quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

"A Quinta dos Animais", de George Orwell

   A história de A Quinta dos Animais é uma das mais conhecidas da literatura universal, e são duas as razões, a meu ver, principais para que assim seja: trata-se de uma das fábulas satíricas melhor escritas e equilibradas e a sua análise inerentemente intrínseca à condição e à fraqueza humana. A Quinta dos Animais é considerado um dos melhores romances do século XX, e os temas universais que o compõem são ainda hoje estudados e analisados. Este romance faz parte do imaginário português, no entanto, sob outro título, a primeira tradução em língua portuguesa: O Triunfo dos Porcos
   Cansados da tirania dos seres humanos e inspirados por um grande líder muito respeitado por todos, os animais da Quinta do Infantado revoltam-se contra os opressores humanos e tornam-se senhores dos seus próprios destinos. Libertos do jugo humano, os animais, mais precisamente, os porcos, decidem reorganizar a quinta com um novo sistema político e ideológico, o animalismo, segundo o qual todos os animais são iguais. Os princípios do animalismo são compilados em Sete Mandamentos, que todos os animais devem respeitar de forma a que a vida na quinta corra da melhor maneira possível. No entanto, esses princípios vão sendo aos poucos violados pelos animais que tomaram as rédeas da Quinta dos Animais, os porcos, sendo que Napoleão vai aos poucos tomando o controlo de todos os aspetos da vida dos animais. Ajudado por Tagarela, um porco com o dom da retórica, Napoleão gradualmente molda e distorce os princípios originais do animalismo de forma a servir unicamente os seus interesses e os dos outros porcos. A história, em paralelo com isto, vai narrando como decorria a vida dos restantes animais da quinta. No final, Napoleão e os porcos subverteram de tal maneira as teses do animalismo que apenas sobra um mandamento, "Os animais são todos iguais mas uns são mais iguais que os outros", tornando-se eles nos opressores. 
   Eu achei o livro perfeito. Sei que é uma palavra muito perigosa de se usar num tema subjetivo, mas perfeição encaixa perfeitamente, passe a redundância, na obra A Quinta dos Animais. Toda a sua história é concisa, mas elucidativa, simples, mas complexa, equilibrada e escrita com mestria. Tudo na obra é uma alegoria de qualquer coisa. A Quinta dos Animais serve como a Rússia nos seus anos soviéticos, os animais representam, claro, o povo russo, Napoleão é uma alegoria de Josef Stalin, Tagarela, uma alegoria de Molotov, Bola-de-Neve uma alegoria de Lenin e de Trotski, o Velho Major uma alegoria de Marx e Lenin, o velho burro Benjamim uma alegoria do próprio George Orwell, todos os eventos que se passam na história seguem alegoricamente a sucessão reais de eventos na Rússia... enfim, toda a obra é uma grande alegoria satírica da situação russa no século XX. Mas mais que a alegoria, como anteriormente referi, a obra ganha com a sua profunda análise da condição humana, e das suas fraquezas, nomeadamente, a fraqueza do luxo e do poder. A revolução dos animais começou baseada na igualdade e na fraternidade e, devido à ânsia de poder de alguns, todos acabam por sofrer com a lenta e inevitável corrupção dos princípios justos. Napoleão representa precisamente essa corrupção dos princípios morais humanos, tendo calhado a Stalin ser o representante alegórico dessa decadência ética, através do personagem do porco. Mas nem todas as sociedades justas evoluem para ditaduras, e é neste ponto que julgo encontrar-se a genialidade de A Quinta dos Animais; quase todas as democracias modernas evoluíram para sistemas em que poucos controlam todos e os interesses prosseguidos por esses poucos são exclusivamente os seus. Está aqui a corrupção e distorção dos princípios morais do ser humano devido à sua grande fraqueza pelo poder. 
   Portanto, resumindo, o livro é brilhante e inspirado, e penso tratar-se de uma das leituras obrigatórias para todos os seres humanos sem exceção, tenham ou não o hábito da leitura.

Citações:
"«O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é demasiado fraco para puxar o arado, não consegue correr suficientemente depressa para caçar coelhos. E, todavia, é amo e senhor de todos os animais. Obriga-os a trabalhar, dá-lhes o mínimo indispensável para evitar que morram de fome e guarda o resto para si." 
"Ao longo daquele ano inteiro, os animais trabalharam que nem escravos, mas, apesar disso, sentiam-se felizes; não se poupavam a esforços nem a sacrifícios, bem cientes de que tudo o que faziam era para benefício próprio e das futuras gerações de animais, e não para um bando de seres humanos preguiçosos e ladrões."
"Por uma vez, Benjamim consentiu em quebrar a sua regra e leu-lhe em voz alta o que estava escrito na parede. Já só restava um único Mandamento, que rezava assim:
TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS MAS UNS SÃO MAIS IGUAIS DO QUE OUTROS"


Pontuação: 10/10


Gonçalo Martins de Matos

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"Húmus", de Raul Brandão

   Húmus é a obra mais conhecida de Raul Brandão, e uma das obras mais influentes da literatura portuguesa do século XX. As temáticas presentes nesta obra levam a que tenha sido identificada como o primeiro romance existencialista português, tendo da influência deste romance nascido o movimento existencialista português na segunda metade do século XX. 
   Como se trata de um romance-ensaio filosófico, o autor deu pouco ênfase a uma história em concreto e dedicou-se mais aos pensamentos do narrador. A narrativa apresenta-nos um espaço físico, uma vila, várias personagens que apenas preenchem o espaço físico, para relembrar o leitor de que se trata de uma história humana, com seres humanos, e um tempo, sensivelmente um ano. Tratando-se de uma obra existencialista, a história surge como uma mera desculpa para o autor poder enveredar pelas suas divagações. No entanto, neste romance, ao contrário de outros do mesmo estilo, não tem uma história determinável, sendo composto de um ou outro acontecimento que apenas servem para introduzir uma nova linha de pensamento do narrador. O que é concretamente determinável é que a história se centra num narrador anónimo e no seu alter-ego, o filósofo lunático Gabiru, com quem envereda num longo monólogo interior enquanto expõem as suas impressões sobre a vida na vila e no mundo, sendo as suas opiniões quase sempre antagónicas. A estes juntam-se outros personagens que não existem realmente, que são apenas a visão que o narrador tem de cada um.
   Húmus é um romance que não é bem um romance. É uma prosa poética. É um ensaio e não é. É um diário sem o ser verdadeiramente. Húmus é uma contradição constante, não sendo nem de um género nem de outro. O húmus, o composto orgânico, também é uma contradição, é composto de matéria morta, mas de si nasce a vida. Talvez seja essa a razão porque Raul Brandão escolheu o título de Húmus para este seu romance filosófico. A vida e a morte são uma constante ao longo do romance, e o narrador confronta sempre a dura realidade que é a morte com a mentira que é a vida pensada em relação à vida real. O narrador chama a essa vida pensada ilusão, ilusão causada pela necessidade do homem em negar a morte e em negar a dura realidade das coisas. As divagações filosóficas do narrador percorrem todo o tipo de temas, sempre subjugados às duas temáticas principais. O narrador fala em hipocrisia, em sonho, em fé, nos oprimidos. O romance organiza-se, na minha visão, em quatro ciclos temáticos, uma vez que no final de cada sequência de capítulos há um capítulo reservado á visão de Gabiru. Não há temas que escapem à dissecação do narrador e à análise contundente e delirante de Gabiru. Gabiru tem quase como que uma palavra final, um último dizer sobre as coisas, cada ciclo temático termina com um capítulo apelidado de "Papéis do Gabiru", no qual o Gabiru expõe a sua visão peculiar sobre os temas que o narrador analisou. 
   Para quem gosta de grandes romances carregados de filosofia e pensamento tem em Húmus um romance ideal. Não é uma leitura fácil, e é por isso que eu apenas recomendaria este romance a quem aprecia este tipo de dissecação filosófica da realidade. No entanto, trata-se de uma obra marcante na literatura portuguesa que deve ser lida por todos os apreciadores da grande literatura.

Citações:
"Sob estas capas de vulgaridade há talvez sonho e dor que a ninharia e o hábito não deixam vir à superfície. Afigura-se-me que estes seres estão encerrados num invólucro de pedra: talvez queiram falar, talvez não possam falar."
"É ele que me prega: - Toda a agitação é inútil. Não tenhas medo da desgraça! - E eu tenho medo da desgraça. À força de hábito cheguei a mantê-lo no seu lugar, mas nunca o pude suprimir, e quanto mais me aproximo da morte, mais saudades levo do Gabiru, que me estragou a vida toda."
"Aqui estamos todos bichos em frente de bichos, os que pagam as letras e os que têm as letras protestadas, nós e nós, nós e os ladrões das estradas, nós vestidos e grotescos, nós nus e trágicos - nós e o universo monstruoso! Nós corretos e nós disformes, nós e o céu profundo na sua temerosa realidade."


Pontuação: 7/10


Gonçalo Martins de Matos

sábado, 24 de dezembro de 2016

"O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde", de Robert Louis Stevenson

   O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde é uma das histórias mais conhecidas e uma das minhas preferidas na literatura. Trata-se de um dos livros mais emblemáticos de um autor marcante na literatura de língua inglesa, sendo ainda nos dias de hoje admirado e estudado pela sua inovadora criatividade no tratamento de certos temas. Trata-se de um dos romances góticos mais conhecidos e é considerado por muitos (entre os quais, o mestre do romance gótico atual, Stephen King) como um dos clássicos do género. A sua influência foi tão vincada que a expressão "Jekyll and Hyde" faz parte da língua inglesa como designação precisamente da duplicidade moral de uma pessoa. 
   A história divide-se em três momentos. O primeiro, que é composto pela maior parte da obra, é o relato das indagações do advogado John Utterson sobre a relação sombria entre um terrível senhor chamado Edward Hyde e o seu amigo Henry Jekyll. O segundo momento consiste numa carta que o amigo de Utterson e Jekyll, Dr. Hastie Lanyon, a relatar a sua parte dos estranhos acontecimentos que rodeiam Jekyll e Hyde. O terceiro e último momento consiste na confissão de Henry Jekyll da sua ligação a essa criatura maligna que é Edward Hyde, ligação essa que, por ser tão famosa a história, todos sabemos tratar-se de uma fórmula que transforma quem a toma, trazendo ao de cima o seu lado mais maligno e os seus impulsos mais primitivos. Entre o primeiro e os restantes momentos, vários acontecimentos pontuais sucedem-se e são deixados por explicar de forma a que tudo seja elucidado mais para a frente, terminando a história num desenlace tenebroso e misterioso.
   Todo o romance transpira um ambiente sufocante e tenso, sempre pairando a ideia de nevoeiro, de enublado. Por todo o romance há pequenas insinuações à duplicidade, que passam despercebidas após uma primeira leitura. Referências ao dia e à noite, ou ao sol e ao nevoeiro. Até a casa onde habita Hyde se encontra nas traseiras da casa onde habita Jekyll, numa propositada alusão do autor à personalidade oculta do doutor. A razão principal que me leva a acarinhar esta história é o tema da duplicidade da alma humana, o lado bom e moralmente aceitável e o lado mau e primitivo nas suas ações. Essa multiplicidade de personalidades sempre me fascinou e a história que melhor retrata essa dualidade apenas podia ser muito apreciada por mim. O personagem que claramente mais me fascina é o Dr. Jekyll/Mr. Hyde. É ele o centro de todo o romance, é ele que movimenta o desenrolar do enredo. Henry Jekyll, um homem ético e austero nas suas emoções, crê ter desbloqueado a chave da alma humana, crê que a sua visão bipartida da alma humana é a correta, e decide fazer experiências para testar a sua tese. Dessas experiências nasce Edward Hyde, um homem de aspeto sombrio e que "passa uma a ideia de deformidade", que provoca calafrios em todos os que consigo contactam, imoral e composto apenas de pensamentos primitivos e eticamente malignos. E a pertir das primeiras experiências, Edward Hyde vai-se intrometendo aos poucos na vida de Jekyll até atingir um ponto sem retorno. A dualidade inerente da alma humana, a multiplicidade de personalidades, como disse, são temas que me fascinam profundamente, e esta visão peculiar dessa duplicidade não merece mais do que ser aplaudida e, mais importante, lida. 
   Portanto, trata-se de uma obra brilhante que deve ser lida e apreciada por todos os fascinados por boa literatura e pela questão da alma humana.

Citações:
"O homem levou o copo à boca e bebeu dum trago. Soltou um grito. Cambaleou, vacilou, agarrou-se à mesa, de olhos esgazeados, respirando com a boca escancarada. Mas, enquanto eu olhava, principiou..., assim me quis parecer..., a transformar-se, a inchar, a cara tornava-se negra, as feições como que dissolvendo-se e alterando-se." 
"Desde longa data, ainda antes que as minhas descobertas científicas começassem a sugerir-me a simples possibilidade de semelhante milagre, aprendi a admitir e a saborear, como uma fantasia deliciosa, o pensamento da separação daqueles dois elementos. Se cada um, dizia eu comigo, pudesse habitar numa entidade diferente, a vida libertar-se-ia de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gémeo, o bom; e este caminharia resolutamente, cheio de segurança, na senda da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem ficar exposto à desonra e à penitência engendradas pelo perverso."


Pontuação: 10/10


Gonçalo Martins de Matos

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

"A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça", de Washington Irving

   A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça é uma das histórias universalmente mais conhecidas pelos leitores, sendo o seu autor, Washington Irving, considerado, com esta história, como o introdutor do conto como um género literário próprio. Este conto consiste, precisamente, numa das mais importantes obras da literatura americana, sendo apreciada e estudada até aos dias de hoje. Washington Irving é tido como o primeiro grande escritor americano e foi graças a si que a literatura americana pôde afirmar-se perante o mundo. 
   O conto relata a história de Ichabod Crane, um mestre-escola que desempenhava a missão de instruir todas as crianças de Sleepy Hollow, sendo um professor rigoroso, mas justo e compreensivo. O enredo consiste na competição entre Ichabod Crane e Brom Bones pela mão de Katrina Van Tassel, filha única do rico fazendeiro Baltus Van Tassel. Uma noite, após um serão em casa dos Van Tassel, Crane, a caminho de casa, encontra-se com o Cavaleiro sem Cabeça, o fantasma de um cavaleiro hessiano da altura da Revolução Americana, que se dizia percorrer o Vale em busca da sua cabeça perdida. Crane tenta fugir, mas o Cavaleiro persegue-o, acabando por o apanhar na Ponte da Igreja de Sleepy Hollow, onde fica selado o destino infeliz de Ichabod Crane. No dia seguinte os habitantes procuram saber o que se terá passado com o mestre-escola, concluindo no final que o infeliz foi vítima do Cavaleiro. 
   Como se trata de uma história tão conhecida, desta vez não tive tantos cuidados com as revelações de enredo, mas esses cuidados são irrelevantes porque o que fascina os leitores nesta história é a escrita, as descrições das paisagens americanas oitocentistas e os seus personagens. Trata-se de uma história muitíssimo equilibrada, não exagerando nas descrições e sendo direta na narração. Para mim, as personagens mais fascinantes do conto são o protagonista e o antagonista, precisamente. Ichabod Crane é descrito como um homem alto, magro e educado, mas extremamente suscetível e supersticioso. A sua demanda para conquistar a mão de Katrina Van Tassel vê-se gorada, mas esse é o aspeto mais irrelevante de toda a construção do personagem, sendo o aspeto mais fascinante o seu empenho em instruir todas as crianças de Sleepy Hollow. O Cavaleiro sem Cabeça é para mim a personagem mais intrigante deste conto e uma das personagens sobrenaturais mais fascinantes da literatura. O Cavaleiro é um fantasma que assombra o campo de batalha onde pereceu, procurando incansavelmente a sua cabeça. A história deixa em aberto a natureza do fantasma, se seria realmente uma assombração ou se seria na realidade o rival de Crane, Brom Bones, disfarçando, sendo que a narrativa aponta mais para esta segunda opção.
   Em suma, trata-se de uma obra fascinante e realmente bem composta, sendo bastante inovadora na literatura americana da época, influenciando os autores que se seguiram, que deve ser lida e apreciada pelos amantes de uma boa história. 

Citações:
"Certo é que o lugar ainda continua sob a influência de algum poder mágico que lançou um feitiço sobre as mentes daquela boa gente, levando-os a andar num devaneio contínuo. São dados a todos os géneros de crenças maravilhosas; estão sujeitos a transes e visões, e é frequente verem coisas estranhas e ouvirem música e vozes no ar."
"Havia um contágio no próprio ar que soprava daquela região assombrada; soltava uma atmosfera de sonhos e fantasias que infetavam toda a terra."


Pontuação: 9.8/10


Gonçalo Martins de Matos

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"O Livro dos Homens sem Luz", de João Tordo

   Quando nos preparamos para ler o primeiro livro de um escritor devemos sempre ter em conta que, por mais que gostemos do autor, o livro pode dececionar-nos ou deliciar-nos, uma vez que se trata da pedra sobre a qual o autor ergue o resto da sua carreira. Um autor nunca deve ser imediatamente julgado pelo seu primeiro livro porque o primeiro livro é sempre o ponto de partida para a sua evolução literária. No entanto, o primeiro romance de João Tordo não dececiona. O Livro dos Homens sem Luz é construído com precisão, minúcia e coerência interna, sendo composto por várias histórias que se ligam entre si e por personagens tão peculiares mas que apelam a tanta gente. Trata-se sem dúvida de uma obra já bastante madura, tendo em conta que é o primeiro romance do autor. As características principais que marcam os livros subsequentes de João Tordo encontram-se todas neste seu primeiro romance. 
   O romance passa-se maioritariamente em Londres e divide-se em quatro partes, em quatro histórias diferentes que se interligam e que caminham para um desenlace comum e inevitável. Muito brevemente exporei a história de cada parte. Na primeira parte seguimos o quotidiano do narrador, chamado David, cuja perceção do mundo que o rodeia passa de uma apatia imutável para a sensação de inevitabilidade e de que a sua vida não lhe pertence, de que não é comandada por si, após uma sequência inesperada e bizarra de acontecimentos. Na segunda parte conhecemos um casal, Joseph e Helena, que ficam soterrados na cave da sua casa após um ataque alemão a Londres. A narração expõe o que se passou na cave e de como Helena se tornou numa pessoa fria e Joseph numa besta, nem homem, nem animal, completamente desmoronado psicologicamente. A terceira parte relata a constante insónia e dificuldade de interpretação da realidade ou irrealidade do mundo que o rodeia de um estudante que trabalha como arrumador de livros em Londres. A quarta história relata o internamento e estudo de Joseph por parte do hospital de Brighton e do médico por este convidado, Robert Burke. As histórias partilham aspetos em comum que lhes atribui um caráter de veracidade e de realidade, apesar do seu teor insólito. Todas as narrativas são labirínticas e claustrofóbicas, damos por nós a interromper a leitura para respirar e certificar-nos de que ainda nos encontramos no espaço físico onde iniciamos a leitura.
   O autor faz um uso cuidado da língua e estica até aos limites a perceção que o leitor tem da realidade. Há, para mim, três aspetos fundamentais que ligam as histórias presentes no romance. O primeiro é a figura enigmática de Roy, que é mencionado em todas as histórias menos na de Joseph e Helena e que faz a sua aparição na história final. Roy começa e termina o romance como um personagem omnipresente, que controla a vida de todos os que consigo contactam. O segundo aspeto é a referência a três palavras-chave que atravessam o romance, insónia, fantasma e escuridão. Estas três palavras são sempre utilizadas pelos personagens quer a descrever as suas existências, quer a descrever a realidade onde se encontram inseridos. O terceiro é a presença de um cobertor laranja, que se encontra sempre presente no espaço físico das personagens. O narrador da primeira história é o dono do cobertor laranja, sendo que depois o passa para o jovem estudante, sendo-nos depois referido que o cobertor laranja era de Roy aquando da sua estadia no hospital. Cada história funciona como conclusão da anterior seguindo um esquema cruzado: a terceira conclui o que foi narrado na primeira e a quarta conclui o que foi narrado na segunda. A insónia e a escuridão oprimem a existência fantasmagórica dos personagens deste romance, sendo que aqui o nome fantasma representa não uma alma penada que vagueia a terra, mas uma pessoa real, de carne e osso, mas cuja existência passa despercebida e se processa de maneira monotonamente igual. 
   Concluo, portanto, afirmando de que me entretive imenso com este romance de João Tordo. Neste romance estão presentes as várias características que marcariam os romances seguintes, como as histórias insólitas, os personagens peculiares e a presença de personagens de umas histórias noutras histórias. Trata-se de boa literatura portuguesa e de um romance que aconselho que seja lido por todos os que apreciam uma narrativa com qualidade.

Citações:
"Escrevi as estórias daqueles que conheci durante os meus últimos tempos no mundo, e de outros que encontrei dentro de mim, escondidos, à espera de uma porta que se abrisse no escuro, estórias que irão ler nas páginas deste livro."
"Os sonhos começaram pouco tempo depois, regulares e intensos, como se um fantasma regressasse à casa que decidira assombrar, mas da qual fora expulso."
"Vi os sacos de lixo derrubados à porta de um prédio; e vi um bando de pássaros baterem as asas como livros folheados, fugindo à tempestade que se anunciava. A chuva começou a cair, oblíqua e indiferente, sobre toda a cidade, e um grupo de folhas ergueu-se no ar, conversando, murmurando segredos que nunca serão acessíveis aos homens."


Pontuação: 8.9/10


Gonçalo Martins de Matos

domingo, 20 de novembro de 2016

"As Naus", de António Lobo Antunes

   António Lobo Antunes sempre foi visto pela crítica literária como um escritor fora da caixa, um escritor que sempre seguiu uma via alternativa e pessoal face às correntes literárias portuguesas. Quando lemos um livro de Lobo Antunes sabemos que iremos encontrar uma visão única e pessoal sobre a sociedade e uma voz desafiadora das convenções e dogmas das letras portuguesas. Neste As Naus encontramos em grande medida essa visão única da sociedade portuguesa e essa voz desafiadora da corrente, quer pelos temas abordados, quer pela experimentação narrativa. Lobo Antunes e José Saramago são muitas vezes citados como os grandes prosadores portugueses do início do século XXI, e penso que essa classificação é justamente atribuída, visto que ambos fizeram esforços no sentido de renovar a literatura portuguesa, abrindo caminhos novos por onde a geração seguinte poderia (e fá-lo, efetivamente) explorar. 
   O romance, nos seus primeiros capítulos, faz como que uma espécie de introdução dos seus personagens e das suas peripécias passadas. Que personagens? Este é um dos aspetos mais interessantes do romance: os personagens são figuras bem conhecidas dos descobrimentos portugueses. Portanto, a narração incidirá sobre as peripécias passadas e inquietações presentes de Francisco Xavier, Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões, Diogo Cão, Manoel de Sousa de Sepúlveda, Fernão Mendes Pinto, Vasco da Gama, Garcia de Orta e, entre outros, um casal anónimo. Continuando, o romance inicia-se com a apresentação dos personagens e dos seus regressos, quer no passado, quer no momento da narração, das colónias a Lisboa (grafada no romance como "Lixboa"). Percorrendo as inquietações dos seus personagens e as suas histórias pessoais atribuladas, fantásticas e nostálgicas, o romance não tem um rumo certo, não tem um fio condutor para o qual a história caminhe, sendo as descrições dos universos pessoais dos personagens o que acaba por criar a realidade da narração. Explorando a vida difícil e os caminhos obscuros que são obrigados a percorrer após o seu regresso ao país, este romance reescreve a história dessas grandes figuras portuguesas de um modo mais satírico e menos heróico, desafiando a história embelezada de Portugal com a crua realidade do país.
   Os tempos e as vozes confundem-se no romance. No momento da narração ocorrem simultaneamente a partida dos navegadores em busca do Mundo Novo e o regresso a Portugal dos retornados no pós-25 de abril. Os navegadores deambulam pelas ruas, abandonados pelo mesmo povo que os apelidou de heróis aquando dos seus grandes feitos. Essa é outra das características deste romance que me fascinou, a realidade nova que é criada pelo narrador quando mistura os problemas dos retornados e da sociedade portuguesa do século XX com os problemas dos navegadores e da sociedade portuguesa do século XV. O velho e o novo convivem numa harmonia desarmoniosa, o passado sempre a intrometer-se no presente e o futuro incerto que sempre pesa na atualidade, a metáfora de excelência para descrever Portugal. Outro aspeto que torna a leitura deste romance tão interessante como confusa se não se estiver atento é a confusão de vozes. A história é narrada na terceira pessoa, mas também é na primeira pessoa. Num parágrafo é ele, no seguinte é eu. Por vezes a frase muda de eles para nós a meio, o que pode parecer confuso mas na realidade é apenas diferente. Esta confusão de tempos e de vozes criam a atmosfera labiríntica que caracteriza os romances de Lobo Antunes.
   Sem nada mais a acrescentar, resta-me recomendar vivamente a leitura deste romance a qualquer apreciador de trabalho literário ousado, imaginativo e diferente.

Citações:
"Agora o casal do retrato tornara-se numa aguarela de iodo e nós em múmias sem préstimo espantadas diante das dezenas de garrafinhas do bar do apartamento, expostas em prateleiras de mogno na imobilidade inquietante das peças de xadrez."
"Às cinco e meia, quando a primeira claridade lutava com os candeeiros da rua e os vice-reis, derrubando copos, discutiam a estratégia de Trafalgar, o padre António Vieira, sempre de cachecol, expulso de todos os cabarés de Lixboa, procedia a uma entrada imponente discursando os seus sermões de ébrio, até tombar num sofá, entre duas negras, a guinchar as sentenças do profeta Elias numa veemência missionária."
"De modo que fui moendo episódios heróicos, parando a tomar notas nas retrosarias iluminadas, até desembocar na praça da minha estátua, mãe, com centenas de pombos adormecidos nas varandas em atitudes de loiça e cães que alçavam a pata no pedestal da minha glória"


Pontuação: 9.8/10


Desafiantes leituras,
Gonçalo M. Matos

sábado, 1 de outubro de 2016

"A Metamorfose", de Franz Kafka

   A Metamorfose consiste numa das grandes obras da literatura do século XX, e quando se trata de iniciar a leitura de grandes obras, é normal ficar-se expectante quanto ao que irá ser lido: será que vamos gostar? Esta obra é uma obra pequena, com pouco mais de 90 páginas, lê-se bem. Mas, felizmente, a qualidade não é determinada pela quantidade de frases que se escrevem, mas pelo conteúdo que cada parágrafo comporta. É o que torna esta pequena novela tão importante e marcante na literatura mundial. Não só é a primeira vez que um escritor recorre ao uso do absurdo como mecanismo literário como é um relato pleno de pensamento e conteúdo. 
   A novela começa numa manhã em que o protagonista acorda depois de uma noite mal dormida para descobrir que se transformara num gigantesco inseto. Este é um dos inícios mais famosos da literatura ocidental, e é interessante constatar que se trata de uma ideia até bastante simples mas que apenas poderia ter sido elaborada por Kafka. Normalmente verifico isto quando se trata de um autor modernista. Mas, prosseguindo com a história, que parte do ponto referido, é-nos narrada a angústia de Gregor Samsa, o protagonista, enquanto vai perdendo aos poucos as suas características humanas, e a reação da sua família. A história coloca uma questão interessante aos leitores, servindo-se do absurdo da situação: o que faríamos se nos acontecesse uma desgraça semelhante? Como reagiríamos se um membro da nossa família sofresse de uma desgraça parecida? São estas questões essenciais que atravessam esta obra. 
   Qual seria a nossa reação se nos apercebêssemos da nossa impotência perante o absurdo da vida? Esta última questão é uma constante transversal à obra de Kafka, uma vez que os seus escritos partem sempre de pontos de partida improváveis ou até impossíveis e daí evoluem filosoficamente para o absurdo de se estar vivo. Porque nada é mais absurdo do que a vida. Outra questão que esta obra levanta de forma pertinente é: o que será que faz de nós humanos? Será o nosso aspeto? O nosso comportamento? Os nossos gostos, a nossa sensibilidade? Esta novela tem um estilo de escrita muito acessível, contraposta à complexidade temática e filosófica da narrativa, o que resulta num equilíbrio literário muito bem conseguido, sem que o autor perca por um momento o domínio da prosa. A análise perspicaz que o autor faz ao comportamento humano é também muito bem conseguida, uma vez que seria exatamente assim que reagiriam os seres humanos se algum dia algo parecido se sucedesse. O medo é uma das forças motrizes principais do homem, que reage instintivamente a tudo que seja diferente do que está habituado. Talvez um dos pontos mais bem executados seja a lenta e gradual desumanização de Gregor Samsa à medida que o tempo avança. Gregor dá por si em certo ponto a questionar se continua a ser humano ou se a sua humanidade desapareceu com o seu aspeto humano. Ainda sobre humanidade, ou falta desta, A obra também se debruça sobre a mesquinhez de uma sociedade opressora que não se importa minimamente com os problemas dos outros, mesmo que esses problemas sejam gravíssimos com o é o caso dos Samsa. É famosa a história de como o amigo de Kafka, Max Brod, desrespeitou o último desejo deste de que destruíssem a sua obra após a sua morte. E, visto que Brod conseguiu trazer para a prosperidade obras como esta, valeu bem a pena o pequeno desrespeito que este teve de fazer. 
   Resta-me então recomendar fervorosamente a leitura desta novela tão bem pensada e executada, desta pérola da efabulação humana. 

Citações:
"Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso inseto."
"Ali ficou a noite inteira, em parte passada num meio sono do qual a fome de vez em quando o fazia acordar, a par com a agitação que as preocupações e vagas esperanças lhe provocavam, mas que o levavam a concluir pela necessidade de provisoriamente se manter calmo e, através de paciência e de solicitude extremas, tornar suportáveis à sua família os contratempos que o seu estado atual lhes causava."
"Apesar de tudo, a irmã de Gregor tocava tão bem! Com a cabeça ligeiramente inclinada, para o lado, o seu olhar seguia a partitura com uma expressão triste. Gregor avançou um pouco mais, mantendo a cabeça rente ao chão a fim de eventualmente cruzar o seu olhar com o dela. Seria mesmo um animal, se a música o comovia àquele ponto?"


Pontuação: 9.9/10


Maravilhosas leituras,
Gonçalo M. Matos