quinta-feira, 24 de setembro de 2020

"Correria dos Pássaros Presos", de Ana Gil Campos

   Eis o regresso de Ana Gil Campos ao romance, três anos depois da publicação do seu terceiro livro. Desta vez em edição de autor, Ana Gil Campos cimenta a sua qualidade literária com um romance exemplarmente escrito e pertinente. 
    Cândida, após uma profunda reflexão sobre a presença social das redes sociais e da sua prevalência sobre as formas humanas de interação, decide tomar uma decisão radical e desligar-se das redes sociais. Tal ato abre-lhe as portas a percecionar os efeitos adversos que a presença das enormes quantidades de informação nas vidas das pessoas causa. Após tentativas frustradas de se habituar a uma realidade sem presença humana concreta, decide ir mais longe e, numa estadia na Capital, ouve falar de uma aldeia onde o Presidente afastou a internet através de inibidores de sinais, levando a que a aldeia se foque mais em si mesma e nas suas pessoas. De imediato toma a decisão de arrendar uma casa nessa aldeia. Na aldeia, Cândida contacta com uma realidade esquecida, de interações humanas, de empatia e de serenidade, sem a ânsia e a inquietação causadas pelo ritmo de vida da cidade. Paralelamente, vai-se espalhando pelo mundo uma pandemia, cujos sintomas consistem, entre outros, na perda da capacidade de expressão de emoções, na apatia severa e no alongamento dos polegares, efeitos adversos que são causados pelo uso excessivo de tecnologias. Até ao final da sua estadia, Cândida irá redescobrir na partilha com os habitantes da aldeia, na empatia e no sossego o fundamental da interação e da emotividade humana, refletindo profundamente sobre os malefícios emocionais do ritmo de vida exacerbado das cidades. 
   O romance é uma metáfora com toques futuristas sobre não só o estado da sociedade humana atualmente, mas também sobre a evolução, ou retrocesso, possível com esse estado atual. A escrita da autora é um deleite descritivo. As descrições que emprega são vívidas e equilibradamente sensoriais, saltando-nos das páginas para os olhos com uma força notável. O tema abordado pela autora é pertinente e acutilante, fazendo da sociedade ficcionada um eco da nossa sociedade real e atual. Os pormenores das aplicações para as pessoas se lembrarem umas das outras, dos chipes de identificação e partilha de dados, dos relógios e telemóveis inteligentes que se prendem a nós e nos hipnotizam constroem esse tal reflexo da evolução possível da sociedade na qual vivemos. Longe de ser uma distopia, a realidade que a autora nos expõe tem contornos distópicos, contornos esses que já começamos a notar nos dias de hoje. O romance divide-se em quatro partes que correspondem aos três espaços que a protagonista habita. A pandemia de incapacidade expressiva que se propaga pelo mundo é mais um pormenor muito interessante desta narrativa, sendo que a sociedade atual atravessa, de facto, uma pandemia, mas ignora a pandemia que nos assola há já alguns anos, cujos sintomas se vão intensificando cada vez mais. Os personagens que povoam esta história atingem um ponto das suas vidas em que se apercebem do que de facto está errado na realidade que conhecem, mas, tirando a protagonista e um ou outro personagem, acabam por recair na utilidade prática que o excesso de informação apresenta. 
   É um sólido romance que Ana Gil Campos nos apresenta, e que merece definitivamente a sua leitura.

Citações:
"Mas os seus olhos tão cobertos de luz fazem com que pareça cega, e a cegueira branca perante a sua própria lucidez faz com que se inquiete com esta ignorância de uma cegueira que não é sua. Sente sem saber sentir que algo não está bem, com ela, com os outros, não sabe, sente apenas uma leve irritação permanente."
"Perto dos passos distraídos da jovem, o mar galga feroz em ondas, em fúria por vidas dormentes, liberta brados sucessivos, obstinados, estendendo-se longa e velozmente até ao muro entre a praia e o passeio, em avanços e recuos, uma e outra vez, um gesto que repetirá durante dias até serenar."
"A aniversariante começa por dizer estar muito emocionada, exibindo uma folha com uma expressão de pequena lágrima a cair do olho, que não contava que os pais tivessem convidado tantas pessoas de quem ela gosta, exibindo duas folhas, uma expressão de boca aberta de admiração e outra expressão de sorriso feliz, e espera que todos se estejam a divertir tanto como ela, exibindo duas folhas, uma expressão de gargalhada e outra expressão animada com óculos de sol. Tudo isto dito sem qualquer expressão no próprio rosto, com a cara que usa sempre como uma máscara."
 
 
Pontuação: 9.6/10
 
 
Gonçalo Martins de Matos

domingo, 20 de setembro de 2020

"Maria dos Canos Serrados", de Ricardo Adolfo

   É difícil não elevar as nossas expetativas quando o autor que vamos ler vem altamente recomendado por figuras como Valter Hugo Mãe ("A nova literatura portuguesa passa obrigatoriamente por aqui") ou António Lobo Antunes ("Uma maneira de falar completamente nova na literatura portuguesa"). O resultado final é que efetivamente encontramos uma maneira nova de falar na literatura portuguesa e que, apesar de não ir propriamente de encontro às altas expetativas que tinha criado, estas não foram goradas. 
   Maria, uma jovem desbocada e "de má rês", bipolarizada no afeto e no ódio que sente pelo seu namorado gigolô, chamado de Velho, dá por si numa situação de despedimento devido ao efeito esmagador da crise e das falcatruas da chefe na empresa onde trabalhava. Assim empurrada para uma defesa surreal dos seus direitos e posto de trabalho, juntamente com os seus colegas, liderados pelo "grande líder" do sindicato, Maria dá por si a ver escapar-se-lhe qualquer hipótese de se fazer pagar das dívidas salariais devidas pela empresa. Entre as suas inquietações pela falta que o seu "Velhinho" lhe faz, as mirabolantes peripécias para resgatar a empresa e as suas próprias reflexões sobre a condição em que se encontra, Maria dá por si cada vez mais a despegar-se dos últimos resquícios do seu enquadramento numa sociedade dita organizada e decide meter mãos à obra e cobrar o que lhe é devido, a bem ou a mal. 
   Este romance é narrado na primeira pessoa, por Maria. Os capítulos são estruturados de uma forma proto-epistolar, com todos a começar com Maria dirigindo-se ao seu "Velhinho", quase sempre variando a forma como lhe dirige palavra, conforme o seu estado de espírito. São também capítulos breves, quase telegráficos por vezes, contendo as indagações da narradora ou relatando as peripécias da sua vida. Sendo narrados na primeira pessoa por uma mulher desbocada, a utilização da oralidade corriqueira e não poucas vezes grosseira é uma característica muito forte neste romance. A linguagem totalmente oral e corriqueira é brilhantemente utilizada por Ricardo Adolfo; cria mesmo a sensação de ouvirmos estes pensamentos a ser expressados pela narradora ao nosso lado. Não faltam o jargão popular, os palavrões e os neologismos aportuguesados para compor com mestria uma fala completamente livre e verosímil. Ainda nesta tendência oralizante, Ricardo Adolfo leva o sonho de Saramago em reproduzir literáriamente a fala ainda mais longe, imprimindo nos diálogos uma escrita quase fonética. Como exemplos desta forma curiosa de escrever o discurso direto podemos invocar: "sim, quem é cavia de ser?"; "vá, mostra lá, mas olha queu não tenho nada pra mostrar"; "tá ma contratar" ou "atão, comé que passa?"; isto para citar alguns exemplos desta oralização fonética. Além disto, o discurso direto é introduzido sem travessão e sem maiúsculas, apenas sem empregando estas quando se trata de nomes próprios. Esta linguagem original, corriqueira e fortemente oral que Ricardo Adolfo emprega com bastante desenvoltura são, a meu ver, os pontos mais fortes deste romance peculiar. A narrativa é feita de peripécias quase surreais que nos põem um sorriso nos lábios, quer pela sua natureza, quer pela interpretação dos factos pela própria narradora. A protagonista, outro ponto bastante fulcral deste romance, é quase completamente atípica na literatura portuguesa. Trata-se Maria de uma anti-heroína cujas ideias e conclusões se afastam daquilo que podemos considerar como uma atitude ética positiva, mas que nos deixa empáticos com a sua situação, dando por nós a apoiar, inclusive, algumas das suas decisões e atitudes, reprováveis aos olhos da moral comunitária. 
   Efetivamente, uma nova forma de falar na literatura portuguesa, a que não podemos ficar indiferentes. 
 
Citações:
"Só para dar razão àqueles que acreditam que tudo o que sobe tem mesmo de se estatelar, para nossa desgraça aterrámos no Grande Festival Está Tudo Fodido dos Cornos, organizado pela nossa caríssima doutora, com direito a variedades e palhaços famosos. Sendo que o papel de palhaço-mor foi atribuído a nous. Voilà. Cabra." 
"Mais um génio da gestão incompreendido neste país. Mais uma empresa nacional que não vai conquistar a Europa, a Ásia e o ciberespaço porque os pobres que aqui trabalham não são capazes de acompanhar a genialidade de quem quer liderar a empresa até aos quatro cantos da falência."
"A primeira coisa que fizemos assim que chegámos ao local de desemprego foi googlar se a falta prolongada de orgasmos pode ter efeitos nocivos. A lista de maleitas é infinita. Isto está a tornar-se um caso clínico crónico. Tem de haver uma droga legal para este tipo de doença. Se não há, o que é que as farmacêuticas andam a investigar? Imagina tomares uma pastilha e a seguir começares a orgasmar. É a ideia do milénio, só pode.
   Devíamos ter ido para Farmácia, devíamos não ter chumbado a Físico-Química por faltas, devíamos ter sido avisadas de que quem se balda à escola ou vai para ministro ou então está fodido."
 
 
Pontuação: 8.9/10
 
 
Gonçalo Martins de Matos

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

"A Mulher de Trinta Anos", de Honoré de Balzac

   Honoré de Balzac é considerado o pai do Realismo na literatura e é conhecido pelas suas reflexões psicológicas acutilantes. A sua obra maior, a Comédia Humana, é composta pelo conjunto dos seus romances, que constituem uma extensa análise dos diversos aspetos da sociedade francesa oitocentista. Sabendo isto de antemão, a leitura deste romance de Balzac revelou-se uma profunda desilusão. 
   A história prende-se com Julie de Chastillon, jovem mulher apaixonada pelo seu futuro marido, Victor d'Aiglemont, um homem banalmente medíocre. O pai de Julie avisa-a contra a sua tolice, mas ela não lhe liga, uma vez que apenas o seu romance lhe interessa. Algum tempo de um casamento falhado e da descoberta da fatal verdade de que o seu pai lhe avisara, Julie desenvolve um amor platónico por Lord Arthur Grenville. Saltando novamente uns anos, vemos uma Julie de trinta anos, completamente desiludida e desamparada na sua vida, apenas os seus deveres de mãe e a pressão da sociedade a impedindo de terminar com a sua vida. Conhece nesta altura da sua vida Charles de Vandenesse, jovem diplomata com quem estabelece uma relação de confidência. Saltando ainda mais um pedaço de tempo, agora observamos histórias fatalistas que assombram a existência já miserável de Julie, para além das vidas dos restantes membros da família d'Aiglemont. Por fim, no final da sua vida, Julie reflete sobre a sua vida marcada pela dor e sobre o papel da mulher na sociedade e, acima de tudo, no casamento. 
   Pende sobre a narrativa um exacerbado fatalismo. Um dos piores aspetos do romance prende-se com este dramatismo fatalista que sufoca a ação dos personagens. Nenhum personagem neste romance é natural, todos agem condicionados pela fatalidade, o que confere à narrativa um desgaste prematuro. A estrutura do romance é ainda outro ponto negativo. O romance trata-se de uma manta de retalhos de episódios de si já disparatados  cosidos uns aos outros para formarem o volume de um livro. Neste aspeto, os estudiosos da obra balzaquiana são unânimes, com Pierre Barbéri, escritor e crítico literário francês, catalogando este romance como "um dos pior construídos, mais indesejáveis e pior escritos" do autor, acrescentando o professor e tradutor húngaro-brasileiro Paulo Rónai que "esse conjunto de seis episódios disparatados, mal reunidos entre si e rematados por uma conclusão melodramática, é mais apropriado a enfastiar o leitor do que a fazê-lo procurar outras obras do romancista." Não são credenciais muito lisonjeiras para um romance. Não deixa de ser uma decisão no mínimo estranha a da coleção "Ler Faz Bem" de selecionar este de todos os outros de Balzac, claramente bem melhores para dar a conhecer o autor. Mesmo um dos pontos mais fortes de Balzac, que são as suas observações psicológicas, não se revelam neste romance, as poucas que há sendo superficiais e demasiado melodramáticas. Não é de todo um bom romance para se conhecer um autor que é descrito como um grande escritor. Fica a esperança de que obras futuras de Balzac se elevem bem acima deste nível, e que A Mulher de Trinta Anos tenha constituído uma necessidade do autor em forçar a sua publicação, mais do que vontade sua. Mas também nos deixa desconfiados das próximas obras do autor, porque Balzac historicamente viveu em constantes problemas financeiros, pelo que qualquer outra pode ter sido publicada como necessidade também. É uma péssima experiência de leitura. É deste romance que surge o termo balzaquiano associado à beleza da mulher madura, que é um pormenor insignificante mas que não deixa de ser curioso. Nem a crítica que o autor deseja fazer à imposição da sociedade à mulher de uma ditadura matrimonial inevitável consegue vingar, perdendo-se no meio da confusão fatalista da narrativa. 
   Portanto, uma péssima experiência de leitura que não recomendaria a ninguém. No entanto, não desistirei para já de Balzac, uma vez que ser apelidado de pai do realismo e de acutilante observador psicológico promete boas experiências de leitura nos seus pontos mais altos.

Citações:
"Desde que regressara de Touraine, a sua saúde debilitara-se cada vez mais e a vida parecia ser-lhe marcada pelo sofrimento; sofrimento elegante de resto, doença quase voluptuosa na aparência, e que podia passar aos olhos de pessoas superficiais por uma fantasia de mulher afetada."
"Uma tarde os dois enamorados estavam sós, sentados perto um do outro, contemplando uma das mais belas fases do firmamento, um destes céus puros em que os últimos raios do sol lançam cores ténues de ouro e púpura. Neste momento do dia as lentas diminuições da luz parecem despertar suaves sentimentos, as nossas paixões vibram ternamente e saboreamos as perturbações de não sei que violência depois da calma."
"A cor carregada da abóbada chegava, por insensíveis graduações, a confundir-se com a das águas azuladas, marcando o ponto de encontro por uma linha cuja claridade cintilava tão vivamente como a das estrelas."


Pontuação: 3.7/10


Gonçalo Martins de Matos

domingo, 30 de agosto de 2020

"Os Livros que Devoraram o meu Pai", de Afonso Cruz

   Os Livros que Devoraram o meu Pai é uma das várias incursões de Afonso Cruz na literatura infanto-juvenil, meio onde o autor também produz obras marcantes. Esta é indubitavelmente uma delas.
    Quem nos conta a história é Elias Bonfim. Começa por nos apresentar o seu pai, Vivaldo Bonfim, escriturário entediado com um mundo do trabalho sem literatura. Um dia, Vivaldo desaparece dentro das páginas de A Ilha do Dr. Moreau, de H.G. Wells. Então, Elias, recebendo da sua avó acesso ao sótão onde o seu pai guardava os seus livros, decide encetar numa busca pelo seu pai, através da leitura dos livros do seu pai. Paralelamente, conta a sua própria vivência na escola, com o seu amigo Bombo, assim chamado por ser muito gordo, e pela sua paixão por Beatriz, por quem Bombo também sente uma paixão, e da sua dificuldade em viver num mundo em que coisas simples como chegar a horas ao jantar se sobrepõem à leitura e à literatura. Nas suas leituras são vários os diálogos que Elias tem com diversos personagens das diversas histórias que lê, em busca do seu pai, personagens como Mr. Hyde (de O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde), Mr. Prendick (de A Ilha do Dr. Moreau) ou Raskolnikov (de Crime e Castigo). 
   Toda a história é uma grande viagem pelo mundo da literatura e pelo amor pela leitura. Como nos seus romances, a escrita de Afonso Cruz é muito simplista mas carregada de filosofia e humanismo. As indagações de Elias Bonfim sobre a leitura, o amor, as relações familiares, o bem e o lado escondido do ser humano complementam a história que ele narra sobre as suas incursões dentro dos livros do seu pai. Os personagens literários com quem Elias dialoga são representações dos temas fundamentais que o seu relato aborda. Apesar de este livro de Afonso Cruz não possuir das suas belíssimas ilustrações, não deixa de ter um mínimo da sua característica plasticidade artística. Nomeadamente, o uso de um tamanho de letra maior em frases esporádicas para enfatizar ou destacar o que está a ser descrito, para além de uma página onde aparecem diversos nomes de grandes escritores na vertical, como se estivéssemos a ver efetivamente a estante de Elias. Pontuam também a história várias parábolas chinesas, quer contadas por Bombo, que as aprecia muito, quer introduzidas por um dos diversos personagens da literatura que povoam este livro, sobre os temas fundamentais abordados pela narração. Resta dizer que este livro foi vencedor do Prémio Literário Maria Rosa Colaço para literatura infanto-juvenil em 2009.
   Trata-se de um livro juvenil muito interessante que nos apaixona pela leitura através da sua viagem por alguns clássicos intemporais aliada a situações tematicamente correspondentes da vida real. É um livro recomendado para qualquer jovem leitor que esteja a descobrir o maravilhoso mundo da leitura.
 
Citações:
"O meu pai só pensava em livros (livros e mais livros!), mas a vida não era da mesma opinião, a vida dele pensava noutras coisas, andava distraída, e ele teve de se empregar. A vida, muitas vezes, não tem consideração nenhuma por aquilo de que gostamos."
"Atravessar a Rússia significa percorrer onze fusos horários. Quando numa ponta do país é de dia, na outra é de noite. A Rússia é como a alma humana. Se tem um lado luminosos, é porque a outra ponta está no escuro. Somos todos feitos desta estranha mistura de fusos horários."
"Quando vemos uma bela flor num deserto, admiramo-la, mas quando passamos a vida rodeados de belas flores, não reparamos. Perdem todo o significado da individualidade, de ser único. É o preço da quantidade e, se quer saber, caro Bonfim, é o mal dos tempos. Tudo é muito, vivemos nesse reino de quantidades, rodeados de coisas para que nos esqueçamos de nós mesmos e do que se passa cá dentro."
 
 
Pontuação: 7.4/10
 
 
Gonçalo Martins de Matos

sábado, 29 de agosto de 2020

"A Jangada de Pedra", de José Saramago

  Como se verificou com O Ano da Morte de Ricardo Reis, este romance não é particularmente memorável, não deixando de configurar uma grande obra por um autor que não desilude.
   O pano de fundo deste romance é uma Península Ibérica que se separa do restante continente europeu pelos Pirenéus, começando assim uma viagem pelo Atlântico fora "em busca" de um lugar. Começa a história pelo surgimento de fendas ao longo de toda a cordilheira pirenaica, que, apesar de intrigarem os cientistas, não dão azo a preocupação por parte das autoridades. Nas cidades fronteiriças, vários sinais vão surgindo de que se prepara alguma coisa incomum, nomeadamente na cidade de Cerbère, onde todos os cães, até então calados, começaram a ladrar. No início de tudo isto está o ato de Joana Carda, uma das protagonistas, de desenhar no chão um risco com uma vara de negrilho, estabelecendo-se assim uma causalidade entre este ato e os factos descritos. Separando-se definitivamente a Península da Europa, somos introduzidos a Joaquim Sassa, que atirou uma pedra de tamanho impossível para longe no mar, José Anaiço, que é perseguido para todo o lado por um enorme bando de estorninhos, e Pedro Orce, que afirma sentir a terra tremer debaixo dos seus pés, mesmo que mais ninguém o sinta, os primeiros em Portugal e o segundo em Espanha. Ouvindo falar de um homem perseguido por um bando de estorninhos, Joaquim Sassa decide procurá-lo, viajando no seu carro, Dois Cavalos. Ambos partem então em busca de Pedro Orce. Os três viajam juntos, apenas impelidos pela sensação de que assim tem de ser, que os acontecimentos bizarros que lhes aconteceram estão ligados à separação da Península. Em Lisboa, encontram Joana Carda, que lhes relata o seu episódio com a vara de negrilho, juntando-se então ao grupo, para lhes mostrar o risco que desenhara no chão, passando ela e José Anaiço a estar juntos. Surgindo um cão escuro com um fio de linho azul na boca no local onde se encontra o risco, que eles têm a sensação de querer que o sigam, este guia-os até a casa de Maria Guavaira, viúva, a quem se liga Joaquim Sassa através do fio de linho azul que o cão transportava. Partem então os cinco, mais o cão e dois cavalos, que puxam a galera que os transporta, para o "fim do mundo", os Pirenéus, onde sentem que devem rumar e onde desejam ver o mar do alto das montanhas. Pelo meio, vamos observando a resposta da Europa e do resto do mundo a um insólito como este, assim como ás reações dos portugueses e dos espanhóis à situação em que se encontram. Seguimos também as viagens internas dos protagonistas à medida que vão efetuando a sua viagem física. 
   Este romance de José Saramago é saído de uma das suas convicções mais fortes, que é a identidade ibérica que devia unir os dois povos da Península. A metáfora de a Península Ibérica se separar do resto da Europa e de, por força disso, ter de trabalhar em conjunto para minimizar as implicações de tal acontecimento é mais uma prova do génio efabulador de Saramago, juntando-se a uma grande galeria de metáforas excecionais criadas pelo Nobel português. A história que vai acontecendo quase se subalterniza à mensagem que o autor quer passar, parecendo que a viagem dos protagonistas é apenas uma desculpa para poder encetar na sua análise. O marcante sarcasmo do autor não deixa de se revelar neste romance, como se revela nos outros, assim como a sua utilização liberal da pontuação e a marcante oralidade da sua narração, que são pontos fulcrais da obra saramaguiana. No entanto, fora estas vertentes essenciais, este romance não tem, verdadeiramente, muito mais que seja marcante. O que é verdadeiramente marcante neste romance é a descrição dos recantos da península Ibérica por onde passam os protagonistas e a metáfora principal do autor, da não pertença cultural da Península a uma identidade europeia, antes a uma identidade ibérica conjunta. Outro ponto que é sempre favorável é o vernáculo popular empregue por Saramago nas suas narrações, o que vai, claro, de encontro ao teor oral da sua narrativa. Há também umas referências subtis a O Ano da Morte de Ricardo Reis, romance cronologicamente anterior a este, que geram um pequeno meio sorriso a quem o leu e as descortina na narrativa. 
   Reiterando o que escrevi sobre o romance anterior de Saramago, trata-se aqui de um romance saramaguiano, lúcido e que merece ser lido e apreciado, apesar dos pontos desfavoráveis que nele encontrei. 
 
Citações:
"Um dia que já lá vai, D. João o Segundo, nosso rei, perfeito de cognome e a meu ver humorista perfeito, deu a certo fidalgo uma ilha imaginária, diga-me você se sabe doutro país onde pudesse ter acontecido uma história como esta, E o fidalgo, que fez o fidalgo, foi-se ao mar à procura dela, gostaria bem que me dissessem como se pode encontrar uma ilha imaginária, A tanto não chega a minha ciência, mas esta outra ilha, a ibérica, que era península e deixou de o ser, vejo-a eu como se, com humor igual, tivesse decidido meter-se ao mar à procura dos homens imaginários"
"Desesperado, um sábio norte-americano, e dos ilustres, foi ao extremo de proclamar no convés do navio hidrográfico, contra os ventos e os horizontes, Declaro que é impossível que a península esteja a mover-se, mas um italiano, ainda que muito menos sábio, porém reforçado pelo precedente histórico e científico, murmurou, mas não tão baixo que o não ouvisse aquele providencial ser que tudo escuta, E pur si muove."
"Mas aproveitam, diriam, como aconselhou o poeta, Carpe diem, o mérito destas velhas citações latinas está em conterem um mundo de significações segundas e terceiras, sem contar com as latentes e indefinidas, que quando a gente vai a traduzir, Goza a vida, por exemplo, fica uma coisinha frouxa, insossa, que não merece sequer o esforço de a tentarmos. Por isso insistimos em dizer, Carpe diem, e sentimo-nos como deuses que tivessem decidido não ser eternos para poderem, no exacto sentido da expressão, aproveitar o tempo."
 
 
Pontuação: 6.8/10
 
 
Gonçalo Martins de Matos

sexta-feira, 10 de julho de 2020

"Autobiografia", de José Luís Peixoto

  A voz de José Luís Peixoto é uma das mais inconfundíveis e marcantes da literatura portuguesa contemporânea, e neste romance revela-se com a sua costumada força.
   Conhecemos José, protagonista desta narrativa, um jovem aspirante a escritor cuja vida em Lisboa é afogada pelas suas dívidas do jogo, o seu alcoolismo e a sua frustração com o seu inexistente segundo romance. São as inquietações deste personagem que nos irão acompanhar ao longo da narrativa. Em contraponto, acompanhamos um Saramago nos anos noventa, já auto-exilado em Lanzarote, a sua reputação já construída, ainda sem o Prémio Nobel. Entre as suas inquietações, é oferecida, pelo seu editor, a José a oportunidade de escrever uma ficção biográfica sobre Saramago. Entretanto, José conhece Lídia, mãe solteira cabo-verdiana, apaixonada por Saramago, que trabalha num mercado, até se despedir e ir trabalhar para a casa de Bartolomeu, amigo de José e reformado saudosista. Somos também apresentados a Fritz, amigo de José e dono de uma pequena livraria em Lisboa. As inquietações e os vícios de José vão sendo aos poucos atenuados pela sua convivência com Lídia, que o mantém preso à terra e lhe dá alento para que a sua preocupação seja a escrita da ficção biográfica, que se metamorfoseia na preocupação com a escrita do seu segundo romance. De Lídia conhecemos as suas preocupações quotidianas com o seu filho pequeno, mais para a frente sendo-nos apresentado aos poucos o seu passado e as suas saudades de casa. De Fritz, acompanhamos a sua vontade de fazer as pazes com o passado, com o reencontro com o seu pai. Em torno destes três pilares principais rodam outros personagens e outras preocupações, mas todas elas parecendo ter um aspeto em comum: José Saramago. Seguimos, então, estas histórias que se cruzam em direção a um final poético e esperançado, almejando ao melhor que o futuro poderá trazer. Até lá, ainda muitas surpresas e reviravoltas se escondem à espreita, aguardando que nelas caiamos, inadvertidos. 
   Este romance é, como outras obras de José Luís Peixoto, uma obra de grande fôlego literário. A premissa de tornar José Saramago em personagem de um romance é muito interessante, e o autor não desilude no tratamento que lhe dá. Mantém sempre o domínio da prosa, e as linhas que desfia tornam a juntar-se magistralmente no final, sem nunca se desviarem dos seus rumos. Como noutras obras do autor, a metaliteratura e a metalinguagem fazem a sua aparição quando necessárias, aqui não se imiscuindo demasiado na histórias, mas essenciais a um romance que interliga um José desconhecido com um Saramago conhecido. O título Autobiografia associado ao conteúdo do romance levam-nos para campos de metalinguagem que José Luís Peixoto se tornou especialista em explorar. Não deixa de ser curioso como consegue ser estabelecida uma ligação, direta e flagrante ou indireta e ténue, entre as vidas dos protagonistas e Saramago, uma ligação que, quando não é pessoal, sente-se como pessoal através do ato da leitura. Não posso, infelizmente, explorar mais o lado meta deste romance, com receio de que sejam feitas revelações indesejadas. Mas espero que, dito isto, tenha despertado o interesse. Além das personagens principais, temos uma galeria inusitada e curiosa de personagens. Muitos nomes e locais do romance são referências a nomes e locais dos romances do próprio Saramago, mais um exemplo da metaliteratura presente neste romance. Ainda sobre esta metaliteratura, a estrutura e a premissa so romance são uma homenagem ao Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, uma vez que ambos transformam uma figura maior da nossa literatura em personagem de romance. Os laços familiares e o passado são muito relevantes ao longo de todo o romance. Quer os laços fortes como os laços estranhos. A ligação de José, Fritz e Saramago aos seus pais é um eco da conhecida orfandade paterna do autor, uma ligação agridoce, de amor filial e, ao mesmo tempo, de dúvida e angústia. Já a ligação do Saramago real aos seus avós é homenageada aqui na ligação de Lídia à sua avó, longe em Cabo Verde mas sempre presente. Um pormenor muito interessante neste romance é a inclusão de alguns capítulos que reproduzem as anotações de José no seu caderno sobre a evolução da ficção biográfica, que, como foi dito, se vai esbatendo na escrita do seu segundo romance. O fecho do romance é um reflexo simétrico do início do romance, e esse é ainda outro pormenor muito interessante na notável metalinguagem de Peixoto. 
   Recomenda-se a leitura deste romance.

Citações:
"Ao mesmo tempo, as personagens ainda mexiam no seu íntimo, revolteavam assustadas, incertas do futuro, faltava-lhes palavras, começavam a desfazer-se; também por isso, o escritor precisava de mais algum tempo a sós com elas, precisava de acudir a essa aflição; e agora?, e agora?, indagavam as personagens sem parança. Era necessário tempo para explicar-lhes que agora a sua vida começaria de facto."
"E, não se sabe de que memória ou invenção, de Saramago com trinta anos ou deste narrador anónimo, não se sabe de onde surgiu a imagem de um balão de criança, a mão a abrir-se e a soltar o cordel, o balão a subir ao céu e, lá no alto, a ser levado pelo vento, cada vez mais longe, a cor ainda a distinguir-se, pequeno ponto, mas a dor terrível de todo o céu ao seu dispor, como todo o esquecimento, todo o abandono."
"A mesma pessoa sabia e não sabia, tal como está a acontecer aqui. Poucas personagens tentam conhecer o título do romance a que pertencem. Até se forem capazes de intuí-lo, até se passarem longos capítulos a imaginá-lo, parágrafos enormes nunca são capazes de ter a certeza absoluta. No entanto, quem escreve o romance avaliou o título de vários prismas, quem o lê parte desse enunciado."


Pontuação: 9/10


Gonçalo Martins de Matos

sexta-feira, 22 de maio de 2020

"Azul-Turquesa", de Jacinto Lucas Pires

   Este romance de Jacinto Lucas Pires é daqueles livros que sempre vimos na estante dos nossos pais, e que chega o dia em que pensamos é desta e decidimos ler. 
   Azul-Turquesa segue os dias das vidas de José e Maria, individualmente até ao momento em que se cruzarão. José, professor de Matemática recentemente divorciado, passa muito do seu tempo no apartamento de um amigo ou simplesmente passeando pelas ruas de Lisboa, admirando as particularidades da vida de das vidas na capital. Maria escreve para uma revista, e pontua a sua parte da história com a demorada redação de uma peça sobre a mulher portuguesa e a sua rotina de passeio comercial no percurso casa-trabalho e trabalho-casa. Entre estas duas vidas inúmeras outras revelam pedaços de si nas páginas deste romance, sendo-nos oferecida uma recheada galeria de figurantes que podem reaparecer umas páginas à frente ou simplesmente uma vez. As vidas de José e Maria entrecruzam-se perto do final do romance, e as suas experiências peculiares darão origem a um final insólito e inesperado. 
   Jacinto Lucas Pires classificou este romance como sendo o equivalente a visualizar um filme numa sala de cinema. O estilo deste romance dá precisamente essa sensação. Ao longo de todo o romance assistimos a uma colagem de cenas que se sucedem, cada uma com a sua geografia e figurantes específicos. O tom do romance é caricato, pois algumas das situações que se colocam, mais a José do que a Maria, são tão insólitas quanto inesperadas. À parte da intriga principal, as vidas paralelas de José e Maria até ao seu inevitável encontro, as existências dos restantes figurantes tomam a rédea secundária da narração, alterando a paisagem com as suas afirmações e ações. São inúmeros os locais que estas figuras habitam, todos eles possuindo um mínimo descritivo que nos permite visualizar precisamente o tipo de cena que o narrador nos transmite. Não tenho muito mais para dizer, curiosamente. Não se passa neste romance muito mais para além do que foi escrito. No entanto, este romance não é de todo desinteressante ou mau, é muito bem estruturado e tem uma linguagem pragmática, fazendo eco do estilo cinematográfico do romance. É um romance de ver.
   Posso afirmar que esta é uma leitura ligeira que entreterá os seus leitores, que é no fundo o objetivo deste pequeno e interessante romance. 

Citações:
"Detrás do balcão um homem de cabelo comprido, loiro, levemente ondulado, com um bigode e uma pêra muito delicados, parecendo um pouco um mosqueteiro, talvez o Aramis, levanta a cebeça quando o rapaz entra."
"Fecha a porta de vidro da entrada Maria, e depois anda até à esquina. Ao ver um táxi, levanta o braço. O carro, porém, não pára. Antes pelo contrário, acelera, amarelo, para passar o semáforo, vermelho, e Maria olha para o meio da avenida. Junto do candeeiro que não é bem um tê nem bem um i grego, os dois rapazes da prosa, da poesia e dos equipamentos de futebol correm sem sair do lugar."
"E continua a sorrir no elevador. Depois abre a porta de vidro da entrada e sai. Do lado de cá da estrada, grita para o homem de de gabardina «eu chamo-me Maria», e ele, «eu chamo-me José». Ela então repete «José...», e ele diz »até calha bem», e os carros vão passando, passando."


Pontuação: 6.5/10


Gonçalo Martins de Matos