segunda-feira, 1 de julho de 2019

"Lunário", de Al Berto

   Al Berto é sem dúvida um dos nomes incontornáveis da poesia portuguesa do final do século XX. Como acontece com inúmeros outros poetas, a sua obra em prosa acaba por muitas vezes ser secundarizada face à sua obra poética. Esse pormenor costuma levar-me a indagar aquela. 
   Beno, o protagonista desta narrativa, recorda a vida errante e excessiva que o levou até ao momento em que começamos a história. Uma vida deambulatória, de excessos e noturna. Desde logo nos é dito que nos primeiros tempos, Beno não se apegava a nada, viajando de cidade em cidade e nunca ficando em nenhuma demasiado tempo. Uma noite, no café que frequentava, o Lura, é abordado por um homem que não lhe diz o seu nome, mas os dois começam a viver juntos, dando-lhe Beno o nome de Nému. E juntos viveram. Um dia são visitados por Alba, que sabemos ser amiga de ambos e mãe de um filho com Beno, para voltarem a sair à noite. Mais para frente conhecemos Kid e Zohía, ambos amigos de Beno, que no auge do romance serão peças fulcrais. Mais tarde ainda, conheceremos Alaíno, companheiro de Zohía. Todos estes personagens se movem nas suas vidas, errantes, sem saber com o que contar no dia seguinte, até que cada uma das histórias abertas se vai fechando até à conclusão final. 
   Antes de mais, este livro trata-se de um texto autobiográfico, desde logo se evidenciando com as semelhanças entre o nome do autor e o nome de Beno, passando pelo gosto pela escrita e pela pintura por que ambos são conhecidos. Sendo assim, todas as vidas e todas as histórias que encontramos nesta obra são reflexos do próprio autor, desdobrado em ambos, procurando alguma lógica na fragmentação diária da sua vida. Há, no caráter deambulatório da vida dos personagens, uma reflexão do próprio autor na sua própria deambulação. O livro é soberbamente escrito, denotando-se uma sensibilidade e uma inquietação fora do comum que, nunca é de mais repetir, sempre marcaram a vida de Al Berto, evidentes a quem conhecer a sua obra. A construção dos capítulos é fascinante. Cada capítulo é uma fase lunar (daí o nome do romance), sendo que no início e no fim temos o anoitecer e o amanhecer, o "Crepúsculo" e a "Umbria", culminando tudo num "Cântico" final. Tudo se desenvolve em crescendo até ao apogeu, à "Lua Cheia", decrescendo o ritmo e o passo a partir de aí. É toda a prosa, no fundo, um enorme poema. E que poema. É fascinante observar a desfragmentação do autor nas suas personas literárias, de modo a conseguir alguma fuga da inquietação que o assombra. Um outro aspeto, mais formal, que me fascinou neste livro foi a capa. Apesar do que diz o acertado ditado popular sobre as capas dos livros, a verdade é que esta capa faz parte da primeira atração que este livro provoca (esta edição da Assírio & Alvim, claro). Da capa deste livro fita-nos intensamente um jovem Al Berto, enigmático, convidando-nos a vir conhecê-lo. É uma capa muito bem pensada para o objetivo do livro (sendo até por isso mesmo que as edições desta chancela da Porto Editora colocam os seus poetas nas capas dos seus livros), uma complementaridade entre o conteúdo e a forma. E isso apenas contribuiu para o fascínio por esta obra.
   Resta portanto recomendar a leitura desta obra, especialmente se alguma inquietação incomodar o hipotético leitor; pode ser que assim encontre uma fuga para o que o assola.

Citações:
"Uma brisa noturna e carregada de sal desatou a soprar. O dia começava a morrer. A espuma das ondas tornara-se quase vermelha, a água ardia. Beno sentiu-se envolto numa espécie de torpor que o cegava. Olhava o mar, pressentia-o mais do que, na verdade, o via. E tudo o que via, afinal, não era senão uma mancha azulada estendendo-se a perder de vista, metalizada e ondulante, onde o crepúsculo derramava breves incêndios."
"Disseram um ao outro como se chamavam. Compraram cigarros e livros. Beberam café numa esplanada junto ao rio. Passearam-se até que o halo avermelhado do crepúsculo caiu sobre a cidade. A noite tornou-se densa, e os asfaltos refletiam a feérica luminosidade dos néons e dos semáforos."
" - Há tempos, aprisionei o tigre com olhos de rubi numa imagem de papel. Levei-o para dentro do meu sonho e passei noites inteiras a domá-lo, e agora ele anda à solta, muito manos, sedutor, por toda a casa. Já não sonho com ele, sonho com Beno. Mas o tigre só é verdadeiramente visível quando me dói alguma coisa e os espelhos me prendem o olhar. Pergunto-me sempre que estranho sonho me terá acordado..."


Pontuação: 8.9/10


Gonçalo Martins de Matos

domingo, 16 de junho de 2019

"O luto de Elias Gro", de João Tordo

   O luto de Elias Gro é o primeiro romance da denominada "trilogia" dos lugares sem nome, série de três livros de João Tordo que exploram temas íntimos da alma humana. Sem ligação sequencial entre os três, estes abrem um novo capítulo na escrita do autor (ou será que encerram? mais para a frente analisaremos melhor este ponto). 
   A história começa com o narrador a contar-nos a vez em que habitou um farol numa ilha, de modo a fugir por momentos da sua vida. Este narrador, lúgubre e melancólico, dependente do álcool para atenuar a sua dor, apresenta-nos de início como conheceu um alemão que lhe arrendou um farol numa ilha para poder viver longe da sua anterior existência, descrevendo-nos a ilha e os seus habitantes. Após a primeira apresentação que nos é feita da Casa das Águas, uma casa vitoriana que tinha sido habitada por um escritor, Lars Drosler, e que fora engolida pelo mar, o narrador descreve-nos a breve rotina que levou nos primeiros tempos na ilha. Rotina que mudou quando, distraído, o narrador atropelou, de bicicleta, Cecilia, uma pequena rapariga espirituosa e perita em anatomia, e Alma, uma mulher muito carinhosa com quem Cecilia passava grande parte do seu tempo livre. Num dos dias subsequentes, o narrador conhece Elias Gro, um padre anglicano, pai de Cecilia, que lhe pede o favor de acompanhar a partir de aí a sua filha até à escola, que era no continente. Estranhando tal pedido, mas aquiescendo de forma a compensar o remorso que sentia em ter atropelado Cecilia, o narrador assim o faz. E é assim que eles começam a passar muito tempo juntos e a trocar as suas ideias e pensamentos. A certa altura, Elias Gro expressa os seus desejos em recuperar a Casa das Águas, recuperando tudo o que pudesse ser dos restos afundados da casa. É assim que o narrador e Cecilia têm acesso aos escritos de Lars Drosler, e encetam numa análise dos mesmos. A parte final da história revela-nos como o narrador vai aos poucos aprendendo a lidar com a sua dor, e como o luto não é algo que pertence a cada um individualmente, mas é um sentimento partilhado por todos nós. O narrador apercebe-se disso quando fica a conhecer os lutos de Alma e, especialmente, de Elias Gro. É com esta renovada perceção que a história avança para uma conclusão inconclusiva, na qual a dor e a renovação se enlaçam e aproximam. 
   A história começa pelo final. É uma afirmação curiosa e é o eufemismo perfeito para descrever a analepse inicial deste romance. O narrador, como muitos outros antes na obra de João Tordo, é um personagem melancólico, perseguido pelos seu passado e pelos seus demónios, procurando uma fuga e uma expiação dos mesmos. É assim que o narrador decide, primeiro, escrever a sua peculiar história, como terapia, e, em segundo, viajar para a ilha e morar num farol. O farol é um símbolo universal de isolamento mas de esperança, metáfora ideal para a melancolia, a dor e a esperança amalgamadas num mesmo sentimento, numa mesma torre de ferro, fria e distante, mas cuja luz orienta os barcos perdidos no mar. A Casa das Águas também tem a sua função metafórica, quer a que se afundou, quer a que Elias Gro sonhou reconstruir. O luto, como esta casa, consome e afunda, sem nunca conseguirmos recuperar totalmente. Mas isso não quer dizer que não seja possível iludir essa dor. João Tordo é um autor que se apoia em imagens metafóricas de uma forma muito bem conseguida, e este livro é talvez aquele que, até agora, mais evidenciou essa sua capacidade. Todos os personagens fulcrais deste romance, o narrador, Elias Gro, Cecilia, Alma, Lars Drosler, e François Xavier (o faroleiro que habitava no farol), exprimem as suas formas de dor e as suas maneiras de lidar com a dor, de fazer o seu luto e de aprender a, aos poucos, recuperar dela. O final do romance é deixado em aberto, na opinião deste que vos escreve, precisamente para exprimir essa ideia de inconclusão que a dor nos destina. Os temas da expiação, da inquietude, da melancolia e da tristeza são temas recorrentes na obra de João Tordo, aqui encontrando uma espécie de súmula, precisamente porque, pelo menos é dado a entender, nesta obra (e talvez na "trilogia") o autor procura um encerramento temático, e, em simultâneo, um início. 
   Portanto, remato este texto com a habitual recomendação desta obra. Trata-se de uma leitura que se funde com os nossos demónios, estejam eles ocultos ou não, e que nos ajuda, também, a orientar a dor e o luto que tão inerentes são a todos nós. Um livro que vale a pena ser lido. 

Citações:
"O isolamento é uma doença dos nossos dias, disse ele. E tanto é uma doença que, como em todos os estados patológicos, só encontramos alívio quando nos apercebemos de que, sem darmos por isso, perpetuámos essa condição porque é mais doloroso sair dela do que permanecer doente. A sanidade tem um preço."
"Por alguma razão Noé construiu uma arca em forma de um barco. Deus disse-lhe para a construir de boa madeira resinosa e com betume por dentro e por fora. (...) Já nesses tempos se sabia que a água, que é vida por dentro quando a bebemos, corrói tudo por fora. Pense nas marés. A erosão consome ilhas inteiras e, se for preciso, continentes. Contra a água não há nada a fazer. O fogo? A água apaga-o. O ar? A água consome-o. A terra? A água inunda-a. Não é por acaso que o Senhor decretou um dilúvio em vez de um incêndio."
"E os milagres são hiperbólicos porque o verdadeiro milagre passa despercebido. Cristo teve de ressuscitar os mortos e curar os leprosos para que nós percebêssemos que até as coisas mais simples são divinas. Se Cristo se limitasse a construir uma casa, diríamos: Mas isso posso eu fazer. A hipérbole é a fundação de toda a religião. Sim, é isso mesmo: temos de ser confrontados com as coisas que estão fora do nosso alcance para darmos valor àquelas que nos são permitidas."


Pontuação: 8.5/10


Gonçalo Martins de Matos

terça-feira, 23 de abril de 2019

"O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago

   Quando O Ano da Morte de Ricardo Reis foi adicionado ao programa de leitura em Língua Portuguesa, substituindo o Memorial do Convento, ficou-me a pulga atrás da orelha e tive que verificar por mim de que trata este romance, e se fará sentido uma tal substituição no programa educativo. Adianto desde já que não, não faz sentido uma tal substituição, apesar da leitura peculiar que este, como os outros romances de Saramago, proporciona. A crítica que é feita pelo autor neste é mais direcionada ao Portugal salazarista, ao contrário do Memorial, que tem uma crítica mais universal, mais enquadrada num sistema de ensino que pretenda abrir os horizontes dos estudantes. Apesar disso, estamos perante mais um romance magnificamente composto por um escritor tão peculiar como o nosso Nobel.
   Passados 16 anos de vida no Brasil, Ricardo Reis regressa a Lisboa, de vapor, instalando-se no Hotel Bragança, onde ficará nos próximos meses. Nos tempos em que vive no hotel, a vida vai-se desenrolando, a seu passo e sem pressa, quando uma das criadas, de seu nome Lídia, e ele começam a ter encontros noturnos. Ricardo Reis ocupa os seus dias passeando por Lisboa, observando as suas gentes e as suas paisagens, redescobrindo os seus aspetos e pormenores. Pouco depois, Ricardo Reis conhece Marcenda Sampaio, a quem começa a cortejar, mantendo, no entanto, a sua relação com Lídia. Paralelamente, Ricardo Reis é visitado pelo fantasma de Fernando Pessoa, com quem se encontrará por diversas vezes ao longo da obra. Tudo isto se passa até ao dia em que, após uma situação desagradável para Ricardo Reis, este decide finalmente abandonar o hotel e morar em casa própria, arranjando também um emprego. Os seus encontros com os três personagens mencionados continuam, tornando-se, até, mais frequentes. E é assim que se desenvolve o resto da narrativa até a um final tão poético como agridoce. 
   Conforme acima foi dito, este é um romance que se foca nos primórdios do Portugal salazarista e da sociedade vigente à época, pelo que, ao bom estilo saramaguiano, essa crítica é feita de forma extremamente sarcástica e certeira, atravessando o romance como seu fio condutor. Só nos apercebemos no final, ao refletir sobre o início, que essa crítica é feita de princípio a fim. Pode ser feita uma divisão deste romance em duas partes: a parte da ingenuidade, que corresponde aos meses que Ricardo Reis passa no Hotel Bragança, não se passando grandes coisas no seu dia-a-dia, não desconfiando este do quanto Lisboa mudara (ou mudava); e a parte da descoberta da verdade, que começa com a saída de Ricardo Reis do hotel. Este último momento marca bem essa divisão. Antes, Ricardo Reis, confinado ao seu quarto de hotel e à sua rotina, ignora que o Estado Novo se vai fixando em Portugal, mas, após a saída do hotel, Ricardo Reis apercebe-se dos movimentos estranhos que se vão passando à sua volta. Marcante desta nova realidade que se lhe afigura perante os olhos é as notícias que chegam do resto do Mundo (principalmente de Espanha), que pintam o quadro do surgimento da Europa ditatorial. Claro, o estilo que distingue Saramago não deixa de se verificar neste romance. O uso comedido de vírgulas, os parágrafos longos, a narração e o discurso impregnados de oralidade. E, claro, a mordacidade do sarcasmo nas críticas. Os personagens que povoam este romance têm o papel de representar um aspeto da sociedade em inícios do Estado Novo, e mesmo da sociedade que será no durante. Destaque seja feito a Salvador, o vigilante e controlador gerente do Hotel Bragança, ao qual nada escapa no seu hotel, a Victor, um agente da PIDE que se faz sempre acompanhar de um forte e incontrolável fedor a cebola, e ao par de velhos que se senta todos os dias no mesmo banco do Alto de Santa Catarina, a nova morada de Ricardo Reis. A estátua de Camões e o busto do Adamastor são presença constante no romance, como que relembrando a simultânea grandeza e pobreza de Portugal, país complexo de grandes heróis mas de brandos costumes. 
   Reitero, antes de mais, algo que afirmei acima, este não é um romance indicado para leitura obrigatória num programa escolar. No entanto, trata-se de mais um lúcido romance por parte de um autor particularmente propenso a fazê-los. Por isso, este romance deve ser lido por todos quantos apreciem a obra saramaguiana e, no geral, um bom romance. 

Citações:
"Um homem grisalho, seco de carnes, assina os últimos papéis, recebe as cópias deles, pode-se ir embora, sair, continuar em terra firme a vida. Acompanha-o um bagageiro cujo aspeto físico não deve ser explicado em pormenor, ou teríamos de prosseguir infinitamente o exame, para que não se instalasse a confusão na cabeça de quem viesse a precisar de distinguir um do outro, se tal se requer, porque deste teríamos de dizer que é seco de carnes, grisalho, e moreno, e de cara rapada, como daquele foi dito já, contudo tão diferentes, passageiro um, bagageiro outro."
"Outras fontes que venham a descobrir-se serão duvidosas, por apócrifas, ainda que verosímeis, certamente não coincidentes entre si e todas com a verdade dos factos, que ignoramos, quem sabe se, faltando-nos tudo, não teremos nós de inventar uma verdade, um diálogo com alguma coerência, um Victor, um doutor-adjunto, uma manhã de chuva e vento, uma natureza compadecida, falso tudo, e verdadeiro." 
"Também o Chiado, que mal lhes fez o Chiado, Que foi chocarreiro, desbocado, nada próprio do lugar elegante onde o puseram, Pelo contrário, o Chiado não podia estar em melhor sítio, não é possível imaginar um Camões sem um Chiado, estão muito bem assim, ainda por cima viveram no mesmo século, se houver alguma coisa a corrigir é a posição em que puseram o frade, devia estar virado para o épico, com a mão estendida, não como quem pede, mas como quem oferece e dá" 


Pontuação: 7.2/10


Gonçalo Martins de Matos

terça-feira, 6 de novembro de 2018

"Uma Família Inglesa", de Júlio Dinis

   Uma Família Inglesa é uma das (se não a) mais conhecidas obras de Júlio Dinis. Trata-se de uma obra bastante acarinhada pelos leitores portugueses, situada a meio caminho entre o romantismo e o realismo. Por muitos apelidada como a obra-prima do autor, mais que uma história de amor, é um grande retrato da sociedade portuense na segunda metade do século XIX, e das idiossincrasias dominantes da época.
   Desde logo são-nos apresentados, numa "Espécie de prólogo em que se faz uma apresentação ao leitor", os personagens nucleares deste romance: Richard Whitestone, um comerciante inglês, Jenny Whitestone, sua generosa filha, e Carlos (Charles) Whitestone, seu leviano filho. Desde logo lhes são atribuídas estas características elementares, que os acompanharão ao longo do romance. Gravitando à volta destas três personagens situam-se as duas últimas personagens principais: Manuel Quintino, guarda-livros da firma Whitestone, e a sua filha, Cecília. Entre a atividade comercial de Mr. Whitestone, a vida doméstica da família inglesa (corporizada no "anjo doméstico" Jenny) e a existência desregrada de Carlos, vão-se sucedendo os dias até Carlos travar conhecimento com uma misteriosa mulher mascarada, na noite de Carnaval, que lhe fica remoendo na memória. Mais tarde vem a saber que essa mulher é Cecília, e, incapaz de deixar de pensar nela, começa a desenvolver-se por ela um sentimento forte. Por seu turno, Cecília já desde o Carnaval que pensava incessantemente no irmão da sua amiga Jenny, desenvolve com o passar do tempo uma paixão pelo jovem inglês. Mediada por Jenny, que escuta os desabafos, quer do seu irmão, quer da sua amiga, a paixão vai-se desenvolvendo à revelia dos restantes personagens, não obstante uma certa resistência inicial de Jenny. Posteriormente, Carlos e Jenny aproximam-se mais devido a um acontecimento mundano envolvendo o velho guarda-livros do comerciante inglês. No entanto, mais próximos do que nunca, surgem entraves atrás de entraves à felicidade de ambos. Por fim, após a transposição desses entraves, Carlos e Cecília podem ser felizes, sendo essa felicidade transmissível a todos os personagens principais apresentados.
   O estilo dinisiano é, como foi dito, um misto de romantismo com realismo-naturalismo. Este romance não é exceção. A história que serve de base ao romance encaixa no enredo romântico típico, mas a forma que assume apresenta já os traços do naturalismo que viria a surgir na década posterior à publicação do romance. As personagens trágicas e o fatalismo que assombra as suas vidas marca a maior parte do romance. Mas esse tipo de enredo é secundarizado em função da descrição da vida familiar, comercial e social portuense, já para não falar de um ou outro ocasional deslize para a crítica social (não tão marcada como em obras realistas posteriores). No entanto, o que mais se destaca é a toda a envolvência psicológica que rodeia os personagens, e a evolução que os acompanha do início para o final. Todos atravessam mudanças nas suas opiniões, ideias e personalidades, de uma forma natural, sem parecer fictícia ou forçada. Esta obra é soberba no seu espírito, pois a história mil vezes foi contada antes, sem deixar de ser, no entanto, cativante. Júlio Dinis é um exímio prosador. O vernáculo que emprega e as construções frásicas em que o inclui, sem perder nunca o seu domínio, são sem dúvida os pontos mais fortes do romance (num romance onde não existem per se pontos fracos).
   Nunca é de mais recomendar a leitura dos clássicos. E este é um daqueles clássicos de leitura obrigatória na literatura portuguesa. Pela sua qualidade e, acima de tudo, pela boa dose de português (mesmo sendo a história sobre uma família inglesa) que nos apresenta. 

Citações:
"- Ho Butterfly, good morning! How do you do sir? - exclamou Mr. Richard, saudando o seu cão perdileto, que lhe estendeu a pata como para um shake-hand. Havia nisto um requerimento para uma fatia de fiambre, o qual o inglês não indeferiu. 
"Parece que o tipo nacional é indigno de referência (...). A causa disto é o sermos nós uma nação pequena e pouco à moda, acanhada e bisonha nesta grande e luzidia sociedade europeia, onde por obséquio somos admitidos, dando-nos já por muito lisonjeados, quando os estrangeiros se deixam, benevolamente, admirar por nós."
"Mais uma vez se verificou a eterna luta entre a teoria e a prática; uma, com seus instintos de jovem, com seus hábitos de atividade, com seus amores pelo futuro e pelo progresso; outra, com a frieza da idade madura, com uma índole essencialmente prosaica e conservadora (...) enquanto o jovem letrado desenvolve teorias de ciência social, vistas transcendentes de filosofia de direito, o jurista, encanecido no foro, examina os artigos do código, esmiúça a letra da lei, aconselha as partes e despacha os autos."


Pontuação: 9.9/10


Gonçalo Martins de Matos

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

"A Boneca de Kokoschka", de Afonso Cruz

   Este é o terceiro livro de Afonso Cruz que leio e, apesar da sua inegável qualidade e novidade, faltou-lhe qualquer coisa que não o elevou ao nível de outros livros que li do autor. Não obstante, tratou-se de um prazer enorme de leitura como Afonso Cruz sabe bem proporcionar aos seus leitores. Compõe histórias como um pintor compõe uma tela, pincela, traça e adiciona camadas, e desse trabalho resulta um belo fresco que é difícil não admirar. 
   A história é dividida em três partes. Na primeira parte conhecemos aqueles que podem ser chamados os protagonistas principais da narrativa. São eles Isaac Dresner, um jovem rapaz, Bonifaz Vogel, dono de uma loja de pássaros, e Tsilia Kacev, aprendiz de pintora. Todos moram na cidade de Dresden aquando da Segunda Guerra Mundial, período em que a cidade alemã foi devastada pela queda de toneladas e toneladas de bombas. Esta parte foca-se na forma como os seus destinos aparentemente autónomos se cruzam. A segunda parte apresenta-nos Dresner, Tsilia e Vogel vivendo juntos em Paris, onde Dresner possui uma editora pequena chamada Eurídice! Eurídice! e uma livraria de seu nome Humilhados & Ofendidos, que apenas publica autores rejeitados. Um desses autores é Mathias Popa, autor de várias obras que não conheceram sucesso algum, que oferece a Dresner um último manuscrito para este publicar: A Boneca de Kokoschka. Por fim, a terceira parte apresenta-nos os protagonistas secundários, que são Miro Korda, um músico português, e Adele Varga, uma jovem que procura o amante perdido da sua avó moribunda. Todas as histórias se relacionam umas com as outras de forma a tecer um enredo de vidas que, numa aparente autonomia, dependem umas das outras. 
   Este é um livro sobre a importância do outro. As vidas e a forma como a diversidade de vidas é fulcral para que estas existam são uma constante ao longo da obra. O livro, como muitos de Afonso Cruz, é uma maravilha da plasticidade que uma obra literária pode ter, ou seja, é um excelente exemplo de como as diferentes formas de arte não são estanques. Para além do texto brilhantemente construído, o próprio livro é visualmente aliciante. Entre parágrafos mais curtos, fotografias e desenhos do próprio autor, as duas formas de arte presentes complementam-se. Ainda neste particular, o pormenor que mais me deleitou e que mais contribui para a referida plasticidade foi o facto de nos ser apresentado, no final da segunda parte, um livro dentro de um livro. O romance A Boneca de Kokoschka escrito por Mathias Popa é-nos dado a ler, incluído na narrativa. Neste, a numeração dos capítulos segue a sequência de Fibonacci (1, 1, 2, 3, 5, 8, 13...), o que foi um pormenor mesmo interessante que o autor acrescentou para enfatizar uma das mensagens principais que pretende transmitir. A construção dessas páginas que dão corpo ao livro de Popa assemelha-se mesmo a um livro, com uma página a servir de capa e uma de contracapa, com biografia do autor e resumo do livro incluídos. Outro pormenor interessante é o facto de alguns dos personagens (e até algumas das obras) referidos fazerem parte de um outro universo que Afonso Cruz constrói em paralelo, com a sua obra Enciclopédia da Estória Universal, o que cria uma sensação de realidade ao universo literário por si criado. 
   Trata-se de uma leitura interessante e emotiva sobre a importância do outro na construção de nós mesmos que merece indubitavelmente ser lida por todos os apreciadores de uma obra original e criativa. 

Citações:
"A sua relação com o mundo e com o tempo podia ser vivida de três maneiras: a) suava quando fazia calor, sem qualquer relação causal, mas apenas simultaneidade, ou b) suava porque fazia calor (que é, aliás, o sistema que costumamos usar para interpretar os fenómenos que acontecem à nossa volta, uma explicação causa/efeito), ou, ainda, c) porque suava, fazia calor(uma maneira de ver as coisas que Aristóteles não aprovaria)."
"Repare que o bigode do Hitler tinha muita piada no Charlot. E o bigode do Charlot era abominável num Hitler. Uma coisa igualzinha, se mudarmos o contexto, determina a nossa alegria ou a nossa tragédia. Duchamp é que tinha razão com aquilo do urinol: é o contexto que cria a arte e o drama e a desgraça e a felicidade."
"Todos dentro de nós para que nos seja fácil compreender aquelas diferenças e, eventualmente, encontrar uma paz no meio dessa tensão. As guerras têm mais dificuldade de existir quando as pessoas se compreendem umas às outras. As bombas caem menos, os prédios tendem a ficar de pé, os corpos não se despedaçam com a mesma frequência, os braços deixam de voar e é possível que as gaiolas deixem de existir, os campos de concentração passem a ser museus para a nossa memória."


Pontuação: 8.9/10


Gonçalo Martins de Matos

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

"Biografia involuntária dos amantes", de João Tordo

   Na carreira dos escritores, é muito frequente a mudança. Mudança de estilo, de escrita, de tema, de mensagem. Enquanto um escritor não encontra a sua voz, é frequente que experimente em busca dessa mesma voz. Ou pode acontecer também que se esgote o que uma certa voz tinha a dizer e seja necessário procurar novas vozes com novas mensagens a transmitir. Estou inclinado a encaixar nesta segunda categoria este romance de João Tordo, visto que neste este parece procurar, mais do que a expiação da sua inquietude (mais à frente será melhor analisado), uma nova voz. 
   A história começa com dois homens e um facto. O narrador, um professor universitário galego, e Saldaña Paris, poeta mexicano, atropelam um javali numa viajem que faziam entre Pontevedra e Compostela. Parte deste facto o narrador para nos introduzir o ambiente do romance. O narrador conta-nos, depois, como conheceu Saldaña Paris e como se criou entre eles uma improvável amizade. Algo no poeta mexicano marca o narrador: uma persistente melancolia. Após esse acidente numa estrada galega, Saldaña Paris pede ao narrador que leia um manuscrito deixado pela sua mulher, Teresa, morta de cancro. A leitura que o espera é a narração de uma vida inquieta e marcada pela dor. Após a leitura, o narrador não conta ao poeta o que leu, o que culmina num ataque de ansiedade que o deixa letárgico. Cabe ao narrador, enquanto o poeta se encontra nesse estado, deslindar o complexo passado de Teresa e conseguir alguma paz para Saldaña Paris e para si próprio. De revelação em revelação, o narrador vai compondo a razão da persistente melancolia de Saldaña Paris, em busca de redenção e alguma paz.
   O romance tem um tom obsessivo. No sentido em que há uma inquietação que remói a cabeça do narrador e este faz de tudo para encontrar algum consolo. As dúvidas e o desencanto assaltam-no e ele envereda numa procura que não sabe bem explicar porquê para amenizar a inquietação que o assola. A melancolia que embrenha o texto, atrevo-me a dizer, é a melancolia do próprio autor. Em muitas das suas intervenções, João Tordo fala do ato da escrita como a amenização de dúvidas e inquietações, como a procura por paz para a alma. E é bem patente neste romance essa inquietação, mais do que noutros do autor. A busca por uma resposta que acalme as dúvidas que o assaltam. Algo que também sobressai deste romance é a mudança que se anuncia no estilo do autor. Este foi o último romance que João Tordo publicou antes da sua famosa "Trilogia dos Lugares sem Nome", livros que são já uma fase diferente do escritor. Este romance tem muito desse desejo de mudança. É mais experimental, ensaia formas de escrever e pensar diferentes e varia entre estas ao longo da obra. Mais uma vez, João Tordo consegue transformar algum aspeto da sua vida (Saldaña Paris tem um correspondente na vida real) num romance de qualidade que nos prende até ao fim, sendo construído, como os anteriores, em crescendo, sendo desvelados aspetos nos momentos em que têm de o ser de forma a que tudo se encaixe a caminho do final. Final esse que deixa uma nota de esperança, após toda a angústia do resto da obra. Novamente, o autor revisita personagens de outros textos para criar a sensação de realidade de que falei anteriormente, dando a impressão que sim, tudo isto aconteceu, não é mentira. Um pormenor interessante é a transfiguração que o autor faz para um personagem seu, referido no texto, que será descoberto por quem o ler se estiver atento. Achei interessante o autor colocar-se dessa forma e da forma como é escrito, o que acaba por confirmar a minha suspeita da inquietação do autor. 
   Recomendo esta leitura. É um texto pesado e extremamente melancólico, mas é facilmente ultrapassável com a leitura das suas páginas e com a descoberta, pouco a pouco, de alguma luz nessa escuridão. 

Citações:
"Era a sua melancolia que me encantava, uma melancolia que ele não procurava abater; uma melancolia duradoura e persistente, que chegara para ficar. Essa condição insalubre que chama a si fantasmas e que abre brechas nas convicções mais empedernidas. (...) Saldaña Paris era verdadeiramente melancólico: um homem de outro tempo que vivia aprisionado neste"
"Nunca entendi esta espécie de maldade, Benxamín. Ou, pelo menos, não a entendia então. Que prazer poderiam ter eles em rir-se da incapacidade de alguém? Se vissem um cego esbarrar numa parede teriam a mesma reação? Ou um aleijado a cair das escadas?"
"Permanecia entre nós o grito de velhos terrores; a constatação de que, ainda que as respostas fossem surgindo, a melancolia que era agora minha me mostrava que o mundo era feito de uma matéria porosa que se desfazia assim que a tentávamos tocar; que tudo aquilo que julgávamos sólido não passava de gelo, e que esse gelo, à luz morna que sempre transportávamos quando procurávamos respostas (...), se derretia e se transformava em água; e que, por mais perfeita que fosse a concha que formávamos com as mãos, essa água era impossível de suster."


Pontuação: 8.3/10


Gonçalo Martins de Matos

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

"O Manual dos Inquisidores", de António Lobo Antunes

   Poucos romanceiam como António Lobo Antunes. Se com a leitura d' As Naus fiquei maravilhado, o fôlego com que este O Manual dos Inquisidores nos é narrado apanhou-me desprevenido. Mas não me surpreendeu, visto que, como antes disse, de Lobo Antunes podemos esperar uma visão muito particular e desafiadora. Aos poucos, com as leituras que vou fazendo de ambos, compreendo porque é depositado em Lobo Antunes e Saramago o domínio da arte do romance do final do século XX. 
   A história é simples. Seguimos os percursos de um pai e de um filho: João, o engenheiro, o filho; e Francisco, o ministro, o pai. Francisco é (ou foi) ministro de Salazar durante o Estado Novo, e o que vemos desenvolver-se diante nós é a ruína dessa figura e da sua família (e da sua quinta em Palmela), principalmente com a Revolução dos Cravos e posteriores acontecimentos. Desde a infância de João à velhice de Francisco seguimos os seus pensamentos e inquietações, acompanhados dos pensamentos, inquietações e cogitações de outros personagens que os rodeiam ou que de alguma forma intervieram na sua particular história, tais como Albertina (Titina), governanta de Francisco e João, Paula, irmã de João, Milá, amante de Francisco após a sua separação, entre outros. Todas estas vozes compõem o retrato de uma família que não mais é que um retrato de uma era na História do país (ou do final desta).
   Formalmente, o romance é composto por cinco relatos, os quais se dividem em três relatos e três comentários (tirando o último relato, que apenas tem dois comentários). Os relatos são narrados pela voz de um personagem em específico, pertencendo estas, por ordem, a João, a Titina, a Paula, a Milá e a Francisco, cada um relatando as suas preocupações e recordações. Os comentários são feitos pelas vozes dos que rodeiam estas personagens centrais, como a mulher de João, a cozinheira da quinta de Palmela, um funcionário de um prédio, a mãe de Milá, entre outros. O estilo de Lobo Antunes é labiríntico, é preciso ter atenção ao que se está a ler. A sua escrita segue o estilo de fluxo de consciência, o que reproduz o processo mental das personagens, acompanhado ocasionalmente de traços de oralidade, principalmente quando os personagens interrompem os seus pensamentos para dizer ao narrador para não escrever certa passagem ou para tomar certa ação. Acima de tudo, aqui se evidencia a característica marcante da obra posterior de Lobo Antunes, que é a quebra da frase para adensar o fluxo de consciência, o que leva a que a falta de conclusão, de pontos finais, nos leve a continuar a ler até encontrarmos essa conclusão. Pelo menos foi esse o efeito que surtiu em mim. O vernáculo é também ponto assente do estilo antuniano, acompanhado de assíndetos e analepses, que suportam a oralidade e fluxo de consciência da escrita, e, acima de tudo, pelas suas metáforas e imagens paradoxais, que são um deleite tão bom de leitura. Por sua vez, a quinta de Palmela representa Francisco e o seu elemento. Degrada-se e desaparece no final, assim como tudo o que Francisco defendeu e representou. Para mim, o pormenor que neste romance me mais marcou a nível de estrutura foi o final (sem entrar em revelações de enredo). Este romance termina em aberto, o último parágrafo da narração não tem um ponto final nem uma conclusão lógica, termina com um simples "que apesar de tudo eu", o que me ofereceu uma cereja no topo do bolo da leitura desta obra. 
   Esta leitura afigura-se como obrigatória para qualquer apreciador de um bom e apreciável relato em bom português e soberbamente escrito. 

Citações:
"um corredor com empregados que escreviam à máquina, convocatórias e avisos que proibiam fumar num painel de cortiça, pessoas à espera e ao fim do corredor uma prateleira de livros, um calendário de parede, dossiers no soalho, uma mesa de repartição pública preenchida por códigos e processos e o juiz entrincheirado de caneta em riste por detrás das leis como para se defender de nós, (...)"
"(...), o som das vozes calou-se, escutei passos a afastarem-se a caminho da estação de comboios lá em baixo ao pé da baía, e uma serenidade enorme como se fôssemos morrer sem morrer, como se deixássemos de respirar continuando vivos, (...)"
"(...), o ano passado vi um homem arrastar-se para o santuário de barriga no chão como uma osga e a mulher a protegê-lo da chuva com a sombrinha, o homem, exausto de ser cobra, sentava-se a descansar e ela, aborrecida, alfinetando-lhe as nádegas com as varetas
   - Com o raio da promessa que fizeste nem daqui a um mês lá chegamos"
"  - Se calhar o meu pai esqueceu-se madrinha
   e a minha madrinha a precisar de soro também
   - Cala-te
   ela a dizer
   - Cala-te
   e a baterem à porta como se o
   - Cala-te
   fosse uma senha, um código, um sinal, (...)"


Pontuação: 9.8/10


Gonçalo Martins de Matos