sábado, 23 de julho de 2022

"Uma Viagem à Índia", de Gonçalo M. Tavares

   Uma Viagem à Índia é das obras de Gonçalo M. Tavares mais estudadas, elogiadas e lidas. O que a torna tão especial? Nas próximas linhas tentaremos responder a esta questão, partindo do pressuposto principal: estamos, efetivamente, perante uma obra profundamente brilhante de um autor absolutamente genial. 
   Em Uma Viagem à Índia, seguimos os passos de Bloom, o herói desta "epopeia", numa viagem que o próprio encetou até à Índia em busca de conhecimento e de paz. Bloom parte de Lisboa e pára em Londres, Paris, Viena e na Índia. Pelo caminho, trava conhecimento com amigos e inimigos, todos interessados na sua demanda, mas de formas diferentes. Bloom leva consigo apenas uma mala e um fardo pesado sobre os seus ombros, materializado pelo rádio avariado do seu pai. Esperam na Viagem de Bloom obstáculos, revelações, questões, angústias e certezas, e o final traz revelações tão inesperadas como certas. Esta é a descrição fundamental da viagem de Bloom, porque, como sabemos, o que releva em autores como Gonçalo M. Tavares é a reflexão impressa em todas as frases que descrevem a viagem quer física, quer metafísica de Bloom. 
   Uma Viagem à Índia é uma obra absolutamente arrebatadora. Trata-se de uma brilhante desconstrução pós-modernista dos conceitos de epopeia e de romance, e de todos os aspetos subjacentes. Nem sei muito bem por onde começar, que um simples texto num blogue não faz justiça à grandeza deste livro, que merece (e tem) estudos a si dedicados. Mas, por uma questão de arrumação, comecemos pela forma, passemos depois ao texto e ao metatexto. Uma Viagem à Índia estrutura-se como reflexo de Os Lusíadas, dividindo-se em dez Cantos, cada um composto por um diferente número de estrofes, todos narrando as peripécias do protagonista. Apesar de se encontrar redigido por estrofes, esta obra é um romance ao estilo tavariano, o que leva a outro dos aspetos mais originais da obra deste Autor, que é a desconstrução do género literário. Uma Viagem à Índia não é um romance sendo-o, e também não é uma epopeia sendo-o, para não falar do facto de ser transversalmente um ensaio, como qualquer outra obra do Autor. As estrofes não têm número fixo, e o número de versos que as compõem é igualmente variável. No final do livro, é-nos oferecido "um itinerário" apelidado de Melancolia contemporânea, que se trata de um diagrama composto por palavras e ideias que ocorrem em certas estrofes da obra, organizados por uma barra horizontal numérica e uma barra vertical alfabética. Este toque particular lembra um capítulo de Ulisses, de James Joyce (outra grande obra que serve de inspiração a Tavares), no qual o autor irlandês dispõe no início do capítulo as palavras e ideias que serão encontradas ao longo do mesmo. Aproveito este diagrama para fazer ponte com o conteúdo, uma vez que este itinerário acaba por ser forma e conteúdo mesclados. 
   As reflexões de Gonçalo M. Tavares são de uma genialidade sóbria, quase científica. Quase como se a metafísica fosse mais um ramo das ciências ditas objetivas. As imagens e as ideias que Tavares consegue convocar com o seu particular uso da língua portuguesa são maravilhosas, e densificam as palavras com novos significados potenciais que surgem das suas combinações. Como dissemos em cima, Uma Viagem à Índia opera uma desconstrução pós-modernista. Com este termo pretendemos dizer que Tavares continua os trabalhos de repensamento iniciados com as grandes obras modernistas. É bem patente a intertextualidade entre esta obra e Ulisses, nesse aspeto. Basta olhar para o protagonista de Uma Viagem à Índia, Bloom. Este é o apelido do "herói" do romance irlandês, Leopold Bloom, um protagonista mundano e neutro. O Bloom de Tavares pega nessa desconstrução do herói clássico e dá-lhe a roupagem do século XXI: Bloom é uma personagem complexa a nível moral, não sendo herói nem vilão, não possuindo mais bondade do que maldade mas integrando-se perfeitamente nos ambientes em que se movimenta. As reflexões de Tavares sobre o mundo da técnica e sobre a sociedade contemporâneas revestem-se de uma lucidez filosófica tão poderosa que dá ainda para olhar para este grande romance como um tratado filosófico, característica que também consegue descrever na perfeição toda a obra deste enorme autor português. No que toca aos ecos d'Os Lusíadas neste grande romance, nota-se uma distorção de alguns episódios da obra camoniana, como um Adamastor transversal (o fardo que Bloom carrega, ou o Tempo), ou a inclusão perfeitamente simétrica da Ilha dos Amores (no Canto IX, como na epopeia de Camões); o próprio mote, uma viagem à Índia, é um eco desse momento fundamental na alma portuguesa, que é a descoberta do caminho marítimo para a Índia, por Vasco da Gama. Saramago vaticinou-lhe o Nobel, em tempos, e Uma Viagem à Índia, creio, demonstra que tal previsão não é assim tão rebuscada como parece. Quem sabe um dia...
   Muito mais poderia ser dito desta obra maravilhosa e fundamental da literatura portuguesa (e europeia, como muito bem lembra Saramago). Uma obra que deve ser lida, estudada e admirada por todos!
 
Citações:

"Mas o Destino foi (ultimamente) aperfeiçoado.
Agora o barco e o avião chegam a chão seguro
por força da bússola mecânica, que normalmente
funciona, ao contrário do Destino
que, por ser invenção antiga,
já vai evidenciando cansaço
e até incompetência."
 
"Diga-se que cada língua poderá ser definida como
um modo especializado de interromper o silêncio. E sendo
o silêncio de Paris, de uma forma geral,
igual ao silêncio de Londres ou Viena,
já o modo como esse silêncio é interrompido varia brutalmente,
mesmo tendo em conta as pequenas distâncias 
europeias. A esta brutalidade, mais ou menos organizada 
                                                                         [em sintaxe,
ortografia e palavreado que interrompe de modo civilizado 
o oxigénio e o nevoeiro, a isso chamamos língua.
E em Paris o alfabeto é francês."
 
"Os homens e as suas indústrias poluem os rios,
o mar, o ar que já escurece por cima das cidades 
e a terra, as montanhas, a grande floresta.
Dos quatro elementos antigos - não sei se já reparou -,
o homem só é incapaz de poluir o fogo.
O fogo terá um mistério, certamente."
 
"O rio Ganges é a mais importante biblioteca 
da cidade e o mais importante arquivo.
Não há verdade fora do rio, nem há mentira de qualidade,
ficção ou mitologia, exterior às suas águas sujas. Mas as
águas não são sujas, realmente tal expressão
é um erro - corrige Anish. São águas complexas,
o que é diferente.
Aqui a água não é um elemento de visita ao mundo dos homens, 
são os homens que estão de visita
à água - e na Índia toda a gente o sabe." 


Pontuação: 10/10


Gonçalo Martins de Matos
 

quinta-feira, 30 de junho de 2022

"Pão de Açúcar", de Afonso Reis Cabral

   Afonso Reis Cabral é o mais recente detentor do Prémio José Saramago, tendo-o recebido em 2019. A leitura de um dos "herdeiros de Saramago" tem comigo sempre uma sensação de calma que antecede a tempestade. E que tempestade se preparava.
   Rafael, Samuel e Nélson são três amigos, acolhidos pela Oficina São José, que gostam de visitar zonas abandonadas da cidade do Porto em conjunto. Samuel é muito diferente dos seus dois amigos, pois é dotado da sensibilidade do artista, tendo muito jeito para o desenho. Rafael e Nélson, por seu lado, são dois estereótipos de pré-adolescente oriundo de famílias problemáticas, sem qualquer característica que os distinga dos demais habitantes da instituição que os acolhe. Um dia, em que Rafael procurava por uma nova "zona suja" (o termo que os três usavam para descrever os sítios que visitavam) quando decidiu aventurar-se pelas obras inacabadas de um edifício que serviria para acolher um mercado "Pão de Açúcar". É na cave deste projeto de edifício que Rafael trava conhecimento com Gi, uma mulher transexual a morar num barraco improvisado. Durante alguns dias, Rafael visitou Gi, levando-lhe alimento, enquanto tratava da recuperação de uma bicicleta que encontrara. Certo dia, decide apresentar Gi aos seus amigos, que passam a acompanhá-lo no cuidado com a sem-abrigo. É quando o mais delinquente da Oficina, Fábio, descobre que se precipitam os acontecimentos que se seguiram e que foram alvo de notícias e reportagens que abalaram o país nos meses subsequentes.
  A base do romance é uma série de acontecimentos reais: Gisberta, uma transexual brasileira que vivia nas obras de um prédio inacabado no Porto, foi encontrada morta na cave desse prédio, depois de vários dias a ser espancada e torturada por 13 jovens. Estes acontecimentos foram acompanhados pelos meios de comunicação portugueses, tendo os rapazes sido submetidos a medidas tutelares demasiado benevolentes para a gravidade do caso. Propositadamente, o protagonista não gera empatia. Rafael é um miúdo como tantos outros oriundos de famílias disfuncionais: agressivo, tóxico, bruto. Nem a empatia que acaba por criar com Gisberta o redime. Afonso Reis Cabral é brilhante na forma como consegue manter alguma ambiguidade na caracterização de Rafael, gerando sempre a possibilidade de alguma empatia, que tanto pode funcionar como, no meu caso, não funcionar. Samuel representa a inocência infantil, pelo que é dos personagens que gera mais empatia: um rapaz preso a um universo de idiotas abrutalhados que serão os criminosos do futuro. Os restantes rapazes da Oficina servem de lembrança que o mundo que estes jovens delinquentes conhecem é um mundo de violência e miséria, o que gera também algum desconforto, mas que mais uma vez resulta do talento do autor. Neste romance, o autor mistura facto com ficção para criar o meio de uma história ainda hoje mal contada, apenas com princípio e fim. A linguagem é marcadamente oral, uma vez que o romance é narrado por Rafael, sendo utilizadas frases simples e diretas, quase cruas, com recurso ao calão portuense típico, não sem algumas imagens e pensamentos mais literários. Ao romance acrescem ainda duas fotografias do local principal da ação e alguns recortes de imprensa selecionados pelo autor. 
   Trata-se, sem dúvida, de um romance de difícil digestão, mas de uma leitura viciante e fluída. 
 
"O meu quotidiano era habitado por gajos como o Fábio, que batem, e como o Leandro e o Grilo, que obedecem, os que abusam e os que se deixam abusar, mas também por amigos que falavam sem freio como o Nélson e por amigos como o Samuel, cujo silêncio dizia mais. Tudo único, nosso, mas repetido por centenas de outros lugares [...]. E isso acalmava como ver de fora, porque não éramos únicos: só peças no mecanismo geral das coisas."
 
"As vizinhas esfregavam as peças de roupa nos tanques com tal violência que eu sentia pena do sabão macaco assim mexido, assim tratado com vingança. O excesso de limpeza até parecia falta de higiene, impregnava-nos o cheiro a pobre."
 
"No último lanço já se ouvia melhor o ruído da cidade, os carros a apitar, os autocarros a travar com estampido hidráulico, as gruas a girar, mas também o vento no cimento e os estorninhos em voo rumo ao Douro."
 
 
Pontuação: 7.5/10
 
 
Gonçalo Martins de Matos

sábado, 11 de junho de 2022

"A Sociedade dos Sonhadores Involuntários", de José Eduardo Agualusa

   A sinopse na contracapa deste romance de José Eduardo Agualusa está escrita de uma forma tão promissora que dá logo asas à imaginação do potencial leitor. Infelizmente, a história deste romance não assume os contornos que a minha imaginação logo criou. Felizmente, contudo, não deixa de ser uma história maravilhosa. 
   Daniel Benchimol é um jornalista angolano da oposição, divorciado de Lucrécia (filha de um homem do regime angolano), e tem a particularidade de sonhar com lugares e pessoas que não conhece (ou ainda não conheceu). É um habitual frequentador do Hotel Arco-Íris, de Hossi Apolónio Kaley, antigo guerrilheiro que afirma que morreu duas vezes, para além de, aparentemente, conseguir participar nos sonhos dos outros. Quando encontra uma câmara fotográfica, no rolo da qual encontra uma mulher que lhe tem aparecido em sonhos, Daniel viaja até à África do Sul para conhecer Moira Fernandes, artista plástica moçambicana que encena os seus próprios sonhos. Enquanto Daniel e Moira passeavam pela montanha, travaram conhecimento com Hélio de Castro, neurocientista brasileiro que afirma ter inventado uma máquina de filmar sonhos. Entretanto, um grupo de revolucionários, encabeçado pela filha de Daniel e de Lucrécia, Karinguiri, e entre os quais se encontra o sobrinho de Hossi, são presos por se manifestarem contra o presidente angolano. À medida que as histórias dos quatro sonhadores se vão cruzando e desenvolvendo, a história da greve de fome dos jovens revolucionários, e dos seus efeitos nacionais e internacionais, acontece simultaneamente. 
   O romance é narrado por Daniel Benchimol, com a exceção de alguns capítulos, nos quais temos acesso a passagens dos diários de Hossi e a alguma correspondência de Moira. Um dos aspetos temáticos mais interessantes deste romance é a polissemia da palavra sonho: o sonho corresponde tanto à fantasia imaginada durante o sono, como ao objetivo, à finalidade. Os sonhadores a que alude o título dividem-se entre estas duas categorias: há os sonhadores na cabeça, como Benchimol, Hossi e Moira, e os sonhadores de uma sociedade livre e justa, como os jovens revolucionários, Armando Carlos - um ator, amigo de Benchimol - e outros breves personagens. A batalha entre o realismo e o conformismo, por um lado, e o sonho e a esperança, por outro, atravessa as páginas desta narrativa. O realismo é representado por Daniel e Hossi no início do romance, do conformismo que acaba por se instalar em almas lutadoras cansadas. Mas a chama do sonho que Karinguiri e os revolucionários corporizam abala as raízes do realismo, e levam a que todos possam sonhar. Aliás, tentando não fazer uma grande revelação do enredo, o sonho - na sua polissemia - é o que acaba por dominar no final. O romance tem um tom satírico subjacente, e algumas das situações mais inusitadas ou dos alívios cómicos revelam precisamente o tom humorístico da narrativa. Como sempre que lemos romances de autores de expressão lusófona, o romance encontra-se pontilhado também de expressões e vocábulos específicos às línguas das respetivas regiões, o que adiciona sempre à potencialidade da escrita.
   Trata-se de um belo romance sobre o poder do sonho na vida de todos nós. 

Citações:

"A figueira contorcia-se na tarde como se o vento lhe fizesse cócegas. Gostei logo dela. A árvore gargalhava debruçada sobre o muro. Um corvo, ou talvez não fosse um corvo, era, em todo o caso, uma ave maciça e escura como um corvo, caiu de entre as folhas e olhou para mim como um corvo olharia a curiosa figura de um homem - depois ladrou."

"Lá fora chovia, como há de chover no final dos tempos. Uma água pesada castigava o asfalto, espancava os carros e as vidraças. O ruído da chuva a cair sobrepunha-se ao roncar dos geradores, às buzinas furiosas dos candongueiros, aos gritos das zunqueiras, abrigadas sobre os amplos vãos dos prédios."

"Os antigos gregos, como os chineses e os hebreus, não tinham uma palavra destinada a designar a cor azul. Para todos eles o mar era verde, acastanhado ou cor de vinho. Eventualmente, negro. [...] Também o céu não era azul. Poetas descreviam-no como rosado, ao amanhecer; incendiado, ao lusco-fusco; leitoso, nas melancólicas manhãs de inverno."


Pontuação: 9.3/10


Gonçalo Martins de Matos

terça-feira, 29 de março de 2022

"O Bom Inverno", de João Tordo

   O Bom Inverno não se trata de uma leitura nova, já o tinha lido há muitos anos, antes ainda de escrever neste blogue. Este ano, surgiu uma vontade de reler esta obra de João Tordo, que se tinha revelado já na altura como uma descoberta literária. Anos depois, é com felicidade que nos parecem intocadas as nossas primeiras impressões. 
   Somos de início apresentados ao narrador, que vive frustrado e em auto-reclusão após a publicação do seu terceiro livro, refém da sensação de fecho de ciclo trazida por este. Não contribui para o seu estado mental o facto de, ao cair das escadas, este ter ficcionado um problema qualquer na perna que o impedia de caminhar sem o apoio de uma bengala, apesar de os médicos lhe dizerem que se tratava de um delírio seu. É num estado de pessimismo e de amargura que o narrador é confrontado com um convite para um evento literário em Budapeste, cidade onde conhece Vincenzo, escritor, Olivia, sua namorada, e Nina, agente de um outro escritor, McGill. É lá que o narrador se deixa levar pela fome de aventura de Vincezo, que aceita o convite de acompanhar Nina e McGill à casa de um misterioso e excêntrico produtor de cinema, Don Metzger, um sítio isolado num bosque ermo de Sabaudia, em Itália. Lá, os quatro são apresentados a personagens tão peculiares quanto mirabolantes, como uma atriz conhecida chamada Elsa Gorski ou um catalão imponente chamado Bosco. Todos os personagens presentes na casa são surpreendidos pela morte de Don Metzger, o que leva Bosco a sequestrá-los na casa de Don até o culpado se revelar. É numa espiral descendente em catadupa para o abismo que o resto da narrativa se processa, com revelações sempre cada vez mais surpreendentes que as anteriores, até a um final simultaneamente trágico e aliviado, verdadeiramente melancólico como é apanágio deste grande autor português. 
   O narrador é autodiegético e, como em grande parte dos romances de João Tordo, nota-se a autoprojeção do autor no seu narrador. O facto curioso deste romance é que se trata do primeiro depois de o autor ter recebido o Prémio Literário José Saramago, que estabeleceu de facto uma fasquia psicológica a João Tordo, que já descreveu como se sentiu refém das expectativas, entrando numa espiral muito próxima com a do narrador de O Bom Inverno. Por estes lados costumamos afirmar que a literatura também é expiação, e neste romance, mais do que noutros, nota-se bem essa necessidade expiatória. Talvez seja a característica que mais nos marcou na primeira leitura e que continuou a marcar-nos nesta segunda: a possibilidade terapêutica da literatura. Mas já falamos demasiado de aspetos exógenos; olhemos agora para o romance em si. A narrativa tem ecos de Agatha Christie aliados a Edgar Allan Poe: o ambiente remete para As Dez Figuras Negras e o thriller psicológico é uma constante a cada novo passo dado pelos protagonistas. O romance é igualmente povoado pela ideia da fuga do abismo negro, nomeadamente através da simbologia do balão de ar quente. Don Metzeger gostava de os ver levantar voo, juntamente com Bosco, ambos cativados pela fuga potencial representada por esse voo. No final, a fuga do cativeiro dá-se por um balão de ar quente, símbolo do sucesso do narrador na sua fuga e do sucesso do próprio autor na superação da sua inquietação. A misteriosa e imponente figura de Bosco também parece servir um propósito simbólico, o de uma força sem nome, invisível e omnipresente, opressivamente espreitando pelas suas vítimas: parece-nos que Bosco representa igualmente algum aspeto da inquietação que acomete o nosso narrador-autor. 
   Muito mais poderia ser dito sobre este magnífico romance, aquele a que nos atrevemos de qualificar como "o melhor" do autor: o melhor no sentido de ter conseguido rasgar com um teto auto-imposto e de ter alcançado mais longe. Sem dúvida, tal como já tínhamos considerado na altura, O Bom Inverno é o romance mais bem conseguido de João Tordo. 
 
Citações:
 
"«Se pensares bem, o que é que os médicos, no fundo, sabem sobre a nossa dor? Só têm números, tabelas, as malditas radiografias... Sabes que a primeira pessoa que foi submetida a raios X, no final do século dezanove, comentou, ao ver o negativo, que tinha a impressão de estar a olhar para a própria morte?"

"O lago, a quinze ou vinte metros da entrada, despertou-me imediatamente a atenção. A sua superfície imóvel reflectia a brancura da Lua; embora as águas fossem plácidas, aquela calma de morte parecia não ser mais do que um compasso de espera até que as águas se abrissem e revelassem uma coisa monstruosa: um navio pirata, um monstro marinho."
 
"As nuvens tinham mudado de posição e tornado a descobrir a Lua, transformando a superfície do lago num espelho de fantasmas, revelando os contornos dos rostos húmidos; os quatro rostos naquele lugar estranho e remoto, como se o mundo tivesse cancelado o seu infindável progresso rumo à destruição."
 
 
 
Pontuação: 9.9/10

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

"Uma Casa na Escuridão", de José Luís Peixoto

   Afirmo-o constantemente, e esta vez não é exceção: José Luís Peixoto é um narrador sem comparação no panorama literário português contemporâneo, e Uma Casa na Escuridão apenas confirma o seu enorme talento. 
   O narrador, que é escritor, vive na casa dos seus pais, um casarão com vista para uma montanha, acompanhado pela sua mãe, já algo envelhecida e apática, e pela escrava miriam, empregada pessoal da família, e filha da anterior escrava, que é quem trata dos assuntos da casa. Num final de verão, este é arrebatado pelo surgimento de uma mulher, que ele considera ser o amor da sua vida. Mas este acontecimento dá-se de uma forma insólita: a mulher que o arrebata apenas existe dentro dele, e estes apenas interagem quando o narrador a escreve nas suas páginas em branco. Depois de umas noites de escrita febril, o narrador visita o seu editor na prisão, apresentando-lhe aquele que poderá ser o seu próximo livro. No entanto, é surpreendido pelos seus próprios sentimentos próximos do ciúme quando o editor lê aquela que está dentro de si. Então, decide não partilhar mais com o editor as suas palavras. Após o regresso do seu melhor amigo, o príncipe de calicatri, a quem confidencia os seus novos sentimentos, um senhor violinista apresenta-se em casa do narrador para dar a conhecer aos habitantes da casa a música. A música leva a que a mãe do narrador desperte da sua letargia, e esta convida o violinista a ficar com eles na casa, proposta que ele aceita. O narrador experimenta alguns momentos de felicidade, com os seus sentimentos por aquela que está dentro de si e com a sua mãe novamente desperta. No entanto, três trágicos acontecimentos, simultaneamente inesperados e inevitáveis, levam todos os habitantes e o narrador a serem sugados por uma espiral de melancolia e apatia que apenas poderia culminar num final tão lúgubre quanto arrebatador. 
   José Luís Peixoto é um simbolista exímio. Todo o livro tem uma tonalidade associada, criada e reforçada pelas imagens e descrições que o autor faz, tanto do tempo como dos objetos. Tudo, desde a trama central até aos acontecimentos que movimentam a narrativa, é uma expiação simbólica de sentimentos inexprimíveis por palavras que não as escritas. Isto é bem patente na autoidentificação do narrador com o autor através das parecenças biográficas elementares (a orfandade paterna, a publicação de um livro, etc.). Ao estilo saramaguiano, o romance é, igualmente, uma densa parábola, uma alegoria sobre a barbárie e a redenção associadas à civilização. O tom e os símbolos que enquadram a narrativa servem brilhantemente esta intenção alegórica, com imagens de brutalidade e inocência simultâneas, gerando no leitor sentimentos antitéticos de profunda beleza e de sombria tristeza, num equilíbrio delicado que poucos conseguem atingir como José Luís Peixoto. A metatextualidade característica da obra deste autor não é tão vincada neste romance como em outros, mas não deixa de estar presente, nomeadamente na sua subtil autoidentificação com o protagonista. A técnica de escrita, como é apanágio de José Luís Peixoto, é o fluxo de consciência, não havendo qualquer distinção formal entre a narração e o discurso direto dos personagens. Regressando agora ao simbolismo, aplicado aos percursos dos personagens, há dois símbolos que nos chamam a atenção. O primeiro é a omnipresença de uma multidão de gatos pretos na casa, desde a primeira página do romance, evidenciando o tom sombrio que marcará a narrativa através da simbologia corrente do gato preto. O segundo é uma revelação de enredo, mas julgamos conseguir expô-lo sem revelações substanciais. Aquando das invasões (o símbolo da barbárie), os protagonistas são mutilados e desapossados das suas faculdades distintivas, símbolo da destruição da identidade. O narrador sofre particularmente com a sua mutilação, tornando-se para sempre um ser incompleto, já desapossado daquela que está dentro dele, apenas encontrando algum consolo ou alento na inocência redentora da infância (simbolizada por crianças). Mais uma vez cremos estar perante uma metáfora de caráter geral sobre a civilização recolhida do âmago mais profundo do autor, baseando-nos na autoidentificação do autor com o seu protagonista. Não se trata de um romance de consumo fácil. Nós mesmos lemos este romance com um vagar mais exigente. Mas reemergimos da profundidade iluminados, e com a sensação de termos lido um autor no pico da sua criatividade literária. O que não deixa de ser curioso, visto que este é apenas o segundo romance publicado por José Luís Peixoto, sendo o primeiro uma obra prima em igual medida, como já referimos neste blog.
   Em suma, mais uma obra arrebatadoramente brilhante de um autor ímpar na literatura portuguesa contemporânea.  
 
Citações:
 
"Isto é o que se vê quando fechamos os olhos e continuamos a ver: a cor negra e os pequenos seres de luz que a habitam. E não se consegue olhar fixamente nem para o negro, nem para a luz. Os pontos ou as linhas ou as figuras de luz fogem da atenção. O negro é tão absoluto, tão profundo e tão infinito que o olhar avança por ele sem encontrar um lugar onde possa deter-se. Mas, naquela noite, comecei a distinguir algo dentro desse negro."
 
"Do outro lado, árvores e, depois, o oceano: a distância infinita, porque não havia sequer horizonte, o oceano misturava-se com o céu e não se conseguia distinguir o oceano do céu, não se conseguia dizer ao certo se toda aquela distância era apenas o oceano, ou apenas o céu, ou apenas o vazio infinito a avançar na distância da morte."
 
"O céu negro como o meu interior. E o céu, negro, negro, negro, rasgou-se como se todo o céu e toda a sua escuridão fossem um pano negro sobre o mundo. O céu rasgou-se num ruído de rochas a afastarem-se depois de milhões de anos. E o céu gritou um trovão que era a voz do mundo e da escuridão, um trovão que era a voz de todo o sofrimento do mundo. Um grito de terror. O céu e o mundo a dizerem um grito negro que explodia dentro de mim."
 
 
 
Pontuação: 9.9/10
 
 

Gonçalo Martins de Matos

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

"O Cavaleiro Inexistente", de Italo Calvino

   Italo Calvino é considerado como um dos maiores escritores italianos do século XX. É particularmente conhecido por As Cidades Invisíveis e pela trilogia Os Nossos Antepassados, da qual faz parte este O Cavaleiro Inexistente
   Nos tempos da reconquista cristã, no exército de Carlos Magno combate Agilulfo das Guildivernas e outras, um cavaleiro que possui uma particularidade que o distingue dos demais: a de não existir. Tratando-se de uma armadura vazia, livre de apegos terrenos como o sono ou a fome, Agilulfo passa os seus dias no exército tratando da organização e supervisão de todos os pequenos pormenores que movimentam o exército quando não se encontra em combate. Certo dia chega ao exército de Carlos Magno Rambaldo de Rossilhão, que deseja vingar a morte do seu pai às mãos de Isoarre, emir do exército sarraceno. O jovem Rambaldo depressa se apercebe que a vida e a glória do exército não é nada como tinha imaginado, inclusivamente quando se bate pela primeira vez com o exército inimigo e perde a oportunidade de vingar o seu pai. Então vira-se para Agilulfo, em quem procura aconselhamento. Após uma longa procissão do exército de Carlos Magno pelas terras dos Francos, certa noite, um jovem recém-chegado ao exército, Torrismundo, declara que Agilulfo não é merecedor dos seus títulos e honrarias, uma vez que a virgem que ele declara ter salvo não seria virgem aquando do feito. Então, Agilulfo, juntamente com o seu escudeiro Gurdulú, parte em viagem em busca da virgem Sofrónia, que havia salvo anos antes. Rambaldo parte também, em perseguição de Bradamante, cavaleira destemida do exército imperial, que por sua vez parte enamorada da armadura vazia. Também Torrismundo parte em busca do seu passado, de forma a esclarecer também um pouco as suas origens. Toda a história é narrada por uma freira, que no final confessa também o seu papel na narrativa que redige. 
   O estilo em que se enquadra o romance, como grande parte da obra do autor, é o modernismo, estando neste presentes vários elementos que nos evidenciam essa pertença. Desde logo, apesar de ser narrada uma história tipicamente cavaleiresca, os problemas e as questões suscitadas pelos personagens e pelas situações remetem para problemas bem mais modernos que os existentes na época medieval. A fantasia e a paródia conjugam-se de uma forma inesperada, mas simbiótica, sendo que uma serve a outra na transmissão da mensagem. Os elementos paródicos adicionam uma camada peculiar a toda a obra, podendo ser citados como exemplos os burocratas da Superintendência dos Duelos, da Vingança e dos Atentados à Honra do exército imperial, que tentam atribuir a Rambaldo o equivalente a uma vingança de familiar na organização da batalha, ou o naufrágio de Agilulfo, que resulta em simplesmente este afundar e fazer o resto do caminho a pé, debaixo de água. Agilulfo e Gurdulú constituem uma referência a Dom Quixote e Sancho Pança que adensa o caráter paródico do romance. Outra característica modernista presente no romance é a desconstrução dos conceitos e das instituições tidas como seguras, mas que analisadas pormenorizadamente revelam na verdade cascas vazias de conteúdo ou sentido. Tal é exemplarmente simbolizado pelas sucessivas desilusões de Rambaldo com o mundo, a cavalaria, a guerra e a paixão amorosa. 
   Trata-se de uma leitura muito curiosa e ligeira sem perder no conteúdo. 
 
Citações:
 
"A noite calma era percorrida pelo voo ligeiro de pequenas sombras informes, de asas silenciosas, que se moviam sem direcção definida: os morcegos. O seu mísero corpo incerto, entre o rato e a ave, era, pelo menos, qualquer coisa de tangível e segura, qualquer coisa que podia andar pelo ar de boca aberta engolindo mosquitos, enquanto Agilulfo, com a sua armadura, era atravessado, a cada lufada de vento, pelo voo dos mosquitos e pelos raios da Lua."
"A cavalaria e uma bela coisa, sabe-se, mas os cavaleiros são uma cambada de estúpidos, habituados a cumprir altos feitos, mas por atacado, e quando isso resulta tanto melhor. Na medida do possível procuram adaptar-se a estas regras sacrossantas, que tinham jurado seguir, e como são bem codificadas poupam-lhes o trabalho de pensar."
"Talvez não tivesse sido mal escolhida a minha penitência, pela madre abadessa: por momentos descubro que a pena começa a deslizar sobre a folha como se ela própria tivesse movimento e eu fosse a correr atrás dela. É para a verdade que corremos, a pena e eu, esta verdade que espero venha sempre ao meu encontro, do fundo de uma página branca, e que só poderei alcançar quando, a golpes de pena, conseguir repelir toda a amargura, esta insatisfação, este tédio que estou a expiar, fechada aqui dentro."
 
 
Pontuação: 8/10
 
 
Gonçalo Martins de Matos

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

"Natureza Morta", de Paulo José Miranda

    Paulo José Miranda foi o primeiro autor galardoado com o Prémio Literário José Saramago, em 1999, pelo que as expetativas para este Natureza Morta, a obra premiada, estiveram elevadas. E é com gosto que posso afirmar que não saíram goradas. 
   No ano de 1816, João Domingos Bomtempo, músico e compositor clássico português do século XIX, regressa a Portugal, de visita ao seu tio Manuel, frade do Mosteiro de Santa Maria do Bouro, após conhecer algum sucesso com a publicação, em Londres, de três Sonatas da sua autoria. O país a que Bomtempo regressa encontra-se numa ebulição derivada da subjugação portuguesa à regência inglesa encabeçada por Beresford. Em Lisboa, depois de regressar do Norte com a notícia da morte do seu tio, Domingos Bomtempo remete-se a reflexões profundas sobre a arte, a criação, a morte e o país, enquanto no seu âmago fervilha um ímpeto criador. Certa manhã, começa a escrever o seu Requiem em Dó Menor, Op. 23, processo criativo sobre o qual se debruça este romance. À escrita da obra juntam-se sempre as reflexões do compositor sobre a música que escreve e sobre o mundo, exterior e, principalmente, interior.
   Natureza Morta é o segundo livro de um tríptico de Paulo José Miranda sobre o processo criativo, composto ainda por Um Prego no Coração e Vício. Neste tríptico, o autor explora a sua temática através de três figuras da arte portuguesa: Cesário Verde, Domingos Bomtempo e Antero de Quental. Neste romance, o momento do processo criativo é o da efervescência criativa, que é captado de forma muito interessante pelo autor. A acompanhar o desnovelar do clima social do Portugal pré-Liberal, e as inquietações do compositor com o assunto da morte e do tempo, acompanhamos a forma como tudo se repercute na criação do Requiem. A escrita de Paulo José Miranda tem um teor vincadamente poético, sendo também marcadamente meditativa. O romance é narrado na terceira pessoa com algumas intromissões da voz, autodiegética, do protagonista. Acompanhando a narrativa e as reflexões de Domingos Bomtempo está a ideia artística da natureza morta, em particular um quadro de Chardin, Cesta de pêssegos com nozes, groselhas e cerejas, que acaba por servir como um espelho da posição no mundo que Bomtempo sente ser a do artista, do criador, e do próprio Requiem que vem compondo. O tom do romance é simultaneamente melancólico e inconformado, numa mistura de revolta e aceitação que, unidas, geram então a obra artística. Retomando o teor poético do romance, a narrativa é dotada de uma robusta linguagem imagética, sendo-nos fornecidas impressões que nos marcam pela sua profundidade. 
   Trata-se aqui de um profundo e luminoso romance que merece, sem dúvida alguma, ser lido e apreciado. 
 
Citações:
"Havia um secreto desejo de vingança do mundo, de Deus, dos homens. Vingança do sofrimento de minha mãe e do meu próprio sofrimento, da minha perda, da memória repleta de gritos de dor. Tão pouco quis ser Deus, quis ser Bach. Ele e o meu tio foram o mais próximo que estive do Senhor. Sinto que gosto cada vez menos de mim mesmo. Este peso enorme de ser homem, esta tristeza de não poder ser somente música."
"E um Requiem é efectivamente o paradoxo máximo da miséria adocicada. É esta a grandeza e a pequenez do criador: assistir à subjugação do sofrimento ao prazer. O sofrimento não desaparece, pelo contrário, mantém-se presente, mas sob as ordens do prazer. Quando este por fim acaba, então, o sofrimento regressa, mas já humilhado. E um sofrimento humilhado é já uma culpa, não é sofrimento, pelo menos não é sofrimento límpido, será quanto muito sofrimento impuro."
"Pois só se pode descrever o que se passa no mundo ou na alma se o mundo ficar suspenso, se por momentos, os da criação, não existir nada mais senão tempo. O infinito a sufocar o finito. Nada mais importa senão a existência e um desprezo imenso por tudo. O homem desesperado de morte a vociferar de inveja contra o Eterno."
 
 
Pontuação: 9/10
 
 
Gonçalo Martins de Matos