego do passado e da sua família (tirando o seu irmão Rui, a quem oferece inclusive casa), mas sempre com um fio de ligação a essas memórias. Aqui e ali encontramos fragmentos de pensamentos e impressões de outros familiares e relacionados com a família, como para complementar certos acontecimentos com os factos completos. Tudo isto no sentido de explorar um capítulo duro na história de Portugal e os seus efeitos em todos os envolvidos. Sente-se o desmembramento e a dissolução dos laços familiares e afetivos como que refletindo a realidade portuguesa ultramarina.
Existem neste romance dois tempos: um estático e um dinâmico. O tempo estático é a noite de Natal de 1995. O tempo dinâmico vai de 24 de julho de 1978 a 24 de dezembro de 1995, a mesma noite de Natal. Estes dois tempos são os pontos chave do romance. As vozes de Carlos, Rui e Clarisse desfiam as suas narrativas nessa noite de Natal, ao passo que a voz de Isilda vai acompanhando o evoluir da situação em Angola, na sua fazenda cercada e isolada. O romance encontra-se dividido em três partes, que separam precisamente as três vozes narrativas, intercalando os capítulos entre a voz de Carlos, Rui ou Clarisse e a de Isilda. Muitas vezes, vemos uma impressão ou uma memória do ponto de vista de um dos três para no capítulo a seguir vermos uma versão diferente contada pela mãe, tudo de forma a compor melhor o retrato da dissolução familiar que é o enredo central do romance. António Lobo Antunes é luxuriante nas suas impressões. Existe um imagismo muito acentuado que nos permite aparecer no meio do caos que se viveu em Angola no pós 25 de Abril. Ou talvez, no meio da confusão psicológica que esse acontecimento teve nos seus envolvidos. Essa luxúria imagética alia-se ao recurso magistral ao vernáculo. Um mestre da linguagem, Lobo Antunes consegue encher-nos de palavras e ainda assim nos deixar ansiosos por mais. É notável o anacoluto empregue pelo autor, que é mesmo uma marca distintiva de toda a sua obra narrativa. Aliado ás quebras de parágrafo e ao uso reduzido de vírgulas, o autor aproxima-se da fala coloquial no sentido de conferir uma maior oralidade à sua escrita. Como no conjunto da sua obra (e na maior parte das obras literárias modernas e pós-modernas), a narrativa é desfiada em fluxo de consciência, no qual o passado e o presente se tornam plásticos e mutuamente intrusivos, e se sucedem as quebras de lógica e de sequência narrativa. Todos estes recursos são empregues no sentido de conferir ao romance um caráter labiríntico, que é também uma marca notável da escrita antuniana. Terminando esta análise, uma referência à ironia que, apesar de não ser uma característica literária deste autor, neste romance é empregue. Refiro-me, nomeadamente, à ligação entre o título e a história narrada. Tanto a atribuição do título O Esplendor de Portugal, como a referência ao Hino Nacional no início do livro, atribuem uma carga irónica ao texto todo, uma vez que Lobo Antunes não retrata uma realidade assim tão esplendorosa ou digna de orgulho nacional de Portugal.
António Lobo Antunes é um romancista notável e este é mais um dos seus contributos para essa sua classificação, pelo que mais não tenho a fazer a não ser recomendar a leitura deste romance, e de outros, do autor. São sem dúvida leituras inevitáveis para todos quantos apreciam o magistral uso do português.
Citações:
"Há qualquer coisa de terrível em mim. Às vezes à noite o murmúrio dos girassóis acorda-me e sinto o ventre aumentar na escuridão do quarto com aquilo que não é um filho, não é um inchaço, não é um tumor, não é uma doença, é uma espécie de grito que vai sair não pela boca mas pelo corpo inteiro e encher os campos como o uivo dos cães."
"e eu era diferente daquele nome, não era aquele nome, não podia ser aquele nome, as pessoas ao chamarem
Carlos
chamavam um Carlos que era eu em elas não era eu nem eu em eu, era um outro da mesma forma que se lhes respondia não era eu quem respondia era o eu deles que falava, o eu em eu calava-se em mim e portanto sabiam apenas do Carlos delas"
"o meu pai todo desaparecido salvo as pernas, o pedaço de pele de frango que separava a meia da calça, combatendo as páginas do jornal de súbito vivas, que se torciam, espadanavam, espalhavam no chão, o relógio a caminhar de número em número em passadas de peru ao comprido do tempo"
Pontuação: 7.5/10
Gonçalo Martins de Matos
domingo, 1 de setembro de 2019
"Um beijo dado mais tarde", de Maria Gabriela Llansol
A obra de Maria Gabriela Llansol é ainda relativamente desconhecida do grande público, mas nos meios literários, é considerada uma das autoras mais criativas da literatura portuguesa contemporânea. Muitos são os trabalhos académicos e os artigos que se versam sobre um obra singular de uma autora sem par como esta. Um beijo dado mais tarde foi galardoado em 1990 com o Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB.
A história deste romance prende-se com a indagação psicológica da narradora pelas imagens e cenas da sua infância à luz das suas vivências e dos seus receios atuais. Como ponto de partida, a narradora enceta nessa navegação após a morte da sua tia Assafora, percorrendo os corredores e as memórias da casa onde habitou, e recordando as impressões, sentimentos e receios que sentiu na sua infância, acompanhada das diversas peças e objetos que recheiam a casa, testemunhas desses momentos do crescimento da narradora. A história é marcante no plano formal, do qual já falarei, sendo que o seu espírito, o seu âmago (pelo menos, assim parece) é descrever a desfragmentação familiar que o tempo opera, para além do crescimento que esse mesmo tempo nos oferece.
Conforme disse, é nos aspetos formais que a obra de Maria Gabriela Llansol se distingue. Desde logo, pela forma como a história é apresentada. A autora apresenta-nos uma fusão de estilos e de géneros, sem que cheguemos a conclusão se estaremos perante um diário, um romance, uma novela, ou mesmo se estamos perante um livro de prosa, de poesia ou de outro género. Já no que toca à história, esta não é linear na forma como vai sendo discorrida. Nesse campo, encontramos a resposta na própria obra da autora. Llansol refere-se aos fragmentos que povoam a sua obra como cenas-fulgor, fragmentos impressionistas que espelham o teor geral da narração. Estas cenas-fulgor povoam-se de figuras, que tanto podem corresponder a pessoas reais como a imaginárias, animais, objetos e mesmo frases ou conceitos abstratos. E nesta obra nota-se bem essa característica única. Em cenas breves sabemos os pensamentos da autora através de figuras como "Témia, a rapariga que temia a impostura da língua", Aossê, a estátua de Myriam ensinando Ana a ler, a Nuvem Pairando, Bach, entre muitas outras. É através desta neblina de cenas e de figuras que o leitor vai percorrendo a narrativa e absorvendo as impressões e os sentimentos conexos ao espírito geral da obra. Quanto à forma da escrita, também somos apanhados por uma estrutura muito pouco convencional, plena de quebras de parágrafo, de espaços entre palavras, de sublinhados vazios e até de palavras destacadas a negrito. Todos estes aspetos gráficos servem para reforçar o caráter fragmentário do texto.
Não recomendo a leitura de Maria Gabriela Llansol para os leitores de ocasião. Mas recomendo muito a leitura desta autora peculiar aos leitores mais preparados para uma experiência literária diferente de tudo o que já leram.
Citações:
"Minha tia Assafora está com grilhões deitada na cama, e uma melodia cantada por Johann desce no quarto porque ela comigo entra em toda a parte; ela tem um volume mínimo, à mercê dos ventos. Seus olhos vêem ainda menos do que dantes, e traço intimamente, sobre eles, o sinal da música"
"1 – dias de dores terríveis sentei-me, com meu barro, junto de Johann; há muito tempo que ele não é músico e a música, quem me chama? Debaixo do seu peito pesado está a resposta a esta pergunta; mas eu não vejo em visão o seu corpo, não o determino; ele tornou-se agora um objeto, um grande ser móvel, que se define pelo esplendor que eu dou à sua presença."
"O antiquário deu-lhes uma pancada seca com o dedo, e verificou que eram de cristal. O som cria o ouvido, o ouvido faz o cérebro, o cérebro concebe a existência do homem só vulto que passou por aqui hoje. E levou Témia, dizendo-me: «téme-a»."
Pontuação: 8.5/10
Gonçalo Martins de Matos
A história deste romance prende-se com a indagação psicológica da narradora pelas imagens e cenas da sua infância à luz das suas vivências e dos seus receios atuais. Como ponto de partida, a narradora enceta nessa navegação após a morte da sua tia Assafora, percorrendo os corredores e as memórias da casa onde habitou, e recordando as impressões, sentimentos e receios que sentiu na sua infância, acompanhada das diversas peças e objetos que recheiam a casa, testemunhas desses momentos do crescimento da narradora. A história é marcante no plano formal, do qual já falarei, sendo que o seu espírito, o seu âmago (pelo menos, assim parece) é descrever a desfragmentação familiar que o tempo opera, para além do crescimento que esse mesmo tempo nos oferece.
Conforme disse, é nos aspetos formais que a obra de Maria Gabriela Llansol se distingue. Desde logo, pela forma como a história é apresentada. A autora apresenta-nos uma fusão de estilos e de géneros, sem que cheguemos a conclusão se estaremos perante um diário, um romance, uma novela, ou mesmo se estamos perante um livro de prosa, de poesia ou de outro género. Já no que toca à história, esta não é linear na forma como vai sendo discorrida. Nesse campo, encontramos a resposta na própria obra da autora. Llansol refere-se aos fragmentos que povoam a sua obra como cenas-fulgor, fragmentos impressionistas que espelham o teor geral da narração. Estas cenas-fulgor povoam-se de figuras, que tanto podem corresponder a pessoas reais como a imaginárias, animais, objetos e mesmo frases ou conceitos abstratos. E nesta obra nota-se bem essa característica única. Em cenas breves sabemos os pensamentos da autora através de figuras como "Témia, a rapariga que temia a impostura da língua", Aossê, a estátua de Myriam ensinando Ana a ler, a Nuvem Pairando, Bach, entre muitas outras. É através desta neblina de cenas e de figuras que o leitor vai percorrendo a narrativa e absorvendo as impressões e os sentimentos conexos ao espírito geral da obra. Quanto à forma da escrita, também somos apanhados por uma estrutura muito pouco convencional, plena de quebras de parágrafo, de espaços entre palavras, de sublinhados vazios e até de palavras destacadas a negrito. Todos estes aspetos gráficos servem para reforçar o caráter fragmentário do texto.
Não recomendo a leitura de Maria Gabriela Llansol para os leitores de ocasião. Mas recomendo muito a leitura desta autora peculiar aos leitores mais preparados para uma experiência literária diferente de tudo o que já leram.
Citações:
"Minha tia Assafora está com grilhões deitada na cama, e uma melodia cantada por Johann desce no quarto porque ela comigo entra em toda a parte; ela tem um volume mínimo, à mercê dos ventos. Seus olhos vêem ainda menos do que dantes, e traço intimamente, sobre eles, o sinal da música"
"1 – dias de dores terríveis sentei-me, com meu barro, junto de Johann; há muito tempo que ele não é músico e a música, quem me chama? Debaixo do seu peito pesado está a resposta a esta pergunta; mas eu não vejo em visão o seu corpo, não o determino; ele tornou-se agora um objeto, um grande ser móvel, que se define pelo esplendor que eu dou à sua presença."
"O antiquário deu-lhes uma pancada seca com o dedo, e verificou que eram de cristal. O som cria o ouvido, o ouvido faz o cérebro, o cérebro concebe a existência do homem só vulto que passou por aqui hoje. E levou Témia, dizendo-me: «téme-a»."
Pontuação: 8.5/10
Gonçalo Martins de Matos
quinta-feira, 22 de agosto de 2019
"a máquina de fazer espanhóis", de valter hugo mãe
As reservas que ainda tinha com a escrita de Valter Hugo Mãe, derivadas daquela primeira leitura e posterior redescoberta de o remorso de baltazar serapião, dissiparam-se definitivamente com este romance. Romance que encerra a "tetralogia das minúsculas", trata-se este a máquina de fazer espanhóis de um belíssimo romance por um dos autores mais originais da literatura portuguesa contemporânea.
A vida de antónio jorge da silva muda drasticamente com a morte de laura, a sua mulher. De repente e sem aviso, aos 83 anos, viúvo e amargurado com o resto de vida que teria sem a sua mulher a seu lado, antónio silva é posto num lar de idade, o tempos felizes, onde passará o resto dos seus dias. De início misantropo e ensimesmado, de luto pela sua situação, aos poucos vais travando conhecimento com outros dos habitantes do lar. É assim que conhecemos personagens como o senhor pereira, o silva da europa, o anísio e o esteves, que, juntos, terão as suas conversas, os seus debates e as suas galhofas de forma a enfrentarem a depressão que tende a assaltar-lhes os pensamentos no resto de vida que ainda têm. É principalmente nestes personagens, e noutros, como por exemplo américo, médico que se afeiçoa a antónio silva, que se foca o romance, sendo tudo e todos perscrutados e relatados pelos olhos de antónio silva, a par com as suas reflexões sobre os temas que percorrem este romance: a velhice, a morte, a viuvez, a amizade e a vida. É este o andamento do romance, em vagas e acalmias, até a um final agridoce, tão brilhante quanto poético.
Como é sabido, este é o último romance da "tetralogia das minúsculas", que, como o nome indica, se demarca por os seus quatro títulos estarem compostos completamente em minúsculas, sem qualquer distinção ortográfica de início ou fim de discurso direto e sem qualquer tipo de pontuação que não sejam pontos e vírgulas. Esta inteligente forma de o autor homenagear a intenção de Saramago de aproximar a escrita da linguagem oral é, assim, levada ao extremo. No entanto, é uma forma que não choca de modo nenhum com a narrativa, chegando nós mesmo a certo ponto da leitura que nem nos faz diferença se existem maiúsculas ou se não há travessão a iniciar o diálogo. No entanto, este livro tem um pormenor que os outros não têm. Dois capítulos neste romance estão escritos de forma tradicional, com maiúsculas e com outra pontuação, para além de estar escrito na terceira pessoa. Os temas e os personagens deste romance são sublimemente tratados, cada um dos velhos do lar, com as suas histórias, servem o seu propósito de dar a conhecer a antónio silva o conforto da amizade no difícil luto que atravessa. Dois aspetos devem aqui ser relevados. O primeiro é a existência o lar de um esteves com metafísica, em contraponto com o Esteves sem metafísica do poema de Álvaro de Campos. O outro é as ominosas visitas que o protagonista sofre de pássaros negros que entram pela janela para o magoar. A escrita de Valter Hugo Mãe é lírica e luminosa. No entanto, há uma crueza bem característica no tratamento da narrativa, que nos confronta com o que julgamos ser o acertado e nos retira a tapete algumas vezes, deixando-nos suspensos no seu significado. Há sem dúvida uma grande carga emocional na escrita deste autor, e não nos deixa indiferentes a tudo quanto sofrem os seus personagens. Um pormenor muito curioso é o destino da estatueta da nossa senhora, apelidada pelo protagonista de "mariazinha", que o acompanha pelas páginas desta obra. Não sendo antónio silva um homem religioso, a sua afeição à estatueta é ao mesmo tempo comovente e simbólica, uma vez que não representa a espiritualidade normalmente associada à imagética católica, mas acaba por representar todas as suas "aventuras" no lar, todos os bons momentos que passou com os seus novos amigos.
Resta-me recomendar, naturalmente, o romance. Todos quanto apreciem o lirismo e o esteticismo das construções de Valter Hugo Mãe devem ler esta sublime obra. Não imagino melhor elogio que o fornecido por António Lobo Antunes na contracapa deste livro: "A maior parte dos livros são escritos para o público; este é um livro escrito para os leitores."
Citações:
"com a morte, também amor devia acabar. ato contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro e nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade."
"o senhor pereira soltou uma gargalhada e disse, e a sorte é não ter os pastorinhas agarrados ali também, de joelhos a rezar, sabe, é costume. e eu respondi, que pena, ia dar-me um gozo ainda maior poder desparasitar a mariazinha dessa biches toda. coitada da rapariga, que até lhe põem uma expressão com vontade, mas depois não reage, fica como se a casa de banho estivesse ocupada."
"quando dizemos que antigamente é que era bom estamos só a ter saudades, queremos na verdade dizer que antigamente éramos novos, reconhecíamos o mundo como nosso e não tínhamos dores de costas nem reumatismo. é uma saudade de nós próprios, e não exatamente do regime e menos ainda de salazar."
Pontuação: 9.5/10
Gonçalo Martins de Matos
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