segunda-feira, 24 de agosto de 2026

"O Fim dos Estados Unidos da América", de Gonçalo M. Tavares

   "No início era o futebol americano, coisa bruta mas séria."
   Nuns Estados Unidos da América no limiar do colapso, bastará apenas um ligeiro movimento para precipitar a rutura já em curso. Esse movimento é a peste, essa palavra que carrega uma ameaça difusa e abstrata, mas cujos efeitos são bem concretos: a divisão acentuada entre ricos e pobres, quase como enquanto espécies diferentes. Sabido através de um oráculo contemporâneo, caberá a Bloom a salvação dos Estados Unidos da América. Paralelamente à peste, há uma fratura sócio-política a mear os Estados Unidos da América, que encontra as duas pontas do seu espetro em Left Wing, líder de uma esquerda que anseia a revolução, e Ted Trash, o representante da América profunda e ignorante. Bloom é acompanhado pelo seu amigo Creonte, e ambos partem pelos Estados Unidos da América em busca de uma cura, enquanto Bloom não consegue afastar do seu pensamento a bela La Rosa, uma mulher mexicana que viu num estádio no início da epopeia. Na sua busca pela cura da peste (ou pela bela La Rosa), Bloom atravessa as paisagens dos Estados Unidos da América, as concretas e as psicológicas. Personagens diversas como Jonathan & Mary, Laio, Jocasta, Tirésias, Johnston Boone, Mack Morris ou Dr. Robert ajudam a desenhar estes Estados Unidos da América que, tomados da peste, procuram, talvez em vão, a salvação. 
   Logo de início, antes de entrar o narrador, a voz do autor diz-nos que esta "massa-brutamontes" representa um novo centro no seu percurso. Gonçalo M. Tavares revela-nos assim que há um antes e um depois da escrita deste livro. Aguardamos expectantes saber de que forma se materializa este recentramento da sua criação literária. Para além do epíteto gargantuesco, o autor também apelida esta epopeia de greco-americana, e aqui já entramos na metatextualidade, porque, na definição de grego e de americano que o já narrador constrói, o grego é estático e lento e o americano é móvel e veloz. E, curiosamente (ou não), a epopeia tem também duas velocidades. A disseminação progressiva da peste e as reações muito humanas a tal evento. O lento descolar da ação e a precipitação dos eventos no último quarto do livro. A viagem de Bloom pela América e a América em si. A peste, apesar de, claro, ser escrita de forma biológica, não deixa de ser um ícone de várias outras pragas que se juntam no desmoronamento da sociedade: dinheiro, estupidez, ganância, orgulho. O efeito principal da peste, a grande divisão que concretiza, é um forte indicador desta ideia. Por falar em divisão, há duas grandes divisões que são operadas pelo correr da peste, que talvez possamos qualificar como vertical - entre ricos e pobres - e horizontal - entre seguidores de Ted Trash e de Left Wing. Os Estados Unidos da América acabam porque se dividem em dois, uma ideia que leva ao extremo o estado político e social atual desse país aqui, na nossa realidade. Os mesmos Estados Unidos acabam por ser uma personagem, com ânsias e receios, desejos e desapontamentos, tão agente na história como os que pisam o seu chão. Bloom é, nesta epopeia, tão anti-herói como em Uma Viagem à Índia, mas numa coordenada diferente, não tanto ligada ao seu modo de ser. 
   No plano formal, esta epopeia apresenta características significativamente diferentes de Uma Viagem à índiaO Fim dos Estados Unidos da América divide-se em X Livros, cada um dividindo-se em 40 capítulos. Cada capítulo divide-se num número variável de sequências estróficas, também numeradas. Os versos são mais fluídos e fragmentários, e a aparência geral é de caos e polifonia, em reflexo do decorrer dos eventos na história e na nossa realidade. Outra característica que distingue esta epopeia da anterior é o título que antecede cada capítulo, quase como se uma didascália a condicionar ou orientar, mais propriamente, a leitura dos mesmos. Mesmo os Livros são dotados de um título que baliza os temas ou os eventos que serão relevantes nos capítulos que o compõem. Quanto à linguagem empregue, o elemento sátira revela-se, em Gonçalo M. Tavares, através de jogos de palavras, expressões jocosas, repetições, diminutivos, e outras subtilezas que, para quem conhece o estilo do autor, reconhece imediatamente como uma forma muito pessoal de retirar seriedade ao que relata, sem nunca renunciar à seriedade que o tema merece. 

Citações: 
 
"O metal toca na peste e fica metal e frio como era.
Impassível este material que jamais se contorce;
feito para ser, até ao fim, reta, curva ou ângulo exato
        sem tremores ou hesitações." 

"Entre a beleza e o pó está, pois, o tempo;
são o mesmo – pó e beleza – mas com um ligeiro 
                    intervalo." 
 
"Pode o poço substituir a torre na civilização americana?
Pode o governo dos Estados Unidos da América escavar 
            com mais ímpeto ainda? 

É que há muito as altitudes têm novas medidas de referência: 
o nível do mar para o que está acima, o nível do petróleo 
            para o que está abaixo. 

Para quê, então, escavar mais?
Abaixo do petróleo, só poderá estar aquilo que não é útil,
                dizem muitos."


Pontuação: 8/10


Gonçalo Martins de Matos

segunda-feira, 15 de junho de 2026

"Eliete", de Dulce Maria Cardoso

   Ler Eliete é um transtorno e um agoiro, da pior e melhor maneira possível. Teimo em afirmar que é assim que os bons livros nos fazem sentir.
   Esta vida normal de Eliete, de tão ordinária que é, inflige em nós (atrevo-me) mulheres, uma pequena agulha, que vai perfurando o nosso peito por caminhos estranhamente já conhecidos. 
   A realidade intergeracional de uma mulher revoltada com a sogra e de uma neta que não quer, por culpa, despedir-se da avó, é quase biográfica para mim. Daí que este livro poderia ser escrito com o nome de tantas outras mulheres na capa: A Vida Normal de Laura, de Ana, de Maria, etc.
  No entanto, deste jardim de ordinarice (no melhor dos sentidos) desabrocha um percurso que todos nós desejamos fazer - recuperar as rédeas da nossa vida. Não há nada mais aliciante do que partir para lado nenhum em busca do que permanece escondido dentro de nós.
   A vida normal de Eliete transborda um retrato de uma família na zona de Lisboa, que lida com os problemas típicos de uma família que vive o pós 25 de abril com a memória da revolução bem presente. Retrata uma mulher casada com um marido que ama por conveniência, confinada a um trabalho de que não gosta por conveniência, com duas filhas tidas por conveniência, a viver a sua vida convenientemente. 
   No meio de toda esta conveniência, Eliete decide arriscar-se a recuperar a sua própria vontade de viver. Esta busca é essencialmente motivada pelo desejo de ser amada, pela revolta de não encontrar esse desejo no homem com quem escolheu passar a vida, e pelo desconsolo de já nem nas próprias filhas encontrar esse colo de amor. 
   Não direi mais, para que o leitor também se descubra neste caminho que vai ao encontro da profundidade da banalidade de Eliete. Afinal de contas, o banal, de banal nada tem, e a complexidade humana merece tanto mais obras quanto for possível a pessoas como Dulce Maria Cardoso escrever. 
   Uma última mensagem: para si leitor. Olhe-se ao espelho e espante-se. Essa banalidade de vida merece todo o seu louvor. 


Algumas citações:

“Eu sou eu e o Salazar que se foda.”

“A cabeça e o corpo da avó estavam a morrer, qualquer pessoa podia ver isso, só que a cabeça estava a morrer mais depressa do que o corpo e, se isso não magoava o corpo da avó, magoava o meu.”

“Uma mulher que gostasse de foder era uma puta. Eu seria uma puta, como a Milena o fora quando começou a ser bem-sucedida enquanto advogada. As mulheres decentes não eram bem-sucedidas nos cargos destinados aos homens, as mulheres não estavam biologicamente programadas para serem bem-sucedidas nos cargos destinados aos homens e por isso o poder a que certas mulheres acediam resultava de se terem sacrificado sexualmente, as mulheres não estavam biologicamente programadas para gostarem de sexo.” 
 
 
Carla Sofia Swift