quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

"A Relíquia", de Eça de Queirós

   Eça de Queirós é um dos grandes vultos da literatura portuguesa, e entrar na sua prosa é sempre esperar uma leitura rica, fluída e bem-humorada. Este A Relíquia não é exceção. Ao título deste romance veio acoplado o subtítulo mais famosos de Eça, que sintetiza o conjunto da sua obra: "Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia".
   A obra começa com uma breve apresentação do narrador e do contexto familiar em que cresceu. Teodorico Raposo, nascido numa família relativamente abastada, herdeira de uma enorme fortuna, vê-se órfão de pai e mãe e obrigado a viver com a sua tia, D. Patrocínio das Neves, uma senhora maldisposta, devota beata e única herdeira da fortuna da família. Crescendo num ambiente familiar rigoroso, não é senão quando chega a Coimbra, para estudar Direito, que Teodorico conhece a liberdade e os prazeres da vida boémia, abandonando a dedicação à religião. No entanto, com a sua tia mantinha a postura de um homem convictamente devoto, tendo em vista a herança da fortuna familiar. Disposto a tudo para cumprir esse objetivo, Teodorico, por sugestão de um amigo da sua tia num dos inúmeros serões que este frequentava, decide encetar numa peregrinação a Jerusalém na altura da Páscoa, prometendo trazer a sua tia uma relíquia da Terra Santa. É assim que parte. Acompanhado de um académico alemão, de sue nome Topsius, Teodorico conhecerá os mistérios e os prazeres do Oriente Médio, conhecendo inclusive em Alexandria uma inglesa chamada Mary, que na hora da partida lhe oferece a sua camisa de noite, num embrulho e com uma nota, para que se recordasse dela. Chegados à Palestina, Teodorico congemina um plano infalível para seduzir finalmente a tia, que consistia em levar-lhe um raminho de um arbusto, afirmando que era a coroa de espinhos. Encontrada a relíquia, embrulha-a com todo o carinho. Uma noite, Teodorico sonha que ele e o seu companheiro de viagem assistem ao processo de condenação de Jesus Cristo, ponto chave da obra que referiremos mais adiante. Findo o sonho, Teodorico e Topsius visitam a Jerusalém do século XIX, com tudo o que tem de santo e devasso. Terminada a peregrinação, Teodorico regressa então a Lisboa, para poder exibir a sua tia a relíquia que lhe trouxera. No entanto, as coisas tomam um caminho imprevisto para o jovem, que terá de saber lidar com a sua nova situação. 
   A obra de Eça, principalmente na fase do realismo crítico, na qual se insere A Relíquia, é uma irónica e crítica análise à sociedade e pensamento portugueses no seu século, sendo que muitos dos vícios que o olho atento do autor ainda hoje se encontram por aí. É com isto em mente que não conseguimos deixar de nos rir ao ler as desventuras de Teodorico, da beatitude da sua tia e da hipocrisia dos padres e conselheiros que a rodeiam. É Teodorico quem nos narra a sua história, emprestando sempre a sua visão e a sua lógica à descrição dos factos que relata. O romance tem como objeto da sua crítica a religião e a religiosidade, quando levadas ao extremo. A tia de Teodorico, D. Patrocínio, é o expoente desta crítica, sendo uma senhora desagradável e constantemente maldisposta, possuindo uma religiosidade tal que o seu oratório maravilhou até Teodorico, o personagem mais desinteressado da religião no romance. É com esta crítica patente que chegamos ao ponto chave do romance, que é o imenso capítulo que o autor dedica ao sonho de Teodorico com o processo de Jesus Cristo, e sua posterior condenação. Este capítulo pega na figura de Jesus e trá-la da sua intocável santidade para a humanidade, apresentando não só Jesus como uma figura não livre de erros, como também desconstruindo o milagre da ressurreição, apresentando-nos uma versão alternativa, e deveras realista, do que se poderá ter passado. Esta desconstrução atinge o seu propósito quando no final Teodorico ouve uma voz que associa a Jesus, mas que não é mais que a sua própria consciência. A obra de Eça também se caracteriza pelo seu brilhante uso do vernáculo, sendo que este romance não é exceção, tendo o autor um domínio total das palavras que emprega e das frases que constrói com elas. 
   Trata-se este romance realista de uma das obras de leitura obrigatória para todos os que apreciam o génio de Eça de Queirós, pelo que não pode deixar de ser vivamente recomendada.

Citações:
"O Jordão, fio de água barrento e peco que se arrasta entre areais, nem pode ser comparado a esse claro e suave Lima que lá em baixo, ao fundo do Mosteiro, banha as raízes dos meus amieiros: e todavia, vede!, estas meigas águas portuguesas não correram jamais entre os joelhos de um Messias, nem jamais as roçaram as asas dos anjos, armados e rutilantes, trazendo do Céu à Terra as ameaças do Altíssimo!
"Aqui e além, no meio de devotos embevecidos, dois doutores disputavam, com as faces assanhadas, sobre temerosos pontos da doutrina: «Pode-se comer um ovo de galinha posto no dia de Sabat? Por que osso da espinha dorsal começa a Ressurreição?» 
"Já não tens Deus por quem se combata, Alpedrinha! nem rei por quem se navegue, Alpedrinha!... Por isso, entre os povos do Oriente, te gastas nas ocupações únicas que comportam a fé, o ideal, o valor dos modernos Lusíadas - descansar encostado às esquinas, ou tristemente carregar fardos alheios..."


Pontuação: 8.9/10


Gonçalo Martins de Matos

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

"O Beco da Liberdade", de Álvaro Laborinho Lúcio

   O nome de Álvaro Laborinho Lúcio é sobremaneira associado à área da qual fez carreira, tendo as suas publicações mais antigas sido dedicadas principalmente à área do direito. No entanto, desde 2014 que Laborinho Lúcio apresenta aos leitores os seus romances, sendo este o seu terceiro. 
   Neste romance, conhecemos uma aldeia portuguesa do Interior Norte, povoada por um leque de personagens singulares. O narrador é um escritor à procura de uma história para escrever, sendo assim que entra em contacto com Floriano Antunes, jornalista, que tinha uma história para partilhar. A história que o jornalista traz é a de Guilherme Augusto Marreiro Lessa, juiz jubilado, que há cinquenta anos atrás proferira uma sentença tão leve para o arguido que suscitara dúvidas quanto aos verdadeiros motivos que a teriam determinado. Na altura, fora Floriano quem acompanhara o caso, tendo sido o seu artigo cortado pela censura, pelo que achou que retomar o caso poderia trazer-lhe alguma conclusão quanto a esses tempos. Também porque o próprio Marreiro Lessa se encontrava, agora, ele mesmo no lugar de arguido, acusado da prática de um crime. É então que conhecemos, os factos de então, analisados pela distância que o tempo permite, e os de agora, tão inesperados como estranhamente conectados com os acontecimentos de há cinquenta anos atrás. Aos poucos, vamos ficando a conhecer as teias que se urdem em volta dos vários intervenientes de então, como Maria Cacilda, a viúva da primeira vítima e possuidora de estranhos poderes divinatórios, Joaquim Quitério, tolo da aldeia, Gervásio Ventura, subinspetor da PJ e encarregue do caso, Hildebrando Moreira de Castro, notário reformado, Narcisa, fiel governanta da família Marreiro Lessa, e Júlia, amante de Guilherme Augusto, entre outros personagens peculiares. Tudo conduzindo a revelações surpreendentes sobre os vários envolvidos e sobre o próprio Marreiro Lessa. 
   O romance é narrado a duas vozes, mas "coordenado" por uma delas. As vozes são as do escritor em busca de uma história e a de Floriano Antunes, aquando dos seus encontros com o juiz. Estas duas vozes distinguem-se pelas partes que compõem o romance. A primeira parte é narrada pelo escritor, que relata, na terceira pessoa, os factos ocorridos então, retirados dos pedaços de informação que o jornalista lhe colocou à disposição. A segunda parte é já o relato completo de Floriano Antunes sobre as conversas que manteve com o juiz nos dias anteriores ao seu julgamento. Ambas as partes se conjugam no sentido de ir revelando aos poucos os factos e as ficções que compõem os acontecimentos em causa. O uso do vernáculo pelo autor ganha a sua arte nas imagens que este consegue exprimir através das palavras, sejam elas pictóricas ou metafóricas. O tema fulcral do romance é a contradição que a justiça consegue abarcar, pondo em conflito a justiça formal, do direito, e a justiça material, da ética e da moral. Todo o texto pretende exprimir a enorme diferença que existe entre o ato de julgar e o ato de compreender, através, precisamente, da contradição atrás referida. E essa diferença é representada pelo juiz Marreiro Lessa jovem, no papel de julgador, e pelo mesmo, velho, agora no papel de julgado. As suas ideias e opiniões sobre o modo como a sociedade se organiza e sobre a realização da justiça mudam com o seu contacto com uma nova realidade, que lhe põe em evidência a diferença abismal que existe entre o que ele tinha como certo e o que de facto se verifica nas vidas das pessoas reais. As figuras da mulher de Marreiro Lessa, Maria da Graça, e da sua amante, Julinha, representam precisamente essa diferença entre o formal e o que é tido como certo e entre o material e o que se verifica na realidade. 
   Resta agora recomendar a leitura deste romance de indagação sobre a diferença de perspetivas humanas quanto à justiça, à moral e à própria liberdade.

Citações: 
"Aos pés da cama, nasciam duas poltronas revestidas a damasco rosa-velho replicando o dossel, e apontando a uma mesa de camilha de manto grosso, com braseira elétrica, acolitada por duas cadeiras rabo de bacalhau, com almofadinhas de atilho."
"Ali, atirado para o sofá, sorria, olhos postos na aranha afadigada a tecer a teia junto ao teto. Não lera Kafka e, talvez por isso, gostou da companhia. Afinal, pensava, bem pode haver um ponto onde as linhas do bem se encontrem com as do mal e fiem um véu que ora mostra, ora esconde, num jogo de sombras onde nem tudo é o que parece, nem tudo parece aquilo que é."
"A lei surgia-lhe como uma síntese, um traço de cada tempo, uma grosseira simplificação. De fora ficava toda a vida que nela não cabia. Talvez o direito na ilusão do absoluto tivesse a solução. Fora nisso que sempre acreditara. Mas toda a solução? À lei e ao direito poderia pedir a resposta para a tentativa de emigração clandestina, e de nenhuma dificuldade seria o percurso lógico até à condenação. Mas teriam a lei e o direito resposta para a tentativa de emigração clandestina daquele Manuel Santos, de quarenta anos, analfabeto, parecendo um velho?"


Pontuação: 8/10


Gonçalo Martins de Matos

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

"O Esplendor de Portugal", de António Lobo Antunes

   Não há dúvida que a voz de António Lobo Antunes é ímpar na literatura portuguesa contemporânea. Poucos autores conseguem jogar com a língua portuguesa de uma forma tão luxuriante e genuína, mantendo a crueza da realidade circundante. Nunca é de mais repetir que poucos romanceiam como Lobo Antunes, e este romance é mais uma pedra nesse seu grande castelo literário. 
   A história que nos é narrada é a de uma família de colonos portugueses, contada pelos olhos de Isilda, a mãe, e dos seus três filhos, Carlos, Rui e Clarisse. Pelos olhos de Isilda, vemos o passado recheado de um poder ilusório desta família, que detinha uma fazenda de algodão e os seus criados, e um presente de incerteza e de melancolia, de fuga dos soldados da UNITA e dos revoltosos angolanos. Articulando-se com as memórias e relatos de Isilda estão as vozes dos seus três filhos. Primeiro, vemos pela perspetiva de Carlos a sua existência medíocre num apartamento pequeno de mais para si e para a sua mulher, Lena. Carlos recorda os seus tempos na fazenda em Angola ao mesmo tempo que tenta interpretar o seu presente longe da sua família e casado com uma mulher que nunca o quis verdadeiramente. O grande mote da perspetiva de Carlos é a sua intenção gorada de reatar as suas relações familiares com os seus irmãos, assaltado pelos remorsos do seu passado. De seguida, seguimos a perspetiva de Rui, internado numa clínica pobre devido à sua epilepsia. Observamos a sua versão do passado como sendo o ator de acontecimentos brutais, mesmo cruéis, mas desculpado pela sua condição. As suas ações passadas são por si vistas sem remorso, com algum regozijo até. Por fim, seguimos a visão de Clarisse. Amante de um político importante da capital, Clarisse recorda, como o seu irmão Carlos, o seu passado e invoca-o para poder interpretar o seu presente. No entanto, não é o remorso que sente pelas suas ações, mas antes, um misto de arrependimento e de alívio, num desapego do passado e da sua família (tirando o seu irmão Rui, a quem oferece inclusive casa), mas sempre com um fio de ligação a essas memórias. Aqui e ali encontramos fragmentos de pensamentos e impressões de outros familiares e relacionados com a família, como para complementar certos acontecimentos com os factos completos. Tudo isto no sentido de explorar um capítulo duro na história de Portugal e os seus efeitos em todos os envolvidos. Sente-se o desmembramento e a dissolução dos laços familiares e afetivos como que refletindo a realidade portuguesa ultramarina. 
   Existem neste romance dois tempos: um estático e um dinâmico. O tempo estático é a noite de Natal de 1995. O tempo dinâmico vai de 24 de julho de 1978 a 24 de dezembro de 1995, a mesma noite de Natal. Estes dois tempos são os pontos chave do romance. As vozes de Carlos, Rui e Clarisse desfiam as suas narrativas nessa noite de Natal, ao passo que a voz de Isilda vai acompanhando o evoluir da situação em Angola, na sua fazenda cercada e isolada. O romance encontra-se dividido em três partes, que separam precisamente as três vozes narrativas, intercalando os capítulos entre a voz de Carlos, Rui ou Clarisse e a de Isilda. Muitas vezes, vemos uma impressão ou uma memória do ponto de vista de um dos três para no capítulo a seguir vermos uma versão diferente contada pela mãe, tudo de forma a compor melhor o retrato da dissolução familiar que é o enredo central do romance. António Lobo Antunes é luxuriante nas suas impressões. Existe um imagismo muito acentuado que nos permite aparecer no meio do caos que se viveu em Angola no pós 25 de Abril. Ou talvez, no meio da confusão psicológica que esse acontecimento teve nos seus envolvidos. Essa luxúria imagética alia-se ao recurso magistral ao vernáculo. Um mestre da linguagem, Lobo Antunes consegue encher-nos de palavras e ainda assim nos deixar ansiosos por mais. É notável o anacoluto empregue pelo autor, que é mesmo uma marca distintiva de toda a sua obra narrativa. Aliado ás quebras de parágrafo e ao uso reduzido de vírgulas, o autor aproxima-se da fala coloquial no sentido de conferir uma maior oralidade à sua escrita. Como no conjunto da sua obra (e na maior parte das obras literárias modernas e pós-modernas), a narrativa é desfiada em fluxo de consciência, no qual o passado e o presente se tornam plásticos e mutuamente intrusivos, e se sucedem as quebras de lógica e de sequência narrativa. Todos estes recursos são empregues no sentido de conferir ao romance um caráter labiríntico, que é também uma marca notável da escrita antuniana. Terminando esta análise, uma referência à ironia que, apesar de não ser uma característica literária deste autor, neste romance é empregue. Refiro-me, nomeadamente, à ligação entre o título e a história narrada. Tanto a atribuição do título O Esplendor de Portugal, como a referência ao Hino Nacional no início do livro, atribuem uma carga irónica ao texto todo, uma vez que Lobo Antunes não retrata uma realidade assim tão esplendorosa ou digna de orgulho nacional de Portugal. 
   António Lobo Antunes é um romancista notável e este é mais um dos seus contributos para essa sua classificação, pelo que mais não tenho a fazer a não ser recomendar a leitura deste romance, e de outros, do autor. São sem dúvida leituras inevitáveis para todos quantos apreciam o magistral uso do português.

Citações:
"Há qualquer coisa de terrível em mim. Às vezes à noite o murmúrio dos girassóis acorda-me e sinto o ventre aumentar na escuridão do quarto com aquilo que não é um filho, não é um inchaço, não é um tumor, não é uma doença, é uma espécie de grito que vai sair não pela boca mas pelo corpo inteiro e encher os campos como o uivo dos cães."
"e eu era diferente daquele nome, não era aquele nome, não podia ser aquele nome, as pessoas ao chamarem
   Carlos
   chamavam um Carlos que era eu em elas não era eu nem eu em eu, era um outro da mesma forma que se lhes respondia não era eu quem respondia era o eu deles que falava, o eu em eu calava-se em mim e portanto sabiam apenas do Carlos delas"
"o meu pai todo desaparecido salvo as pernas, o pedaço de pele de frango que separava a meia da calça, combatendo as páginas do jornal de súbito vivas, que se torciam, espadanavam, espalhavam no chão, o relógio a caminhar de número em número em passadas de peru ao comprido do tempo"


Pontuação: 7.5/10


Gonçalo Martins de Matos

domingo, 1 de setembro de 2019

"Um beijo dado mais tarde", de Maria Gabriela Llansol

   A obra de Maria Gabriela Llansol é ainda relativamente desconhecida do grande público, mas nos meios literários, é considerada uma das autoras mais criativas da literatura portuguesa contemporânea. Muitos são os trabalhos académicos e os artigos que se versam sobre um obra singular de uma autora sem par como esta. Um beijo dado mais tarde foi galardoado em 1990 com o Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB.
   A história deste romance prende-se com a indagação psicológica da narradora pelas imagens e cenas da sua infância à luz das suas vivências e dos seus receios atuais. Como ponto de partida, a narradora enceta nessa navegação após a morte da sua tia Assafora, percorrendo os corredores e as memórias da casa onde habitou, e recordando as impressões, sentimentos e receios que sentiu na sua infância, acompanhada das diversas peças e objetos que recheiam a casa, testemunhas desses momentos do crescimento da narradora. A história é marcante no plano formal, do qual já falarei, sendo que o seu espírito, o seu âmago (pelo menos, assim parece) é descrever a desfragmentação familiar que o tempo opera, para além do crescimento que esse mesmo tempo nos oferece. 
   Conforme disse, é nos aspetos formais que a obra de Maria Gabriela Llansol se distingue. Desde logo, pela forma como a história é apresentada. A autora apresenta-nos uma fusão de estilos e de géneros, sem que cheguemos a conclusão se estaremos perante um diário, um romance, uma novela, ou mesmo se estamos perante um livro de prosa, de poesia ou de outro género. Já no que toca à história, esta não é linear na forma como vai sendo discorrida. Nesse campo, encontramos a resposta na própria obra da autora. Llansol refere-se aos fragmentos que povoam a sua obra como cenas-fulgor, fragmentos impressionistas que espelham o teor geral da narração. Estas cenas-fulgor povoam-se de figuras, que tanto podem corresponder a pessoas reais como a imaginárias, animais, objetos e mesmo frases ou conceitos abstratos. E nesta obra nota-se bem essa característica única. Em cenas breves sabemos os pensamentos da autora através de figuras como "Témia, a rapariga que temia a impostura da língua", Aossê, a estátua de Myriam ensinando Ana a ler, a Nuvem Pairando, Bach, entre muitas outras. É através desta neblina de cenas e de figuras que o leitor vai percorrendo a narrativa e absorvendo as impressões e os sentimentos conexos ao espírito geral da obra. Quanto à forma da escrita, também somos apanhados por uma estrutura muito pouco convencional, plena de quebras de parágrafo, de espaços entre palavras, de sublinhados vazios e até de palavras destacadas a negrito. Todos estes aspetos gráficos servem para reforçar o caráter fragmentário do texto. 
   Não recomendo a leitura de Maria Gabriela Llansol para os leitores de ocasião. Mas recomendo muito a leitura desta autora peculiar aos leitores mais preparados para uma experiência literária diferente de tudo o que já leram. 

Citações:
"Minha tia Assafora está com grilhões deitada na cama, e uma melodia cantada por Johann desce no quarto porque ela comigo entra em toda a parte; ela tem um volume mínimo, à mercê dos ventos. Seus olhos vêem ainda menos do que dantes, e traço intimamente, sobre eles, o sinal da música"
"1  dias de dores terríveis               sentei-me, com meu barro, junto de Johann; há muito tempo que ele não é músico               e a música,     quem me chama? Debaixo do seu peito pesado está a resposta a esta pergunta; mas eu não vejo em visão o seu corpo, não o determino; ele tornou-se agora um objeto, um grande ser móvel, que se define pelo esplendor que eu dou à sua presença."
"O antiquário deu-lhes uma pancada seca com o dedo, e verificou que eram de cristal. O som cria o ouvido, o ouvido faz o cérebro, o cérebro concebe a existência do homem só vulto que passou por aqui hoje. E levou Témia, dizendo-me: «téme-a»."


Pontuação: 8.5/10


Gonçalo Martins de Matos

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

"a máquina de fazer espanhóis", de valter hugo mãe

   As reservas que ainda tinha com a escrita de Valter Hugo Mãe, derivadas daquela primeira leitura e posterior redescoberta de o remorso de baltazar serapião, dissiparam-se definitivamente com este romance. Romance que encerra a "tetralogia das minúsculas", trata-se este a máquina de fazer espanhóis de um belíssimo romance por um dos autores mais originais da literatura portuguesa contemporânea.
   A vida de antónio jorge da silva muda drasticamente com a morte de laura, a sua mulher. De repente e sem aviso, aos 83 anos, viúvo e amargurado com o resto de vida que teria sem a sua mulher a seu lado, antónio silva é posto num lar de idade, o tempos felizes, onde passará o resto dos seus dias. De início misantropo e ensimesmado, de luto pela sua situação, aos poucos vais travando conhecimento com outros dos habitantes do lar. É assim que conhecemos personagens como o senhor pereira, o silva da europa, o anísio e o esteves, que, juntos, terão as suas conversas, os seus debates e as suas galhofas de forma a enfrentarem a depressão que tende a assaltar-lhes os pensamentos no resto de vida que ainda têm. É principalmente nestes personagens, e noutros, como por exemplo américo, médico que se afeiçoa a antónio silva, que se foca o romance, sendo tudo e todos perscrutados e relatados pelos olhos de antónio silva, a par com as suas reflexões sobre os temas que percorrem este romance: a velhice, a morte, a viuvez, a amizade e a vida. É este o andamento do romance, em vagas e acalmias, até a um final agridoce, tão brilhante quanto poético.
   Como é sabido, este é o último romance da "tetralogia das minúsculas", que, como o nome indica, se demarca por os seus quatro títulos estarem compostos completamente em minúsculas, sem qualquer distinção ortográfica de início ou fim de discurso direto e sem qualquer tipo de pontuação que não sejam pontos e vírgulas. Esta inteligente forma de o autor homenagear a intenção de Saramago de aproximar a escrita da linguagem oral é, assim, levada ao extremo. No entanto, é uma forma que não choca de modo nenhum com a narrativa, chegando nós mesmo a certo ponto da leitura que nem nos faz diferença se existem maiúsculas ou se não há travessão a iniciar o diálogo. No entanto, este livro tem um pormenor que os outros não têm. Dois capítulos neste romance estão escritos de forma tradicional, com maiúsculas e com outra pontuação, para além de estar escrito na terceira pessoa. Os temas e os personagens deste romance são sublimemente tratados, cada um dos velhos do lar, com as suas histórias, servem o seu propósito de dar a conhecer a antónio silva o conforto da amizade no difícil luto que atravessa. Dois aspetos devem aqui ser relevados. O primeiro é a existência o lar de um esteves com metafísica, em contraponto com o Esteves sem metafísica do poema de Álvaro de Campos. O outro é as ominosas visitas que o protagonista sofre de pássaros negros que entram pela janela para o magoar. A escrita de Valter Hugo Mãe é lírica e luminosa. No entanto, há uma crueza bem característica no tratamento da narrativa, que nos confronta com o que julgamos ser o acertado e nos retira a tapete algumas vezes, deixando-nos suspensos no seu significado. Há sem dúvida uma grande carga emocional na escrita deste autor, e não nos deixa indiferentes a tudo quanto sofrem os seus personagens. Um pormenor muito curioso é o destino da estatueta da nossa senhora, apelidada pelo protagonista de "mariazinha", que o acompanha pelas páginas desta obra. Não sendo antónio silva um homem religioso, a sua afeição à estatueta é ao mesmo tempo comovente e simbólica, uma vez que não representa a espiritualidade normalmente associada à imagética católica, mas acaba por representar todas as suas "aventuras" no lar, todos os bons momentos que passou com os seus novos amigos. 
   Resta-me recomendar, naturalmente, o romance. Todos quanto apreciem o lirismo e o esteticismo das construções de Valter Hugo Mãe devem ler esta sublime obra. Não imagino melhor elogio que o fornecido por António Lobo Antunes na contracapa deste livro: "A maior parte dos livros são escritos para o público; este é um livro escrito para os leitores."

Citações:
"com a morte, também amor devia acabar. ato contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro e nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade."
"o senhor pereira soltou uma gargalhada  e disse, e a sorte é não ter os pastorinhas agarrados ali também, de joelhos a rezar, sabe, é costume. e eu respondi, que pena, ia dar-me um gozo ainda maior poder desparasitar a mariazinha dessa biches toda. coitada da rapariga, que até lhe põem uma expressão com vontade, mas depois não reage, fica como se a casa de banho estivesse ocupada."  
"quando dizemos que antigamente é que era bom estamos só a ter saudades, queremos na verdade dizer que antigamente éramos novos, reconhecíamos o mundo como nosso e não tínhamos dores de costas nem reumatismo. é uma saudade de nós próprios, e não exatamente do regime e menos ainda de salazar."


Pontuação: 9.5/10


Gonçalo Martins de Matos

terça-feira, 13 de agosto de 2019

"O deslumbre de Cecilia Fluss", de João Tordo

   Eis que chegamos ao terceiro e último romance da "trilogia dos lugares sem nome. É atribuída a esta série de três romances, sem ligação sequencial entre eles, a mudança de paradigma na escrita de João Tordo. De facto, neste romance assistimos a um encerrar de algo. Cumpre saber o que foi encerrado. 
   Neste romance, conhecemos um protagonista ativo e um protagonista passivo. Conhecemos Matias Fluss, o narrador da primeira parte da obra, e Cecilia Fluss, a sua irmã. Matias é um rapaz plácido que atravessa as inquietações normais da adolescência, às quais acrescenta um gosto especial pelas fábulas budistas. Cecilia é uma rapariga já com os seus 17 anos, indomável e sofrendo os efeitos da descoberta da idade adulta. Pela voz de Matias, na primeira parte do romance, conhecemos pedaços da vida quotidiana de ambos, as fábulas budistas que fazem parte da existência de Matias, os seus passeios com os seus colegas de escola, as inquietações da sua primeira paixão e a sua existência conjunta com Cecilia, nos momentos em que esta desperta para as atribulações do primeiro amor. Além disso, conhecemos o gosto que Matias tem pelo tempo que passa na cabana do seu tio Elias, que sofre de uma espécie de demência. O suceder dos dias é interrompido por um acontecimento abrupto e chocante, que interrompe e muda o rumo dos acontecimentos. Na segunda parte, conhecemos um pouco da existência de Matias com as sombras do passado que o atormentam e da sua convivência com a sua própria estirpe de demência, além da sua vida quotidiana com o seu cão Lars, passados já muitos anos sobre os acontecimentos da primeira parte. A sua vida de professor universitário é interrompida pelos seus demónios, que vieram do passado para o atormentarem novamente. Na terceira parte, conhecemos a viagem que Matias faz em conjunto com o seu tio Elias, Lars e Deanie, uma estudante da universidade na qual Matias leciona, a uma ilha na qual habitou Elias, alguns anos antes de ser internado definitivamente no hospital psiquiátrico. Nesta ilha, finalmente o passado e Matias irão reencontrar-se e procurar uma forma de ambos se aceitarem e de se redimirem um ao outro. 
   Conforme foi referido, o livro divide-se em três partes. Na primeira, a narração é feita na primeira pessoa por Matias Fluss. Na segunda, é um narrador omnisciente que nos narra na terceira pessoa. Na terceira parte, regressamos à primeira pessoa, desta feita na voz de Deanie. Neste romance já se sente a mudança estilística. As temáticas que circundam os primeiros dois romances desta "trilogia" fazem-se anunciar vivamente também neste, mas a forma como o autor as explora encontra-se transfigurada da forma como foram tratadas em obras anteriores. As temáticas da melancolia, do passado, do paraíso, da solidão e do isolamento são o tema fulcral deste romance, anunciando-se expressamente ou através de símbolos, como nos romances anteriores. O farol, São Paulo, a ilha, todos eles símbolos fulcrais deste universo de lugares sem nome. Como no romance anterior, nomes anteriores são revisitados: Alma, a mãe de Matias e de Cecilia, Elias, a própria Cecilia, Pedersen, A., a ex-mulher de Matias, Lars... Os locais familiares dos dois romances anteriores reencontram-se também no espaço deste romance. Gostei principalmente do jogo metatextual que João Tordo faz com os nomes, lugares e objetos dos três romances, criando um universo próprio, verosímil e pulsante, criador de uma sensação de realidade (à semelhança dos seus romances anteriores, que também recorriam a mesmas personagens para criar uma sensação semelhante, mais exacerbada, no entanto, nestes três romances). Não deixam de ser também curiosos os paralelos que o autor estabelece entre a história que pretende narrar e as fábulas budistas, as suas lições oferecendo-nos pistas para interpretar os acontecimentos descritos. Regressando à metatextualidade, é muito curiosa a forma como o autor consegue interligar os três romances. O próprio afirmou tantas vezes antes que os livros não possuem uma ordem sequencial, pelo que não podem ser considerados uma trilogia (daí o nosso cuidado uso das aspas). Apenas neste romance final percebemos o que nos quis transmitir com essa afirmação. Não o direi aqui, pois trata-se de uma aventura que terão de ter por vós mesmos.
   Enfim, trata-se de uma obra que deve ser lida, mas aqui acrescento o seguinte: devem ser lidos os três romances, pois a verdadeira obra, a verdadeira maravilha de leitura, é este universo de lugares sem nome, convidando-nos a nele mergulhar e a explorarmos os seus recantos. Um prazer de leitura, em suma.

Citações:
"Há muitos anos ouvi alguém dizer que a memória, que serve para muitas coisas, tem como função mais importante impedir que o tempo nos engane. Sim: a decadência das faculdades cognitivas, a relatividade do sujeito na existência e mais não sei o quê. Como se existisse uma fórmula qualquer parecida com isto: Memória + Tempo - Decadência = Verdade."
"chamam-se suicidas, aqueles que sucumbem ao medo e a outras formas de intimidação, aqueles que sucumbem porque não se permitem sentir, porque não se dão autorização de perder. Eu sou um perdedor. (...) E continuo a perder, disse ele, mas, sabes que mais?, quanto mais perco, menos tenho medo."
"(...) Matias observou a maneira como a luz inundava a rua. Lembrou-lhe um quadro de Joseph Mallord William Turner chamado Ulysses Deriding Polyphemus. Vira-o há muitos anos na National Gallery, em Londres, com A.; um quadro que a fizera chorar e a ele dera a impressão de estar a olhar para a realidade propriamente dita, como se o lugar de onde o estivessem a ver fosse, na verdade, um esboço inacabado, insatisfatório."


Pontuação: 9.6 (9.5 + 0.1 pela "trilogia")/10


Gonçalo Martins de Matos

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

"O Som e a Fúria", de William Faulkner

   William Faulkner é considerado um dos grandes romancistas do século XX, tendo a sua obra sido premiada com o Nobel da Literatura em 1949. Juntamente com James Joyce e Virginia Woolf, Faulkner foi um dos grandes cultores da técnica narrativa do fluxo de consciência. Esta técnica denota-se nas páginas deste que é o seu romance mais conhecido e considerado a sua obra-prima. 
   A narrativa prende-se com o declínio da família Bascomb Compson, uma grande família numa cidade fictícia no sul dos Estados Unidos, como símbolo da decadência do próprio Sul norte-americano. Esse declínio é relatado em quatro partes, que são as que compõem o romance. Na primeira parte, observamos o mondo aos olhos de Benjy Compson, um deficiente mental de 33 anos, que entre passado e presente nos tenta relatar o ambiente familiar que o rodeia. Na segunda parte, conhecemos a perspetiva de Quentin Compson, o filho mais velho, e somos conduzidos através dos processos mentais e das memórias marcantes que o conduziram a um final abrupto. Na terceira parte, conhecemos o mundo aos olhos de Jason Compson, o filho mais novo, um homem cínico e brutal, retrógrado, manipulador e calculista, enquanto vamos conhecendo as suas perspetivas sobre os outros e a sua própria família, para além da ação principal do romance. Na quarta e última parte, um narrador omnisciente relata-nos o dia de vários personagens que conhecemos ao longo da narrativa, principalmente, a criada negra dos Compson, a Dilsey. Entre estes quatro relatos navegam personagens como o Pai e a Mãe dos Compson, Jason e Caroline Compson, os criados negros destes, como Dilsey, Luster, T.P., entre outros, a quarta filha dos Compson, a irmã dos outros três, Caddy Compson e a sua filha Quentin. Todos eles caminham pelas páginas do romance em direção a um abismo do qual a outrora magnífica casa dos Compson já não tem possibilidade de fuga. 
   Conforme foi dito, o romance encontra-se dividido em quatro partes, as três primeiras tendo a estrutura de um relato, feito pelos três descendentes masculinos dos Compson, na primeira pessoa, e a última sob a forma de uma narração tradicional na terceira pessoa. O que é mais extraordinário neste romance é a estrutura de cada uma das partes. A técnica narrativa do fluxo de consciência é a regra nas três primeiras partes. A primeira parte é enigmática ao abrir o romance, pois trata-se de um relato impressionista levado a cabo por um deficiente mental. Isto leva a que a narração conheça saltos temporais e curvas e contracurvas de lógica, tudo formando um labirinto de fragmentos nos quais o leitor caminha perdido, como se atravessasse um denso nevoeiro. A segunda parte leva-nos ao fatídico derradeiro dia de Quentin Compson, pelo que somos guiados através de pensamentos, memórias e impressões que já nos vão fornecendo algumas luzes sobre a evolução do declínio familiar central do romance. No auge deste relato, uma parte destaca-se, na qual o narrador se expressa através de frases curtas, sem pontuação gráfica e sem regra, todas a frases em minúsculas, técnica utilizada para nos fazer sentir a dissolução mental que opera na cabeça de Quentin. A terceira parte é a que, dentro dos relatos, nos fornece mais luzes sobre o ambiente circundante, sendo que Jason Compson enceta numa busca no passado para a justificação do presente, sempre se colocando no papel da vítima, daquele que teve de fazer sacrifícios pela sua família, quando na realidade não passa de um oportunista manipulador que engana todos quantos o rodeiam, revelando também uma natureza brutal e violenta quando se trata do desafio que é controlar a filha da sua irmã Caddy, a Quentin, que foi enviada para a casa dos Compson pela mãe para que pudesse ter uma vida melhor que a que teria com ela. Na última parte, a narrativa segue uma técnica tradicional, na terceira pessoa. É nesta parte final que todas as peças do puzzle se encaixam e onde conhecemos por fim o abismo onde a família Compson caiu sem possibilidade de regresso. O retrato que é feito dos personagens não é lisongeiro, à exceção da criada negra, Dilsey, que é a única personagem no romance que parece controlar o rumo das vidas do romance. Caddy apresenta-se neste romance como uma protagonista silenciosa, figurando em todos os relatos, sem nunca nos ser dado a conhecer o seu lado dos acontecimentos. Caddy é a verdadeira vítima da decadência da família, acabando por ser a que sofre mais com tudo o que acontece, não lhe facilitando nada o feitio manipulador do irmão. Porque tal se verifica, a sua filha, Quentin, acaba por também sofrer, desejando sempre poder escapar do poço fundo onde rastejavam os Compson. Todos estes personagens, e o ambiente que os rodeia, são um símbolo da decadência do sul dos Estados Unidos e da perda do sentido que o Sonho Americano sofreu no século XX. 
   Nada mais há a acrescentar além de que se trata este de um romance de leitura obrigatória para todos quanto apreciam o experimentalismo modernista literário do século XX, claro que não descartando a própria história que enforma esta obra. Uma obra de arte total, portanto. 

Citações:
"A Caddy abraçou-me e eu ouvia-nos a todos nós e à escuridão, e uma coisa que eu podia cheirar. Depois já conseguia ver as janelas onde as árvores estavam a zumbir. Então a escuridão começou a girar com formas suaves e brilhantes, como sempre acontece, mesmo quando a Caddy diz que eu estive a dormir."
"De todas as palavras, as mais tranquilizantes. As palavras mais tranquilizantes. Non fui. Sum. Fui. Non Sum. Algures um dia ouvi os sinos. No Mississipi ou no Massachussetts. Eu fui. Não sou. No Massachussetts ou no Mississipi. O Shreve tinha uma garrafa no baú. Não vais sequer abri-la Mr. e Mrs. Jason Richmond anunciam o Três vezes. Dias. Não vais sequer abri-la casamento da sua filha Candace a bebida ensina-nos a confundir os fins com os meios Eu sou. Bebe. Eu não fui."
"Ben começou de novo a soltar gemidos longos, desesperados. Mas não era nada de importância. Apenas sons. Dir-se-ia que, por uma conjunção de planetas, nele encontravam voz por um instante todo o tempo, toda a injustiça e toda a pena."


Pontuação: 10/10


Gonçalo Martins de Matos