quinta-feira, 18 de julho de 2019

"O paraíso segundo Lars D.", de João Tordo

   O paraíso segundo Lars D. é o segundo romance da "trilogia" dos lugares sem nome, série de três livros de João Tordo sem ligação sequencial entre eles. É-lhes atribuída a mudança de paradigma na escrita do autor, e neste segundo romance nota-se com mais força esse fator. Mas mais para a frente analisaremos isso melhor.
   Neste romance, conhecemos a narradora, uma mulher sexagenária, casada com Lars, um escritor da mesma idade. Este tem uma personalidade solitária e ensimesmada, e vive coberto de uma angústia profunda. Há largos anos que não publica nenhum livro. Na primeira parte do livro, conhecemos Lars pelos olhos da sua mulher, que vai discorrendo sobre episódios antigos ou recentes da sua vida conjugal e da tarefa nem sempre simples de partilhar a sua vida com Lars. Nesta primeira parte, sabemos de antemão que o escritor desapareceu, e que a narradora também tenta levar a sua vida com o peso dessa ausência. No seu prédio, no último andar, mora um jovem estudante de Teologia de seu nome Xavier, que se torna uma companhia para as inquietações da narradora. Na segunda parte, é-nos relatada, já por uma terceira pessoa omnisciente, a trama "principal" do romance: a madrugada de insónia que leva Lars a descobrir no seu carro uma jovem desmaiada, de seu nome Gloria, a levá-la para a sua e a cuidar dela. O escritor e a mulher decidem ajudar a rapariga, que diz ter sido assaltada e ter-se refugiado do frio no carro de Lars, levando-a o escritor até à estação de comboios. Só que, em vez de fazer isso, ambos seguem até uma zona de praia e ficam ambos a morar numa casa de verão. Na terceira parte, regressamos ao relato da narradora, mas desta vez apenas localizando-se temporalmente no presente sem Lars e nos dias com Xavier, em busca do consolo da inquietude que a ausência do escritor deixou na sua mulher. 
   Anteriormente, referi que estes abrem um novo capítulo na escrita do autor, colocando de seguida a dúvida se não estariam antes a encerrar o capítulo anterior. Bem, as dúvidas dissiparam-se neste segundo romance. Neste, a mudança nota-se com mais força. Os temas típicos da obra de João Tordo mantêm-se, mas o estilo de romancear transfigura-se. Assistimos, assim, aqui, à metamorfose estilística do autor e da sua obra, mais do que no romance anterior. O romance encontra-se dividido em três partes, sendo o narrador, na primeira e na terceira, autodiegético, e na segunda heterodiegético. Esta segunda parte do romance demarca-se, não só por essa diferença narrativa, mas também por nela ocorrer a ação "física" do romance. No resto do livro, a ação é mais psicológica, focada na memória e nos mundos interiores dos personagens (note-se que há passagem de tempo em todas elas, mas é diferente a perceção que temos dessa passagem). Na segunda parte, vemos o enredo principal ocorrer, a fuga de Lars com Gloria, e que vida levaram eles nessa fuga. É fascinante a reutilização que João Tordo faz das personagens cujos nomes já ouvimos em O luto de Elias Gro. Nomes como o de Lars, de Xavier, de Alma e de Cecilia, personagens fulcrais no romance anterior, também aparecem aqui, com o mesmo peso existencial, mas com as suas importâncias narrativas modificadas. O simbolismo que marca o romance anterior também se faz sentir neste. A ilha, o farol e a ideia de paraíso são marcas presentes e indispensáveis neste universo de lugares sem nome. Como nos anteriores romances do autor, há uma grande melancolia e angústia que se faz sentir nas páginas deste romance. Um último pormenor curioso é o romance inédito que Lars deixa antes de desaparecer, um manuscrito de seu nome O luto de Elias Gro. Este exemplo de metatextualidade proporciona uma delícia acrescentada à leitura do romance, na medida em que o autor nos guia através dos pensamentos e angústias de Lars para percebermos as angústias do narrador d' O luto. A perspetiva que nos é trazida neste romance altera-nos a perspetiva inicial que tivemos do romance anterior, o que constituiu um exercício fabuloso por parte de João Tordo. Mais uma pedra na pirâmide literária que este autor tem vindo a erguer. 
   Posto isto, trata-se de uma obra que deve merece, e bem, ser lida por todos aqueles que procurem uma leitura carregada de sentimento, mas simultaneamente sóbria e inovadora. 

Citações:
"Ultimamente, tenho reparado nisto. Que somos abraçados pelo pó; que entre o nosso corpo e as restantes coisas existe um espaço que julgamos vazio, mas que está cheio de uma matéria qualquer que é pó e mais do que pó, que é sombra e mais do que sombra."
"Tacteia o caminho até à sala e, uma vez aí, abre as janelas de par em par. A noite é um hino sobre o mar, a Lua enorme e imóvel no meio do céu, ainda uma nuvem pardacenta chorando sobre as águas. O brilho do céu provoca-lhe um horror intenso."
"(...) espreitou pelas ripas de madeira e pensou, nesse momento, que todos os sons aconteciam a todos os instantes mas viviam soterrados por outros ruídos, mais prementes, menos graciosos, que os escondiam: as marés ocultas pelas obras de um prédio, o grasnar de patos bebés pelas vozes de um grupo de italianos, o bocejar de um urso na floresta pelo motor de um avião. Tudo estava escondido por outra coisa qualquer e, debaixo de tudo, um avassalador silêncio."


Pontuação: 9/10


Gonçalo Martins de Matos

sexta-feira, 12 de julho de 2019

"Aprender a rezar na Era da Técnica", de Gonçalo M. Tavares

   Após um início meio conturbado com a obra e a escrita de Gonçalo M. Tavares, queria aqui desde já retificar o génio literário que se observa na sua obra. Se antes vacilei neste reconhecimento ao autor, nada mais foi que imaturidade literária. Reconheço-o agora. Gonçalo M. Tavares é, de facto, um dos escritores contemporâneos mais originais e brilhantes e merece, sem dúvida, todos os prémios e reconhecimentos que lhe são atribuídos. Este Aprender a rezar na Era da Técnica é o quarto e último volume da tetralogia O Reino, da qual fazem parte Um Homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalém
   O protagonista desta história, Lenz Buchmann, teve uma educação cruel e militarista por parte do seu pai Frederich, o que o marcou e moldou na sua idade adulta. Lenz é um médico muito competente, um dos melhores profissionais do hospital, precisamente por causa da sua educação. Desprovido de sentimentos fúteis, trata-se de um "homem forte", objetivo e pragmático, para além de frio e calculista. Depois de nos ser dada a conhecer muita da ideologia pessoal de Lenz, entramos naquela que parece ser a história chave deste romance: o abandono do exercício da medicina por Lenz para se poder dedicar à política. Possuindo as características já referidas, a ascensão de Lenz no Partido do poder é rápida, eficaz e impiedosa, conseguindo ele chegar, no pouco tempo que esteve no Partido, ao lugar de vice-presidente. No intermédio de tudo isto, é-lhe atribuída uma secretária, de seu nome Julia Liegnitz, que o irá acompanhar o resto da narrativa. Todo este sucesso tem um final abrupto, dando-se um acontecimento definitivo que marca o fim de todo o seu sucesso. A posição de Lenz no mundo é abalada e este nunca mais a recupera.
   Como os anteriores, este romance trabalha a perspetiva pessoal dos seus personagens sobre o mundo. Neste caso, a perspetiva do protagonista, Lenz Buchmann. O subtítulo do romance, "Posição no mundo de Lenz Buchmann", demonstra isso mesmo. E que perspetiva! Através dos seus olhos, conhecemos as suas ideias sobre os fortes e os fracos, sobre a natureza e o homem, sobre a paz e a guerra, e sobre como estes conceitos andam sempre em conflito, na luta pela posição mais vantajosa no mundo. Como nos romances anteriores, estas ideias servem para traçar um retrato negro sobre o poder, a crueldade, a ambição e a loucura na alma humana. O romance encontra-se dividido em três partes, cujos nomes não referirei pois oferecem revelações fundamentais sobre a história. Na primeira parte, conhecemos o "homem forte" e as suas ideias, para além da sua ascensão no Partido; na segunda parte, vemos a alteração da posição no mundo de Lenz; a terceira parte consagra em definitivo esta alteração. Lenz é um homem cujas ideias e percurso nos levam, de início, a não torcer por ele, porque não conseguimos concordar com a sua visão do mundo. No entanto, curiosamente, não conseguimos de deixar de reconhecer a lógica por trás dos seus pensamentos. Aí reside um dos pontos fortes deste romance (e dos outros, no geral), a lógica aos serviço da loucura e da crueldade. O duelo força vs fraqueza percorre o romance de uma ponta a outra. Nos aspetos formais, este romance, como já escrevi para Jerusalém, possui uma escrita que parece objetiva e analítica, mas que está carregada de subjetividade e simbolismo quanto baste, que é fácil não repararmos numa primeira leitura de qualquer dos romances que compõem esta teralogia. Também a forma dos capítulos é fascinante e peculiar, sendo estes compostos por capítulos principais divididos em sub-capítulos, cada qual com uma frase que espelha a ideia ínsita a cada um deles. 
   Concluindo, portanto, trata-se esta de uma leitura fascinante e intrigante que não pode deixar de ser feita por todos quanto adorem a leitura de uma astuta análise das profundezas mais obscuras da alma humana. 

Citações:
"Todas as frases de simpatia podiam ser vistas, segundo um outro olhar, como frases de ataque. Ao deixar passar o outro à frente, um homem não estava a aceitar ser segundo mas sim a preparar o mapa do terreno para poder controlar visualmente o homem que por instantes se julgava em primeiro lugar. A vantagem de alguém estar à nossa frente, dissera uma vez o pai de Lenz, é estar de costas viradas para nós. Não importa o lugar onde estamos mas o campo de visão e a posição relativa." 
"Frederich apontava para o jardim e para o seu jardineiro, há muito entrado na decadência física, e dizia para os filhos que aquilo era bem o exemplo do que é a natureza nos tempos de paz: até um velho, analfabeto, com pouca força de braços, e incapaz de dizer uma única frase sensata, até um homem desses, um homem secundário, conseguia controlar aquele jardim, aquela outra máquina, aquela máquina verde."
"Todas as estratégias militares diziam o óbvio: apanhar o inimigo de costas, quando muito frente a frente se formos mais poderosos, e de cima, claro - quem está em cima tem vantagem, desde a construção dos castelos altos que todos o sabem - no entanto nenhuma referência era feita a um inimigo que viesse por baixo; o ataque, por baixo não era considerado."


Pontuação: 9.3/10


Gonçalo Martins de Matos

segunda-feira, 1 de julho de 2019

"Lunário", de Al Berto

   Al Berto é sem dúvida um dos nomes incontornáveis da poesia portuguesa do final do século XX. Como acontece com inúmeros outros poetas, a sua obra em prosa acaba por muitas vezes ser secundarizada face à sua obra poética. Esse pormenor costuma levar-me a indagar aquela. 
   Beno, o protagonista desta narrativa, recorda a vida errante e excessiva que o levou até ao momento em que começamos a história. Uma vida deambulatória, de excessos e noturna. Desde logo nos é dito que nos primeiros tempos, Beno não se apegava a nada, viajando de cidade em cidade e nunca ficando em nenhuma demasiado tempo. Uma noite, no café que frequentava, o Lura, é abordado por um homem que não lhe diz o seu nome, mas os dois começam a viver juntos, dando-lhe Beno o nome de Nému. E juntos viveram. Um dia são visitados por Alba, que sabemos ser amiga de ambos e mãe de um filho com Beno, para voltarem a sair à noite. Mais para frente conhecemos Kid e Zohía, ambos amigos de Beno, que no auge do romance serão peças fulcrais. Mais tarde ainda, conheceremos Alaíno, companheiro de Zohía. Todos estes personagens se movem nas suas vidas, errantes, sem saber com o que contar no dia seguinte, até que cada uma das histórias abertas se vai fechando até à conclusão final. 
   Antes de mais, este livro trata-se de um texto autobiográfico, desde logo se evidenciando com as semelhanças entre o nome do autor e o nome de Beno, passando pelo gosto pela escrita e pela pintura por que ambos são conhecidos. Sendo assim, todas as vidas e todas as histórias que encontramos nesta obra são reflexos do próprio autor, desdobrado em ambos, procurando alguma lógica na fragmentação diária da sua vida. Há, no caráter deambulatório da vida dos personagens, uma reflexão do próprio autor na sua própria deambulação. O livro é soberbamente escrito, denotando-se uma sensibilidade e uma inquietação fora do comum que, nunca é de mais repetir, sempre marcaram a vida de Al Berto, evidentes a quem conhecer a sua obra. A construção dos capítulos é fascinante. Cada capítulo é uma fase lunar (daí o nome do romance), sendo que no início e no fim temos o anoitecer e o amanhecer, o "Crepúsculo" e a "Umbria", culminando tudo num "Cântico" final. Tudo se desenvolve em crescendo até ao apogeu, à "Lua Cheia", decrescendo o ritmo e o passo a partir de aí. É toda a prosa, no fundo, um enorme poema. E que poema. É fascinante observar a desfragmentação do autor nas suas personas literárias, de modo a conseguir alguma fuga da inquietação que o assombra. Um outro aspeto, mais formal, que me fascinou neste livro foi a capa. Apesar do que diz o acertado ditado popular sobre as capas dos livros, a verdade é que esta capa faz parte da primeira atração que este livro provoca (esta edição da Assírio & Alvim, claro). Da capa deste livro fita-nos intensamente um jovem Al Berto, enigmático, convidando-nos a vir conhecê-lo. É uma capa muito bem pensada para o objetivo do livro (sendo até por isso mesmo que as edições desta chancela da Porto Editora colocam os seus poetas nas capas dos seus livros), uma complementaridade entre o conteúdo e a forma. E isso apenas contribuiu para o fascínio por esta obra.
   Resta portanto recomendar a leitura desta obra, especialmente se alguma inquietação incomodar o hipotético leitor; pode ser que assim encontre uma fuga para o que o assola.

Citações:
"Uma brisa noturna e carregada de sal desatou a soprar. O dia começava a morrer. A espuma das ondas tornara-se quase vermelha, a água ardia. Beno sentiu-se envolto numa espécie de torpor que o cegava. Olhava o mar, pressentia-o mais do que, na verdade, o via. E tudo o que via, afinal, não era senão uma mancha azulada estendendo-se a perder de vista, metalizada e ondulante, onde o crepúsculo derramava breves incêndios."
"Disseram um ao outro como se chamavam. Compraram cigarros e livros. Beberam café numa esplanada junto ao rio. Passearam-se até que o halo avermelhado do crepúsculo caiu sobre a cidade. A noite tornou-se densa, e os asfaltos refletiam a feérica luminosidade dos néons e dos semáforos."
" - Há tempos, aprisionei o tigre com olhos de rubi numa imagem de papel. Levei-o para dentro do meu sonho e passei noites inteiras a domá-lo, e agora ele anda à solta, muito manos, sedutor, por toda a casa. Já não sonho com ele, sonho com Beno. Mas o tigre só é verdadeiramente visível quando me dói alguma coisa e os espelhos me prendem o olhar. Pergunto-me sempre que estranho sonho me terá acordado..."


Pontuação: 8.9/10


Gonçalo Martins de Matos

domingo, 16 de junho de 2019

"O luto de Elias Gro", de João Tordo

   O luto de Elias Gro é o primeiro romance da denominada "trilogia" dos lugares sem nome, série de três livros de João Tordo que exploram temas íntimos da alma humana. Sem ligação sequencial entre os três, estes abrem um novo capítulo na escrita do autor (ou será que encerram? mais para a frente analisaremos melhor este ponto). 
   A história começa com o narrador a contar-nos a vez em que habitou um farol numa ilha, de modo a fugir por momentos da sua vida. Este narrador, lúgubre e melancólico, dependente do álcool para atenuar a sua dor, apresenta-nos de início como conheceu um alemão que lhe arrendou um farol numa ilha para poder viver longe da sua anterior existência, descrevendo-nos a ilha e os seus habitantes. Após a primeira apresentação que nos é feita da Casa das Águas, uma casa vitoriana que tinha sido habitada por um escritor, Lars Drosler, e que fora engolida pelo mar, o narrador descreve-nos a breve rotina que levou nos primeiros tempos na ilha. Rotina que mudou quando, distraído, o narrador atropelou, de bicicleta, Cecilia, uma pequena rapariga espirituosa e perita em anatomia, e Alma, uma mulher muito carinhosa com quem Cecilia passava grande parte do seu tempo livre. Num dos dias subsequentes, o narrador conhece Elias Gro, um padre anglicano, pai de Cecilia, que lhe pede o favor de acompanhar a partir de aí a sua filha até à escola, que era no continente. Estranhando tal pedido, mas aquiescendo de forma a compensar o remorso que sentia em ter atropelado Cecilia, o narrador assim o faz. E é assim que eles começam a passar muito tempo juntos e a trocar as suas ideias e pensamentos. A certa altura, Elias Gro expressa os seus desejos em recuperar a Casa das Águas, recuperando tudo o que pudesse ser dos restos afundados da casa. É assim que o narrador e Cecilia têm acesso aos escritos de Lars Drosler, e encetam numa análise dos mesmos. A parte final da história revela-nos como o narrador vai aos poucos aprendendo a lidar com a sua dor, e como o luto não é algo que pertence a cada um individualmente, mas é um sentimento partilhado por todos nós. O narrador apercebe-se disso quando fica a conhecer os lutos de Alma e, especialmente, de Elias Gro. É com esta renovada perceção que a história avança para uma conclusão inconclusiva, na qual a dor e a renovação se enlaçam e aproximam. 
   A história começa pelo final. É uma afirmação curiosa e é o eufemismo perfeito para descrever a analepse inicial deste romance. O narrador, como muitos outros antes na obra de João Tordo, é um personagem melancólico, perseguido pelos seu passado e pelos seus demónios, procurando uma fuga e uma expiação dos mesmos. É assim que o narrador decide, primeiro, escrever a sua peculiar história, como terapia, e, em segundo, viajar para a ilha e morar num farol. O farol é um símbolo universal de isolamento mas de esperança, metáfora ideal para a melancolia, a dor e a esperança amalgamadas num mesmo sentimento, numa mesma torre de ferro, fria e distante, mas cuja luz orienta os barcos perdidos no mar. A Casa das Águas também tem a sua função metafórica, quer a que se afundou, quer a que Elias Gro sonhou reconstruir. O luto, como esta casa, consome e afunda, sem nunca conseguirmos recuperar totalmente. Mas isso não quer dizer que não seja possível iludir essa dor. João Tordo é um autor que se apoia em imagens metafóricas de uma forma muito bem conseguida, e este livro é talvez aquele que, até agora, mais evidenciou essa sua capacidade. Todos os personagens fulcrais deste romance, o narrador, Elias Gro, Cecilia, Alma, Lars Drosler, e François Xavier (o faroleiro que habitava no farol), exprimem as suas formas de dor e as suas maneiras de lidar com a dor, de fazer o seu luto e de aprender a, aos poucos, recuperar dela. O final do romance é deixado em aberto, na opinião deste que vos escreve, precisamente para exprimir essa ideia de inconclusão que a dor nos destina. Os temas da expiação, da inquietude, da melancolia e da tristeza são temas recorrentes na obra de João Tordo, aqui encontrando uma espécie de súmula, precisamente porque, pelo menos é dado a entender, nesta obra (e talvez na "trilogia") o autor procura um encerramento temático, e, em simultâneo, um início. 
   Portanto, remato este texto com a habitual recomendação desta obra. Trata-se de uma leitura que se funde com os nossos demónios, estejam eles ocultos ou não, e que nos ajuda, também, a orientar a dor e o luto que tão inerentes são a todos nós. Um livro que vale a pena ser lido. 

Citações:
"O isolamento é uma doença dos nossos dias, disse ele. E tanto é uma doença que, como em todos os estados patológicos, só encontramos alívio quando nos apercebemos de que, sem darmos por isso, perpetuámos essa condição porque é mais doloroso sair dela do que permanecer doente. A sanidade tem um preço."
"Por alguma razão Noé construiu uma arca em forma de um barco. Deus disse-lhe para a construir de boa madeira resinosa e com betume por dentro e por fora. (...) Já nesses tempos se sabia que a água, que é vida por dentro quando a bebemos, corrói tudo por fora. Pense nas marés. A erosão consome ilhas inteiras e, se for preciso, continentes. Contra a água não há nada a fazer. O fogo? A água apaga-o. O ar? A água consome-o. A terra? A água inunda-a. Não é por acaso que o Senhor decretou um dilúvio em vez de um incêndio."
"E os milagres são hiperbólicos porque o verdadeiro milagre passa despercebido. Cristo teve de ressuscitar os mortos e curar os leprosos para que nós percebêssemos que até as coisas mais simples são divinas. Se Cristo se limitasse a construir uma casa, diríamos: Mas isso posso eu fazer. A hipérbole é a fundação de toda a religião. Sim, é isso mesmo: temos de ser confrontados com as coisas que estão fora do nosso alcance para darmos valor àquelas que nos são permitidas."


Pontuação: 8.5/10


Gonçalo Martins de Matos

terça-feira, 23 de abril de 2019

"O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago

   Quando O Ano da Morte de Ricardo Reis foi adicionado ao programa de leitura em Língua Portuguesa, substituindo o Memorial do Convento, ficou-me a pulga atrás da orelha e tive que verificar por mim de que trata este romance, e se fará sentido uma tal substituição no programa educativo. Adianto desde já que não, não faz sentido uma tal substituição, apesar da leitura peculiar que este, como os outros romances de Saramago, proporciona. A crítica que é feita pelo autor neste é mais direcionada ao Portugal salazarista, ao contrário do Memorial, que tem uma crítica mais universal, mais enquadrada num sistema de ensino que pretenda abrir os horizontes dos estudantes. Apesar disso, estamos perante mais um romance magnificamente composto por um escritor tão peculiar como o nosso Nobel.
   Passados 16 anos de vida no Brasil, Ricardo Reis regressa a Lisboa, de vapor, instalando-se no Hotel Bragança, onde ficará nos próximos meses. Nos tempos em que vive no hotel, a vida vai-se desenrolando, a seu passo e sem pressa, quando uma das criadas, de seu nome Lídia, e ele começam a ter encontros noturnos. Ricardo Reis ocupa os seus dias passeando por Lisboa, observando as suas gentes e as suas paisagens, redescobrindo os seus aspetos e pormenores. Pouco depois, Ricardo Reis conhece Marcenda Sampaio, a quem começa a cortejar, mantendo, no entanto, a sua relação com Lídia. Paralelamente, Ricardo Reis é visitado pelo fantasma de Fernando Pessoa, com quem se encontrará por diversas vezes ao longo da obra. Tudo isto se passa até ao dia em que, após uma situação desagradável para Ricardo Reis, este decide finalmente abandonar o hotel e morar em casa própria, arranjando também um emprego. Os seus encontros com os três personagens mencionados continuam, tornando-se, até, mais frequentes. E é assim que se desenvolve o resto da narrativa até a um final tão poético como agridoce. 
   Conforme acima foi dito, este é um romance que se foca nos primórdios do Portugal salazarista e da sociedade vigente à época, pelo que, ao bom estilo saramaguiano, essa crítica é feita de forma extremamente sarcástica e certeira, atravessando o romance como seu fio condutor. Só nos apercebemos no final, ao refletir sobre o início, que essa crítica é feita de princípio a fim. Pode ser feita uma divisão deste romance em duas partes: a parte da ingenuidade, que corresponde aos meses que Ricardo Reis passa no Hotel Bragança, não se passando grandes coisas no seu dia-a-dia, não desconfiando este do quanto Lisboa mudara (ou mudava); e a parte da descoberta da verdade, que começa com a saída de Ricardo Reis do hotel. Este último momento marca bem essa divisão. Antes, Ricardo Reis, confinado ao seu quarto de hotel e à sua rotina, ignora que o Estado Novo se vai fixando em Portugal, mas, após a saída do hotel, Ricardo Reis apercebe-se dos movimentos estranhos que se vão passando à sua volta. Marcante desta nova realidade que se lhe afigura perante os olhos é as notícias que chegam do resto do Mundo (principalmente de Espanha), que pintam o quadro do surgimento da Europa ditatorial. Claro, o estilo que distingue Saramago não deixa de se verificar neste romance. O uso comedido de vírgulas, os parágrafos longos, a narração e o discurso impregnados de oralidade. E, claro, a mordacidade do sarcasmo nas críticas. Os personagens que povoam este romance têm o papel de representar um aspeto da sociedade em inícios do Estado Novo, e mesmo da sociedade que será no durante. Destaque seja feito a Salvador, o vigilante e controlador gerente do Hotel Bragança, ao qual nada escapa no seu hotel, a Victor, um agente da PIDE que se faz sempre acompanhar de um forte e incontrolável fedor a cebola, e ao par de velhos que se senta todos os dias no mesmo banco do Alto de Santa Catarina, a nova morada de Ricardo Reis. A estátua de Camões e o busto do Adamastor são presença constante no romance, como que relembrando a simultânea grandeza e pobreza de Portugal, país complexo de grandes heróis mas de brandos costumes. 
   Reitero, antes de mais, algo que afirmei acima, este não é um romance indicado para leitura obrigatória num programa escolar. No entanto, trata-se de mais um lúcido romance por parte de um autor particularmente propenso a fazê-los. Por isso, este romance deve ser lido por todos quantos apreciem a obra saramaguiana e, no geral, um bom romance. 

Citações:
"Um homem grisalho, seco de carnes, assina os últimos papéis, recebe as cópias deles, pode-se ir embora, sair, continuar em terra firme a vida. Acompanha-o um bagageiro cujo aspeto físico não deve ser explicado em pormenor, ou teríamos de prosseguir infinitamente o exame, para que não se instalasse a confusão na cabeça de quem viesse a precisar de distinguir um do outro, se tal se requer, porque deste teríamos de dizer que é seco de carnes, grisalho, e moreno, e de cara rapada, como daquele foi dito já, contudo tão diferentes, passageiro um, bagageiro outro."
"Outras fontes que venham a descobrir-se serão duvidosas, por apócrifas, ainda que verosímeis, certamente não coincidentes entre si e todas com a verdade dos factos, que ignoramos, quem sabe se, faltando-nos tudo, não teremos nós de inventar uma verdade, um diálogo com alguma coerência, um Victor, um doutor-adjunto, uma manhã de chuva e vento, uma natureza compadecida, falso tudo, e verdadeiro." 
"Também o Chiado, que mal lhes fez o Chiado, Que foi chocarreiro, desbocado, nada próprio do lugar elegante onde o puseram, Pelo contrário, o Chiado não podia estar em melhor sítio, não é possível imaginar um Camões sem um Chiado, estão muito bem assim, ainda por cima viveram no mesmo século, se houver alguma coisa a corrigir é a posição em que puseram o frade, devia estar virado para o épico, com a mão estendida, não como quem pede, mas como quem oferece e dá" 


Pontuação: 7.2/10


Gonçalo Martins de Matos

terça-feira, 6 de novembro de 2018

"Uma Família Inglesa", de Júlio Dinis

   Uma Família Inglesa é uma das (se não a) mais conhecidas obras de Júlio Dinis. Trata-se de uma obra bastante acarinhada pelos leitores portugueses, situada a meio caminho entre o romantismo e o realismo. Por muitos apelidada como a obra-prima do autor, mais que uma história de amor, é um grande retrato da sociedade portuense na segunda metade do século XIX, e das idiossincrasias dominantes da época.
   Desde logo são-nos apresentados, numa "Espécie de prólogo em que se faz uma apresentação ao leitor", os personagens nucleares deste romance: Richard Whitestone, um comerciante inglês, Jenny Whitestone, sua generosa filha, e Carlos (Charles) Whitestone, seu leviano filho. Desde logo lhes são atribuídas estas características elementares, que os acompanharão ao longo do romance. Gravitando à volta destas três personagens situam-se as duas últimas personagens principais: Manuel Quintino, guarda-livros da firma Whitestone, e a sua filha, Cecília. Entre a atividade comercial de Mr. Whitestone, a vida doméstica da família inglesa (corporizada no "anjo doméstico" Jenny) e a existência desregrada de Carlos, vão-se sucedendo os dias até Carlos travar conhecimento com uma misteriosa mulher mascarada, na noite de Carnaval, que lhe fica remoendo na memória. Mais tarde vem a saber que essa mulher é Cecília, e, incapaz de deixar de pensar nela, começa a desenvolver-se por ela um sentimento forte. Por seu turno, Cecília já desde o Carnaval que pensava incessantemente no irmão da sua amiga Jenny, desenvolve com o passar do tempo uma paixão pelo jovem inglês. Mediada por Jenny, que escuta os desabafos, quer do seu irmão, quer da sua amiga, a paixão vai-se desenvolvendo à revelia dos restantes personagens, não obstante uma certa resistência inicial de Jenny. Posteriormente, Carlos e Jenny aproximam-se mais devido a um acontecimento mundano envolvendo o velho guarda-livros do comerciante inglês. No entanto, mais próximos do que nunca, surgem entraves atrás de entraves à felicidade de ambos. Por fim, após a transposição desses entraves, Carlos e Cecília podem ser felizes, sendo essa felicidade transmissível a todos os personagens principais apresentados.
   O estilo dinisiano é, como foi dito, um misto de romantismo com realismo-naturalismo. Este romance não é exceção. A história que serve de base ao romance encaixa no enredo romântico típico, mas a forma que assume apresenta já os traços do naturalismo que viria a surgir na década posterior à publicação do romance. As personagens trágicas e o fatalismo que assombra as suas vidas marca a maior parte do romance. Mas esse tipo de enredo é secundarizado em função da descrição da vida familiar, comercial e social portuense, já para não falar de um ou outro ocasional deslize para a crítica social (não tão marcada como em obras realistas posteriores). No entanto, o que mais se destaca é a toda a envolvência psicológica que rodeia os personagens, e a evolução que os acompanha do início para o final. Todos atravessam mudanças nas suas opiniões, ideias e personalidades, de uma forma natural, sem parecer fictícia ou forçada. Esta obra é soberba no seu espírito, pois a história mil vezes foi contada antes, sem deixar de ser, no entanto, cativante. Júlio Dinis é um exímio prosador. O vernáculo que emprega e as construções frásicas em que o inclui, sem perder nunca o seu domínio, são sem dúvida os pontos mais fortes do romance (num romance onde não existem per se pontos fracos).
   Nunca é de mais recomendar a leitura dos clássicos. E este é um daqueles clássicos de leitura obrigatória na literatura portuguesa. Pela sua qualidade e, acima de tudo, pela boa dose de português (mesmo sendo a história sobre uma família inglesa) que nos apresenta. 

Citações:
"- Ho Butterfly, good morning! How do you do sir? - exclamou Mr. Richard, saudando o seu cão perdileto, que lhe estendeu a pata como para um shake-hand. Havia nisto um requerimento para uma fatia de fiambre, o qual o inglês não indeferiu. 
"Parece que o tipo nacional é indigno de referência (...). A causa disto é o sermos nós uma nação pequena e pouco à moda, acanhada e bisonha nesta grande e luzidia sociedade europeia, onde por obséquio somos admitidos, dando-nos já por muito lisonjeados, quando os estrangeiros se deixam, benevolamente, admirar por nós."
"Mais uma vez se verificou a eterna luta entre a teoria e a prática; uma, com seus instintos de jovem, com seus hábitos de atividade, com seus amores pelo futuro e pelo progresso; outra, com a frieza da idade madura, com uma índole essencialmente prosaica e conservadora (...) enquanto o jovem letrado desenvolve teorias de ciência social, vistas transcendentes de filosofia de direito, o jurista, encanecido no foro, examina os artigos do código, esmiúça a letra da lei, aconselha as partes e despacha os autos."


Pontuação: 9.9/10


Gonçalo Martins de Matos

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

"A Boneca de Kokoschka", de Afonso Cruz

   Este é o terceiro livro de Afonso Cruz que leio e, apesar da sua inegável qualidade e novidade, faltou-lhe qualquer coisa que não o elevou ao nível de outros livros que li do autor. Não obstante, tratou-se de um prazer enorme de leitura como Afonso Cruz sabe bem proporcionar aos seus leitores. Compõe histórias como um pintor compõe uma tela, pincela, traça e adiciona camadas, e desse trabalho resulta um belo fresco que é difícil não admirar. 
   A história é dividida em três partes. Na primeira parte conhecemos aqueles que podem ser chamados os protagonistas principais da narrativa. São eles Isaac Dresner, um jovem rapaz, Bonifaz Vogel, dono de uma loja de pássaros, e Tsilia Kacev, aprendiz de pintora. Todos moram na cidade de Dresden aquando da Segunda Guerra Mundial, período em que a cidade alemã foi devastada pela queda de toneladas e toneladas de bombas. Esta parte foca-se na forma como os seus destinos aparentemente autónomos se cruzam. A segunda parte apresenta-nos Dresner, Tsilia e Vogel vivendo juntos em Paris, onde Dresner possui uma editora pequena chamada Eurídice! Eurídice! e uma livraria de seu nome Humilhados & Ofendidos, que apenas publica autores rejeitados. Um desses autores é Mathias Popa, autor de várias obras que não conheceram sucesso algum, que oferece a Dresner um último manuscrito para este publicar: A Boneca de Kokoschka. Por fim, a terceira parte apresenta-nos os protagonistas secundários, que são Miro Korda, um músico português, e Adele Varga, uma jovem que procura o amante perdido da sua avó moribunda. Todas as histórias se relacionam umas com as outras de forma a tecer um enredo de vidas que, numa aparente autonomia, dependem umas das outras. 
   Este é um livro sobre a importância do outro. As vidas e a forma como a diversidade de vidas é fulcral para que estas existam são uma constante ao longo da obra. O livro, como muitos de Afonso Cruz, é uma maravilha da plasticidade que uma obra literária pode ter, ou seja, é um excelente exemplo de como as diferentes formas de arte não são estanques. Para além do texto brilhantemente construído, o próprio livro é visualmente aliciante. Entre parágrafos mais curtos, fotografias e desenhos do próprio autor, as duas formas de arte presentes complementam-se. Ainda neste particular, o pormenor que mais me deleitou e que mais contribui para a referida plasticidade foi o facto de nos ser apresentado, no final da segunda parte, um livro dentro de um livro. O romance A Boneca de Kokoschka escrito por Mathias Popa é-nos dado a ler, incluído na narrativa. Neste, a numeração dos capítulos segue a sequência de Fibonacci (1, 1, 2, 3, 5, 8, 13...), o que foi um pormenor mesmo interessante que o autor acrescentou para enfatizar uma das mensagens principais que pretende transmitir. A construção dessas páginas que dão corpo ao livro de Popa assemelha-se mesmo a um livro, com uma página a servir de capa e uma de contracapa, com biografia do autor e resumo do livro incluídos. Outro pormenor interessante é o facto de alguns dos personagens (e até algumas das obras) referidos fazerem parte de um outro universo que Afonso Cruz constrói em paralelo, com a sua obra Enciclopédia da Estória Universal, o que cria uma sensação de realidade ao universo literário por si criado. 
   Trata-se de uma leitura interessante e emotiva sobre a importância do outro na construção de nós mesmos que merece indubitavelmente ser lida por todos os apreciadores de uma obra original e criativa. 

Citações:
"A sua relação com o mundo e com o tempo podia ser vivida de três maneiras: a) suava quando fazia calor, sem qualquer relação causal, mas apenas simultaneidade, ou b) suava porque fazia calor (que é, aliás, o sistema que costumamos usar para interpretar os fenómenos que acontecem à nossa volta, uma explicação causa/efeito), ou, ainda, c) porque suava, fazia calor(uma maneira de ver as coisas que Aristóteles não aprovaria)."
"Repare que o bigode do Hitler tinha muita piada no Charlot. E o bigode do Charlot era abominável num Hitler. Uma coisa igualzinha, se mudarmos o contexto, determina a nossa alegria ou a nossa tragédia. Duchamp é que tinha razão com aquilo do urinol: é o contexto que cria a arte e o drama e a desgraça e a felicidade."
"Todos dentro de nós para que nos seja fácil compreender aquelas diferenças e, eventualmente, encontrar uma paz no meio dessa tensão. As guerras têm mais dificuldade de existir quando as pessoas se compreendem umas às outras. As bombas caem menos, os prédios tendem a ficar de pé, os corpos não se despedaçam com a mesma frequência, os braços deixam de voar e é possível que as gaiolas deixem de existir, os campos de concentração passem a ser museus para a nossa memória."


Pontuação: 8.9/10


Gonçalo Martins de Matos