sábado, 24 de dezembro de 2016

"O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde", de Robert Louis Stevenson

   O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde é uma das histórias mais conhecidas e uma das minhas preferidas na literatura. Trata-se de um dos livros mais emblemáticos de um autor marcante na literatura de língua inglesa, sendo ainda nos dias de hoje admirado e estudado pela sua inovadora criatividade no tratamento de certos temas. Trata-se de um dos romances góticos mais conhecidos e é considerado por muitos (entre os quais, o mestre do romance gótico atual, Stephen King) como um dos clássicos do género. A sua influência foi tão vincada que a expressão "Jekyll and Hyde" faz parte da língua inglesa como designação precisamente da duplicidade moral de uma pessoa. 
   A história divide-se em três momentos. O primeiro, que é composto pela maior parte da obra, é o relato das indagações do advogado John Utterson sobre a relação sombria entre um terrível senhor chamado Edward Hyde e o seu amigo Henry Jekyll. O segundo momento consiste numa carta que o amigo de Utterson e Jekyll, Dr. Hastie Lanyon, a relatar a sua parte dos estranhos acontecimentos que rodeiam Jekyll e Hyde. O terceiro e último momento consiste na confissão de Henry Jekyll da sua ligação a essa criatura maligna que é Edward Hyde, ligação essa que, por ser tão famosa a história, todos sabemos tratar-se de uma fórmula que transforma quem a toma, trazendo ao de cima o seu lado mais maligno e os seus impulsos mais primitivos. Entre o primeiro e os restantes momentos, vários acontecimentos pontuais sucedem-se e são deixados por explicar de forma a que tudo seja elucidado mais para a frente, terminando a história num desenlace tenebroso e misterioso.
   Todo o romance transpira um ambiente sufocante e tenso, sempre pairando a ideia de nevoeiro, de enublado. Por todo o romance há pequenas insinuações à duplicidade, que passam despercebidas após uma primeira leitura. Referências ao dia e à noite, ou ao sol e ao nevoeiro. Até a casa onde habita Hyde se encontra nas traseiras da casa onde habita Jekyll, numa propositada alusão do autor à personalidade oculta do doutor. A razão principal que me leva a acarinhar esta história é o tema da duplicidade da alma humana, o lado bom e moralmente aceitável e o lado mau e primitivo nas suas ações. Essa multiplicidade de personalidades sempre me fascinou e a história que melhor retrata essa dualidade apenas podia ser muito apreciada por mim. O personagem que claramente mais me fascina é o Dr. Jekyll/Mr. Hyde. É ele o centro de todo o romance, é ele que movimenta o desenrolar do enredo. Henry Jekyll, um homem ético e austero nas suas emoções, crê ter desbloqueado a chave da alma humana, crê que a sua visão bipartida da alma humana é a correta, e decide fazer experiências para testar a sua tese. Dessas experiências nasce Edward Hyde, um homem de aspeto sombrio e que "passa uma a ideia de deformidade", que provoca calafrios em todos os que consigo contactam, imoral e composto apenas de pensamentos primitivos e eticamente malignos. E a pertir das primeiras experiências, Edward Hyde vai-se intrometendo aos poucos na vida de Jekyll até atingir um ponto sem retorno. A dualidade inerente da alma humana, a multiplicidade de personalidades, como disse, são temas que me fascinam profundamente, e esta visão peculiar dessa duplicidade não merece mais do que ser aplaudida e, mais importante, lida. 
   Portanto, trata-se de uma obra brilhante que deve ser lida e apreciada por todos os fascinados por boa literatura e pela questão da alma humana.

Citações:
"O homem levou o copo à boca e bebeu dum trago. Soltou um grito. Cambaleou, vacilou, agarrou-se à mesa, de olhos esgazeados, respirando com a boca escancarada. Mas, enquanto eu olhava, principiou..., assim me quis parecer..., a transformar-se, a inchar, a cara tornava-se negra, as feições como que dissolvendo-se e alterando-se." 
"Desde longa data, ainda antes que as minhas descobertas científicas começassem a sugerir-me a simples possibilidade de semelhante milagre, aprendi a admitir e a saborear, como uma fantasia deliciosa, o pensamento da separação daqueles dois elementos. Se cada um, dizia eu comigo, pudesse habitar numa entidade diferente, a vida libertar-se-ia de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gémeo, o bom; e este caminharia resolutamente, cheio de segurança, na senda da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem ficar exposto à desonra e à penitência engendradas pelo perverso."


Pontuação: 10/10


Gonçalo Martins de Matos

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

"A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça", de Washington Irving

   A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça é uma das histórias universalmente mais conhecidas pelos leitores, sendo o seu autor, Washington Irving, considerado, com esta história, como o introdutor do conto como um género literário próprio. Este conto consiste, precisamente, numa das mais importantes obras da literatura americana, sendo apreciada e estudada até aos dias de hoje. Washington Irving é tido como o primeiro grande escritor americano e foi graças a si que a literatura americana pôde afirmar-se perante o mundo. 
   O conto relata a história de Ichabod Crane, um mestre-escola que desempenhava a missão de instruir todas as crianças de Sleepy Hollow, sendo um professor rigoroso, mas justo e compreensivo. O enredo consiste na competição entre Ichabod Crane e Brom Bones pela mão de Katrina Van Tassel, filha única do rico fazendeiro Baltus Van Tassel. Uma noite, após um serão em casa dos Van Tassel, Crane, a caminho de casa, encontra-se com o Cavaleiro sem Cabeça, o fantasma de um cavaleiro hessiano da altura da Revolução Americana, que se dizia percorrer o Vale em busca da sua cabeça perdida. Crane tenta fugir, mas o Cavaleiro persegue-o, acabando por o apanhar na Ponte da Igreja de Sleepy Hollow, onde fica selado o destino infeliz de Ichabod Crane. No dia seguinte os habitantes procuram saber o que se terá passado com o mestre-escola, concluindo no final que o infeliz foi vítima do Cavaleiro. 
   Como se trata de uma história tão conhecida, desta vez não tive tantos cuidados com as revelações de enredo, mas esses cuidados são irrelevantes porque o que fascina os leitores nesta história é a escrita, as descrições das paisagens americanas oitocentistas e os seus personagens. Trata-se de uma história muitíssimo equilibrada, não exagerando nas descrições e sendo direta na narração. Para mim, as personagens mais fascinantes do conto são o protagonista e o antagonista, precisamente. Ichabod Crane é descrito como um homem alto, magro e educado, mas extremamente suscetível e supersticioso. A sua demanda para conquistar a mão de Katrina Van Tassel vê-se gorada, mas esse é o aspeto mais irrelevante de toda a construção do personagem, sendo o aspeto mais fascinante o seu empenho em instruir todas as crianças de Sleepy Hollow. O Cavaleiro sem Cabeça é para mim a personagem mais intrigante deste conto e uma das personagens sobrenaturais mais fascinantes da literatura. O Cavaleiro é um fantasma que assombra o campo de batalha onde pereceu, procurando incansavelmente a sua cabeça. A história deixa em aberto a natureza do fantasma, se seria realmente uma assombração ou se seria na realidade o rival de Crane, Brom Bones, disfarçando, sendo que a narrativa aponta mais para esta segunda opção.
   Em suma, trata-se de uma obra fascinante e realmente bem composta, sendo bastante inovadora na literatura americana da época, influenciando os autores que se seguiram, que deve ser lida e apreciada pelos amantes de uma boa história. 

Citações:
"Certo é que o lugar ainda continua sob a influência de algum poder mágico que lançou um feitiço sobre as mentes daquela boa gente, levando-os a andar num devaneio contínuo. São dados a todos os géneros de crenças maravilhosas; estão sujeitos a transes e visões, e é frequente verem coisas estranhas e ouvirem música e vozes no ar."
"Havia um contágio no próprio ar que soprava daquela região assombrada; soltava uma atmosfera de sonhos e fantasias que infetavam toda a terra."


Pontuação: 9.8/10


Gonçalo Martins de Matos

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"O Livro dos Homens sem Luz", de João Tordo

   Quando nos preparamos para ler o primeiro livro de um escritor devemos sempre ter em conta que, por mais que gostemos do autor, o livro pode dececionar-nos ou deliciar-nos, uma vez que se trata da pedra sobre a qual o autor ergue o resto da sua carreira. Um autor nunca deve ser imediatamente julgado pelo seu primeiro livro porque o primeiro livro é sempre o ponto de partida para a sua evolução literária. No entanto, o primeiro romance de João Tordo não dececiona. O Livro dos Homens sem Luz é construído com precisão, minúcia e coerência interna, sendo composto por várias histórias que se ligam entre si e por personagens tão peculiares mas que apelam a tanta gente. Trata-se sem dúvida de uma obra já bastante madura, tendo em conta que é o primeiro romance do autor. As características principais que marcam os livros subsequentes de João Tordo encontram-se todas neste seu primeiro romance. 
   O romance passa-se maioritariamente em Londres e divide-se em quatro partes, em quatro histórias diferentes que se interligam e que caminham para um desenlace comum e inevitável. Muito brevemente exporei a história de cada parte. Na primeira parte seguimos o quotidiano do narrador, chamado David, cuja perceção do mundo que o rodeia passa de uma apatia imutável para a sensação de inevitabilidade e de que a sua vida não lhe pertence, de que não é comandada por si, após uma sequência inesperada e bizarra de acontecimentos. Na segunda parte conhecemos um casal, Joseph e Helena, que ficam soterrados na cave da sua casa após um ataque alemão a Londres. A narração expõe o que se passou na cave e de como Helena se tornou numa pessoa fria e Joseph numa besta, nem homem, nem animal, completamente desmoronado psicologicamente. A terceira parte relata a constante insónia e dificuldade de interpretação da realidade ou irrealidade do mundo que o rodeia de um estudante que trabalha como arrumador de livros em Londres. A quarta história relata o internamento e estudo de Joseph por parte do hospital de Brighton e do médico por este convidado, Robert Burke. As histórias partilham aspetos em comum que lhes atribui um caráter de veracidade e de realidade, apesar do seu teor insólito. Todas as narrativas são labirínticas e claustrofóbicas, damos por nós a interromper a leitura para respirar e certificar-nos de que ainda nos encontramos no espaço físico onde iniciamos a leitura.
   O autor faz um uso cuidado da língua e estica até aos limites a perceção que o leitor tem da realidade. Há, para mim, três aspetos fundamentais que ligam as histórias presentes no romance. O primeiro é a figura enigmática de Roy, que é mencionado em todas as histórias menos na de Joseph e Helena e que faz a sua aparição na história final. Roy começa e termina o romance como um personagem omnipresente, que controla a vida de todos os que consigo contactam. O segundo aspeto é a referência a três palavras-chave que atravessam o romance, insónia, fantasma e escuridão. Estas três palavras são sempre utilizadas pelos personagens quer a descrever as suas existências, quer a descrever a realidade onde se encontram inseridos. O terceiro é a presença de um cobertor laranja, que se encontra sempre presente no espaço físico das personagens. O narrador da primeira história é o dono do cobertor laranja, sendo que depois o passa para o jovem estudante, sendo-nos depois referido que o cobertor laranja era de Roy aquando da sua estadia no hospital. Cada história funciona como conclusão da anterior seguindo um esquema cruzado: a terceira conclui o que foi narrado na primeira e a quarta conclui o que foi narrado na segunda. A insónia e a escuridão oprimem a existência fantasmagórica dos personagens deste romance, sendo que aqui o nome fantasma representa não uma alma penada que vagueia a terra, mas uma pessoa real, de carne e osso, mas cuja existência passa despercebida e se processa de maneira monotonamente igual. 
   Concluo, portanto, afirmando de que me entretive imenso com este romance de João Tordo. Neste romance estão presentes as várias características que marcariam os romances seguintes, como as histórias insólitas, os personagens peculiares e a presença de personagens de umas histórias noutras histórias. Trata-se de boa literatura portuguesa e de um romance que aconselho que seja lido por todos os que apreciam uma narrativa com qualidade.

Citações:
"Escrevi as estórias daqueles que conheci durante os meus últimos tempos no mundo, e de outros que encontrei dentro de mim, escondidos, à espera de uma porta que se abrisse no escuro, estórias que irão ler nas páginas deste livro."
"Os sonhos começaram pouco tempo depois, regulares e intensos, como se um fantasma regressasse à casa que decidira assombrar, mas da qual fora expulso."
"Vi os sacos de lixo derrubados à porta de um prédio; e vi um bando de pássaros baterem as asas como livros folheados, fugindo à tempestade que se anunciava. A chuva começou a cair, oblíqua e indiferente, sobre toda a cidade, e um grupo de folhas ergueu-se no ar, conversando, murmurando segredos que nunca serão acessíveis aos homens."


Pontuação: 8.9/10


Gonçalo Martins de Matos

domingo, 20 de novembro de 2016

"As Naus", de António Lobo Antunes

   António Lobo Antunes sempre foi visto pela crítica literária como um escritor fora da caixa, um escritor que sempre seguiu uma via alternativa e pessoal face às correntes literárias portuguesas. Quando lemos um livro de Lobo Antunes sabemos que iremos encontrar uma visão única e pessoal sobre a sociedade e uma voz desafiadora das convenções e dogmas das letras portuguesas. Neste As Naus encontramos em grande medida essa visão única da sociedade portuguesa e essa voz desafiadora da corrente, quer pelos temas abordados, quer pela experimentação narrativa. Lobo Antunes e José Saramago são muitas vezes citados como os grandes prosadores portugueses do início do século XXI, e penso que essa classificação é justamente atribuída, visto que ambos fizeram esforços no sentido de renovar a literatura portuguesa, abrindo caminhos novos por onde a geração seguinte poderia (e fá-lo, efetivamente) explorar. 
   O romance, nos seus primeiros capítulos, faz como que uma espécie de introdução dos seus personagens e das suas peripécias passadas. Que personagens? Este é um dos aspetos mais interessantes do romance: os personagens são figuras bem conhecidas dos descobrimentos portugueses. Portanto, a narração incidirá sobre as peripécias passadas e inquietações presentes de Francisco Xavier, Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões, Diogo Cão, Manoel de Sousa de Sepúlveda, Fernão Mendes Pinto, Vasco da Gama, Garcia de Orta e, entre outros, um casal anónimo. Continuando, o romance inicia-se com a apresentação dos personagens e dos seus regressos, quer no passado, quer no momento da narração, das colónias a Lisboa (grafada no romance como "Lixboa"). Percorrendo as inquietações dos seus personagens e as suas histórias pessoais atribuladas, fantásticas e nostálgicas, o romance não tem um rumo certo, não tem um fio condutor para o qual a história caminhe, sendo as descrições dos universos pessoais dos personagens o que acaba por criar a realidade da narração. Explorando a vida difícil e os caminhos obscuros que são obrigados a percorrer após o seu regresso ao país, este romance reescreve a história dessas grandes figuras portuguesas de um modo mais satírico e menos heróico, desafiando a história embelezada de Portugal com a crua realidade do país.
   Os tempos e as vozes confundem-se no romance. No momento da narração ocorrem simultaneamente a partida dos navegadores em busca do Mundo Novo e o regresso a Portugal dos retornados no pós-25 de abril. Os navegadores deambulam pelas ruas, abandonados pelo mesmo povo que os apelidou de heróis aquando dos seus grandes feitos. Essa é outra das características deste romance que me fascinou, a realidade nova que é criada pelo narrador quando mistura os problemas dos retornados e da sociedade portuguesa do século XX com os problemas dos navegadores e da sociedade portuguesa do século XV. O velho e o novo convivem numa harmonia desarmoniosa, o passado sempre a intrometer-se no presente e o futuro incerto que sempre pesa na atualidade, a metáfora de excelência para descrever Portugal. Outro aspeto que torna a leitura deste romance tão interessante como confusa se não se estiver atento é a confusão de vozes. A história é narrada na terceira pessoa, mas também é na primeira pessoa. Num parágrafo é ele, no seguinte é eu. Por vezes a frase muda de eles para nós a meio, o que pode parecer confuso mas na realidade é apenas diferente. Esta confusão de tempos e de vozes criam a atmosfera labiríntica que caracteriza os romances de Lobo Antunes.
   Sem nada mais a acrescentar, resta-me recomendar vivamente a leitura deste romance a qualquer apreciador de trabalho literário ousado, imaginativo e diferente.

Citações:
"Agora o casal do retrato tornara-se numa aguarela de iodo e nós em múmias sem préstimo espantadas diante das dezenas de garrafinhas do bar do apartamento, expostas em prateleiras de mogno na imobilidade inquietante das peças de xadrez."
"Às cinco e meia, quando a primeira claridade lutava com os candeeiros da rua e os vice-reis, derrubando copos, discutiam a estratégia de Trafalgar, o padre António Vieira, sempre de cachecol, expulso de todos os cabarés de Lixboa, procedia a uma entrada imponente discursando os seus sermões de ébrio, até tombar num sofá, entre duas negras, a guinchar as sentenças do profeta Elias numa veemência missionária."
"De modo que fui moendo episódios heróicos, parando a tomar notas nas retrosarias iluminadas, até desembocar na praça da minha estátua, mãe, com centenas de pombos adormecidos nas varandas em atitudes de loiça e cães que alçavam a pata no pedestal da minha glória"


Pontuação: 9.8/10


Desafiantes leituras,
Gonçalo M. Matos

sábado, 1 de outubro de 2016

"A Metamorfose", de Franz Kafka

   A Metamorfose consiste numa das grandes obras da literatura do século XX, e quando se trata de iniciar a leitura de grandes obras, é normal ficar-se expectante quanto ao que irá ser lido: será que vamos gostar? Esta obra é uma obra pequena, com pouco mais de 90 páginas, lê-se bem. Mas, felizmente, a qualidade não é determinada pela quantidade de frases que se escrevem, mas pelo conteúdo que cada parágrafo comporta. É o que torna esta pequena novela tão importante e marcante na literatura mundial. Não só é a primeira vez que um escritor recorre ao uso do absurdo como mecanismo literário como é um relato pleno de pensamento e conteúdo. 
   A novela começa numa manhã em que o protagonista acorda depois de uma noite mal dormida para descobrir que se transformara num gigantesco inseto. Este é um dos inícios mais famosos da literatura ocidental, e é interessante constatar que se trata de uma ideia até bastante simples mas que apenas poderia ter sido elaborada por Kafka. Normalmente verifico isto quando se trata de um autor modernista. Mas, prosseguindo com a história, que parte do ponto referido, é-nos narrada a angústia de Gregor Samsa, o protagonista, enquanto vai perdendo aos poucos as suas características humanas, e a reação da sua família. A história coloca uma questão interessante aos leitores, servindo-se do absurdo da situação: o que faríamos se nos acontecesse uma desgraça semelhante? Como reagiríamos se um membro da nossa família sofresse de uma desgraça parecida? São estas questões essenciais que atravessam esta obra. 
   Qual seria a nossa reação se nos apercebêssemos da nossa impotência perante o absurdo da vida? Esta última questão é uma constante transversal à obra de Kafka, uma vez que os seus escritos partem sempre de pontos de partida improváveis ou até impossíveis e daí evoluem filosoficamente para o absurdo de se estar vivo. Porque nada é mais absurdo do que a vida. Outra questão que esta obra levanta de forma pertinente é: o que será que faz de nós humanos? Será o nosso aspeto? O nosso comportamento? Os nossos gostos, a nossa sensibilidade? Esta novela tem um estilo de escrita muito acessível, contraposta à complexidade temática e filosófica da narrativa, o que resulta num equilíbrio literário muito bem conseguido, sem que o autor perca por um momento o domínio da prosa. A análise perspicaz que o autor faz ao comportamento humano é também muito bem conseguida, uma vez que seria exatamente assim que reagiriam os seres humanos se algum dia algo parecido se sucedesse. O medo é uma das forças motrizes principais do homem, que reage instintivamente a tudo que seja diferente do que está habituado. Talvez um dos pontos mais bem executados seja a lenta e gradual desumanização de Gregor Samsa à medida que o tempo avança. Gregor dá por si em certo ponto a questionar se continua a ser humano ou se a sua humanidade desapareceu com o seu aspeto humano. Ainda sobre humanidade, ou falta desta, A obra também se debruça sobre a mesquinhez de uma sociedade opressora que não se importa minimamente com os problemas dos outros, mesmo que esses problemas sejam gravíssimos com o é o caso dos Samsa. É famosa a história de como o amigo de Kafka, Max Brod, desrespeitou o último desejo deste de que destruíssem a sua obra após a sua morte. E, visto que Brod conseguiu trazer para a prosperidade obras como esta, valeu bem a pena o pequeno desrespeito que este teve de fazer. 
   Resta-me então recomendar fervorosamente a leitura desta novela tão bem pensada e executada, desta pérola da efabulação humana. 

Citações:
"Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso inseto."
"Ali ficou a noite inteira, em parte passada num meio sono do qual a fome de vez em quando o fazia acordar, a par com a agitação que as preocupações e vagas esperanças lhe provocavam, mas que o levavam a concluir pela necessidade de provisoriamente se manter calmo e, através de paciência e de solicitude extremas, tornar suportáveis à sua família os contratempos que o seu estado atual lhes causava."
"Apesar de tudo, a irmã de Gregor tocava tão bem! Com a cabeça ligeiramente inclinada, para o lado, o seu olhar seguia a partitura com uma expressão triste. Gregor avançou um pouco mais, mantendo a cabeça rente ao chão a fim de eventualmente cruzar o seu olhar com o dela. Seria mesmo um animal, se a música o comovia àquele ponto?"


Pontuação: 9.9/10


Maravilhosas leituras,
Gonçalo M. Matos

sábado, 24 de setembro de 2016

"Balada da Praia dos Cães", de José Cardoso Pires

   Quando nos preparamos para ler José Cardoso Pires, ocorre-nos sempre o seguinte: que estaremos a ler uma obra diferente. José Cardoso Pires é dos autores do século XX que mais marcou a sua dissonância em relação à forma de escrever um romance, e parte da importância da sua obra no geral é essa demarcação que o autor faz da escrita vigente na sua época. Quando nos preparamos para ler um romance como Balada da Praia dos Cães, temos sempre consciência de que iremos ler algo diferente do que estamos habituados, o que pode resultar numa surpresa agradável ou desagradável, dependendo dos hábitos e gostos pessoais de leitura de cada um. No meu caso, nem me aqueceu nem me arrefeceu. Trata-se de uma grande obra de um grande autor, mas houve vários aspetos que me foram deixando um pouco de pé atrás em relação a este livro. Já lá iremos. 
   A história relata a investigação levada a cabo pela Polícia Judiciária após a descoberta de um cadáver na Praia do Mastro em abril de 1960, em plena ditadura salazarista. A história é basicamente esta. Qualquer acrescento que eu faça a este pequeno sumário será uma revelação do enredo, coisa que eu não desejo para os meus leitores. Posto isto, para não deixar simplesmente este mote no ar, revelo um pouco mais da trama. A primeira parte da história retrata simultaneamente a investigação que Elias vai fazendo ao longo dos seus dias, mentalmente, e o interrogatório a uma das suspeitas, Filomena, abreviada como Mena, sendo pormenores sobre o caso revelados ao longo desta primeira parte, em retrospetiva. A segunda parte da história dá conta da reconstituição da noite em que a vítima, major Dantas Castro, foi assassinada, já com todos os suspeitos sob custódia da PJ. 
   Como já referi, o livro está dividido em duas partes, a investigação e a reconstituição, sendo que a primeira se divide em seis capítulos. A história é narrada numa mistura peculiar de presente e de retrospetiva, uma vez que a narração dos eventos é interrompida de vez em quando para introduzir informações adicionais que são fornecidas pelos autos do processo, ou seja, pelos textos legais finais e definitivos, que não poderiam existir aquando da investigação. Esta indefinição temporal da narração é peculiar a José Cardoso Pires, uma vez que ele se revela um narrador-autor, o homem que escreve é também o homem que narra. Esta utilização específica de narração cria um efeito de ficção real, é como se o caso se tivesse passado realmente no nosso mundo, e não só nas páginas do romance. No entanto, esta forma de narração distraiu-me por vezes, e vi-me obrigado a ter de repetir alguns parágrafos para retomar balanço na leitura. Regressando à linha fina que separa a realidade da ficção, obviamente essa falta de fronteira é intencional, uma vez que o autor, com este romance, demonstra, a meu ver, duas intenções: a de narrar como era a vida em Portugal durante o regime salazarista e o de transmitir uma ideia de possibilidade dos eventos narrados. O autor quis transmitir que os eventos que narrou saíram da sua imaginação, mas isso não quer dizer que não tenham acontecido, com outros intervenientes. As duras críticas à PIDE não escapam ao leitor, também. O tipo de escrita é sóbrio e direto, sem grandes floreados e de teor oral, como se o autor estivesse verdadeiramente a falar connosco presencialmente.
   Concluindo, não foi uma leitura que eu possa dizer que tenha apreciado, mas não deixa de ser um romance inovador, focado e magistralmente composto, como são a generalidade das obras de José Cardoso Pires. Portanto, recomendo a leitura do romance, quer pelo estilo de escrita sóbrio, quer pela crítica inerente ao regime salazarista.

Citações:
"Contempla-o sentado à mesa, tendo à mão esquerda o lagarto Lizardo no seu deserto vidrado e à frente a noite em janela de infinito. Aprofunda a foto em silêncio."
"Tendo em vistas o advogado dos brilhos, salienta que o homo politicus é um animal lixado de trabalhar porque tem padrinhos no céu e afilhados no inferno, para não falarmos no purgatório que é onde se junta a maralha dos conspiradores em part-time."
"Depenou-a em poucas bicadas, foi fácil, trigo limpo, e agora, todo sozinho, soma as penas que ficaram a flutuar depois dela, é assim que a abrange melhor. A experiência diz-lhe que o investigar é como nos filmes, só depois do écran, só depois do contado e olhado, é que, repetindo e ligando, as fitas se veem no todo e por dentro."


Pontuação: 5.8/10


Agradáveis leituras,
Gonçalo M. Matos

domingo, 28 de agosto de 2016

"Jesusalém", de Mia Couto

   Ler Mia Couto é estar na presença de uma obra garantidamente bela, poética e intrigante. Este livro, considerado como um dos melhores do autor, não se desvia dessa beleza poética que tão bem caracteriza a sua obra. A escrita de Mia Couto é esteticamente sublime e os temas que aborda são deliciosamente poéticos. Ler uma obra deste autor moçambicano é enriquecedor e um verdadeiro deleite. O autor tem uma forma de escrever tão característica, sendo até a sua mais marcante contribuição para a língua portuguesa a criação de neologismos. Mas nesta obra não se nota essa característica, tirando um ou dois espalhados pelo livro. O que mais marca na leitura de Jesusalém, na minha opinião, é o seu desarmante lirismo. Desarmante porque estamos perante o que parece ser uma utopia, sítio onde não contamos encontrar algo de muito poético. Por essa razão, somos surpreendidos pela doce poesia em prosa que o autor escreve. Muitos são os autores que escrevem muito bem o português, que o levam aos seus limites, mas apenas um punhado destes consegue um tão grande lirismo e significado no que escreve recorrendo a um português simples e acessível.
   A história inicia-se com a apresentação do narrador, Mwanito, "afinador de silêncios", como ele próprio se introduz. A primeira parte do livro é a descrição de como era a vida numa coutada para onde se haviam mudado ele, o seu pai, Silvestre Vitalício, o seu irmão, Ntunzi, e o ajudante do seu pai, o militar Zacaria Kalash. Jesusalém é o nome da coutada onde estes habitam, porque certo dia, após a morte da sua mulher, Dordalma, Silvestre pegara nos seus filhos e mudara-se para um sítio onde não existia tempo nem humanidade, um sítio onde mais ninguém para além deles existia. Após a apresentação das personagens que habitam Jesusalém (a que o narrador denominou de humanidade), são-nos contados vários e pontuais eventos que trazem de volta a humanidade e o tempo a Jesusalém, a narração sempre evoluindo até atingir um ponto sem retorno, onde tudo muda, não podendo voltar ao que era. 
   O lirismo da escrita de Mia Couto é apaixonante. A sua escrita pega-nos às suas páginas, ficamos emocionalmente colados à sua poesia autêntica. É uma autêntica pérola de palavras, uma pedra preciosa de emoções. É assim que descrevo a escrita de Mia Couto, uma jóia. Neste livro não estão presentes os neologismos que caracterizam a obra de Mia Couto, e que lhe valeram o Prémio Camões pela inestimável contribuição para a língua portuguesa, aparte um ou outro pontualmente utilizados (o que me marcou mais foi a palavra "desconsegui"). As alianças improváveis que o autor faz entre um nome e um adjetivo para criar uma ideia de união e desunião simultânea, aliadas ao ocasional neologismo, deixavam-me sempre um sorriso na boca quando os detetava. É uma escrita lírica, poética, preciosa. A língua portuguesa deve muito a Mia Couto, mesmo que não utilizemos os neologismos por ele criados quotidianamente. Quanto mais não seja, deve-lhe o facto de evoluir, de se misturar o português tradicional com o dialeto moçambicano, criando uma língua lusófona, não só de Portugal, mas de todos os países da lusofonia. 
   Em suma, a leitura deste livro é essencial para quem quiser contactar com o que de melhor se escreve em língua portuguesa. É uma obra poética em prosa, para ser apreciada. 

Citações:
"Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez."
"Deslumbrar, como manda a palavra, deveria ser cegar, retirar a luz. E afinal era agora um ofuscamento que eu pretendia. Essa alucinação que uma vez sentira, eu sabia, era viciante como morfina. O amor é uma morfina. Podia ser comerciado em embalagens sob o nome: Amorfina."
"- Engraçado: eu esperava que Deus viesse a Jesusalém. Afinal, quem vai chegar são estrangeiros privados.
- É assim, o mundo...
- Quem sabe os estrangeiros privados são os novos deuses?
- Quem sabe?"


Pontuação: 10/10


Poéticas leituras,
Gonçalo M. Matos