sábado, 7 de agosto de 2021

"A um Deus Desconhecido", de John Steinbeck

   John Steinbeck é considerado um dos gigantes da literatura norte-americana, sendo reconhecido por empregar um estilo marcadamente alegórico nas suas obras. A um Deus Desconhecido, logo pelo nome, promete esse cariz alegórico típico do autor.
   Joseph Wayne, o terceiro dos quatro filhos de John Wayne, pede a bênção do seu pai para poder emigrar e estabelecer-se no Oeste. Este concede-lha, e é assim que Joseph se estabelece no Vale de Nuestra Señora. Após a morte de John Wayne, os restantes irmãos, acompanhados das respetivas esposas e prole, mudam-se para o terreno, construindo um rancho comunitário, com Joseph como patriarca. No coração do rancho dos Wayne encontra-se um grande e velho carvalho, que Joseph acredita encarnar o espírito do seu falecido pai. Por isso mesmo, Joseph vai-se dedicando à grande árvore, o que parece resultar na prosperidade do rancho. É em Nuestra Señora que Joseph conhece Elizabeth McGregor, com quem acabaria por casar, mudando-se esta também para o rancho. No entanto, Burton Wayne, muito religioso, sente-se assustado com as crenças que o seu irmão aparenta demonstrar, pelo que, depois de o avisar repetidamente para reencontrar o caminho de Deus, decide cortar a árvore, que resulta no fim da prosperidade da quinta e numa onda de doença, seca e morte que se abate sobre o rancho. 
   Como seria de esperar, a alegoria preenche as páginas deste romance. A crença, a fé, a religião e a esperança encontram nos personagens e nos locais deste romance as suas manifestações "terrenas". Todo o ambiente do romance é dotado de um misticismo e de um certo paganismo que nos levam a refletir sobre a simbiose que deveria existir entre o Homem e a Natureza e sobre como, confrontado com uma Grandeza superior a si, o ser humano apenas consegue recear, antes de aceitar. É também aberto espaço à reflexão sobre o papel da religião na crença humana e sobre os efeitos adversos da cegueira religiosa no ambiente humano. A comunhão que Thomas, outro irmão de Joseph, e este sentem com os animais e a natureza contrasta com o fervor religioso desestabilizador que Burton exprime. Em termos descritivos, o romance contém relatos completos das paisagens do Oeste norte-americano, repletas do tique pagão que povoa as páginas do livro. 
   
Citações:
"O outono aproximava-se enevoado, tornando o céu cinzento. Enormes nuvens, fofas como algodão, corriam todos os dias do oceano e detinham-se um bocado sobre os cumes das colinas, para depois se retirarem outra vez para o mar, como navios celestes de reconhecimento."
"Começaram a cantarolar baixinho, em notas fora de compasso. O tom elevou-se.Cada vez mais vozes seguiam o ritmo. Grupos inteiros balançavam-se na apinhada pista de dança. O zumbido das vozes cresceu tornando-se profundo e vibrante, em vez dos risos e piadas gritadas iniciais (...). Os dançarinos perdiam a sua identidade. Os rostos assumiam um aspeto enlevado, os ombros descaíam-lhes ligeiramente para a frente, cada pessoa se transformava numa parte de todo um corpo dançante e a alma desse corpo era o ritmo."
"Joseph começou a recordar-se de como galopara em certa noite escura, atirando com o chapéu e a chibata para longe, para preservar um bom momento entre muitos outros. E de como estavam verdes e espessos os arbustos, debaixo das árvores, como as ervas das colinas se curvavam ao peso das sementes que continham; como os outeiros se encontravam pesadamente revestidos, parecendo raposas. Agora eram glabras; uma embaixada dos desertos do sul procurava terras para a futura expansão do império dos desertos."


Pontuação: 6.5/10


Gonçalo Martins de Matos

sábado, 20 de março de 2021

"Princípio de Karenina", de Afonso Cruz

    Afonso Cruz é, sem sombra de dúvida, um grande efabulador e uma voz narrativa ímpar no panorama literário português contemporâneo. 
   Neste romance, um pai confessa, em estilo epistolar, a uma filha que condições nas suas vidas os impediram de se encontrar e como a sua vida sempre o forçou a trilhar esse caminho. Filho de um pai severo, amedrontado com o mundo exterior e com o estrangeiro, o narrador sempre cresceu num ambiente hostil à descoberta e à novidade, refém dos estritos parâmetros éticos com que o seu pai desenhava o mundo. Apesar de a mãe do narrador ser uma presença apaziguadora e mais leve, o peso do exemplo paterno tem muita influência no crescimento do narrador. Um peso que não chega a abandoná-lo para o resto da sua vida. Após a morte do seu pai, o narrador decide substitui-lo na sua visão fechada do mundo, adotando muitos dos seus  comportamentos prejudiciais. Sem se aperceber viver rodeado pela novidade e pelo estrangeiro, o narrador vive uma vida estremunhada de casado sem amor e de bloco inamovível. Isto até entrar na sua vida uma estrangeira, a mãe da sua filha, uma vietnamita refugiada em Portugal, fugida da guerra e do terror vividos nessa nação asiática na altura da Guerra Fria. Empurrado para fora da sua toca de conforto e de estreiteza moral, os muros que o narrador construíra são abalados e aos poucos irão desabar. No momento da sua confissão, no final do seu percurso, o narrador reflete sobre a importância da aceitação da imperfeição como componente essencial da perfeição do mundo. Redimido, enfim, prossegue para o seu final arrebatador, em paz com a sua vida e com a estranheza do mundo.
   Composto num estilo próximo do epistolar, os vários capítulos que compõem o romance  correspondem a breves confissões e reflexões na primeira pessoa sobre os acontecimentos passados que levariam até ao momento em que o narrador escrevia. Dividido em cinco partes, que correspondem sensivelmente aos cinco momentos marcantes da sua vida que o levaram a abrir-se para a complexidade do mundo. A imperfeição como parte integrante da perfeição é um dos temas centrais deste romance, materializado desde logo no facto de o narrador ser coxo, devido a uma deformação no seu pá. Contrariamente a muitos livros anteriores do autor, este não vem acompanhado de desenhos da sua autoria ou de utilizações plásticas da sua estrutura. Vem acompanhado de cinco fotografias, que surgem nas divisões entre as partes da narrativa, idênticas à que constitui a capa. O mais curioso é que, juntando todas as fotografias, desde a capa até à última, vemos surgir perante nós uma ideia de movimento, de sequência, o que é um pormenor muito interessante atendendo ao conteúdo da obra. As metáforas e as imagens invocados pelo narrador para enquadrar as suas descobertas e as suas crenças são solidamente aplicados, desde a sua própria deformidade até à medição (na sua infância) da distância por phobos (medos) e não por metros. A metatextualidade da invocação do princípio do romance Anna Karenina para se referir ao paradoxo da felicidade do mundo é também um aspeto muito cativante desta leitura. Também tem destaque a erudição do vernáculo empregue na obra. Um dos aspetos fortes da obra global de Afonso Cruz é sem dúvida o seu desarmante humanismo, que neste romance também marca forte presença: a importância do outro, as relações familiares e afetivas, a amizade são sempre temas fundamentais da sua escrita. 
   Mais uma sólida maravilha literária de um notável humanista

Citações: 
"As que eu mais gostava de trepar eram figueiras. O motivo para isso é muito simples: são as que dão os melhores frutos, aqueles que se diz que é preciso abrir em quatro como se fossem pétalas de uma flor (na verdade, os figos são literalmente flores que crescem para dentro), sorver o interior. É assim que se come um figo: encostar os nossos lábios à sua carne, devorar de uma vez o suco, a matéria, a ferida, era qualquer coisa assim que dizia o manual de instruções que li mais tarde, um poema de D. H. Lawrence."
"A felicidade é um estado especial que só pode existir se incluir no seu seio uma certa dose de infelicidade, por muito paradoxal que possa parecer. Sem desequilíbrio, nada se move. Um círculo está em constante desequilíbrio. É bom para fazer andar os carros. Os quadrados não têm essa possibilidade. Já estão bem assim, sentados à lareira, a sublinhar a sua hombridade, a sua estrutura sólida." 
"Chegamos à conclusão de que as pessoas são más e de que nada vale a pena. Ou talvez cheguemos à conclusão de que tudo vale a pena. Eu acho que as pessoas não são más nem boas, são como tudo o resto. As pessoas são como o vento, como a chuva, como o mar. Por vezes, o mar põe-nos um peixe no prato, outras, entra pela terra adentro e mata aos milhares." 
 
 
Pontuação: 9.5/10 
 
 
Gonçalo Martins de Matos

segunda-feira, 8 de março de 2021

"A Melhor Máquina Viva", de José Gardeazabal

   Foi com relativa solidez que José Gardeazabal se introduziu no mundo literário português, com as sua premiada obra poética história do século vinte (obra vencedora do Prémio INCM/Vasco Graça Moura 2015) e, em 2018, com o seu primeiro romance, Meio homem, metade baleia. A melhor máquina viva é o seu segundo romance e o primeiro da Trilogia dos Pares
    Anders Kopf é um aspirante a escritor que decide viver na pobreza durante um ano, de forma a poder escapar a um passado doloroso e, pelo caminho, melhorar a sua literatura. Eeva Wiseman é uma jovem e bela capitalista, herdeira do matadouro da sua família. Ambos são órfãos e ambos conhecem, nos seus passados, a dor. As linhas que unem os dois protagonistas são comuns e paralelas. Kopf recorda o seu passado, com toda a dor e todo o crime, enquanto sobrevive na pobreza do presente, partilhando roubos, injustiças e escassas refeições com a galeria de pobres que o acompanha. Por sua vez, Eeva recorda igualmente o seu passado, enquanto tenta lidar com a presença da dor de então na vida do presente. Pelo meio, pensa na modernidade e no que significa ser-se órfã, capitalista e mulher num mundo cada vez mais modernizado e global. Das peripécias de Kopf, das reflexões de Eeva e do desfiar das linhas do passado, quer de Kopf pelas suas palavras, quer de Eeva, pelas suas questões, resultará uma reflexão conjunta sobre o passado e o presente, sobre o nosso papel real na grande mecânica dos eventos e também sobre o significado da pobreza num século pós-moderno. 
   Expondo desde logo o aspeto menos positivo do romance, o ritmo e a cadência são, a certa altura, entediantes, com as sucessões de frases fragmentárias a não saberem resolver ou simplesmente atrapalhando-se umas às outras. Curiosamente, tal leva a que um dos aspetos fortes deste romance corresponda a um dos seus aspetos menos positivos. Ainda neste ponto, esta arritmia levou a que pairasse, por vezes, uma capa de pedantismo sobre a narrativa, o que também contribuiu negativamente para o romance no todo. Ultrapassadas estas questões, passemos aos aspetos positivos. A linguagem de José Gardeazabal é fragmentária e reflexiva, imperando o fluxo de consciência. Não é exageradamente descritivo nem desmesuradamente cru, equilibra-se num ponto periclitante entre a frieza científica e a emotividade literária (à semelhança de autores como Gonçalo M. Tavares - de quem Gardeazabal é irmão, curiosamente). A reflexividade poética que distingue a poesia de Gardeazabal nota-se na linguagem empregue na narração, nomeadamente no enfoque na influência do século XX nas vidas contemporâneas. Anders e Eeva são símbolos desta temática, um representando o passado e a sua influência constante no presenta, a outra representando a inevitabilidade do avanço do tempo sobre o passado. 
   Trata-se este de uma leitura pós-modernista interessante.
 
 Citações: 
"Pobreza: navio lento, emigração para um continente novo, por motivos materiais. Chora, Kopf!, pensava Kopf, mas as lágrimas não vinham. Pobreza: ânimo, sentimento, modo de vida, com o tempo uma técnica. Aqueles eram os pobres que ficam. As crises iam e vinham, financeiras, mas aqueles não eram pobres financeiros, eram os pobres bíblicos, os constantes. Pobres permanentes."
"Aproveitar cada minuto livre para escrever às escondidas. Porque dizemos cada minuto livre e não cada hora, cada segundo, quando falamos de escrever às escondidas? Kopf queria fazer ouvir a sua voz de autor. Finalizar um livro sobre toda a humanidade, curto, e outro sobre o interminável sofrimento humano, dois livros curtos. Aceitar a contaminação do real, ouvira isto."
"O tempo das fábricas passou, o tempo da moral laica, das mortandades. Passou a fé elétrica na energia, nos melhoramentos, a fé dos matadouros. A televisão, os livros infantis, coloridos, os fins cinematográficos, as viagens e os roubos intercontinentais, todos passaram. Os nossos movimentos resumem-se agora a uma festa violenta onde os melhores animais se aniquilam organizados por tribos, na floresta, ferozmente desanimados pelo desaparecimento dos antigos deuses."


Pontuação: 6.7/10


Gonçalo Martins de Matos

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

"os transparentes", de Ondjaki

    Abrir as portas do universo literário lusófono é entrar num universo multilicultural pleno de histórias, filosofias e modos de viver diferentes e variados, todos conectados pela maravilhosa força da nossa língua comum. Quanto mais descobrimos os autores de expressão lusófona, mais se abre a nossa visão e a nossa empatia. É com estas impressões em mente que tenho encetado na descoberta destes autores lusófonos. Em os transparentes mergulhamos nesse universo de infinitas diversidades que se ramificam do tronco da língua portuguesa. 
   Num prédio em Luanda habita um grupo de pessoas cujas histórias particulares se confundem com a sua vivência comum nos corredores do seu prédio. Na entrada deste prédio existe uma fonte de águas frescas, reparadoras e acolhedoras, que ninguém sabe muito bem de onde vêm, mas que já fazem parte das suas vidas. Habita neste prédio um leque muito colorido de personagens, de quem conhecemos as suas frustrações e ambições. Odonato, personagem que ocupa bastante espaço narrativo, é um indivíduo comum, mas que é acometido de uma estranha doença: está, aos poucos, a ficar transparente. Mas a sua maleita não lhe ocupa muito do seu espaço emocional, uma vez que todos os que o rodeiam merecem mais a sua atenção. Com Odonato vivem a sua mulher, Xilisbaba, a mãe desta, AvóKunjikise, e a sua filha Amarelinha. O filho de Odonato e de Xilisbaba, CienteDoGrã, não habita na mesma casa, uma vez que vive a sua vida cometendo furtos, modo de vida que os seus pais não aprovam. No prédio conhecemos ainda outros personagens como JoãoDevagar, Paizinho, Edú e a sua esposa Nelucha, MariaComForça, o CamaradaMudo, entre outros que vivem os seus quotidianos entrelaçados com o de Odonato e a sua família. De fora do prédio conhecemos ainda outros personagens, com as suas batalhas mundanas e os seus problemas comuns. Conhecemos o VendedorDeConchas e o seu amigo Cego, conhecemos PauloPausado, jornalista, e a sua mulher Clara, Raago e DavideAirosa, dois cientistas, um americano e o outro angolano, ou o Carteiro, empenhado em que o Governo lhe dê uma mota para que melhor possa cumprir a sua missão. Também conhecemos aqueles a quem a vida parece mais facilitada, os próprios membros do Governo, como o Assessor ou o Ministro, o grande empresário DomCristalino, e os dois fiscais DestaVez e DaOutra. Mais personagens ainda compõem esta colorida galeria de intervenientes da vida luandense, todos interligando-se a certo ponto na teia de relações que é tecida pela vida simultaneamente pacata e difícil em Luanda. 
    Neste romance não existem personagens principais. Ninguém tem mais relevância que o próximo, apenas ocupam mais ou menos espaço da narrativa. Ondjaki afirma diversas vezes que o personagem principal dos seus romances é Luanda, e neste nota-se bem essa característica. Seja qual for a vida que acompanhamos, Luanda é sempre o elemento comum, sempre presente, seja em que situação for. Existe uma batalha simbólica que percorre o romance, que é a frescura, a água, e o calor, o fogo. Por vezes esta batalha é evidente, como quando as pessoas se banham nas águas do prédio para combater o calor; outras vezes, esta batalha é subtil, como o nome do café BarDoNoé e a sua promessa de frescura contra o calor luandense. Um dos aspetos mais fascinantes deste romance é o seu uso da linguagem corrente angolana, a mistura entre o português e o kimbundu, um dialeto típico angolano. O romance faz-se acompanhar de um pequeno glossário no final, no qual se apresentam algumas das palavras em kimbundu para que possamos apreciar ainda melhor essa experiência de ouvir a Luanda de hoje. É também muito curiosa a forma como o autor utiliza e quebra os parágrafos. Ondjaki escreve os seus parágrafos todos em minúsculas, quebrando-os sem pontos finais, o que gera uma fluidez de escrita equiparável à fluidez do pensamento, sem que estejamos a falar exatamente da técnica de fluxo de consciência. Os únicos pontos finais são encontrados apenas no final de cada capítulo. Os capítulos em si estão divididos por uma ou duas páginas pintadas de preto, na qual estão escritas a letras brancas algumas frases ou pensamentos do autor ou dos personagens, que podem ou não relacionar-se com o que se desenvolveu até aí. Existe uma nota de bom humor no romance, quer na forma como os personagens se relacionam e vivem as suas vidas, quer na própria narração. A escrita do autor é tão humana como é criativa, as histórias mais inverosímeis que habitam as páginas deste romance são, igualmente, as mais verdadeiras. É uma escrita verdadeiramente poética na sua força emotiva e na sua amplitude semântica.
   Não resta mais do que recomendar vivamente a leitura deste romance. 
 
Citações:
"as línguas e as labaredas do inferno distendido numa caminhada visceral de animal cansado, redondo e resoluto, fugindo ao caçador na vontade renovada de ir mais longe, de queimar mais, de causar mais ardor e, exausto, buscar a queima de corpos em perda de ritmia humana, harmonia respirada, mãos que acariciavam cabelos e crânios alegres numa cidade onde, durante séculos, o amor tinha descoberto, entre brumas de brutalidade,
   um ou outro coração para habitar"
"comprar pão, sabia-se no prédio, podia querer dizer muita coisa, até porque, pão mesmo, desse de se fazer à noite com o forno e sal, havia em toda a parte, ir buscar pão era outra coisa, matéria de profunda filosofia, ocupação de teor ocioso e criativo, justificação tanto profissional quanto humana para erráticas movimentações urbanas"
"o que nalguns países é um lar, composto por uma determinada combinação de objetos e possibilidades, em outro pode não ser bem assim, uma vez que, humanamente, nos mais variados continentes, é a força do hábito que dita as circunstâncias que cada cidadão acata como aceitáveis, coletivamente insuportáveis ou democraticamente justas"
 
 
Pontuação: 9.3/10
 
 
Gonçalo Martins de Matos

terça-feira, 13 de outubro de 2020

"Homem na Escuridão", de Paul Auster

   Paul Auster é considerado como um dos grandes romancistas dos Estados Unidos da América, sendo a sua voz narrativa apontada como uma das mais inconfundíveis das letras americanas. Existe também uma recorrência temática nas obras do autor, o que leva a que uma crítica da Kirkus Reviews classifique este Homem na Escuridão como "um doloroso somatório de todos os seus livros". 
   August Brill, um crítico literário reformado, sofre um acidente que o deixa incapacitado de andar, pelo que vai viver para casa da sua filha, Miriam, que mora sozinha desde o abandono pelo seu ex-marido. Na casa habita também Katya, neta do narrador, regressada dos seus estudos universitários para tentar recuperar da brutal perda do seu namorado, Titus. É uma casa marcada pela perda, pela dor e pelo desgosto, e August dá precisamente voz a essa angústia. Incapaz de conseguir adormecer devido ao peso dos seus fantasmas, o crítico literário conta-se a si mesmo uma história todas as noites, de forma a afastar os pensamentos intrusivos. A história que o narrador conta a si mesmo ao longo do romance é a história de Owen Brick, que certa noite tem consciência de se encontrar numa realidade diferente, na qual os Estados Unidos não entraram em guerra com Iraque, mas consigo mesmos, tendo alguns estados da União secessionado do Estado Federal, e outros formado um país completamente autónomo. Nessa realidade, é confiada a Owen Brick uma missão fundamental para acabar com esta guerra civil, que levantará ao protagonista mais questões e dúvidas do que certezas. Nos intervalos da narração desta América alternativa, Brill recorda a sua vida quotidiana, a sua vida passada, e vai construindo um retrato de três almas sofredoras, ele próprio, a filha e a neta. 
    Paul Auster é reconhecido pelas suas estruturas narrativas psicologicamente labirínticas e profundas, pelas suas reflexões simultaneamente lúgubres e auspiciosas e pelas suas autorreferêcias e meta e intertextualidade. Nunca tendo lido nada antes de Paul Auster, e sabendo agora o conteúdo e a forma dos seus romances, confesso que fiquei com muita vontade de conhecer mais obras do autor. O espaço temporal do romance é o de uma noite; o narrador, acometido por insónias, desnovela o enredo de Owen Brick de forma a afastar as suas angústias e os seus fantasmas. A característica da metatextualidade encontra na narração da história de Brick a sua maior expressão neste romance. Há muitos pormenores da vida de August Brill que encontram uma sombra sua na história que este se conta a si mesmo, nomes de personagens, locais, acontecimentos... Tal oferece-nos um vislumbre do estado da alma do narrador, e demonstra-nos os processos com que os escritores lidam com os seus fantasmas. Os Estados Unidos alternativos criados pelo narrador constituem um exercício curioso da imaginação, mas são também um eco da guerra interior e desfragmentação que este trava consigo mesmo. Intertextualmente, o narrador cita um verso de Rose Hawthorne, "Enquanto o bizarro mundo continua a girar", como o grande resumo da continuidade das vidas para além da dor, da recuperação inevitável da dor que acomete aos três habitantes da casa. Além disso, o narrador, que adora ver filmes com a sua neta, sendo ela estudante de Cinema, cita também alguns filmes que apresentam estudos sobre o preciso estado de alma em que se encontram os três. Quando Owen Brick nos é introduzido pelo narrador, este encontra-se num buraco no meio do campo, escuro e intransponível, tornando-o, à primeira vista, o Homem na Escuridão a que alude o título do romance, sendo que essa condição é uma metáfora para o verdadeiro homem na escuridão, o próprio narrador. 
   Trata-se de um sólido e profundo romance de um autor muito apreciado nas letras norte-americanas. 
 
Citações:
"A noite ainda é uma criança e, enquanto para aqui estou deitado na cama, perscrutando a escuridão, uma escuridão tão negra que nem consigo ver o tecto, ponho-me a recordar a história que comecei a noite passada. É o que eu faço quando o sono se recusa a vir. Deixo-me ficar deitado na cama e conto-me histórias. Podem não ser nada de especial, mas, enquanto estou dentro delas, impedem-me de pensar nas coisas que preferiria esquecer."
"Deixei de fumar já lá vão quinze anos, mas agora que Katya está cá em casa com os seus ubíquos American Spirits, voltei a entregar-me aos velhos e imundos prazeres, esmolando passas à minha neta enquanto mergulhamos em todo o corpus cinematográfico mundial, os dois lado a lado no sofá, duas chaminés soprando em uníssono, duas locomotivas que, no meio de grandes nuvens de fumo, deixam para trás este mundo odioso e intolerável"
"Certa tarde, almoçámos com um parente dela, um primo em segundo grau, um homem de uma distinção invulgar, já a caminho dos oitenta, um antigo editor que crescera na Bélgica e que, mais tarde, fora viver para França, uma pessoa afável e muito culta que, ao falar, usava parágrafos tão complexos quanto coerentes, como se fosse um livro vivo, um livro sob a forma de um homem."
 
 
Pontuação: 9.3/10
 
 
Gonçalo Martins de Matos

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

"Correria dos Pássaros Presos", de Ana Gil Campos

   Eis o regresso de Ana Gil Campos ao romance, três anos depois da publicação do seu terceiro livro. Desta vez em edição de autor, Ana Gil Campos cimenta a sua qualidade literária com um romance exemplarmente escrito e pertinente. 
    Cândida, após uma profunda reflexão sobre a presença social das redes sociais e da sua prevalência sobre as formas humanas de interação, decide tomar uma decisão radical e desligar-se das redes sociais. Tal ato abre-lhe as portas a percecionar os efeitos adversos que a presença das enormes quantidades de informação nas vidas das pessoas causa. Após tentativas frustradas de se habituar a uma realidade sem presença humana concreta, decide ir mais longe e, numa estadia na Capital, ouve falar de uma aldeia onde o Presidente afastou a internet através de inibidores de sinais, levando a que a aldeia se foque mais em si mesma e nas suas pessoas. De imediato toma a decisão de arrendar uma casa nessa aldeia. Na aldeia, Cândida contacta com uma realidade esquecida, de interações humanas, de empatia e de serenidade, sem a ânsia e a inquietação causadas pelo ritmo de vida da cidade. Paralelamente, vai-se espalhando pelo mundo uma pandemia, cujos sintomas consistem, entre outros, na perda da capacidade de expressão de emoções, na apatia severa e no alongamento dos polegares, efeitos adversos que são causados pelo uso excessivo de tecnologias. Até ao final da sua estadia, Cândida irá redescobrir na partilha com os habitantes da aldeia, na empatia e no sossego o fundamental da interação e da emotividade humana, refletindo profundamente sobre os malefícios emocionais do ritmo de vida exacerbado das cidades. 
   O romance é uma metáfora com toques futuristas sobre não só o estado da sociedade humana atualmente, mas também sobre a evolução, ou retrocesso, possível com esse estado atual. A escrita da autora é um deleite descritivo. As descrições que emprega são vívidas e equilibradamente sensoriais, saltando-nos das páginas para os olhos com uma força notável. O tema abordado pela autora é pertinente e acutilante, fazendo da sociedade ficcionada um eco da nossa sociedade real e atual. Os pormenores das aplicações para as pessoas se lembrarem umas das outras, dos chipes de identificação e partilha de dados, dos relógios e telemóveis inteligentes que se prendem a nós e nos hipnotizam constroem esse tal reflexo da evolução possível da sociedade na qual vivemos. Longe de ser uma distopia, a realidade que a autora nos expõe tem contornos distópicos, contornos esses que já começamos a notar nos dias de hoje. O romance divide-se em quatro partes que correspondem aos três espaços que a protagonista habita. A pandemia de incapacidade expressiva que se propaga pelo mundo é mais um pormenor muito interessante desta narrativa, sendo que a sociedade atual atravessa, de facto, uma pandemia, mas ignora a pandemia que nos assola há já alguns anos, cujos sintomas se vão intensificando cada vez mais. Os personagens que povoam esta história atingem um ponto das suas vidas em que se apercebem do que de facto está errado na realidade que conhecem, mas, tirando a protagonista e um ou outro personagem, acabam por recair na utilidade prática que o excesso de informação apresenta. 
   É um sólido romance que Ana Gil Campos nos apresenta, e que merece definitivamente a sua leitura.

Citações:
"Mas os seus olhos tão cobertos de luz fazem com que pareça cega, e a cegueira branca perante a sua própria lucidez faz com que se inquiete com esta ignorância de uma cegueira que não é sua. Sente sem saber sentir que algo não está bem, com ela, com os outros, não sabe, sente apenas uma leve irritação permanente."
"Perto dos passos distraídos da jovem, o mar galga feroz em ondas, em fúria por vidas dormentes, liberta brados sucessivos, obstinados, estendendo-se longa e velozmente até ao muro entre a praia e o passeio, em avanços e recuos, uma e outra vez, um gesto que repetirá durante dias até serenar."
"A aniversariante começa por dizer estar muito emocionada, exibindo uma folha com uma expressão de pequena lágrima a cair do olho, que não contava que os pais tivessem convidado tantas pessoas de quem ela gosta, exibindo duas folhas, uma expressão de boca aberta de admiração e outra expressão de sorriso feliz, e espera que todos se estejam a divertir tanto como ela, exibindo duas folhas, uma expressão de gargalhada e outra expressão animada com óculos de sol. Tudo isto dito sem qualquer expressão no próprio rosto, com a cara que usa sempre como uma máscara."
 
 
Pontuação: 9.6/10
 
 
Gonçalo Martins de Matos

domingo, 20 de setembro de 2020

"Maria dos Canos Serrados", de Ricardo Adolfo

   É difícil não elevar as nossas expetativas quando o autor que vamos ler vem altamente recomendado por figuras como Valter Hugo Mãe ("A nova literatura portuguesa passa obrigatoriamente por aqui") ou António Lobo Antunes ("Uma maneira de falar completamente nova na literatura portuguesa"). O resultado final é que efetivamente encontramos uma maneira nova de falar na literatura portuguesa e que, apesar de não ir propriamente de encontro às altas expetativas que tinha criado, estas não foram goradas. 
   Maria, uma jovem desbocada e "de má rês", bipolarizada no afeto e no ódio que sente pelo seu namorado gigolô, chamado de Velho, dá por si numa situação de despedimento devido ao efeito esmagador da crise e das falcatruas da chefe na empresa onde trabalhava. Assim empurrada para uma defesa surreal dos seus direitos e posto de trabalho, juntamente com os seus colegas, liderados pelo "grande líder" do sindicato, Maria dá por si a ver escapar-se-lhe qualquer hipótese de se fazer pagar das dívidas salariais devidas pela empresa. Entre as suas inquietações pela falta que o seu "Velhinho" lhe faz, as mirabolantes peripécias para resgatar a empresa e as suas próprias reflexões sobre a condição em que se encontra, Maria dá por si cada vez mais a despegar-se dos últimos resquícios do seu enquadramento numa sociedade dita organizada e decide meter mãos à obra e cobrar o que lhe é devido, a bem ou a mal. 
   Este romance é narrado na primeira pessoa, por Maria. Os capítulos são estruturados de uma forma proto-epistolar, com todos a começar com Maria dirigindo-se ao seu "Velhinho", quase sempre variando a forma como lhe dirige palavra, conforme o seu estado de espírito. São também capítulos breves, quase telegráficos por vezes, contendo as indagações da narradora ou relatando as peripécias da sua vida. Sendo narrados na primeira pessoa por uma mulher desbocada, a utilização da oralidade corriqueira e não poucas vezes grosseira é uma característica muito forte neste romance. A linguagem totalmente oral e corriqueira é brilhantemente utilizada por Ricardo Adolfo; cria mesmo a sensação de ouvirmos estes pensamentos a ser expressados pela narradora ao nosso lado. Não faltam o jargão popular, os palavrões e os neologismos aportuguesados para compor com mestria uma fala completamente livre e verosímil. Ainda nesta tendência oralizante, Ricardo Adolfo leva o sonho de Saramago em reproduzir literáriamente a fala ainda mais longe, imprimindo nos diálogos uma escrita quase fonética. Como exemplos desta forma curiosa de escrever o discurso direto podemos invocar: "sim, quem é cavia de ser?"; "vá, mostra lá, mas olha queu não tenho nada pra mostrar"; "tá ma contratar" ou "atão, comé que passa?"; isto para citar alguns exemplos desta oralização fonética. Além disto, o discurso direto é introduzido sem travessão e sem maiúsculas, apenas sem empregando estas quando se trata de nomes próprios. Esta linguagem original, corriqueira e fortemente oral que Ricardo Adolfo emprega com bastante desenvoltura são, a meu ver, os pontos mais fortes deste romance peculiar. A narrativa é feita de peripécias quase surreais que nos põem um sorriso nos lábios, quer pela sua natureza, quer pela interpretação dos factos pela própria narradora. A protagonista, outro ponto bastante fulcral deste romance, é quase completamente atípica na literatura portuguesa. Trata-se Maria de uma anti-heroína cujas ideias e conclusões se afastam daquilo que podemos considerar como uma atitude ética positiva, mas que nos deixa empáticos com a sua situação, dando por nós a apoiar, inclusive, algumas das suas decisões e atitudes, reprováveis aos olhos da moral comunitária. 
   Efetivamente, uma nova forma de falar na literatura portuguesa, a que não podemos ficar indiferentes. 
 
Citações:
"Só para dar razão àqueles que acreditam que tudo o que sobe tem mesmo de se estatelar, para nossa desgraça aterrámos no Grande Festival Está Tudo Fodido dos Cornos, organizado pela nossa caríssima doutora, com direito a variedades e palhaços famosos. Sendo que o papel de palhaço-mor foi atribuído a nous. Voilà. Cabra." 
"Mais um génio da gestão incompreendido neste país. Mais uma empresa nacional que não vai conquistar a Europa, a Ásia e o ciberespaço porque os pobres que aqui trabalham não são capazes de acompanhar a genialidade de quem quer liderar a empresa até aos quatro cantos da falência."
"A primeira coisa que fizemos assim que chegámos ao local de desemprego foi googlar se a falta prolongada de orgasmos pode ter efeitos nocivos. A lista de maleitas é infinita. Isto está a tornar-se um caso clínico crónico. Tem de haver uma droga legal para este tipo de doença. Se não há, o que é que as farmacêuticas andam a investigar? Imagina tomares uma pastilha e a seguir começares a orgasmar. É a ideia do milénio, só pode.
   Devíamos ter ido para Farmácia, devíamos não ter chumbado a Físico-Química por faltas, devíamos ter sido avisadas de que quem se balda à escola ou vai para ministro ou então está fodido."
 
 
Pontuação: 8.9/10
 
 
Gonçalo Martins de Matos