Ler Mia Couto é estar na presença de uma obra garantidamente bela, poética e intrigante. Este livro, considerado como um dos melhores do autor, não se desvia dessa beleza poética que tão bem caracteriza a sua obra. A escrita de Mia Couto é esteticamente sublime e os temas que aborda são deliciosamente poéticos. Ler uma obra deste autor moçambicano é enriquecedor e um verdadeiro deleite. O autor tem uma forma de escrever tão característica, sendo até a sua mais marcante contribuição para a língua portuguesa a criação de neologismos. Mas nesta obra não se nota essa característica, tirando um ou dois espalhados pelo livro. O que mais marca na leitura de Jesusalém, na minha opinião, é o seu desarmante lirismo. Desarmante porque estamos perante o que parece ser uma utopia, sítio onde não contamos encontrar algo de muito poético. Por essa razão, somos surpreendidos pela doce poesia em prosa que o autor escreve. Muitos são os autores que escrevem muito bem o português, que o levam aos seus limites, mas apenas um punhado destes consegue um tão grande lirismo e significado no que escreve recorrendo a um português simples e acessível.
A história inicia-se com a apresentação do narrador, Mwanito, "afinador de silêncios", como ele próprio se introduz. A primeira parte do livro é a descrição de como era a vida numa coutada para onde se haviam mudado ele, o seu pai, Silvestre Vitalício, o seu irmão, Ntunzi, e o ajudante do seu pai, o militar Zacaria Kalash. Jesusalém é o nome da coutada onde estes habitam, porque certo dia, após a morte da sua mulher, Dordalma, Silvestre pegara nos seus filhos e mudara-se para um sítio onde não existia tempo nem humanidade, um sítio onde mais ninguém para além deles existia. Após a apresentação das personagens que habitam Jesusalém (a que o narrador denominou de humanidade), são-nos contados vários e pontuais eventos que trazem de volta a humanidade e o tempo a Jesusalém, a narração sempre evoluindo até atingir um ponto sem retorno, onde tudo muda, não podendo voltar ao que era.
O lirismo da escrita de Mia Couto é apaixonante. A sua escrita pega-nos às suas páginas, ficamos emocionalmente colados à sua poesia autêntica. É uma autêntica pérola de palavras, uma pedra preciosa de emoções. É assim que descrevo a escrita de Mia Couto, uma jóia. Neste livro não estão presentes os neologismos que caracterizam a obra de Mia Couto, e que lhe valeram o Prémio Camões pela inestimável contribuição para a língua portuguesa, aparte um ou outro pontualmente utilizados (o que me marcou mais foi a palavra "desconsegui"). As alianças improváveis que o autor faz entre um nome e um adjetivo para criar uma ideia de união e desunião simultânea, aliadas ao ocasional neologismo, deixavam-me sempre um sorriso na boca quando os detetava. É uma escrita lírica, poética, preciosa. A língua portuguesa deve muito a Mia Couto, mesmo que não utilizemos os neologismos por ele criados quotidianamente. Quanto mais não seja, deve-lhe o facto de evoluir, de se misturar o português tradicional com o dialeto moçambicano, criando uma língua lusófona, não só de Portugal, mas de todos os países da lusofonia.
Em suma, a leitura deste livro é essencial para quem quiser contactar com o que de melhor se escreve em língua portuguesa. É uma obra poética em prosa, para ser apreciada.
Citações:
"Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez."
"Deslumbrar, como manda a palavra, deveria ser cegar, retirar a luz. E afinal era agora um ofuscamento que eu pretendia. Essa alucinação que uma vez sentira, eu sabia, era viciante como morfina. O amor é uma morfina. Podia ser comerciado em embalagens sob o nome: Amorfina."
"- Engraçado: eu esperava que Deus viesse a Jesusalém. Afinal, quem vai chegar são estrangeiros privados.
- É assim, o mundo...
- Quem sabe os estrangeiros privados são os novos deuses?
- Quem sabe?"
Pontuação: 10/10
Poéticas leituras,
Gonçalo M. Matos
domingo, 28 de agosto de 2016
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
"A Morte de Ivan Ilitch", de Liev Tolstoi
Liev Tolstoi é um dos gigantes da literatura mundial, sendo autor de obras de peso nesta. Por isso, a melhor maneira de começar por um autor tão intemporal e universal como Tolstoi é com a sua pequena novela A Morte de Ivan Ilitch, considerada como a melhor novela da história da literatura, ou a melhor novela sobre a temática da morte. Uma obra-prima que reflete sobre a vida e a morte, e o papel do ser humano no meio destas, sobre as virtudes do ser humano e a grande mentira que é viver.
A história começa com a notícia da morte de Ivan Ilitch, o que nos transmite já a pouca importância que a narração tem, sendo a reflexão o que compõe maioritariamente a obra. Os seus amigos e familiares vão a casa deste prestar a sua homenagem. Após esta pequena introdução, o narrador descreve brevemente a vida de Ivan Ilitch, desde a infância à data do seu casamento. Após uma mudança de cidade, Ivan Ilitch vive feliz e realizado, mas por pouco tempo. Quando começa a sentir uma dor terrível e um sabor estranho na boca, não obstante os conselhos dos médicos e as palavras dos familiares, principalmente da sua mulher, Praskovia Fiodorovna, começa a entrar em depressão, atormentando-se se seriam as suas dores sinais da morte que se avizinha. Cada vez, mais deprimido e frágil, Ivan Ilitch apercebe-se de várias coisas sobre a vida e a morte, chegando a uma desconcertante conclusão sobre a vida que levou e sobre a vida que todos levam.
A novela é uma grande reflexão do protagonista sobre a justiça do que lhe aconteceu, sobre a sua vida, sobre as vidas dos outros e sobre a morte. É uma obra muito metafísica e existencialista, questionando sobre a morte, a vida e o papel do ser humano no meio destas, a sua fragilidade e impotência perante a grandiosidade da existência e a imprevisibilidade da existência. É uma obra que reflete sobre estes temas sem nos cansar, não somos sobrecarregados com filosofia em demasia nem nos desiludimos com a falta de história, tem ambos os elementos em equilíbrio. E leva-nos também a refletir sobre a nossa existência, criando-nos uma empatia com a aflição e o desespero do protagonista.
Portanto, aconselho que esta novela seja lida e apreciada. Todos nós já refletimos sobre a vida, a morte e as nossas vidas, e esta obra acrescenta-nos mais pontos de vista sobre os quais refletir. É uma novela intemporal por um génio universal.
Citações:
"Sim, a vida estava aí e vai-se embora, vai-se embora e não a posso segurar. Sim, para que me ando eu a enganar? Não é acaso bem evidente a todos, exceto a mim, que a morte mais dia menos dia me catrafila? A questão é só do número de semanas ou de dias que ainda faltam; não é verdade que posso morrer agora mesmo? Vivia na luz e eis-me envolto nas trevas."
"O exemplo de silogismo que lá ensinavam na lógica:«Caio é homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal» sempre lhe parecera muito correto com relação a Caio, mas incorretíssimo com relação a si mesmo. Tratava-se de Caio, do homem em geral, e assim muito bem."
"Chorava pensando na sua impotência, na sua horrível soledade, na crueldade dos homens, na crueldade de Deus, na ausência de Deus."
Pontuação: 8/10
Metafísicas leituras,
Gonçalo M. Matos
A história começa com a notícia da morte de Ivan Ilitch, o que nos transmite já a pouca importância que a narração tem, sendo a reflexão o que compõe maioritariamente a obra. Os seus amigos e familiares vão a casa deste prestar a sua homenagem. Após esta pequena introdução, o narrador descreve brevemente a vida de Ivan Ilitch, desde a infância à data do seu casamento. Após uma mudança de cidade, Ivan Ilitch vive feliz e realizado, mas por pouco tempo. Quando começa a sentir uma dor terrível e um sabor estranho na boca, não obstante os conselhos dos médicos e as palavras dos familiares, principalmente da sua mulher, Praskovia Fiodorovna, começa a entrar em depressão, atormentando-se se seriam as suas dores sinais da morte que se avizinha. Cada vez, mais deprimido e frágil, Ivan Ilitch apercebe-se de várias coisas sobre a vida e a morte, chegando a uma desconcertante conclusão sobre a vida que levou e sobre a vida que todos levam.
A novela é uma grande reflexão do protagonista sobre a justiça do que lhe aconteceu, sobre a sua vida, sobre as vidas dos outros e sobre a morte. É uma obra muito metafísica e existencialista, questionando sobre a morte, a vida e o papel do ser humano no meio destas, a sua fragilidade e impotência perante a grandiosidade da existência e a imprevisibilidade da existência. É uma obra que reflete sobre estes temas sem nos cansar, não somos sobrecarregados com filosofia em demasia nem nos desiludimos com a falta de história, tem ambos os elementos em equilíbrio. E leva-nos também a refletir sobre a nossa existência, criando-nos uma empatia com a aflição e o desespero do protagonista.
Portanto, aconselho que esta novela seja lida e apreciada. Todos nós já refletimos sobre a vida, a morte e as nossas vidas, e esta obra acrescenta-nos mais pontos de vista sobre os quais refletir. É uma novela intemporal por um génio universal.
Citações:
"Sim, a vida estava aí e vai-se embora, vai-se embora e não a posso segurar. Sim, para que me ando eu a enganar? Não é acaso bem evidente a todos, exceto a mim, que a morte mais dia menos dia me catrafila? A questão é só do número de semanas ou de dias que ainda faltam; não é verdade que posso morrer agora mesmo? Vivia na luz e eis-me envolto nas trevas."
"O exemplo de silogismo que lá ensinavam na lógica:«Caio é homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal» sempre lhe parecera muito correto com relação a Caio, mas incorretíssimo com relação a si mesmo. Tratava-se de Caio, do homem em geral, e assim muito bem."
"Chorava pensando na sua impotência, na sua horrível soledade, na crueldade dos homens, na crueldade de Deus, na ausência de Deus."
Pontuação: 8/10
Metafísicas leituras,
Gonçalo M. Matos
domingo, 21 de agosto de 2016
"A Queda dum Anjo", de Camilo Castelo Branco
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda. Este é o nome do protagonista deste romance, morgado mirandês que nos é apresentado como um exemplo de retidão e de seriedade, sendo um homem estudioso e fiel à sua esposa, D. Teodora de Figueiroa. É conservador e defensor da tradição e dos bons costumes portugueses. Logo no início do romance nos é descrita a sua vida familiar antes de nos informar que Calisto foi eleito pelo círculo de Miranda como deputado, razão pela qual este parte para Lisboa. Chegado à capital, Calisto é surpreendido pela diferença entre a Lisboa descrita pelos seus clássicos e a Lisboa oitocentista em final de século, fervilhando de ideias liberais. Daqui avança a história em crescendo, sempre narrando os dois aspetos basilares desta obra: as paixões e as ideias políticas de Calisto. Não é revelação abusiva do enredo referir que ambas sofrem uma metamorfose radical. O final é tão surpreendente e romântico quanto irónico e mordaz, como apenas Camilo Castelo Branco consegue escrever.
Como referi acima, este romance é vincadamente romântico, embora se notem umas pequenas luzes que antecipam a evolução pela qual a literatura portuguesa passaria mais tarde. Todas as características românticas e camilianas se encontram presentes, como os grandes protagonistas, a tragédia do Destino, os amores, o coração versus a cabeça, a metamorfose da alma, as atribulações do sentimento. Mas notam-se também algumas características realistas, como a crítica social e a paródia dos costumes, estas duas quase sempre presentes nas obras deste autor. Estas características realistas não são tanto consideradas pelos estudiosos, a meu ver, por serem marcas da personalidade do próprio autor. Camilo Castelo Branco foi muito irónico e mordaz durante a sua vida, características essas que sempre imprimiu nas suas obras, numas mais expressamente que noutras. Por todo o romance observamos uma crítica feroz aos políticos portugueses, à futilidade dos seus discursos e à prossecução apenas dos seus interesses. Camilo Castelo Branco é considerado justamente como um dos melhores escritores da língua portuguesa, e este romance relembrou-me as razões para tal. Camilo mexe-se pela língua portuguesa como um peixe na água, brinca com as palavras, tem um à-vontade na sua língua que lhe permite conjugar as palavras de maneiras tão brilhantes quanto esteticamente perfeitas. Ler Camilo Castelo Branco é aprender a escrever bom português decentemente.
Dito isto, recomendo fortemente que este romance seja lido. Camilo Castelo Branco é dos nossos melhores escritores, e este romance, como outros, confirma-o. É um livro para ser lido, apreciado e relembrado.
Citações:
"Paupertas impulit audax. Isto que o Horácio faminto dizia de si, acomodam-no os regedores da coisa pública aos professores de primeiras letras; porém, outros muitos versos do Horácio farto, esses, tomam-nos eles para seu uso."
"Tenho aqui à minha beira o demónio da verdade, inseparável do historiador sincero, o demónio da verdade que não consentiu ao Sr. Alexandre Herculano dizer que Afonso Henriques viu coisas extraordinárias no céu do campo de Ourique, e a mim me não deixa dizer que Calisto Elói não adulterou em pensamento!"
"- Meu amigo, abra os olhos, que não há martirológio para as toupeiras. As ideias não se formam na cabeça do homem; voejam na atmosfera, respiram-se no ar, bebem-se na água, coam-se no sangue, entram nas moléculas, e refundem, reformam e renovam a compleição do homem."
Pontuação: 9.8/10
Deliciosas leituras,
Gonçalo M. Matos
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
"Memória de Elefante", de António Lobo Antunes
Quando decidi ler este livro, estava de pé atrás. De pé atrás porque já o tinha tentado ler antes e fiquei na altura desiludido e desconfiado da escrita de Lobo Antunes. Mas o tempo é algo curioso. É a importância das segundas oportunidades, eu nunca achei nada de especial a obra de Lobo Antunes até decidir dar uma segunda olhadela, fazer uma segunda análise, desta vez com maior maturidade literária. E não fiquei desiludido desta vez. Compreendo agora o porquê de Lobo Antunes ser considerado um dos gigantes da literatura portuguesa contemporânea, a sua influência nos autores que o seguiram é notável. E, sendo este o primeiro romance publicado pelo autor, revelou uma incrível maturidade literária já nessa altura que apenas se desenvolveu.
A história deste livro narra o quotidiano aborrecido e desencantado do protagonista, um psiquiatra, que se limita a existir, a ir vivendo, uma vez que se separou da mulher. Verdadeiramente, a história pouco mais é que isto. Em todos os momentos do seu dia, o protagonista pensa na sua vida, em como a sua infância revelava já uma tendência para a "desgraça", como a sua personalidade sempre afastara os que o rodeavam, em como o seu casamento apenas descurou por falta de vontade sua, em como viveu dias terríveis na guerra do ultramar. Estes são os pensamentos-chave que acompanham o protagonista ao longo das suas atividades rotineiras. Movendo-se entre consultas, acompanhamento terapêutico e a negação dos seus problemas, o psiquiatra assim vais vivendo, sempre amargamente, sempre pensando na sua mulher e nas suas filhas, de quem desistiu por pura falta de vontade e cobardia, segundo as suas próprias conclusões.
A história é narrada na terceira pessoa, o que pode indicar que este romance se trata de uma expiação das questões do próprio Lobo Antunes. Aliás, a presença do autor no romance é bastante explícita. Um psiquiatra recém-divorciado que sempre teve um gosto especial pelas letras é uma descrição que se poderia fazer do autor, tratando-se também da descrição do protagonista. É como se o autor dissesse a si próprio o que fez de mal, porque agiu como agiu, e se punisse pelas falhas que cometeu e poderia muito bem ter evitado. A estrutura deste romance apresenta já uma ou outra característica distintiva da obra de Lobo Antunes, como por exemplo o fluxo de consciência, o uso de uma ou outra palavra estrangeira, um ocasional neologismo, uns indícios de anacoluto, entre outras. O que torna a leitura de Lobo Antunes curiosa e interessante é as comparações e associações de ideias tão curiosas quanto ligeiramente aleatórias, ligando conceitos que aparentemente não se uniam, mas que resultam tão bem, uma vez associados. Já neste romance se observa a escrita labiríntica e densa que marca a obra deste autor.
Recomendo, portanto, o livro. É uma obra que marca o início de uma renovação no romance português e que inspirou a geração que se seguiu. Apesar de exigir a nossa atenção, é um romance que se lê facilmente e que possui uma escrita acessível. Um livro de introdução ao autor que deve ser lido e apreciado.
Citações:
"O próprio rio vem suspirar no fundo das retretes a sua asma sem grandeza: dobrado o cabo Bojador o mar tornou-se irremediavelmente gordo e manso como os cães das porteiras, a roçarem-nos nos tornozelos a submissão irritante dos lombos de capados."
"num restaurante francês em que o preço dos pratos obrigava a consumir as pastilhas para a azia que a suavidade do filet mignon poupava."
"e o médico pensou com melancolia em como é difícil educar os adultos, tão pouco atentos à importância vital de uma pastilha elástica ou de uma caixa de plasticina, e tão preocupados com a ninharia idiota dos bons modos à mesa"
Pontuação: 8/10
Afortunadas releituras,
Gonçalo M. Matos
A história deste livro narra o quotidiano aborrecido e desencantado do protagonista, um psiquiatra, que se limita a existir, a ir vivendo, uma vez que se separou da mulher. Verdadeiramente, a história pouco mais é que isto. Em todos os momentos do seu dia, o protagonista pensa na sua vida, em como a sua infância revelava já uma tendência para a "desgraça", como a sua personalidade sempre afastara os que o rodeavam, em como o seu casamento apenas descurou por falta de vontade sua, em como viveu dias terríveis na guerra do ultramar. Estes são os pensamentos-chave que acompanham o protagonista ao longo das suas atividades rotineiras. Movendo-se entre consultas, acompanhamento terapêutico e a negação dos seus problemas, o psiquiatra assim vais vivendo, sempre amargamente, sempre pensando na sua mulher e nas suas filhas, de quem desistiu por pura falta de vontade e cobardia, segundo as suas próprias conclusões.
A história é narrada na terceira pessoa, o que pode indicar que este romance se trata de uma expiação das questões do próprio Lobo Antunes. Aliás, a presença do autor no romance é bastante explícita. Um psiquiatra recém-divorciado que sempre teve um gosto especial pelas letras é uma descrição que se poderia fazer do autor, tratando-se também da descrição do protagonista. É como se o autor dissesse a si próprio o que fez de mal, porque agiu como agiu, e se punisse pelas falhas que cometeu e poderia muito bem ter evitado. A estrutura deste romance apresenta já uma ou outra característica distintiva da obra de Lobo Antunes, como por exemplo o fluxo de consciência, o uso de uma ou outra palavra estrangeira, um ocasional neologismo, uns indícios de anacoluto, entre outras. O que torna a leitura de Lobo Antunes curiosa e interessante é as comparações e associações de ideias tão curiosas quanto ligeiramente aleatórias, ligando conceitos que aparentemente não se uniam, mas que resultam tão bem, uma vez associados. Já neste romance se observa a escrita labiríntica e densa que marca a obra deste autor.
Recomendo, portanto, o livro. É uma obra que marca o início de uma renovação no romance português e que inspirou a geração que se seguiu. Apesar de exigir a nossa atenção, é um romance que se lê facilmente e que possui uma escrita acessível. Um livro de introdução ao autor que deve ser lido e apreciado.
Citações:
"O próprio rio vem suspirar no fundo das retretes a sua asma sem grandeza: dobrado o cabo Bojador o mar tornou-se irremediavelmente gordo e manso como os cães das porteiras, a roçarem-nos nos tornozelos a submissão irritante dos lombos de capados."
"num restaurante francês em que o preço dos pratos obrigava a consumir as pastilhas para a azia que a suavidade do filet mignon poupava."
"e o médico pensou com melancolia em como é difícil educar os adultos, tão pouco atentos à importância vital de uma pastilha elástica ou de uma caixa de plasticina, e tão preocupados com a ninharia idiota dos bons modos à mesa"
Pontuação: 8/10
Afortunadas releituras,
Gonçalo M. Matos
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