terça-feira, 27 de março de 2018

"A Quinta Essência", de Agustina Bessa-Luís

   Agustina Bessa-Luís tem, nas letras portuguesas atuais, lugar cativo entre os seus maiores cultores. De facto, de entre as maiores virtudes apontadas a esta autora está a sua desconexão a escolas ou estilos, praticando um estilo muito próprio que a demarca dos demais autores. E, tendo esta informação como ponto de partida, eis que descubro por casa um romance relativamente desconhecido da escritora, cujas informações são escassas. Naturalmente, algo tão misterioso despertou logo a minha curiosidade e decidi lê-lo. O resultado é misto, no entanto. Esperava uma leitura apaixonante e não me desiludi. Mas também me desiludi. Mais à frente falarei sobre esse estranho misto de sensações. 
   O romance A Quinta Essência segue a história de José Carlos Pessanha, última geração de uma casa burguesa cujas posses e estilo de vida lhes foram retirados com a ocorrência da Revolução dos Cravos. Sentindo-se despojado do luxo a que estava habituado, José Carlos jura vingança contra uma classe desconhecida e inclassificável, mas personificada no coronel Sequeira, militar em quem o jovem Pessanha deposita o objeto do seu ódio. Esse desejo levá-lo-á a embarcar numa viagem a Macau, onde trava conhecimento com a família Andrade, cuja segunda geração, Emília, chegou a ter um caso com o militar. Após serões e serões de convívio com personagens singulares, como a matriarca siara Debra Andrade, Chen e outros, José Carlos envereda pela concretização da sua vingança, seduzindo a filha de Emília, Iluminada (assim chamada por tradução, sendo o seu nome originalmente chinês), com o objetivo de destruir a família e, com ela, o seu inimigo. Mas por diversas razões, acaba José Carlos por se apaixonar pela jovem. E deste facto parte o resto da história, entre dores, sofrimentos e a análise de figuras históricas com quem Pessanha se identifica. 
   Estarão por esta altura a perguntar-se como uma história tão simples preenche 370 páginas. Bem, é aqui que entra o estilo particular da autora, a razão porque demorei tanto tempo a ler o romance e porque, apesar disso, desejo voltar a ler Agustina. Para começar, Agustina Bessa-Luís sempre se declarou admiradora de Camilo Castelo Branco. E as influências deste notam-se bem no estilo da escritora. O romance inteiro é um tsunami de vernáculo, o português empregue é cuidado, polido, requintado e agradável, muito ao estilo de Camilo. Ler bom vernáculo é sempre um deleite inqualificável. Outro factor interessante é a gigantesca quantidade de informação que o romance carrega, sendo que, depois desta leitura, fiquei muito informado sobre os piratas portugueses nos mares da China, a presença dos jesuítas no Oriente e as dinastias e cultura chinesas. No entanto, este ponto também pesou, e muito, para a demora em avançar com a leitura. Era uma sensação estranha, sempre que retomava a leitura, ter dificuldade em avançar e esgotar-me depressa do que lia e, no entanto, não querer parar e ter vontade de avançar. É um misto de desejos que me fez confusão, e se calhar foi por isso que não achei esta leitura tão espetacular como prometia. Mas, apesar disso, ficou um enorme desejo de voltar a ler Agustina. Não porque gostei particularmente deste romance, mas porque sinto que vou gostar dos próximos. É uma sensação estranha e curiosa. Outra questão que contribuiu para a morosidade da leitura foi a enorme quantidade de informação histórica e factual que preenchia cada pequeno pedaço da intriga principal. 
   É assim, nesta nota, que termina esta análise. Nem gostei nem desgostei. Decerto que este romance encontrará o seu público-alvo, não pertenço a essa categoria. Mas recomendo a leitura dos autores nacionais, de Agustina, face à degradação literária que a máquina industrial nos oferece atualmente. 

Citações:
"Um dia um amigo, em Lisboa, ficou admirado da sua figura tão rara como português, escuro e magro, com grandes barbas, seco, maldizente, único. «Você é lindo!» E ele, com aquele ar insolente para com a sua própria humanidade, respondeu assim:
- Eu sou um aborto duma grande beleza."
"Mas eis o que tinha acontecido: havia um eremita que não aceitava nada de ninguém, nem que fosse ao preço dum só cabelo seu. Se lhe oferecessem o Império por um cabelo da sua cabeça, ele teria recusado. Então disseram-lhe que ele não serviria o povo se tivesse que renunciar a um cabelo. E foi perseguido por causa disto, quando as coisas não se passaram assim. Era uma pessoa desprendida, e não egoísta. Será tão difícil não as confundir?"
"Acho que percebi o que os cristãos querem dizer quando amam a Deus de todo o coração, de toda a alma e de toda a mente. Isso faz com que todas as forças e paixões se reúnam num só ponto do Universo, que não podemos alcançar. O que se alcança sempre nos desilude"


Pontuação: 5/10


Gonçalo Martins de Matos

domingo, 22 de outubro de 2017

"O Assobiador", de Ondjaki

   Ondjaki é um autor pelo qual ganhei uma curiosidade recente, nomeadamente depois de ler alguns dos seus poemas, tão parecidos temática e semanticamente com a prosa de Mia Couto. E, apesar de ter sido uma leitura muito breve, fiquei curioso com este O Assobiador para continuar a minha leitura das obras deste autor angolano. A literatura lusófona não se resume, nem deve, apenas aos autores portugueses e brasileiros, engloba todo um conjunto de nações e culturas com um, ou vários, momentos do passado em comum. Não só acrescenta dinâmica ao falar/escrever português, como também dá a conhecer outra forma de ver um mundo através das mesmas lentes. É por essa razão que eu penso que a leitura é importante, ainda para mais aquela que me dá a conhecer a minha cultura e o efeito dela em outras. Introdução feita, adiante.
   Como se trata de um livro pequeno (novela), a história é breve. Certo dia, algo espanta o Padre de uma aldeia, um som encantador e sentido que preenche toda a igreja e atrai as pombas a ouvi-lo. Esse som é um assobio. Deste ponto de partida, a história desenvolve-se apresentando os vários personagens que povoam a aldeia e as suas histórias, prazeres e angústias pessoais. Todas estas personagens confluem para um final tão inesperado como curioso, que explora aquela grande ligação entre o sentimento humano e a música (nesta história, pelos lábios de um Assobiador anónimo).
   Como se trata de uma novela breve, um texto pequeno, pareceu-me breve a leitura desta obra, facto que contribui positivamente e negativamente. Positivamente porque me deixou curioso para explorar mais obras do autor; mas negativamente porque não pude sentir plenamente a escrita do autor. Tratando-se de uma obra inicial do autor, não posso deixar de referir a sua maturidade mascarada de ingenuidade; a sua escrita simples esconde atrás de si algo mais profundo, algo que se descobre com a leitura do livro.O que achei mais interessante no livro foi a forma brusca como o final quebra com toda a construção. É um final de facto estranho ao teor do resto da novela (pelo menos, pareceu-me), mas não completamente desligado do tema geral. O português com características próprias locais é também, não só neste livro, um ponto muito a favor das obras de autores lusófonos, pois permite ter um vislumbre de duas culturas unidas em palavras comuns, algo que me apraz imenso e me dá um prazer imenso de leitura. 
   Como referi, trata-se de um texto breve, pelo que nada  mais tenho a acrescentar. Os motivos que apresentei servem para convencer a ler obras de autores lusófonos. Por isso, recomendo a leitura desta novela, trata-se de um bom início na obra do autor.

Citações:
"Os olhos quase descaíam em choro mirando o sol subdividindo-se, ao fim da tarde, em cada gota dessa precipitação lentadinosa, faz conta o astro maior se fosse derretendo todos os dias um poucochinho mais."
"A cama, o quarto e o seu corpo exalavam o intenso perfume de sal que o mar usa há milénios, essa poética densidade dos ares a que chamam maresia."
"O efeito era espantosamente belo: ao tocar na asa, a gota de água misturificava-se nela, desfazendo-a, isto é, fazendo-a nascer-se num arco-íris alienígena e colorificamente indescritível, que se desintegrava antes de tocar o chão."


Pontuação: 6.5/10


Gonçalo Martins de Matos

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Suspensão da leitura de "2666"

Há livros que pela sua natureza requerem paciência na sua leitura, há histórias que pela sua densidade requerem pausas para se recuperar o fôlego. Posto isto, e porque "2666" está a consumir o meu tempo de leitura sem que desse tempo resulte alguma leitura efetivamente, suspendo assim a leitura que estou a fazer desta obra extremamente densa, até recuperar o fôlego e voltar a mergulhar no vastíssimo universo de Roberto Bolaño.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Releitura de "o remorso de baltazar serapião", de valter hugo mãe

   Ainda bem que existem as segundas oportunidades. Elas flexibilizam a noção e a ideia que tínhamos sobre algo, proporcionadas pelo nosso crescimento individual. E, nesta série de releituras que atualmente faço, houve algo que me surpreendeu ainda mais que a anterior: o facto de se pensar uma coisa sobre um livro e descobrir-se que se pensa outra quase completamente contrária. O livro em causa é o romance o remorso de baltazar serapião. Mais uma vez verifico que a leitura de Lobo Antunes e de Saramago é essencial para se compreender a geração literária de valter hugo mãe (a partir de agora grafado em maiúsculas). Esta segunda leitura permitiu-me, acima de tudo, perceber o quanto estava enganado sobre este romance. E ainda bem. Portanto, vejamos o que mudou. 
   A história poderia ser colocada em duas óticas, dois pontos, um principal e um(s) secundário(s). No plano principal temos o amor que baltazar serapião, chamado de sarga por causa da vaca de estimação da sua família, por ermesinda, chegando a casar com ela. No plano secundário temos as várias venturas e desventuras de baltazar e a sua família. Do meio destes planos sai um grito de revolta, uma chamada de atenção e uma denúncia de toda a violência de que a mulher sempre foi vítima por parte de uma mentalidade machista monstruosa. A história pode também ser dividida em dois momentos: um inicial que relata o quotidiano difícil mas também pacato dos sargas; um segundo momento em que baltazar e o seu irmão aldegundes partem em viagem e, por diversas razões, encontram todo o tipo de obstáculos e maldições ao seu sucesso. Entre estes eventos existem momentos chave que ajudam a história a progredir, como a morte da mãe de baltazar e a sua infindável suspeita da relação adúltera entre dom afonso, fidalgo proprietário do terreno onde trabalham os sargas, e a sua mulher ermesinda. 
   A história, confesso, é violenta. É contada através dos olhos de baltazar serapião, um homem comum da Idade Média, terrivelmente machista e violento nos seus modos. O protagonista não cria relação com o leitor, é repulsivo, mas é escrito para o ser, uma vez que o autor pretende exmplificar uma forma atrasada de ver o mundo que sempre dominou a sociedade, principalmente na Idade Média. As suas afirmações sobre o papel da mulher são terrivelmente retrógradas. Mas são-no para nós, sociedade (não tão) evoluída do século XXI, uma vez que na altura, esta era a visão preponderante (havia sempre os que discordavam, mas a esses regressaremos). Foi este o fator, na minha primeira leitura, que me causou maior perturbação, foi a crueza com que o assunto é tratado (magistralmente) por Valter Hugo Mãe. É, no dizer de alguns leitores, terapia de choque, expressão com a qual não podia estar mais de acordo: é terapia de choque para nos fazer refletir e, penso eu, colocarmo-nos uma questão - estaremos assim tão evoluídos quanto isso? A obra é magnífica em muitos aspetos. Referirei dois deles que, para mim, são os mais marcantes. A escrita e o simbolismo. Este romance pertence à tetralogia das minúsculas, que correspondem aos quatro primeiros romances do autor, peculiares por se encontrarem redigidas completamente em minúsculas. O caráter oralizante da escrita, iniciado em Saramago, está bem presente neste romance, uma vez que tudo está redigido em minúsculas, sem qualquer distinção entre diálogos de personagens ou outras mudanças (facto de que me queixei no passado). É exatamente o que Saramago iniciou, mas levado ao seu próximo passo. Ainda neste caráter oralizante, o jogo de português que o autor faz nesta obra é sublime. Valter Hugo Mãe recria um português medieval, sem o transcrever de facto, aventurando-se pela linguagem sem qualquer receio mas também sem perder o domínio desta. Este aspeto é brilhante, um dos mais brilhantes jogos de linguagem que tive o prazer de ler. Começo a perceber Saramago quando afirmou que este livro é um tsunami, "não no sentido destrutivo, mas no da força". O segundo aspeto que merece nota é o simbolismo impresso nas páginas deste livro, também de forma brilhante. Desde a vaca de estimação até à mulher queimada, muitos aspetos, personagens e eventos simbolizam, quer a violência a que a mulher foi historicamente sujeita, quer o seu raivoso grito de revolta contra essa mesma violência. Sem mais alongamentos, que o texto já se faz longo, o maior simbolismo está na mulher queimada, uma bruxa deformada que amaldiçoa baltazar e aldegundes para sempre (curiosamente, a mulher queimada é a única mulher no romance que eleva a sua voz acima do domínio machista. Todas as outras são tristemente apáticas e submissas, pateticamente escravizadas pela sua condição). Para mim, esta personagem simboliza tanto a raiva como o remorso. A raiva da voz das mulheres que se levanta contra a injustiça a que é sujeita e a penitência da maldade dos homens, que termina em remorso. A pista está no título do romance. Como pode uma obra chamar-se o remorso de um homem quando na história não há lugar ao remorso? A hipótese de redenção aberta pelo remorso de baltazar é representada pela sarga, que os guia para longe do mal que os acomete. 
   Portanto, resta-me apenas recomendar vivamente a leitura desta obra magnífica. Mais que isso, impor a sua leitura. No dizer de Saramago, tem "de ser lido, porque traz muito de novo e fertilizará a literatura." E também pedir penitência por não ter visto logo o valor de uma obra tão gigantesca na literatura portuguesa e, atrevo-me a dizer, europeia.

Citações:
"e em surdina me gritou que saísse, como me mandou calar para pedidos últimos, lamentos ou refilos que não queria conhecer. como fui a tentar levitar pés de silêncio chão fora até à rua da casa, chorando minhas mágoas ao ruído nenhum da manhã."
"sabe, senhor paulo, as mães são como lugares de onde deus chega. lugares onde deus está e a partir dos quais pode chegar até nós. porque só através delas nos encontramos aqui. e, por isso, não há mãe alguma que não mereça o céu."
"minha bela ermesinda, como estás. pé torto, mão para o ar, braço colado ao peito, outra mão nenhuma, olho só buraco e cabeça descarecada às peladas, altos e baixos a faltar redondez de cabeça comum."


Pontuação: 9.2/10


Gonçalo Martins de Matos

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

"2666", de Roberto Bolaño - Parte 1



   A obra 2666, de Roberto Bolaño, é um estrondoso sucesso entre a crítica literária, tendo recebido inúmeros prémios e trazido grande destaque ao seu autor na literatura de língua espanhola. Sendo um livro assustadoramente extenso, é uma obra monumental que desafia qualquer leitor aventureiro. Como estas férias me senti com vontade de aventura, decidi enveredar na leitura desta obra. Originalmente planeado para ser publicado em cinco volumes, este romance é chamado de obra maior de um autor com crescente relevo na literatura latino-americana. Sendo uma obra extensa, tratarei da sua análise de uma maneira diferente. Por isso, começando pelas duas primeiras partes, desejem-me sorte na leitura destas imensas (1030!) páginas.


A Parte dos Críticos


   Nesta parte somos introduzidos aos quatro seguidores da obra de Benno von Archimboldi, Jean-Claude Pelletier, Manuel Espinoza, Piero Morini e Liz Norton, e às suas visitas conjuntas a festivais de literatura europeia, enquanto autoridades no estudo da obra do autor. Paralelamente, estes embrenham-se em desvendar o segredo do anonimato de Archimboldi, tentando procurar por ele, seguindo pistas muito ténues na esperança de o conhecer um dia. Essa esperança, no entanto, vê-se gorada. No entanto, as suas questões pessoais são exploradas por cada um quase como que motivadas pela busca por Archimboldi. No final, a sua busca leva-os à cidade de Santa Teresa, no México, onde continuam sem conseguir localizar Archimboldi, mas chegam a conclusões sobre as suas vidas. 
   Esta primeira parte não revela muito do enredo geral de 2666, mas serve antes como um set up, uma preparação do cenário onde irá encaixar o resto da narrativa. São-nos introduzidos alguns personagens, locais e eventos que irão aparecer mais à frente na obra. Penso que é uma boa introdução ao estilo do romance, apesar de ser um pouco parada e extensa. Não obstante, o estilo de escrita é muito peculiar, com uma linguagem ao mesmo tempo acessível e erudita, com descrições ora da natureza circundante, ora do espaço psicológico, muito bem equilibradas. Tem também um tom filosófico subjacente, mas sem entrar em densidades excessivas que cansariam o leitor. Gosto especialmente como a importância da leitura é subtilmente mencionada no texto, sem ser muito diretamente, como se fosse uma mensagem milenar que não necessita de explicações ou apresentações.
   Para já, como já referi, trata-se de uma introdução ao universo de 2666, sendo ligeiramente desprovida de ação, mas cativante, mesmo assim. Espero uma grande experiência deste romance.

Citações:
"No pátio quadriculado chovia, o céu quadriculado parecia o esgar de um robô ou de um deus feito à nossa semelhança, na relva do parque as oblíquas gotas de chuva deslizavam para baixo, mas teria significado o mesmo se deslizassem para cima"
"Os vinte minutos iniciais tiveram um tom trágico onde a palavra destino foi usada dez vezes e a palavra amizade vinte e quatro. O nome de Liz Norton foi pronunciado cinquenta vezes, nove delas em vão. A palavra Paris foi dita em sete ocasiões. Madrid, em oito. A palavra amor foi pronunciada duas vezes, uma por cada um. (...) A palavra solipsismo, em sete. A palavra eufemismo, em dez. A palavra categoria, no singular e no plural, em nove."

Pontuação d' A Parte dos Críticos: 1.1/2



A Parte de Amalfitano

   Nesta parte somos introduzidos a Óscar Amalfitano, professor universitário, de Filosofia, e à sua existência solitária, quer em Espanha, quer no México. Dividindo a história em duas parte principais, na primeira parte é-nos relatada as aventuras da mulher de Amalfitano, Lola, enquanto esta leva uma vida errante com o objetivo de visitar o seu poeta favorito a um manicómio. Na segunda parte, acompanhamos a existência de Amalfitano, juntamente com a sua filha, Rosa, enquanto este vive diversas preocupações como o medo de estar a enlouquecer e a segurança da sua filha. Mais uma vez, o pano de fundo principal é a cidade de Santa Teresa.
   A história que nos é apresentada nesta parte não tem relação direta com a anterior, apenas aparecendo alguns dos personagens secundários em ambas (sendo que Amalfitano participa no final da história anterior). Continua sem haver uma ligação direta com o enredo geral do romance, sendo introduzidas novas temáticas, com uma relação quase indireta com as temáticas anteriores. Gostei mais da história desta parte do romance. Inclusive da parte da dúvida de Amalfitano sobre a sua sanidade mental, explorada pelo autor de uma maneira que roçava o sonho. Um sonho no sentido de desapego da realidade "normal" a que todos estamos acostumados. O estilo de escrita altera-se, também, mas apenas formalmente, descartando o autor o uso de parágrafos, travessões ou aspas para iniciar os diálogos. 
   Até agora o romance não tem sido nada de espetacular, mas também não tem sido desinteressante ou aborrecido. Tenho ainda uma visão neutra do romance. Apesar de esta parte ter sido muito interessante.

Citações:
"A Universidade de Santa Teresa parecia um cemitério que em vão se pusera repentinamente a refletir. Também parecia uma discoteca vazia."
"Estas ideias ou estas sensações, ou estes desvairos, por outro lado, tinham o seu lado satisfatório. Transformava a dor dos outros na memória de nós próprios. Transformava a dor, que é longa e natural, e que vence sempre, em memória particular, que é humana e breve e que escapa sempre."

Pontuação d' A Parte de Amalfitano: 1.4/2

domingo, 6 de agosto de 2017

Releitura de "Jerusalém", de Gonçalo M. Tavares

   Por vezes, somos surpreendidos por nós mesmos. Como quando revisitamos algo que julgámos de uma forma e surpreendentemente descobrimos ser de outra. Ou talvez não seja tão surpreendente quanto isso. Os gostos e as opiniões mudam com o tempo e com a maturação da nossa personalidade. É precisamente sobre isso que venho escrever. Decidi reler Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares, porque senti-me insatisfeito com a opinião que tinha dele. Tinha a sensação de que me estava a escapar algo, que o meu julgamento não podia estar correto. E verifiquei isso mesmo. O que dá lugar a algumas questões. Onde falhei na primeira leitura? Que foi que não vi dessa vez? Que terá mudado? Como já referi, a maturação do gosto e da personalidade é o que muda a forma como analisámos as coisas. Neste caso, penso que foi essencial a leitura da geração literária anterior a este autor, nomeadamente Lobo Antunes e Saramago. Sem mais demoras, vejamos então o que mudou.
   A história segue a vida dos personagens principais desta narrativa, Mylia, Theodor Busbeck, Kaas Busbeck, Ernst Spengler, Hinnerk Obst e Hannah, os seus problemas, inquietações e desejos. A narrativa principal passa-se na madrugada de 29 de maio, sendo que o resto da história prossegue através de analepses que desenterram cada vez mais elementos do passado de cada um dos intervenientes principais. Estes elementos revelam-se essenciais na compreensão, não só das escolhas dos personagens, mas também dos temas que enformam o romance.
   Anteriormente, disse que o romance era escrito como se de uma obra técnica se tratasse. A minha opinião não mudou quanto a isso, mas mudou quanto ao espírito dessa afirmação. Explicando: o romance é desprovido de emoção de uma forma propositada, revelando, subentendido, uma emotividade temática que escapa à primeira vista. A mim escapou-me. Disse, também, que não percebi o teor da história do romance, o seu final. Outro aspeto que se revelou muito diferente nesta segunda leitura. A história revelou-se-me um verdadeiro prazer de leitura, original e muito bem escrito, e o seu final uma cereja no topo do bolo temático do romance, uma verdadeira chave de ouro, tanto conclusiva de como concordante com os temas analisados pelo autor. Disse também que os personagens não eram cativantes e que o texto se desenrolava de uma forma previsível, coisa que também verifico de forma diferente nesta segunda análise. As personagens que povoam este romance são originais e diferentes entre si, cada uma cativante à sua própria maneira. Quanto à previsibilidade do desenlace, não sei mesmo o que me levou a pensar assim à dois anos atrás: a história é surpreendente e original, caminhando a passo firme para o seu surpreendente e espantoso final. Tematicamente, penso que o tema é tratado magistralmente pelo autor. As dicotomias tradicionais de Bem/Mal, de loucura/normalidade, são dissecadas com o acutilante bisturi de Gonçalo M. Tavares, conferindo ao texto uma componente de ensaio, mascarado pelo estudo de uma vida feito por Theodor Busbeck. Por falar em Theodor, este personagem é fascinante por constituir o ponto de análise da plasticidade dos conceitos de normalidade e loucura, por constituir uma incerteza da localização da fronteira entre uma e outra. E o estudo sobre o horror na História do homem que este conduz ao longo da obra é simplesmente brilhante.
   E termino assim a releitura de Jerusalém, com uma nota de arrependimento e de penitência. Escaparam-me estas vertentes todas quando li o romance pela primeira vez, e não consigo mesmo explicar como cheguei às minhas conclusões anteriores sobre este livro, o que me levou a concluir algo que não é verdadeiro. Este romance é merecedor do prémio que recebeu, e percebo o porquê de Saramago afirmar que este romance pertence à grande literatura ocidental. O romance português pós-Lobo Antunes segue muito a sua crueza analítica, sendo, no entanto, romances mais europeus que portugueses. Este romance possui um cunho europeu mas absolutamente português nos temas. Posto isto, recomendo, claro, a leitura desta obra que marca o fim da introspeção e autognose da alma portuguesa e o início do olhar universalista na Literatura portuguesa. Vale bem a pena a sua leitura: é diferente, e por isso, um prazer.

Citações:
"Caríssimo marido, respeito o seu estudo, os manuais, os professores, os aparelhos, as técnicas, todos os anos em que leu páginas e páginas sobre diagnóstico e tratamentos, respeito tudo isso, mas para se perceber a cabeça de uma pessoa não basta ser médico, tem de se ser santo ou profeta."
"Se o horros estiver a diminuir é sinal de que seremos mais felizes daqui a cem gerações, se o horror estiver a aumentar esta História acabará, pois o horror final nada vai deixar; e depois, sim, poderá aparecer outra História melhor, mais ética. Estas duas hipóteses deixam-nos otimistas. Mas se o horror for constante, aí, então, não haverá esperança. Nenhuma. Tudo continuará igual."
"- Gomperz, o diretor, meteu-nos no bolso - disse Ernst uma vez. - Como um ciumento: não nos quis partilhar com mais ninguém da cidade, isolou-nos como se tivéssemos uma doença perigosa e contagiosa, uma doença física que saltasse de um corpo para outro, através de um animal pequeno e concreto, e que pudesse matar, como a peste, um milhão de pessoas de uma vez.
   Mas eles tinham estado simplesmente loucos."


Pontuação: 8.9/10


Gonçalo Martins de Matos

domingo, 2 de julho de 2017

"O Anjo da Tempestade", de Nuno Júdice

   Há livros que temos há tanto tempo em casa que chega o dia em que decidimos mergulhar de cabeça no que tem para oferecer. Foi este o caso de O Anjo da Tempestade. E que bem que soube esse mergulho! A obra em prosa de Nuno Júdice não é muito conhecida do público, uma vez que a sua obra poética é mais difundida, o que leva a que haja pouca divulgação daquela. Este romance valeu ao seu autor o Prémio Literário Fernando Namora. 
   A história é um desenvolvimento contínuo de uma premissa inicial, que é o assassinato de um tio-bisavô do narrador em meados do século XIX. Com este ponto de partida, o narrador desenvolve duas histórias em paralelo: a do seu tio-bisavô, que é desenvolvida com um misto de suposições e de hipóteses do que provavelmente aconteceu, e a sua própria história, feita de angústias e de oportunidades perdidas. De hipótese em hipótese, o narrador vai compondo o que se passou afinal nesse meado de século, aproveitando cada hipótese para discorrer sobre vários temas ligados à vida e à morte, ligando a essa história a outra de maneira a que a fusão das duas resulte numa espécie de resumo de um momento da sua vida. A história do romance pouco mais é que isto. Mas o que o torna interessante é o que mencionarei de seguida, porque uma boa história não é necessariamente igual a muita ação. 
   O romance é sublimemente escrito. O domínio do autor da língua é notável, conseguindo este manter-se num registo coloquial sem descair no corriqueiro, algo que é bastantes vezes muito complicado de equilibrar. Neste romance, as possibilidades e os acontecimentos misturam-se na mesma realidade. Como já referi, todo o desenvolvimento parte da premissa da morte do tio-bisavô do narrador, sendo a partir desse ponto de partida colocadas várias hipóteses pelas quais o narrador envereda ou não, como se tivesse a certeza do caminho a seguir numa estrada que bifurca muitas vezes. As ligações temáticas entre obras de arte e de música e os acontecimentos que narra compõem muito do fascínio que este romance exerce. O tema do amor e da morte atravessa todo o romance. As pinturas, as músicas e os escritos mencionados no texto ligam-se em pequenos pormenores às duas histórias principais, criando um círculo temático que corresponde muito resumidamente à vida humana. É também maravilhosa a forma equilibrada como se desenvolve a história, sem perder nunca o interesse no que está a ser descrito, apesar de todo o romance girar em torno dos mesmos temas. 
   Tenho pena que a prosa de Nuno Júdice não seja tão conhecida, porque milhares de leitores passam ao lado de obras como esta. Com isto quero dizer que esta é uma obra muito bem escrita e muito equilibrada que merece ser lida por todos quantos apreciem uma história bem desenvolvida. 

Citações:
"Ficará aqui a dúvida sobre se o crime teria sido consumado; e esta dúvida, no fundo, está bem dentro dos nossos hábitos e costumes, porque é raro que um processo chegue a bom termo, e quando chega demorou tanto tempo que o criminoso, caso o seja, ou mesmo que o não seja, transformar-se-á sempre em vítima, podendo acusar o poder de o manter indefinidamente atrás das grades, enquanto se discute se um papel está bom ou não está, ou se apura tal ou tal facto, que de tanto se apurar acaba por se transformar mais numa peça de ficção do que num relato que corresponde a um acontecimento determinado."
"Estes homens, relegados para uma nota de rodapé sociológica, não alteram a velha ideia de que somos um país de brandos costumes; talvez, porém, não o sejamos até ao fim, só que a nossa violência é uma violência em diminutivo, a violênciazinha de que somos capazes, como em tantas outras coisas o inho se insinua, impedindo-nos de ser grandes, com essa grandeza que entrou na essência de outros países como a França, onde dizer-se grandeur não é o mesmo que nós dizermos grandeza com a pronúncia redonda e profunda do francês a esmagar a sonoridade decrescente do português, onde o próprio império, estendido pelo mundo, no mundo se prolongava em diminutivo, por muito grande que fosse o território."
"O problema, hoje, é que tudo o que dizemos tem um duplo sentido. A inocência acabou. Somos o que dizemos; mas o que dizemos está para além de nós, nesse magma de significados que nos arrasta, como as enxurradas, e onde temos de procurar uma ou outra palavra a que nos agarrarmos, como uma tábua de salvação."


Pontuação: 9.1/10


Gonçalo Martins de Matos