domingo, 21 de maio de 2023

"Lolita", de Vladimir Nabokov

   Lolita é considerado um dos grandes romances da literatura anglófona do século XX. Controverso e ambíguo, é uma leitura muito curiosa no que toca à premissa e às consequências da leitura. Mas já lá vamos. 
   Humbert Humbert, pseudónimo de um homem que aguarda julgamento por homicídio nos Estados Unidos, é o narrador da história de como conheceu Dolores Haze, a titular Lolita, e de como manteve com ela uma relação abusiva e de cariz sexual, depois de se tornar seu padrasto. Depois de imigrar da Europa para os Estados Unidos, e ciente da sua obsessão com raparigas pubescentes, às quais dá o nome de "ninfetas", Humbert narra como travou conhecimento com Charlotte Haze, mãe de Dolores, e como usou a sua proximidade para se aproximar da rapariga, então com 12 anos. Humbert casa com Charlotte, selando os destinos de toda os envolvidos. Depois da morte prematura de Charlotte, Humbert viaja pelos Estados Unidos com Dolores, acontecimento através do qual nos é também apresentada a sociedade estadunidense de meados do século XX. Ambos se estabelecem em Beardsley, New England, onde Humbert inscreve Dolores numa escola para raparigas, controlando todas as suas ações. Depois de a jovem expressar que gostaria de fazer uma nova viagem. Mas desta vez, mais paranoico, Humbert sente que ela esconde alguma coisa, e sente-se perseguido ao longo de toda a viagem. Estão lançados dessa forma os dados dos inevitáveis destinos de Humbert e de Dolores, em toda a absurdez da sua tragédia. 
    A interpretação do teor do romance é ambígua e divide críticos e estudiosos desde a sua publicação. Se há quem veja uma tragédia romântica, há quem veja uma comédia trágica na história da relação entre Humbert e Lolita. Outra interpretação com que nos deparámos, muito interessante, é a da perda da inocência face à tirania, nomeadamente da infância do próprio autor em relação à tirania czarista e, posteriormente, bolchevique, na sua Rússia-natal. Na nossa amadora e modesta opinião, Lolita é uma sátira modernista, ácida e mordaz, ao conceito de história de amor típica da cultura de entretenimento que caracterizava, e ainda caracteriza, as artes produzidas nos Estados Unidos. Através de trocadilhos, ambiguidades e outros jogos de palavras, o teor do romance revela-se perfeitamente. A sociedade e cultura americanas são igualmente alvo do olhar satírico de Nabokov, principalmente a mesquinhez dos meios pequenos e a frivolidade dos meios maiores. Humbert é um narrador não confiável, e essa característica é essencial para perceber a natureza dos acontecimentos, principalmente no que toca a "avanços" e a "provocações" de Dolores. Nabokov declarou em diversas entrevistas que escreveu Humbert para ser um personagem odioso, e esse objetivo ele consegue magistralmente: não há empatia possível com o narrador de Lolita. O facto de demasiadas referências a este romance declararem que aos poucos vamos empatizando com Humbert revelam bem o tipo de mentalidade que Nabokov visava parodiar. A narrativa de Humbert absorve tudo o que sejam os sentimentos e as aspirações dos outros - nós nunca chegamos a saber quem é, de facto, Dolores Haze, apenas a Lolita que Humbert nos oferece. Esta questão é propositada, mais uma vez para aumentar os efeitos da paródia e enfatizar a infiabilidade do narrador. Algumas descrições de Nabokov, assentes em paradoxos e antíteses, revelam um surrealismo que contribui para o delírio que é a obsessão de Humbert, enquanto outras recorrem a diminutivos e trocadilhos para destacar o ridículo e, dessa forma, enfatizar a sátira. 
   Lolita é sem sombra de dúvida um romance a ler e a apreciar enquanto a paródia que é de um certo tipo de mentalidade e de mania que ainda hoje por aí rastejam, principalmente na sociedade estadunidense. 
 
Citações:
 
"Mas notei, com um espasmo de feroz repugnância, que o ex-conselheiro do czar não puxara o autoclismo depois de esvaziar completamente a bexiga. Aquela solene poça de urina alheia, na qual se desintegrava uma beata mole e acastanhada, pareceu-me um supremo insulto, e olhei, como louco, à minha volta, à procura de uma arma. Na realidade, creio que foi apenas um gesto de cortesia burguesa (talvez com um ressaibo oriental) que levou o bom do coronel (Maximovich! Lembrei-me, de repente, do seu nome), pessoa muito formal, como todos eles são, a abafar a necessidade íntima num silêncio cheio de decoro, para não realçar o pequeno tamanho do domicílio do seu anfitrião com o turbilhão de uma grande cascata a seguir ao seu esguichozinho discreto."
 
"No meio do labiríntico padrão (mulher apressada, rua escorregadia, o raio de um cão, rua íngreme, carro grande e idiota ao volante), conseguia vislumbrar vagamente a minha vil contribuição. Se, como um estúpido – ou um génio de intuição –, não tivesse conservado aquele diário, os vapores produzidos pela cólera vingadora e pela profunda humilhação não teriam cegado Charlotte, na sua corrida para o marco do correio. Mas, mesmo que a tivessem cegado, nada teria acontecido se o Destino meticuloso, esse fantasma sincronizador, não misturasse no seu alambique o automóvel e o cão e o sol e a sombra e a humidade e o fraco e o forte e a pedra."
 
"A Rubinov’s Jewellery Company exibia na montra uma coleção de diamantes artificiais, reflectidos num espelho vermelho. Um relógio verde, iluminado, parecia flutuar nas ondas de roupa da Lavandaria Jiffy Jeff. Do outro lado da rua, uma garagem dizia, no sono, lubricidade genuflexão, mas emendava-se logo para Lubrificação Gulflex. Um avião, também cravejado de jóias Rubinov, passou, a roncar, no céu de veludo."
 
 
Pontuação: 6.9/10 
 
 
Gonçalo Martins de Matos

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

"A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado", de Gonçalo M. Tavares

   Nos intervalos da minha leitura atual de Lolita, dei por mim a abrir A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado, para ir lendo alguns dos seus contos-fragmento. De repente, dei por mim completamente fascinado por este livro que inaugura mais um dos universos de Gonçalo M. Tavares: as Mitologias
   Num universo inominado, sem localização histórica ou temporal, várias personagens peculiares habitam vários espaços e tempos. Estes personagens tanto podem ser pessoas, como animais, como máquinas ou mesmo puros conceitos. Entre estes, acompanhamos principalmente o Homem-do-Mau-Olhado, que não consegue passear pela cidade sem levantar os olhos e saciar a sua curiosidade, uma vez que o seu olhar transmite mau-olhado a quem por ele seja vislumbrado, Ber-Lim, um louco inexpressivo que participa, a troco de remuneração, nas experiências elétricas de Dr. Charcot, o Homem-Mais-Alto, que lidera a Revolução, os Cinco-Meninos, que se perdem numa floresta de Máquinas, ou a Mulher-Ruiva, que consegue iludir a Revolução, mas não escapa de outras latitudes. A outra personagem titular, a Mulher-Sem-Cabeça, e os seus três filhos, fazem uma breve aparição perdidos no Labirinto, ao longo do qual a mãe deles vai deixando atrás de si um rasto de sangue pelo pescoço decapitado. Outros personagens como o Comboio, a Mão-Direita, o Vedor, a Velocidade, a Praça-Quase-Vermelha, a Máquina-de-Voo, o Manicómio-dos-Mecanismos ou o Cinema, são protagonistas dos seus próprios momentos ou histórias, todas estas personagens ambientadas nesse tal universo intemporal e anónimo. 
   A premissa do universo das Mitologias, de Gonçalo M. Tavares, é muito fascinante: pegar em conceitos, problemas e inquietações dos seus séculos de eleição (XX e XXI) e revesti-los de uma roupagem mitológica, coloquial. Esta premissa é fascinante porque traz a visão pós-modernista singular de Tavares ao universo do conto mitológico, do conceito de mitologia. Não existem personagens principais, nem secundárias, e mesmo o conceito de personagem é esbatido nesta incursão tavariana no género mitológico: personagem pode ser uma pessoa, um animal, um objeto, um local ou mesmo um conceito abstrato. O que importa é a sua sinergia relativamente aos elementos e personagens da história que se desenrola. Tavares traz também para o universo mitológico a Máquina, que tem sido secundarizada, ou mesmo esquecida, na história da mitologia. Os elementos epopeicos e alegóricos da mitologia "tradicional" são bem visíveis ao longo deste primeiro livro das Mitologias, seja pela ambiguidade de algumas palavras que figuram em alguns fragmentos, seja quase explicitamente através da atribuição aos conceitos da titularidade da ação. As histórias são marcadamente surrealistas, o que nos lembra amiúde que estamos perante uma visão pós-modernista dos conceitos e dos dogmas da mitologia enquanto género literário. No que toca aos aspetos formais, este livro encontra-se dividido em treze capítulos, cada qual subdividido num número variável de fragmentos. Na página que marca o início do capítulo, estão identificados os fragmentos que deste constam, encontrando-se no verso da mesma página os personagens que protagonizam o capítulo que se inicia.
   Mas o aspeto que mais sobressai, e que mais me cativou, é a intertextualidade entre as histórias ou os personagens deste livro e as histórias e personagens dos variados contos orais ou mitológicos universais. A Mulher-Sem-Cabeça deixa atrás de si um rasto de sangue para depois regressar por onde veio, espelhando uma distorção do método com que Hansel e Gretel marcam o caminho de regresso, assim como do desfiar do fio de Ariadne por Teseu. O Labirinto em que a Mulher-Sem-Cabeça e os seus três filhos se procuram lembra-nos o labirinto de Dédalo, onde Teseu derrotou o Minotauro e regressou graças ao fio de Ariadne. A cruz que o Homem-do-Mau-Olhado carrega, de não poder olhar ninguém, lembra-nos a górgona Medusa, que transformaria em pedra qualquer pessoa que esta mirasse. Mas esta intertextualidade não pára por aqui: a desconstrução do conceito de mitologia ensaiada por Gonçalo M. Tavares vai buscar a acontecimentos e personagens da vida real - o exemplo mais fulgurante é o louco Ber-Lim, cuja identidade foi dividida em dois, como a cidade de Berlim quando foi erigido o infame Muro, ou os Cinco-Meninos, que têm os nomes dos cinco filhos do czar Nicolau II. 
   Uma inauguração fulgurante de mais um universo tavariano que promete ser uma das suas obras mais fascinantes e intrigantes. Sem sombra de dúvida, uma evolução a acompanhar. 
 
Citações:
 
"A mãe sabe que o sangue que vai deixando cair é a única maneira de, mais tarde, saber o caminho de regresso. Tem medo de sangrar demasiado, mas sabe que não pode parar de sangrar. Por vezes levanta a mão direita, leva-a ao que sobrou do pescoço, ao sítio de onde lhe arrancaram a cabeça, e recolhe um pouco de sangue, para depois o atirar de tempos a tempos para o chão, de forma a marcar o percurso. O cheiro do sangue é intenso, não será difícil depois voltar."
 
"Homens, mulheres e crianças avançam em linha recta desde o ponto de partida até ao destino.
Subitamente, de uma carroça saem inúmeros combatentes. É a Revolução, diz alguém. 
O chefe é o mais alto dos homens e proclama: 
«Quem tremer é culpado.» 
Homens e mulheres percebem. Até as crianças percebem. Não podem tremer. 
Mas que fizeram eles? 
Homens, mulheres e crianças estão em linha recta, imóveis, entre o ponto de partida e o destino. 
A Revolução é isto, sussurra alguém."

"O Manicómio-dos-Mecanismos.     
[…]     
- Guardámos aqui as máquinas que avariam sem justificação alguma. Os mecanismos que, mesmo depois de várias tentativas de reparação, não saíram do seu desarranjo.     
Poderá dizer-se que estão aqui os Imprevisíveis, uma espécie maldita. Uma classe de elementos com peste. Devem estar afastados de nós, estes Imprevisíveis. Devem estar afastados, acima de tudo, dos outros mecanismos. Devem ser fechados à chave."


Pontuação: 8.9/10


Gonçalo Martins de Matos

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

"Ensaio sobre a Lucidez", de José Saramago

   Tenho notado que tenho lido os romances de José Saramago em altos e baixos, ora encontrando uma obra-prima sublime, ora encontrando um romance menos satisfatório. Aparentemente, consagra-se esta ideia, porque, se o último romance do nosso Nobel da Literatura me deixou um tanto desapontado, Ensaio sobre a Lucidez dardeja-me novamente com a experiência ímpar que é ler este grande romancista. E que ótima leitura para os 100 anos de José Saramago.
     Na anónima capital de um país sem nome, mas que nos é já familiar (mais para a frente explicamos), é dia de eleições, e se, à primeira vista, o temporal que se fazia sentir parecia prender os eleitores a suas casas, o romper do sol trouxe consigo todos os eleitores em massa. Contados os votos, é em choque que as instituições do país constatam que 83% dos votos expressos estavam em branco. Tal acontecimento gera uma reação rápida por parte do governo, que impõe um estado de sítio na capital, isolando-a do resto do país, e estabelecendo os órgãos de governo da nação fora desta, sendo-lhe retirado o estatuto de capital deste país sem nome. Nas suas inquietações sobre a situação da capital, o governo, em conluio com o presidente da república, vai aos poucos sitiando de facto a cidade, com o intuito de esmagar a rebelião brancosa que se havia manifestado. Quando uma carta dirigida aos líderes políticos traz consigo revelações sobre um caso passado, que pode estar relacionado com o caso presente, a um comissário, a um inspetor e a um agente da polícia é dada a missão de investigar as alegações desta. E é assim que damos por nós a acompanhar estas investigações, que nos vão revelando aos poucos que o país é o mesmo onde, quatro anos antes, uma estranha epidemia de cegueira branca flagelou os habitantes, para além de a suspeita recair sobre uma mulher desconhecida, que fora a única a não ficar cega. Por fim, mesmo ao estilo saramaguiano, somos conduzidos com paciência e mestria pelos meandros da entropia humana face a acontecimentos inexplicáveis até a um destino final avassalador.
   Deixamos de lado um dos "mistérios" que levantámos: Ensaio sobre a Lucidez é uma sequela de Ensaio sobre a Cegueira, repetindo-se os símbolos e os tons que marcaram este romance. O branco é a cor predominante, e a cegueira e a visão são um binómio constante ao longo da narrativa. Se em Ensaio sobre a Cegueira Saramago jogou com a polissemia da palavra "cegueira", como falta de visão ou falta de lucidez, neste romance é bastante mais perentório nos seus significados: há quatro anos, as pessoas desta cidade estiveram cegas, agora viam verdadeiramente. O voto em branco nada mais é que a verdadeira inteligibilidade, a lucidez que faltava aos habitantes deste país. Seguindo o seu modus operandi, Saramago começa por narrar, numa primeira parte, o acontecimento em si e os seus contornos sociais, descrevendo as reações das instâncias governativas à subversão de que eram alvo e a reação da população às medidas do governo. O elemento de sequela deste romance surge na segunda parte, quando o governo compara esta nova forma de cegueira branca com a de há quatro anos atrás e quando reaparecem na narrativa os protagonistas do primeiro Ensaio, com especial foco na mulher do médico. Esta segunda parte trata também da micronarrativa da investigação levada a cabo pelo comissário e pelos seus subalternos. José Saramago não se detém nas suas críticas, analisando com grande lucidez as hipocrisias e os autoritarismos que se escondem nos gestos humanos, principalmente na atuação do governo quando se vê a braços com o poder executivo reforçado. 
   A classe política e as pessoas são antónimos neste romance, com o governo e os militantes partidários a representarem um conjunto de interesses individuais e as pessoas a representarem um interesse comum. Mesmo a antonímia dentro do próprio governo, entre os ministros da cultura e da justiça e os ministros da defesa e do interior, representa uma duplicidade inerente à nossa alma humana, para além de estabelecer uma oposição perentória entre a reflexão crítica e o pragmatismo bacoco que muitas vezes os líderes políticos cultivam como qualidade. Um aspeto muito divertido desta obra é a identificação dos partidos existentes - o partido da direita, o partido do meio e o partido da esquerda - com os seus equivalentes reais, numa irónica comparação implícita. Uma história alicerçada sobre uma epidemia de votos em branco surgiu numa altura em que a vida real convida a que se reflita lúcida e ponderadamente sobre aquilo que julgamos estar certo ou garantido, sejam os nossos sistemas partidários, sejam os nossos direitos inalienáveis. Num mundo pós-covid, já parece quase alienígena, ou estranhamente familiar, o isolamento profilático de uma cidade inteira e a suspensão dos direitos e liberdades - e consequente aumento do poder governativo - à conta de uma declaração de estado de sítio, o que não deixa de ser uma curiosidade: quem tiver lido este livro antes da infame pandemia esteve longe de imaginar que um dia pudessemos mesmo ter passado por algo semelhante. Aliás, Ensaio sobre a Cegueira coloca a mesma questão e suscita a mesma curiosidade. Quanto à brilhante oralidade da escrita saramaguiana, continua como já a conhecemos, pelo que não há nada mais a acrescentar. A caligrafia da capa deste livro pertence a Dulce Maria Cardoso. 
   Trata-se de um romance que convida à reflexão, à boa maneira de Saramago, e que nos delicia com a brilhante lucidez do nosso Nobel da Literatura. 

Citações: 

"Quem desta maneira argumente esquece que o universo não só tem lá as suas leis, todas elas estranhas aos contraditórios sonhos e desejos da humanidade, e na formulação das quais não metemos mais prego e mais estopa que as palavras com que malamente as nomeamos, como também tudo nos vem convencendo de que as usa para objetivos que transcendem e sempre transcenderam a nossa capacidade de entendimento"

"Os direitos não são abstrações, respondeu o ministro da defesa secamente, os direitos merecem-se ou não se merecem, e eles não os mereceram, e o resto é conversa fiada, Tem toda a razão, disse o ministro da cultura, de facto os direitos não são abstrações, têm existência até mesmo quando não são respeitados, Ora, ora, filosofias, Tem alguma coisa contra a filosofia, senhor ministro da defesa, As únicas filosofias que me interessam são as militares, e ainda assim com a condição de que nos conduzam à vitória, eu, caros senhores, sou um pragmático de caserna, a minha linguagem, gostem dela ou não gostem, é pão pão, queijo queijo"

"As rádios insistiam, Interrompemos uma vez mais a emissão para informar que o ministro do interior fará às seis horas uma comunicação ao país, repetimos, às seis horas o ministro do interior fará uma comunicação ao país, repetimos, fará ao país uma comunicação o ministro do interior, uma comunicação ao país fará às seis horas o ministro do interior, a ambiguidade desta última fórmula não passou despercebida ao primeiro-ministro, que, durante uns quantos segundos, sorrindo aos seus pensamentos, se entreteve a imaginar como diabo conseguiria uma comunicação fazer um ministro do interior."


Pontuação: 9.8/10


Gonçalo Martins de Matos

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

"Fado Alexandrino", de António Lobo Antunes

  Como se mais certezas fossem precisas, António Lobo Antunes é, a par de José Saramago, um gigante da literatura lusófona. Em cada romance de Lobo Antunes tenho encontrado autênticos tesouros de linguagem tão geniais como viscerais.
    Cinco ex-combatentes da guerra colonial encontram-se numa noite de copofonia, ao longo da qual entram em diversas reminiscências sobre a própria guerra, sobre as suas vidas no regresso a Portugal no período pré-revolucionário e sobre como as suas vidas deram as mais variadas voltas com a Revolução e com o pós-revolução. Abílio, o soldado, recorda principalmente o acolhimento por parte do seu tio na sua empresa e em sua casa, onde conhece Odete, por quem teve uma paixão. Jorge, o alferes, rememora sobre as tensões com a família de classe alta da sua ex-mulher e sobre o processo de divórcio, quer com a sua mulher quer com a sua filha. Artur, o tenente-coronel, rumina a sua viuvez ao regressar a Portugal, a par com o progresso da sua carreira rumo ao generalato durante as convulsões pós-revolução. Celestino, o oficial de transmissões, recorda os seus tempos de militância comunista no regresso à pátria e a sua prisão e libertação no período revolucionário, assim como a sua paixão por Dália, sua camarada. O Capitão, o quinto elemento da noite dos militares, não tem participação ativa, ouvindo as queixas e as frustrações dos seus camaradas, servindo esporadicamente de narrador. A noitada dos cinco segue também ela um percurso caricato, terminando, como as próprias aspirações portuguesas pós-revolucionárias, num final tão inverosímil como tragicómico. 
   O paralelismo que Lobo Antunes opera entre as vidas e os infortúnios dos cinco militares e o percurso de Portugal entre o fim da ditadura e a consagração democrática é de um delicioso pessimismo. Este autor nunca escondeu, nas suas obras, uma visão mais pessimista da oposição entre as promessas da mudança e o conformismo português. Nenhuma das quatro vidas que nos são relatadas tem alguma hipótese de felicidade. E, no entanto, a esperança continua lá. A melancolia é uma constante na nossa autoavaliação histórica, e este romance captura essa visão de mundo tão peculiar de uma forma magistral. António Lobo Antunes é um dos mestres da língua e da linguagem portuguesas. As suas obras estão repletas de puro vernáculo, que dá sempre um imenso gosto de ler. O domínio da linguagem expressa-se no uso imaginativo que faz de certos recursos estilísticos que se tornaram apanágio de Lobo Antunes, como as descrições metonímicas com enfoque na sinédoque, as sinestesias e as personificações, ou a prosa polissindética. O romance está dividido em três partes, "antes da revolução", "a revolução" e "depois da revolução", que marca os períodos aos quais se prendem as recordações de cada um, e cada parte subdivide-se em 12 capítulos. Os quatro primeiros capítulos de cada parte correspondem aos quatro distintos narradores, aglomerando-se e confundindo-se as vozes com a progressão dos restantes capítulos. A única exceção é o capítulo 11 da terceira parte, que corresponde a uma personagem que não participa na ação, mas que tem um papel fundamental enquanto súmula da mensagem que Lobo Antunes redige, e que constitui um momento de prosa sublime no panorama da literatura portuguesa. O tempo do romance funciona de uma forma bastante antuniana; existe o tempo da ação, que ocorre na noitada, e os tempos psicológicos, onde a ação decorre nos períodos relatados, mas nas cabeças dos ex-combatentes. Devido a esse facto, durante os relatos de cada um deles, o tempo ziguezagueia entre a noitada e o tempo narrado, o que gera intromissões e comentários por parte dos restantes presentes, assim como fluxos de consciência do personagem sobre quem incide o foco. Em alguns capítulos, o autor dá-se a pequenos momentos de plasticidade estrutural, iniciando parágrafos com minúsculas, isolando certas sequências de ideias do resto do parágrafo ou acompanhando o movimento descrito com a redação das palavras que o descrevem.
   Fado Alexandrino é um grade romance de um autor fenomenal, e deve ser lido e apreciado em toda a sua brilhante originalidade. 
 
"Saiu a arrastar a mala, misturado com os colegas, do edifício desbotado do quartel, e distinguiu logo, do outro lado das grades, no passeio, uma espécie de monstro marinho de caras, de corpos e de mãos, que se agitava, aguardando-os, no meio-dia cinzento da Encarnação, em que os semáforos boiavam ao acaso, suspenso na neblina como frutos de luz."
 
"O telefone tocou e momentos depois o braço do tenente-coronel movia-se no escuro, às cegas, tacteando a pele grumosa da alcatifa à procura do auscultador: os dedos tropeçaram num chinelo, numa espiral de fios, num livro caído, aberto como uma ferida nas trevas, sangrando letras"
 
"O oficial de transmissões virou à direita e à esquerda nas ruelas varicosas do Bairro Alto, nos aneurismas dos becos, nos inchaços das escadinhas, enquanto os reformados, lá em cima, vogavam de chapéu e gravata por cima dos algerozes e das cornijas dos telhados: Quais são os reformados, perguntou-se ele, e quais são os pombos se todos se alimentam das migalhas do vento?"
 
 
Pontuação: 9.8/10
 
 
Gonçalo Martins de Matos

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

"Vamos Comprar um Poeta", de Afonso Cruz

     Afonso Cruz é uma das grandes revelações do século. Detentor já de vários prémios e títulos, torna todas as suas histórias dignas de uma profunda interpretação, pelos ensinamentos que transportam. “Vamos Comprar um Poeta” não fica atrás; é uma prosa simples, sem muitos enredos, mas que retrata no seu todo uma sociedade com ausência de cultura. Uma prosa que nos faz sem dúvida repensar duas vezes o valor que damos às coisas, às pessoas e àquilo que elas fazem.
 
    Num mundo distópico, onde a própria identidade é descartada, um agregado familiar de quatro pessoas leva a sua vida descrita como normal, sob o lema “Crescimento e prosperidade”. Um casal, composto pela típica e formatada mulher e por um homem de negócios, um próspero economista, e dois filhos, possivelmente na adolescência, uma rapariga focada no mundo que a rodeia, e um irmão visto como um não contribuinte, porque se apaixona muito facilmente e está, no geral, alheio ao seu dever de gerar lucro. 
    Ter um artista em casa era um sinal de uma boa economia familiar, e havia, claro está, várias categorias – escultores, pintores, poetas. Poetas eram os que menos sujavam, só precisavam de uma cama, comida, papel e caneta, e contribuíam para a produtividade dos agregados em que se encontravam. Mais produtividade, mais crescimento, mais prosperidade.  
    Com a aquisição do poeta, a vida familiar começa a enfrentar algumas dificuldades. Há janelas que não passam de um verso numa parede, e versos que fazem ecoar dúvidas na mente das personagens. Há tráfico de versos para levar a uma amada, e ainda ensinamentos intemporais: afinal, porque é que usamos metáforas? A relação da rapariga e do poeta estreita-se pela curiosidade de ver coisas onde elas não estão, e há uma aprendizagem significante. Ao mesmo tempo, há dificuldades que surgem, empresas que ameaçam falir, e palavras que se tornam obscenas – “bancarrota”. 
    Perante uma maré de dificuldade, a presença desta aquisição poética torna-se indesejada, um problema a ser cortado pela raiz. Então, faz-se como se faz, infelizmente, a um animal…. Leva-se para um sítio longe de casa, e abandona-se. A crueldade do ato descrito chega-nos, porém, retratada de uma forma leve e desinteressada, é algo já comum neste mundo de algarismos, mas não deixa de interferir com o decorrer normal das coisas, e não deixa de lembrar ao leitor o horror do abandono. Ter um poeta, afinal, era só mais um gasto, agora já insuportável: se para uns foi apenas uma boca que comia e lançava para o ar comentários incompreensíveis e desagradáveis, para outros, foi o verdadeiro entendimento do que é crescimento e prosperidade. 
    Toda a obra é um chamar de atenção à descredibilização da cultura, quer por aspetos informais, como o seu conteúdo e o desenlace das várias personagens, quer por aspetos formais presentes na escrita do autor. A ausência de pontuação conjugada com o entusiasmo excessivamente teatral de frases e falas de exclamação. Tendo escrito a obra coberto de uma ironia característica dos que reconhecem a essencialidade da arte, Afonso Cruz faz-nos entender que não estamos longe de um mundo cinzento e desinteressante, mas que ao mesmo tempo temos nas mãos o necessário para lhe devolver cor. Através de diálogos curtos e um tanto simples, mas com uma profundidade imensurável, o texto torna-se uma viagem acerca dos valores que nos caracterizam. É sobretudo uma prosa para reflexão acerca do que somos e daquilo que precisamos. Talvez seja somente preciso um aquecedor para cada um de nós, ou um verso que nos faça ver o mar.

Citações:

“O pai não é alto, e eu tampouco, aliás, é por isso que me chamam de ordenado mínimo, que é algo que já existiu em tempos, mas que felizmente foi extinto, porque, dizem, era um entrave à competitividade mais elementar.”

“Sensação estranha. Enquanto caminhávamos, o poeta deu-me a mão. Quando via borboletas ficava a olhar para elas. Aconteceu dua vezes durante o trajeto.”

Hhhjxhsjjjsjjjsjjsjkkkk, disse o poeta, ou seja, o dromedário leva às costas o horizonte e uma pequena montanha.”

“Por acaso, o poeta acha eu os vegetais e frutas são o mais importante da pirâmide das necessidades?
Evidentemente que não.
É o quê, então?
É a liberdade.

Francamente…”

 
 
Carla Sofia Eiras