Há livros que pela sua natureza requerem paciência na sua leitura, há histórias que pela sua densidade requerem pausas para se recuperar o fôlego. Posto isto, e porque "2666" está a consumir o meu tempo de leitura sem que desse tempo resulte alguma leitura efetivamente, suspendo assim a leitura que estou a fazer desta obra extremamente densa, até recuperar o fôlego e voltar a mergulhar no vastíssimo universo de Roberto Bolaño.
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
Releitura de "o remorso de baltazar serapião", de valter hugo mãe
Ainda bem que existem as segundas oportunidades. Elas flexibilizam a noção e a ideia que tínhamos sobre algo, proporcionadas pelo nosso crescimento individual. E, nesta série de releituras que atualmente faço, houve algo que me surpreendeu ainda mais que a anterior: o facto de se pensar uma coisa sobre um livro e descobrir-se que se pensa outra quase completamente contrária. O livro em causa é o romance o remorso de baltazar serapião. Mais uma vez verifico que a leitura de Lobo Antunes e de Saramago é essencial para se compreender a geração literária de valter hugo mãe (a partir de agora grafado em maiúsculas). Esta segunda leitura permitiu-me, acima de tudo, perceber o quanto estava enganado sobre este romance. E ainda bem. Portanto, vejamos o que mudou.
A história poderia ser colocada em duas óticas, dois pontos, um principal e um(s) secundário(s). No plano principal temos o amor que baltazar serapião, chamado de sarga por causa da vaca de estimação da sua família, por ermesinda, chegando a casar com ela. No plano secundário temos as várias venturas e desventuras de baltazar e a sua família. Do meio destes planos sai um grito de revolta, uma chamada de atenção e uma denúncia de toda a violência de que a mulher sempre foi vítima por parte de uma mentalidade machista monstruosa. A história pode também ser dividida em dois momentos: um inicial que relata o quotidiano difícil mas também pacato dos sargas; um segundo momento em que baltazar e o seu irmão aldegundes partem em viagem e, por diversas razões, encontram todo o tipo de obstáculos e maldições ao seu sucesso. Entre estes eventos existem momentos chave que ajudam a história a progredir, como a morte da mãe de baltazar e a sua infindável suspeita da relação adúltera entre dom afonso, fidalgo proprietário do terreno onde trabalham os sargas, e a sua mulher ermesinda.
A história, confesso, é violenta. É contada através dos olhos de baltazar serapião, um homem comum da Idade Média, terrivelmente machista e violento nos seus modos. O protagonista não cria relação com o leitor, é repulsivo, mas é escrito para o ser, uma vez que o autor pretende exmplificar uma forma atrasada de ver o mundo que sempre dominou a sociedade, principalmente na Idade Média. As suas afirmações sobre o papel da mulher são terrivelmente retrógradas. Mas são-no para nós, sociedade (não tão) evoluída do século XXI, uma vez que na altura, esta era a visão preponderante (havia sempre os que discordavam, mas a esses regressaremos). Foi este o fator, na minha primeira leitura, que me causou maior perturbação, foi a crueza com que o assunto é tratado (magistralmente) por Valter Hugo Mãe. É, no dizer de alguns leitores, terapia de choque, expressão com a qual não podia estar mais de acordo: é terapia de choque para nos fazer refletir e, penso eu, colocarmo-nos uma questão - estaremos assim tão evoluídos quanto isso? A obra é magnífica em muitos aspetos. Referirei dois deles que, para mim, são os mais marcantes. A escrita e o simbolismo. Este romance pertence à tetralogia das minúsculas, que correspondem aos quatro primeiros romances do autor, peculiares por se encontrarem redigidas completamente em minúsculas. O caráter oralizante da escrita, iniciado em Saramago, está bem presente neste romance, uma vez que tudo está redigido em minúsculas, sem qualquer distinção entre diálogos de personagens ou outras mudanças (facto de que me queixei no passado). É exatamente o que Saramago iniciou, mas levado ao seu próximo passo. Ainda neste caráter oralizante, o jogo de português que o autor faz nesta obra é sublime. Valter Hugo Mãe recria um português medieval, sem o transcrever de facto, aventurando-se pela linguagem sem qualquer receio mas também sem perder o domínio desta. Este aspeto é brilhante, um dos mais brilhantes jogos de linguagem que tive o prazer de ler. Começo a perceber Saramago quando afirmou que este livro é um tsunami, "não no sentido destrutivo, mas no da força". O segundo aspeto que merece nota é o simbolismo impresso nas páginas deste livro, também de forma brilhante. Desde a vaca de estimação até à mulher queimada, muitos aspetos, personagens e eventos simbolizam, quer a violência a que a mulher foi historicamente sujeita, quer o seu raivoso grito de revolta contra essa mesma violência. Sem mais alongamentos, que o texto já se faz longo, o maior simbolismo está na mulher queimada, uma bruxa deformada que amaldiçoa baltazar e aldegundes para sempre (curiosamente, a mulher queimada é a única mulher no romance que eleva a sua voz acima do domínio machista. Todas as outras são tristemente apáticas e submissas, pateticamente escravizadas pela sua condição). Para mim, esta personagem simboliza tanto a raiva como o remorso. A raiva da voz das mulheres que se levanta contra a injustiça a que é sujeita e a penitência da maldade dos homens, que termina em remorso. A pista está no título do romance. Como pode uma obra chamar-se o remorso de um homem quando na história não há lugar ao remorso? A hipótese de redenção aberta pelo remorso de baltazar é representada pela sarga, que os guia para longe do mal que os acomete.
Portanto, resta-me apenas recomendar vivamente a leitura desta obra magnífica. Mais que isso, impor a sua leitura. No dizer de Saramago, tem "de ser lido, porque traz muito de novo e fertilizará a literatura." E também pedir penitência por não ter visto logo o valor de uma obra tão gigantesca na literatura portuguesa e, atrevo-me a dizer, europeia.
Citações:
"e em surdina me gritou que saísse, como me mandou calar para pedidos últimos, lamentos ou refilos que não queria conhecer. como fui a tentar levitar pés de silêncio chão fora até à rua da casa, chorando minhas mágoas ao ruído nenhum da manhã."
"sabe, senhor paulo, as mães são como lugares de onde deus chega. lugares onde deus está e a partir dos quais pode chegar até nós. porque só através delas nos encontramos aqui. e, por isso, não há mãe alguma que não mereça o céu."
"minha bela ermesinda, como estás. pé torto, mão para o ar, braço colado ao peito, outra mão nenhuma, olho só buraco e cabeça descarecada às peladas, altos e baixos a faltar redondez de cabeça comum."
Pontuação: 9.2/10
Gonçalo Martins de Matos
A história poderia ser colocada em duas óticas, dois pontos, um principal e um(s) secundário(s). No plano principal temos o amor que baltazar serapião, chamado de sarga por causa da vaca de estimação da sua família, por ermesinda, chegando a casar com ela. No plano secundário temos as várias venturas e desventuras de baltazar e a sua família. Do meio destes planos sai um grito de revolta, uma chamada de atenção e uma denúncia de toda a violência de que a mulher sempre foi vítima por parte de uma mentalidade machista monstruosa. A história pode também ser dividida em dois momentos: um inicial que relata o quotidiano difícil mas também pacato dos sargas; um segundo momento em que baltazar e o seu irmão aldegundes partem em viagem e, por diversas razões, encontram todo o tipo de obstáculos e maldições ao seu sucesso. Entre estes eventos existem momentos chave que ajudam a história a progredir, como a morte da mãe de baltazar e a sua infindável suspeita da relação adúltera entre dom afonso, fidalgo proprietário do terreno onde trabalham os sargas, e a sua mulher ermesinda.
A história, confesso, é violenta. É contada através dos olhos de baltazar serapião, um homem comum da Idade Média, terrivelmente machista e violento nos seus modos. O protagonista não cria relação com o leitor, é repulsivo, mas é escrito para o ser, uma vez que o autor pretende exmplificar uma forma atrasada de ver o mundo que sempre dominou a sociedade, principalmente na Idade Média. As suas afirmações sobre o papel da mulher são terrivelmente retrógradas. Mas são-no para nós, sociedade (não tão) evoluída do século XXI, uma vez que na altura, esta era a visão preponderante (havia sempre os que discordavam, mas a esses regressaremos). Foi este o fator, na minha primeira leitura, que me causou maior perturbação, foi a crueza com que o assunto é tratado (magistralmente) por Valter Hugo Mãe. É, no dizer de alguns leitores, terapia de choque, expressão com a qual não podia estar mais de acordo: é terapia de choque para nos fazer refletir e, penso eu, colocarmo-nos uma questão - estaremos assim tão evoluídos quanto isso? A obra é magnífica em muitos aspetos. Referirei dois deles que, para mim, são os mais marcantes. A escrita e o simbolismo. Este romance pertence à tetralogia das minúsculas, que correspondem aos quatro primeiros romances do autor, peculiares por se encontrarem redigidas completamente em minúsculas. O caráter oralizante da escrita, iniciado em Saramago, está bem presente neste romance, uma vez que tudo está redigido em minúsculas, sem qualquer distinção entre diálogos de personagens ou outras mudanças (facto de que me queixei no passado). É exatamente o que Saramago iniciou, mas levado ao seu próximo passo. Ainda neste caráter oralizante, o jogo de português que o autor faz nesta obra é sublime. Valter Hugo Mãe recria um português medieval, sem o transcrever de facto, aventurando-se pela linguagem sem qualquer receio mas também sem perder o domínio desta. Este aspeto é brilhante, um dos mais brilhantes jogos de linguagem que tive o prazer de ler. Começo a perceber Saramago quando afirmou que este livro é um tsunami, "não no sentido destrutivo, mas no da força". O segundo aspeto que merece nota é o simbolismo impresso nas páginas deste livro, também de forma brilhante. Desde a vaca de estimação até à mulher queimada, muitos aspetos, personagens e eventos simbolizam, quer a violência a que a mulher foi historicamente sujeita, quer o seu raivoso grito de revolta contra essa mesma violência. Sem mais alongamentos, que o texto já se faz longo, o maior simbolismo está na mulher queimada, uma bruxa deformada que amaldiçoa baltazar e aldegundes para sempre (curiosamente, a mulher queimada é a única mulher no romance que eleva a sua voz acima do domínio machista. Todas as outras são tristemente apáticas e submissas, pateticamente escravizadas pela sua condição). Para mim, esta personagem simboliza tanto a raiva como o remorso. A raiva da voz das mulheres que se levanta contra a injustiça a que é sujeita e a penitência da maldade dos homens, que termina em remorso. A pista está no título do romance. Como pode uma obra chamar-se o remorso de um homem quando na história não há lugar ao remorso? A hipótese de redenção aberta pelo remorso de baltazar é representada pela sarga, que os guia para longe do mal que os acomete.
Portanto, resta-me apenas recomendar vivamente a leitura desta obra magnífica. Mais que isso, impor a sua leitura. No dizer de Saramago, tem "de ser lido, porque traz muito de novo e fertilizará a literatura." E também pedir penitência por não ter visto logo o valor de uma obra tão gigantesca na literatura portuguesa e, atrevo-me a dizer, europeia.
Citações:
"e em surdina me gritou que saísse, como me mandou calar para pedidos últimos, lamentos ou refilos que não queria conhecer. como fui a tentar levitar pés de silêncio chão fora até à rua da casa, chorando minhas mágoas ao ruído nenhum da manhã."
"sabe, senhor paulo, as mães são como lugares de onde deus chega. lugares onde deus está e a partir dos quais pode chegar até nós. porque só através delas nos encontramos aqui. e, por isso, não há mãe alguma que não mereça o céu."
"minha bela ermesinda, como estás. pé torto, mão para o ar, braço colado ao peito, outra mão nenhuma, olho só buraco e cabeça descarecada às peladas, altos e baixos a faltar redondez de cabeça comum."
Pontuação: 9.2/10
Gonçalo Martins de Matos
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
"2666", de Roberto Bolaño - Parte 1
A obra 2666, de Roberto Bolaño, é um estrondoso sucesso entre a crítica literária, tendo recebido inúmeros prémios e trazido grande destaque ao seu autor na literatura de língua espanhola. Sendo um livro assustadoramente extenso, é uma obra monumental que desafia qualquer leitor aventureiro. Como estas férias me senti com vontade de aventura, decidi enveredar na leitura desta obra. Originalmente planeado para ser publicado em cinco volumes, este romance é chamado de obra maior de um autor com crescente relevo na literatura latino-americana. Sendo uma obra extensa, tratarei da sua análise de uma maneira diferente. Por isso, começando pelas duas primeiras partes, desejem-me sorte na leitura destas imensas (1030!) páginas.
A Parte dos Críticos
Esta primeira parte não revela muito do enredo geral de 2666, mas serve antes como um set up, uma preparação do cenário onde irá encaixar o resto da narrativa. São-nos introduzidos alguns personagens, locais e eventos que irão aparecer mais à frente na obra. Penso que é uma boa introdução ao estilo do romance, apesar de ser um pouco parada e extensa. Não obstante, o estilo de escrita é muito peculiar, com uma linguagem ao mesmo tempo acessível e erudita, com descrições ora da natureza circundante, ora do espaço psicológico, muito bem equilibradas. Tem também um tom filosófico subjacente, mas sem entrar em densidades excessivas que cansariam o leitor. Gosto especialmente como a importância da leitura é subtilmente mencionada no texto, sem ser muito diretamente, como se fosse uma mensagem milenar que não necessita de explicações ou apresentações.
Para já, como já referi, trata-se de uma introdução ao universo de 2666, sendo ligeiramente desprovida de ação, mas cativante, mesmo assim. Espero uma grande experiência deste romance.
Citações:
"No pátio quadriculado chovia, o céu quadriculado parecia o esgar de um robô ou de um deus feito à nossa semelhança, na relva do parque as oblíquas gotas de chuva deslizavam para baixo, mas teria significado o mesmo se deslizassem para cima"
"Os vinte minutos iniciais tiveram um tom trágico onde a palavra destino foi usada dez vezes e a palavra amizade vinte e quatro. O nome de Liz Norton foi pronunciado cinquenta vezes, nove delas em vão. A palavra Paris foi dita em sete ocasiões. Madrid, em oito. A palavra amor foi pronunciada duas vezes, uma por cada um. (...) A palavra solipsismo, em sete. A palavra eufemismo, em dez. A palavra categoria, no singular e no plural, em nove."
Pontuação d' A Parte dos Críticos: 1.1/2
A Parte de Amalfitano
Nesta parte somos introduzidos a Óscar Amalfitano, professor universitário, de Filosofia, e à sua existência solitária, quer em Espanha, quer no México. Dividindo a história em duas parte principais, na primeira parte é-nos relatada as aventuras da mulher de Amalfitano, Lola, enquanto esta leva uma vida errante com o objetivo de visitar o seu poeta favorito a um manicómio. Na segunda parte, acompanhamos a existência de Amalfitano, juntamente com a sua filha, Rosa, enquanto este vive diversas preocupações como o medo de estar a enlouquecer e a segurança da sua filha. Mais uma vez, o pano de fundo principal é a cidade de Santa Teresa.
A história que nos é apresentada nesta parte não tem relação direta com a anterior, apenas aparecendo alguns dos personagens secundários em ambas (sendo que Amalfitano participa no final da história anterior). Continua sem haver uma ligação direta com o enredo geral do romance, sendo introduzidas novas temáticas, com uma relação quase indireta com as temáticas anteriores. Gostei mais da história desta parte do romance. Inclusive da parte da dúvida de Amalfitano sobre a sua sanidade mental, explorada pelo autor de uma maneira que roçava o sonho. Um sonho no sentido de desapego da realidade "normal" a que todos estamos acostumados. O estilo de escrita altera-se, também, mas apenas formalmente, descartando o autor o uso de parágrafos, travessões ou aspas para iniciar os diálogos.
Até agora o romance não tem sido nada de espetacular, mas também não tem sido desinteressante ou aborrecido. Tenho ainda uma visão neutra do romance. Apesar de esta parte ter sido muito interessante.
Citações:
"A Universidade de Santa Teresa parecia um cemitério que em vão se pusera repentinamente a refletir. Também parecia uma discoteca vazia."
"Estas ideias ou estas sensações, ou estes desvairos, por outro lado, tinham o seu lado satisfatório. Transformava a dor dos outros na memória de nós próprios. Transformava a dor, que é longa e natural, e que vence sempre, em memória particular, que é humana e breve e que escapa sempre."
Pontuação d' A Parte de Amalfitano: 1.4/2
domingo, 6 de agosto de 2017
Releitura de "Jerusalém", de Gonçalo M. Tavares
Por vezes, somos surpreendidos por nós mesmos. Como quando revisitamos algo que julgámos de uma forma e surpreendentemente descobrimos ser de outra. Ou talvez não seja tão surpreendente quanto isso. Os gostos e as opiniões mudam com o tempo e com a maturação da nossa personalidade. É precisamente sobre isso que venho escrever. Decidi reler Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares, porque senti-me insatisfeito com a opinião que tinha dele. Tinha a sensação de que me estava a escapar algo, que o meu julgamento não podia estar correto. E verifiquei isso mesmo. O que dá lugar a algumas questões. Onde falhei na primeira leitura? Que foi que não vi dessa vez? Que terá mudado? Como já referi, a maturação do gosto e da personalidade é o que muda a forma como analisámos as coisas. Neste caso, penso que foi essencial a leitura da geração literária anterior a este autor, nomeadamente Lobo Antunes e Saramago. Sem mais demoras, vejamos então o que mudou.
A história segue a vida dos personagens principais desta narrativa, Mylia, Theodor Busbeck, Kaas Busbeck, Ernst Spengler, Hinnerk Obst e Hannah, os seus problemas, inquietações e desejos. A narrativa principal passa-se na madrugada de 29 de maio, sendo que o resto da história prossegue através de analepses que desenterram cada vez mais elementos do passado de cada um dos intervenientes principais. Estes elementos revelam-se essenciais na compreensão, não só das escolhas dos personagens, mas também dos temas que enformam o romance.
Anteriormente, disse que o romance era escrito como se de uma obra técnica se tratasse. A minha opinião não mudou quanto a isso, mas mudou quanto ao espírito dessa afirmação. Explicando: o romance é desprovido de emoção de uma forma propositada, revelando, subentendido, uma emotividade temática que escapa à primeira vista. A mim escapou-me. Disse, também, que não percebi o teor da história do romance, o seu final. Outro aspeto que se revelou muito diferente nesta segunda leitura. A história revelou-se-me um verdadeiro prazer de leitura, original e muito bem escrito, e o seu final uma cereja no topo do bolo temático do romance, uma verdadeira chave de ouro, tanto conclusiva de como concordante com os temas analisados pelo autor. Disse também que os personagens não eram cativantes e que o texto se desenrolava de uma forma previsível, coisa que também verifico de forma diferente nesta segunda análise. As personagens que povoam este romance são originais e diferentes entre si, cada uma cativante à sua própria maneira. Quanto à previsibilidade do desenlace, não sei mesmo o que me levou a pensar assim à dois anos atrás: a história é surpreendente e original, caminhando a passo firme para o seu surpreendente e espantoso final. Tematicamente, penso que o tema é tratado magistralmente pelo autor. As dicotomias tradicionais de Bem/Mal, de loucura/normalidade, são dissecadas com o acutilante bisturi de Gonçalo M. Tavares, conferindo ao texto uma componente de ensaio, mascarado pelo estudo de uma vida feito por Theodor Busbeck. Por falar em Theodor, este personagem é fascinante por constituir o ponto de análise da plasticidade dos conceitos de normalidade e loucura, por constituir uma incerteza da localização da fronteira entre uma e outra. E o estudo sobre o horror na História do homem que este conduz ao longo da obra é simplesmente brilhante.
E termino assim a releitura de Jerusalém, com uma nota de arrependimento e de penitência. Escaparam-me estas vertentes todas quando li o romance pela primeira vez, e não consigo mesmo explicar como cheguei às minhas conclusões anteriores sobre este livro, o que me levou a concluir algo que não é verdadeiro. Este romance é merecedor do prémio que recebeu, e percebo o porquê de Saramago afirmar que este romance pertence à grande literatura ocidental. O romance português pós-Lobo Antunes segue muito a sua crueza analítica, sendo, no entanto, romances mais europeus que portugueses. Este romance possui um cunho europeu mas absolutamente português nos temas. Posto isto, recomendo, claro, a leitura desta obra que marca o fim da introspeção e autognose da alma portuguesa e o início do olhar universalista na Literatura portuguesa. Vale bem a pena a sua leitura: é diferente, e por isso, um prazer.
Citações:
"Caríssimo marido, respeito o seu estudo, os manuais, os professores, os aparelhos, as técnicas, todos os anos em que leu páginas e páginas sobre diagnóstico e tratamentos, respeito tudo isso, mas para se perceber a cabeça de uma pessoa não basta ser médico, tem de se ser santo ou profeta."
"Se o horros estiver a diminuir é sinal de que seremos mais felizes daqui a cem gerações, se o horror estiver a aumentar esta História acabará, pois o horror final nada vai deixar; e depois, sim, poderá aparecer outra História melhor, mais ética. Estas duas hipóteses deixam-nos otimistas. Mas se o horror for constante, aí, então, não haverá esperança. Nenhuma. Tudo continuará igual."
"- Gomperz, o diretor, meteu-nos no bolso - disse Ernst uma vez. - Como um ciumento: não nos quis partilhar com mais ninguém da cidade, isolou-nos como se tivéssemos uma doença perigosa e contagiosa, uma doença física que saltasse de um corpo para outro, através de um animal pequeno e concreto, e que pudesse matar, como a peste, um milhão de pessoas de uma vez.
Mas eles tinham estado simplesmente loucos."
Pontuação: 8.9/10
Gonçalo Martins de Matos
A história segue a vida dos personagens principais desta narrativa, Mylia, Theodor Busbeck, Kaas Busbeck, Ernst Spengler, Hinnerk Obst e Hannah, os seus problemas, inquietações e desejos. A narrativa principal passa-se na madrugada de 29 de maio, sendo que o resto da história prossegue através de analepses que desenterram cada vez mais elementos do passado de cada um dos intervenientes principais. Estes elementos revelam-se essenciais na compreensão, não só das escolhas dos personagens, mas também dos temas que enformam o romance.
Anteriormente, disse que o romance era escrito como se de uma obra técnica se tratasse. A minha opinião não mudou quanto a isso, mas mudou quanto ao espírito dessa afirmação. Explicando: o romance é desprovido de emoção de uma forma propositada, revelando, subentendido, uma emotividade temática que escapa à primeira vista. A mim escapou-me. Disse, também, que não percebi o teor da história do romance, o seu final. Outro aspeto que se revelou muito diferente nesta segunda leitura. A história revelou-se-me um verdadeiro prazer de leitura, original e muito bem escrito, e o seu final uma cereja no topo do bolo temático do romance, uma verdadeira chave de ouro, tanto conclusiva de como concordante com os temas analisados pelo autor. Disse também que os personagens não eram cativantes e que o texto se desenrolava de uma forma previsível, coisa que também verifico de forma diferente nesta segunda análise. As personagens que povoam este romance são originais e diferentes entre si, cada uma cativante à sua própria maneira. Quanto à previsibilidade do desenlace, não sei mesmo o que me levou a pensar assim à dois anos atrás: a história é surpreendente e original, caminhando a passo firme para o seu surpreendente e espantoso final. Tematicamente, penso que o tema é tratado magistralmente pelo autor. As dicotomias tradicionais de Bem/Mal, de loucura/normalidade, são dissecadas com o acutilante bisturi de Gonçalo M. Tavares, conferindo ao texto uma componente de ensaio, mascarado pelo estudo de uma vida feito por Theodor Busbeck. Por falar em Theodor, este personagem é fascinante por constituir o ponto de análise da plasticidade dos conceitos de normalidade e loucura, por constituir uma incerteza da localização da fronteira entre uma e outra. E o estudo sobre o horror na História do homem que este conduz ao longo da obra é simplesmente brilhante.
E termino assim a releitura de Jerusalém, com uma nota de arrependimento e de penitência. Escaparam-me estas vertentes todas quando li o romance pela primeira vez, e não consigo mesmo explicar como cheguei às minhas conclusões anteriores sobre este livro, o que me levou a concluir algo que não é verdadeiro. Este romance é merecedor do prémio que recebeu, e percebo o porquê de Saramago afirmar que este romance pertence à grande literatura ocidental. O romance português pós-Lobo Antunes segue muito a sua crueza analítica, sendo, no entanto, romances mais europeus que portugueses. Este romance possui um cunho europeu mas absolutamente português nos temas. Posto isto, recomendo, claro, a leitura desta obra que marca o fim da introspeção e autognose da alma portuguesa e o início do olhar universalista na Literatura portuguesa. Vale bem a pena a sua leitura: é diferente, e por isso, um prazer.
Citações:
"Caríssimo marido, respeito o seu estudo, os manuais, os professores, os aparelhos, as técnicas, todos os anos em que leu páginas e páginas sobre diagnóstico e tratamentos, respeito tudo isso, mas para se perceber a cabeça de uma pessoa não basta ser médico, tem de se ser santo ou profeta."
"Se o horros estiver a diminuir é sinal de que seremos mais felizes daqui a cem gerações, se o horror estiver a aumentar esta História acabará, pois o horror final nada vai deixar; e depois, sim, poderá aparecer outra História melhor, mais ética. Estas duas hipóteses deixam-nos otimistas. Mas se o horror for constante, aí, então, não haverá esperança. Nenhuma. Tudo continuará igual."
"- Gomperz, o diretor, meteu-nos no bolso - disse Ernst uma vez. - Como um ciumento: não nos quis partilhar com mais ninguém da cidade, isolou-nos como se tivéssemos uma doença perigosa e contagiosa, uma doença física que saltasse de um corpo para outro, através de um animal pequeno e concreto, e que pudesse matar, como a peste, um milhão de pessoas de uma vez.
Mas eles tinham estado simplesmente loucos."
Pontuação: 8.9/10
Gonçalo Martins de Matos
domingo, 2 de julho de 2017
"O Anjo da Tempestade", de Nuno Júdice
Há livros que temos há tanto tempo em casa que chega o dia em que decidimos mergulhar de cabeça no que tem para oferecer. Foi este o caso de O Anjo da Tempestade. E que bem que soube esse mergulho! A obra em prosa de Nuno Júdice não é muito conhecida do público, uma vez que a sua obra poética é mais difundida, o que leva a que haja pouca divulgação daquela. Este romance valeu ao seu autor o Prémio Literário Fernando Namora.
A história é um desenvolvimento contínuo de uma premissa inicial, que é o assassinato de um tio-bisavô do narrador em meados do século XIX. Com este ponto de partida, o narrador desenvolve duas histórias em paralelo: a do seu tio-bisavô, que é desenvolvida com um misto de suposições e de hipóteses do que provavelmente aconteceu, e a sua própria história, feita de angústias e de oportunidades perdidas. De hipótese em hipótese, o narrador vai compondo o que se passou afinal nesse meado de século, aproveitando cada hipótese para discorrer sobre vários temas ligados à vida e à morte, ligando a essa história a outra de maneira a que a fusão das duas resulte numa espécie de resumo de um momento da sua vida. A história do romance pouco mais é que isto. Mas o que o torna interessante é o que mencionarei de seguida, porque uma boa história não é necessariamente igual a muita ação.
O romance é sublimemente escrito. O domínio do autor da língua é notável, conseguindo este manter-se num registo coloquial sem descair no corriqueiro, algo que é bastantes vezes muito complicado de equilibrar. Neste romance, as possibilidades e os acontecimentos misturam-se na mesma realidade. Como já referi, todo o desenvolvimento parte da premissa da morte do tio-bisavô do narrador, sendo a partir desse ponto de partida colocadas várias hipóteses pelas quais o narrador envereda ou não, como se tivesse a certeza do caminho a seguir numa estrada que bifurca muitas vezes. As ligações temáticas entre obras de arte e de música e os acontecimentos que narra compõem muito do fascínio que este romance exerce. O tema do amor e da morte atravessa todo o romance. As pinturas, as músicas e os escritos mencionados no texto ligam-se em pequenos pormenores às duas histórias principais, criando um círculo temático que corresponde muito resumidamente à vida humana. É também maravilhosa a forma equilibrada como se desenvolve a história, sem perder nunca o interesse no que está a ser descrito, apesar de todo o romance girar em torno dos mesmos temas.
Tenho pena que a prosa de Nuno Júdice não seja tão conhecida, porque milhares de leitores passam ao lado de obras como esta. Com isto quero dizer que esta é uma obra muito bem escrita e muito equilibrada que merece ser lida por todos quantos apreciem uma história bem desenvolvida.
Citações:
"Ficará aqui a dúvida sobre se o crime teria sido consumado; e esta dúvida, no fundo, está bem dentro dos nossos hábitos e costumes, porque é raro que um processo chegue a bom termo, e quando chega demorou tanto tempo que o criminoso, caso o seja, ou mesmo que o não seja, transformar-se-á sempre em vítima, podendo acusar o poder de o manter indefinidamente atrás das grades, enquanto se discute se um papel está bom ou não está, ou se apura tal ou tal facto, que de tanto se apurar acaba por se transformar mais numa peça de ficção do que num relato que corresponde a um acontecimento determinado."
"Estes homens, relegados para uma nota de rodapé sociológica, não alteram a velha ideia de que somos um país de brandos costumes; talvez, porém, não o sejamos até ao fim, só que a nossa violência é uma violência em diminutivo, a violênciazinha de que somos capazes, como em tantas outras coisas o inho se insinua, impedindo-nos de ser grandes, com essa grandeza que entrou na essência de outros países como a França, onde dizer-se grandeur não é o mesmo que nós dizermos grandeza com a pronúncia redonda e profunda do francês a esmagar a sonoridade decrescente do português, onde o próprio império, estendido pelo mundo, no mundo se prolongava em diminutivo, por muito grande que fosse o território."
"O problema, hoje, é que tudo o que dizemos tem um duplo sentido. A inocência acabou. Somos o que dizemos; mas o que dizemos está para além de nós, nesse magma de significados que nos arrasta, como as enxurradas, e onde temos de procurar uma ou outra palavra a que nos agarrarmos, como uma tábua de salvação."
Pontuação: 9.1/10
Gonçalo Martins de Matos
A história é um desenvolvimento contínuo de uma premissa inicial, que é o assassinato de um tio-bisavô do narrador em meados do século XIX. Com este ponto de partida, o narrador desenvolve duas histórias em paralelo: a do seu tio-bisavô, que é desenvolvida com um misto de suposições e de hipóteses do que provavelmente aconteceu, e a sua própria história, feita de angústias e de oportunidades perdidas. De hipótese em hipótese, o narrador vai compondo o que se passou afinal nesse meado de século, aproveitando cada hipótese para discorrer sobre vários temas ligados à vida e à morte, ligando a essa história a outra de maneira a que a fusão das duas resulte numa espécie de resumo de um momento da sua vida. A história do romance pouco mais é que isto. Mas o que o torna interessante é o que mencionarei de seguida, porque uma boa história não é necessariamente igual a muita ação.
O romance é sublimemente escrito. O domínio do autor da língua é notável, conseguindo este manter-se num registo coloquial sem descair no corriqueiro, algo que é bastantes vezes muito complicado de equilibrar. Neste romance, as possibilidades e os acontecimentos misturam-se na mesma realidade. Como já referi, todo o desenvolvimento parte da premissa da morte do tio-bisavô do narrador, sendo a partir desse ponto de partida colocadas várias hipóteses pelas quais o narrador envereda ou não, como se tivesse a certeza do caminho a seguir numa estrada que bifurca muitas vezes. As ligações temáticas entre obras de arte e de música e os acontecimentos que narra compõem muito do fascínio que este romance exerce. O tema do amor e da morte atravessa todo o romance. As pinturas, as músicas e os escritos mencionados no texto ligam-se em pequenos pormenores às duas histórias principais, criando um círculo temático que corresponde muito resumidamente à vida humana. É também maravilhosa a forma equilibrada como se desenvolve a história, sem perder nunca o interesse no que está a ser descrito, apesar de todo o romance girar em torno dos mesmos temas.
Tenho pena que a prosa de Nuno Júdice não seja tão conhecida, porque milhares de leitores passam ao lado de obras como esta. Com isto quero dizer que esta é uma obra muito bem escrita e muito equilibrada que merece ser lida por todos quantos apreciem uma história bem desenvolvida.
Citações:
"Ficará aqui a dúvida sobre se o crime teria sido consumado; e esta dúvida, no fundo, está bem dentro dos nossos hábitos e costumes, porque é raro que um processo chegue a bom termo, e quando chega demorou tanto tempo que o criminoso, caso o seja, ou mesmo que o não seja, transformar-se-á sempre em vítima, podendo acusar o poder de o manter indefinidamente atrás das grades, enquanto se discute se um papel está bom ou não está, ou se apura tal ou tal facto, que de tanto se apurar acaba por se transformar mais numa peça de ficção do que num relato que corresponde a um acontecimento determinado."
"Estes homens, relegados para uma nota de rodapé sociológica, não alteram a velha ideia de que somos um país de brandos costumes; talvez, porém, não o sejamos até ao fim, só que a nossa violência é uma violência em diminutivo, a violênciazinha de que somos capazes, como em tantas outras coisas o inho se insinua, impedindo-nos de ser grandes, com essa grandeza que entrou na essência de outros países como a França, onde dizer-se grandeur não é o mesmo que nós dizermos grandeza com a pronúncia redonda e profunda do francês a esmagar a sonoridade decrescente do português, onde o próprio império, estendido pelo mundo, no mundo se prolongava em diminutivo, por muito grande que fosse o território."
"O problema, hoje, é que tudo o que dizemos tem um duplo sentido. A inocência acabou. Somos o que dizemos; mas o que dizemos está para além de nós, nesse magma de significados que nos arrasta, como as enxurradas, e onde temos de procurar uma ou outra palavra a que nos agarrarmos, como uma tábua de salvação."
Pontuação: 9.1/10
Gonçalo Martins de Matos
segunda-feira, 5 de junho de 2017
"O Alienista", de Machado de Assis
Machado de Assis é unanimemente considerado como o nome maior da literatura brasileira, produzindo na sua época uma obra bastante abrangente e influenciando os escritores brasileiros procedentes. É considerado pelo crítico literário Harold Bloom um dos maiores génios da Literatura. O Alienista é uma obra bem característica do estilo do autor brasileiro, mas que não é tão conhecida como outras obras deste.
A história segue o percurso de Dr. Simão Bacamarte, um insigne médico e grande estudioso, que, regressando à sua vila natal, Itaguaí, decide dedicar-se ao estudo da mente humana. Bacamarte decide, com esse propósito, construir uma casa onde albergasse todos os loucos de Itaguaí, que ficou conhecida pelo nome de Casa Verde. Com o passar do tempo, vão sendo aprisionadas na Casa Verde pessoas que aparentemente não padeciam de loucura alguma, o que foi provocando, aos poucos, a revolta no coração dos habitantes da vila. Este sentimento é despoletado pelo barbeiro Porfírio, que lidera uma revolta contra o "tirano" da Casa Verde, mas que acaba por destituir o Governo, assumindo ele, o barbeiro, o governo da vila. Após uma distorção ética que apenas o poder pode despertar no coração humano, há ainda outra revolta para destituir o barbeiro, liderada por outro barbeiro, este de seu nome João Pina, que foi internado na Casa Verde pouco depois. Certo dia, a vila espanta-se ao saber que os loucos seriam todos postos na rua. A razão para tal decisão, segundo Simão Bacamarte, era uma inversão na sua teoria da loucura: não era louco quem possuía o desequilíbrio das suas faculdades, era-o que possuía um equilíbrio perfeito destas. Com esta premissa, todos aqueles que possuíam caráteres perfeitamente éticos eram internados na Casa Verde. Não satisfeito, ainda assim, Simão Bacamarte, após muito meditar, chega à conclusão de que o louco era ele, porque possuía um equilíbrio perfeito nas suas faculdades, internando-se, assim, na sua própria instituição.
Antes de começar, quero apenas dizer que o género desta história é debatido pelos estudiosos, havendo os que a consideram um conto e os que pensam dela uma novela, opção para a qual me inclino mais. Esta novela é um exemplo perfeito de como um texto pequeno pode estar carregado de significado. O toque satírico que o autor dá ao texto complementa harmoniosamente a profundidade ensaística por este pretendida, resultando numa novela divertida e filosófica, algo para nos fazer rir e pensar, duas características dificílimas de conjugar tão bem. Os personagens da história representam metaforicamente vários aspetos da história humana, sempre com as revoltas e as submissões em constante ebulição nas suas almas. O mais interessante na novela é a inversão que sofre a teoria de Simão Bacamarte. A teoria começa pelo que é considerado o correto, que louco é quem possui o desequilíbrio das suas faculdades, sendo que este conceito vai sendo alargado ao longo do texto, com o médico a internar cada vez mais pessoas sem um critério delimitativo da loucura. Isto até chegar à conclusão de que louco é quem possui o equilíbrio perfeito das suas faculdades, internando, desta vez, as pessoas que possuíam um caráter forte, ético, "normal". Isto assim acontece por intenção do autor, para nos levar a questionar, afinal, o que é a loucura, o que fará de uma pessoa um louco ou normal. Também serve para estabelecer uma crítica à sociedade da sua época, dizendo o autor com este texto que a loucura se generalizou, sendo, para mim, a maior crítica e representação disso, o episódio em que o único vereador da Câmara que é contra o regime de exceção do governo é internado na Casa Verde, precisamente por possuir o rigor ético no seu caráter.
Em suma, trata-se esta de uma obra que vale bem a pena ser lida e conhecida do público, pelo seu caráter simultaneamente satírico e filosófico.
Citações:
"Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A ideia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente."
"Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almocaté enfunado, ninguém escapava aos emissários do alienista."
"O vereador Freitas propôs também a declaração de que em nenhum caso fossem os vereadores recolhidos ao asilo do alienados: cláusula que foi aceite, votada e incluída na postura, apesar das reclamações do vereador Galvão. O argumento principal deste magistrado é que a Câmara, legislando sobre uma experiência científica, não podia excluir as pessoas dos seus membros das consequências da lei; a exceção era odiosa e ridícula."
Pontuação: 9.5/10
Gonçalo Martins de Matos
A história segue o percurso de Dr. Simão Bacamarte, um insigne médico e grande estudioso, que, regressando à sua vila natal, Itaguaí, decide dedicar-se ao estudo da mente humana. Bacamarte decide, com esse propósito, construir uma casa onde albergasse todos os loucos de Itaguaí, que ficou conhecida pelo nome de Casa Verde. Com o passar do tempo, vão sendo aprisionadas na Casa Verde pessoas que aparentemente não padeciam de loucura alguma, o que foi provocando, aos poucos, a revolta no coração dos habitantes da vila. Este sentimento é despoletado pelo barbeiro Porfírio, que lidera uma revolta contra o "tirano" da Casa Verde, mas que acaba por destituir o Governo, assumindo ele, o barbeiro, o governo da vila. Após uma distorção ética que apenas o poder pode despertar no coração humano, há ainda outra revolta para destituir o barbeiro, liderada por outro barbeiro, este de seu nome João Pina, que foi internado na Casa Verde pouco depois. Certo dia, a vila espanta-se ao saber que os loucos seriam todos postos na rua. A razão para tal decisão, segundo Simão Bacamarte, era uma inversão na sua teoria da loucura: não era louco quem possuía o desequilíbrio das suas faculdades, era-o que possuía um equilíbrio perfeito destas. Com esta premissa, todos aqueles que possuíam caráteres perfeitamente éticos eram internados na Casa Verde. Não satisfeito, ainda assim, Simão Bacamarte, após muito meditar, chega à conclusão de que o louco era ele, porque possuía um equilíbrio perfeito nas suas faculdades, internando-se, assim, na sua própria instituição.
Antes de começar, quero apenas dizer que o género desta história é debatido pelos estudiosos, havendo os que a consideram um conto e os que pensam dela uma novela, opção para a qual me inclino mais. Esta novela é um exemplo perfeito de como um texto pequeno pode estar carregado de significado. O toque satírico que o autor dá ao texto complementa harmoniosamente a profundidade ensaística por este pretendida, resultando numa novela divertida e filosófica, algo para nos fazer rir e pensar, duas características dificílimas de conjugar tão bem. Os personagens da história representam metaforicamente vários aspetos da história humana, sempre com as revoltas e as submissões em constante ebulição nas suas almas. O mais interessante na novela é a inversão que sofre a teoria de Simão Bacamarte. A teoria começa pelo que é considerado o correto, que louco é quem possui o desequilíbrio das suas faculdades, sendo que este conceito vai sendo alargado ao longo do texto, com o médico a internar cada vez mais pessoas sem um critério delimitativo da loucura. Isto até chegar à conclusão de que louco é quem possui o equilíbrio perfeito das suas faculdades, internando, desta vez, as pessoas que possuíam um caráter forte, ético, "normal". Isto assim acontece por intenção do autor, para nos levar a questionar, afinal, o que é a loucura, o que fará de uma pessoa um louco ou normal. Também serve para estabelecer uma crítica à sociedade da sua época, dizendo o autor com este texto que a loucura se generalizou, sendo, para mim, a maior crítica e representação disso, o episódio em que o único vereador da Câmara que é contra o regime de exceção do governo é internado na Casa Verde, precisamente por possuir o rigor ético no seu caráter.
Em suma, trata-se esta de uma obra que vale bem a pena ser lida e conhecida do público, pelo seu caráter simultaneamente satírico e filosófico.
Citações:
"Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A ideia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente."
"Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almocaté enfunado, ninguém escapava aos emissários do alienista."
"O vereador Freitas propôs também a declaração de que em nenhum caso fossem os vereadores recolhidos ao asilo do alienados: cláusula que foi aceite, votada e incluída na postura, apesar das reclamações do vereador Galvão. O argumento principal deste magistrado é que a Câmara, legislando sobre uma experiência científica, não podia excluir as pessoas dos seus membros das consequências da lei; a exceção era odiosa e ridícula."
Pontuação: 9.5/10
Gonçalo Martins de Matos
sábado, 3 de junho de 2017
"A Volta ao Mundo em Oitenta Dias", de Jules Verne
A história de A Volta ao Mundo em Oitenta Dias é uma das histórias mais acarinhadas do pai da ficção científica, Jules Verne. As histórias de Jules Verne estão repletas de relatos tão fantásticos como criativos, sendo o autor considerado como um dos mais imaginativos autores do final do século XIX e do início do século XX. E é notável a imaginação impressa nas páginas de Jules Verne.
Dito isto, passemos à história. Phileas Fogg é um típico gentleman inglês, regrado, fleumático e rigoroso. A sua vida segue uma rotina rigorosa, sempre igual e metódica, calculada ao segundo. Este conhece Jean Passepartout, que apresenta os seus serviços de criado a Phileas Fogg, julgando encontrar no rigoroso patrão a estabilidade que sempre desejou para a sua vida. No entanto, Phileas Fogg faz uma aposta com os seus colegas do Reform Club em como é possível fazer uma viagem à volta do Mundo em oitenta dias. Assim fica apostado e sem perder mais tempo, Fogg e Passepartout partem em viagem nesse mesmo dia. No entanto, uma suposição errada leva no seu encalço o agente Fix, inspetor da polícia extremamente confiante das suas capacidades. Após alguns eventos pontuais, Phileas Fogg decide, na Índia, resgatar uma mulher que serviria como sacrifício num ritual parse, chamada Mrs. Aouda. Estão assim os personagens principais desta história introduzidos. O resto da narrativa trata de todas as aventuras e eventuais desventuras que estes personagens viveram na sua viagem, culminando tudo num final feliz e didático.
Não tenho muito a dizer deste livro de Jules Verne. É uma leitura leve e direta, não perdendo tempo com pormenores desnecessários mas presenteando os leitores com descrições mais pormenorizadas de vez em quando. A personagem mais fascinante desta obra é Phileas Fogg, o indecifrável inglês. É o único personagem em quem se nota alguma evolução, começando o livro metódico, frio e calculista e terminando da mesma maneira, mas feliz e aberto a novos sentimentos. Eu diria que esta é uma das maiores falhas do livro, os personagens são os mesmos do início ao fim, não evoluem com as situações que defrontam. No entanto, neste caso, este aspeto não contribui muito negativamente para o livro, uma vez que este foi escrito com o propósito de entreter apenas. E nesse aspeto é impecável, é de fácil e contagiante leitura.
Trata-se de uma obra marcante de um autor marcante no campo do uso da imaginação na construção da narrativa, sendo, no entanto, uma história simples e que serve como entretenimento. Quem se diverte e entretém com a leitura deve ler este livro, pois foi um dos maiores contributos para os livros de ação e ficção científica que se seguiram nos séculos seguintes.
Citações:
"Phileas Fogg saíra da casa de Saville Row às onze e meia e, depois de ter posto quinhentas e setenta e cinco vezes o pé direito diante do pé esquerdo e de ter colocado quinhentas e setenta e seis vezes o pé esquerdo diante do pé direito, chegou ao Reform Club, vasto edifício, construído em Pall-Mall, que não custou menos de três milhões."
"Phileas Fogg, com o corpo direito, as pernas abertas, firme como um marinheiro, contemplava, sem cambalear, o mar agitado. A jovem, sentada à popa, sentia-se comovida ao contemplar o oceano, já invadido pelas sombras do crepúsculo, e cuja fúria ela arrostava numa frágil embarcação."
"Estes fios de metal, semelhantes às cordas de um instrumento, soavam como se algum arco os fizesse vibrar. O trenó voava no meio de uma harmonia plangente, de sonoridade muito particular."
Pontuação: 6.8/10
Gonçalo Martins de Matos
Dito isto, passemos à história. Phileas Fogg é um típico gentleman inglês, regrado, fleumático e rigoroso. A sua vida segue uma rotina rigorosa, sempre igual e metódica, calculada ao segundo. Este conhece Jean Passepartout, que apresenta os seus serviços de criado a Phileas Fogg, julgando encontrar no rigoroso patrão a estabilidade que sempre desejou para a sua vida. No entanto, Phileas Fogg faz uma aposta com os seus colegas do Reform Club em como é possível fazer uma viagem à volta do Mundo em oitenta dias. Assim fica apostado e sem perder mais tempo, Fogg e Passepartout partem em viagem nesse mesmo dia. No entanto, uma suposição errada leva no seu encalço o agente Fix, inspetor da polícia extremamente confiante das suas capacidades. Após alguns eventos pontuais, Phileas Fogg decide, na Índia, resgatar uma mulher que serviria como sacrifício num ritual parse, chamada Mrs. Aouda. Estão assim os personagens principais desta história introduzidos. O resto da narrativa trata de todas as aventuras e eventuais desventuras que estes personagens viveram na sua viagem, culminando tudo num final feliz e didático.
Não tenho muito a dizer deste livro de Jules Verne. É uma leitura leve e direta, não perdendo tempo com pormenores desnecessários mas presenteando os leitores com descrições mais pormenorizadas de vez em quando. A personagem mais fascinante desta obra é Phileas Fogg, o indecifrável inglês. É o único personagem em quem se nota alguma evolução, começando o livro metódico, frio e calculista e terminando da mesma maneira, mas feliz e aberto a novos sentimentos. Eu diria que esta é uma das maiores falhas do livro, os personagens são os mesmos do início ao fim, não evoluem com as situações que defrontam. No entanto, neste caso, este aspeto não contribui muito negativamente para o livro, uma vez que este foi escrito com o propósito de entreter apenas. E nesse aspeto é impecável, é de fácil e contagiante leitura.
Trata-se de uma obra marcante de um autor marcante no campo do uso da imaginação na construção da narrativa, sendo, no entanto, uma história simples e que serve como entretenimento. Quem se diverte e entretém com a leitura deve ler este livro, pois foi um dos maiores contributos para os livros de ação e ficção científica que se seguiram nos séculos seguintes.
Citações:
"Phileas Fogg saíra da casa de Saville Row às onze e meia e, depois de ter posto quinhentas e setenta e cinco vezes o pé direito diante do pé esquerdo e de ter colocado quinhentas e setenta e seis vezes o pé esquerdo diante do pé direito, chegou ao Reform Club, vasto edifício, construído em Pall-Mall, que não custou menos de três milhões."
"Phileas Fogg, com o corpo direito, as pernas abertas, firme como um marinheiro, contemplava, sem cambalear, o mar agitado. A jovem, sentada à popa, sentia-se comovida ao contemplar o oceano, já invadido pelas sombras do crepúsculo, e cuja fúria ela arrostava numa frágil embarcação."
"Estes fios de metal, semelhantes às cordas de um instrumento, soavam como se algum arco os fizesse vibrar. O trenó voava no meio de uma harmonia plangente, de sonoridade muito particular."
Pontuação: 6.8/10
Gonçalo Martins de Matos
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