Ler Eliete é um transtorno e um agoiro, da pior e melhor maneira possível. Teimo em afirmar que é assim que os bons livros nos fazem sentir.
Esta vida normal de Eliete, de tão ordinária que é, inflige em nós (atrevo-me) mulheres, uma pequena agulha, que vai perfurando o nosso peito por caminhos estranhamente já conhecidos.
A realidade intergeracional de uma mulher revoltada com a sogra e de uma neta que não quer, por culpa, despedir-se da avó, é quase biográfica para mim. Daí que este livro poderia ser escrito com o nome de tantas outras mulheres na capa: A Vida Normal de Laura, de Ana, de Maria, etc.
No entanto, deste jardim de ordinarice (no melhor dos sentidos) desabrocha um percurso que todos nós desejamos fazer - recuperar as rédeas da nossa vida. Não há nada mais aliciante do que partir para lado nenhum em busca do que permanece escondido dentro de nós.
A vida normal de Eliete transborda um retrato de uma família na zona de Lisboa, que lida com os problemas típicos de uma família que vive o pós 25 de abril com a memória da revolução bem presente. Retrata uma mulher casada com um marido que ama por conveniência, confinada a um trabalho de que não gosta por conveniência, com duas filhas tidas por conveniência, a viver a sua vida convenientemente.
No meio de toda esta conveniência, Eliete decide arriscar-se a recuperar a sua própria vontade de viver. Esta busca é essencialmente motivada pelo desejo de ser amada, pela revolta de não encontrar esse desejo no homem com quem escolheu passar a vida, e pelo desconsolo de já nem nas próprias filhas encontrar esse colo de amor.
Não direi mais, para que o leitor também se descubra neste caminho que vai ao encontro da profundidade da banalidade de Eliete. Afinal de contas, o banal, de banal nada tem, e a complexidade humana merece tanto mais obras quanto for possível a pessoas como Dulce Maria Cardoso escrever.
Uma última mensagem: para si leitor. Olhe-se ao espelho e espante-se. Essa banalidade de vida merece todo o seu louvor.
Esta vida normal de Eliete, de tão ordinária que é, inflige em nós (atrevo-me) mulheres, uma pequena agulha, que vai perfurando o nosso peito por caminhos estranhamente já conhecidos.
A realidade intergeracional de uma mulher revoltada com a sogra e de uma neta que não quer, por culpa, despedir-se da avó, é quase biográfica para mim. Daí que este livro poderia ser escrito com o nome de tantas outras mulheres na capa: A Vida Normal de Laura, de Ana, de Maria, etc.
No entanto, deste jardim de ordinarice (no melhor dos sentidos) desabrocha um percurso que todos nós desejamos fazer - recuperar as rédeas da nossa vida. Não há nada mais aliciante do que partir para lado nenhum em busca do que permanece escondido dentro de nós.
A vida normal de Eliete transborda um retrato de uma família na zona de Lisboa, que lida com os problemas típicos de uma família que vive o pós 25 de abril com a memória da revolução bem presente. Retrata uma mulher casada com um marido que ama por conveniência, confinada a um trabalho de que não gosta por conveniência, com duas filhas tidas por conveniência, a viver a sua vida convenientemente.
No meio de toda esta conveniência, Eliete decide arriscar-se a recuperar a sua própria vontade de viver. Esta busca é essencialmente motivada pelo desejo de ser amada, pela revolta de não encontrar esse desejo no homem com quem escolheu passar a vida, e pelo desconsolo de já nem nas próprias filhas encontrar esse colo de amor.
Não direi mais, para que o leitor também se descubra neste caminho que vai ao encontro da profundidade da banalidade de Eliete. Afinal de contas, o banal, de banal nada tem, e a complexidade humana merece tanto mais obras quanto for possível a pessoas como Dulce Maria Cardoso escrever.
Uma última mensagem: para si leitor. Olhe-se ao espelho e espante-se. Essa banalidade de vida merece todo o seu louvor.
Algumas citações:
“Eu sou eu e o Salazar que se foda.”
“A cabeça e o corpo da avó estavam a morrer, qualquer pessoa podia ver isso, só que a cabeça estava a morrer mais depressa do que o corpo e, se isso não magoava o corpo da avó, magoava o meu.”
“Uma mulher que gostasse de foder era uma puta. Eu seria uma puta, como a Milena o fora quando começou a ser bem-sucedida enquanto advogada. As mulheres decentes não eram bem-sucedidas nos cargos destinados aos homens, as mulheres não estavam biologicamente programadas para serem bem-sucedidas nos cargos destinados aos homens e por isso o poder a que certas mulheres acediam resultava de se terem sacrificado sexualmente, as mulheres não estavam biologicamente programadas para gostarem de sexo.”
Carla Sofia Swift
