sexta-feira, 22 de maio de 2020

"Azul-Turquesa", de Jacinto Lucas Pires

   Este romance de Jacinto Lucas Pires é daqueles livros que sempre vimos na estante dos nossos pais, e que chega o dia em que pensamos é desta e decidimos ler. 
   Azul-Turquesa segue os dias das vidas de José e Maria, individualmente até ao momento em que se cruzarão. José, professor de Matemática recentemente divorciado, passa muito do seu tempo no apartamento de um amigo ou simplesmente passeando pelas ruas de Lisboa, admirando as particularidades da vida de das vidas na capital. Maria escreve para uma revista, e pontua a sua parte da história com a demorada redação de uma peça sobre a mulher portuguesa e a sua rotina de passeio comercial no percurso casa-trabalho e trabalho-casa. Entre estas duas vidas inúmeras outras revelam pedaços de si nas páginas deste romance, sendo-nos oferecida uma recheada galeria de figurantes que podem reaparecer umas páginas à frente ou simplesmente uma vez. As vidas de José e Maria entrecruzam-se perto do final do romance, e as suas experiências peculiares darão origem a um final insólito e inesperado. 
   Jacinto Lucas Pires classificou este romance como sendo o equivalente a visualizar um filme numa sala de cinema. O estilo deste romance dá precisamente essa sensação. Ao longo de todo o romance assistimos a uma colagem de cenas que se sucedem, cada uma com a sua geografia e figurantes específicos. O tom do romance é caricato, pois algumas das situações que se colocam, mais a José do que a Maria, são tão insólitas quanto inesperadas. À parte da intriga principal, as vidas paralelas de José e Maria até ao seu inevitável encontro, as existências dos restantes figurantes tomam a rédea secundária da narração, alterando a paisagem com as suas afirmações e ações. São inúmeros os locais que estas figuras habitam, todos eles possuindo um mínimo descritivo que nos permite visualizar precisamente o tipo de cena que o narrador nos transmite. Não tenho muito mais para dizer, curiosamente. Não se passa neste romance muito mais para além do que foi escrito. No entanto, este romance não é de todo desinteressante ou mau, é muito bem estruturado e tem uma linguagem pragmática, fazendo eco do estilo cinematográfico do romance. É um romance de ver.
   Posso afirmar que esta é uma leitura ligeira que entreterá os seus leitores, que é no fundo o objetivo deste pequeno e interessante romance. 

Citações:
"Detrás do balcão um homem de cabelo comprido, loiro, levemente ondulado, com um bigode e uma pêra muito delicados, parecendo um pouco um mosqueteiro, talvez o Aramis, levanta a cebeça quando o rapaz entra."
"Fecha a porta de vidro da entrada Maria, e depois anda até à esquina. Ao ver um táxi, levanta o braço. O carro, porém, não pára. Antes pelo contrário, acelera, amarelo, para passar o semáforo, vermelho, e Maria olha para o meio da avenida. Junto do candeeiro que não é bem um tê nem bem um i grego, os dois rapazes da prosa, da poesia e dos equipamentos de futebol correm sem sair do lugar."
"E continua a sorrir no elevador. Depois abre a porta de vidro da entrada e sai. Do lado de cá da estrada, grita para o homem de de gabardina «eu chamo-me Maria», e ele, «eu chamo-me José». Ela então repete «José...», e ele diz »até calha bem», e os carros vão passando, passando."


Pontuação: 6.5/10


Gonçalo Martins de Matos

quarta-feira, 6 de maio de 2020

"Na América, disse Jonathan", de Gonçalo M. Tavares

   A obra de Gonçalo M. Tavares é tida como uma das mais originais da literatura portuguesa contemporânea, e o seu autor como uma das mais singulares vozes da literatura europeia. Se no passado custou a atingir, hoje em dia é com prazer e gosto de descoberta que enceto na leitura dos peculiares escritos de Gonçalo M. Tavares.
   Na América, disse Jonathan, parte de uma premissa muito interessante e promissora, denominada pelo narrador como "Projecto Kafka", que consiste em transportar um retrato de Kafka em viagem pelos Estados Unidos da América. Em formato de pensamento-diário, ouvimos Jonathan, através do narrador, a partilhar as suas ideias, pensamentos e histórias enquanto passamos pelos mais diversos locais nos Estados Unidos, da Califórnia até Cape Canaveral, na Flórida, no período de tempo correspondente entre os dias 30 de junho e 21 de agosto de 2016. 
   Na generalidade da obra de Gonçalo M. Tavares, o narrador e o escritor confundem-se num narrador-filósofo, que enceta numa narração quase técnica e científica dos factos constituintes da história, mas carregada de todo o pensamento, inquietções, ideias e reflexões do mesmo sobre os próprios factos narrados ou, ocasionalmente, sobre questões exteriores ao próprio texto, à própria obra. O subtítulo da obra em análise qualifica-a como "Diário-Ficção", e é precisamente neste molde que todo o livro se desenvolve. As reflexões e indagações de Jonathan confundem-se com as do narrador-filósofo, que enceta na função de interpretar e complementar as ideias que lemos. Como nas obras anteriores que li do autor, as ideias e reflexões do narrador-filósofo são interessantíssimas e pertinentes, e as histórias de Jonathan extremamente criativas. O mais interessante (para além do próprio texto) desta obra é que vem acompanhada das efetivas imagens que o narrador-autor capturou ao longo da sua viagem do retrato de Kafka nas mais diversas localizações geográficas dos Estados Unidos. As imagens podem complementar ou não os pensamentos descritos em cada página, mas apresentam a viagem do retrato de Kafka, viagem essa paralela à viagem do narrador e de Jonathan. Este complemento entre a imagem e o texto, como em outras obras de outros autores que recorrem à mesma técnica, atribuem um nível diferente à obra, não sendo meramente um diário, não sendo somente um conjunto de reflexões. As viagens paralelas do narrador e de Jonathan e de Kafka foram, verdadeiramente, inspiradoras. É muito conhecida a história de como José Saramago vaticinou a Gonçalo M. Tavares o Prémio Nobel. Com uma obra tão peculiar e universal, pode ser que a previsão do Nobel português venha a concretizar-se. 
   Portanto, logicamente, fica a instigação a que leiam, não só este, como outros livros, de Gonçalo M. Tavares.

Citações:
"Projecto Kafka - levar a sua imagem em viagem. Como se fosse um companheiro rectangular (...).
 Acreditar numa magia contemporânea a interferir na relação entre imagem e presença. Como bem nos mostra a tecnologia recente: imagem é presença. Antigo e demasiado contemporâneo: alterar a paisagem pela presença fantasma de Kafka."
"Que sinal?
 Uma construção ser abençoada pelo padre mas também pelos cientistas, etc.
 Que sinal fará o cientista à frente da construção a inaugurar? Em vez da cruz de Cristo, o sinal mais? O sinal menos? Vezes? O pi? 
(...)
 Há quem olhe para o sinal da cruz feito pela mão no ar e o confunda com o acto de medir mentalmente a altura e a largura da construção."
"De alguma maneira, o que tem acontecido é isto: anuncia-se uma nova tecnologia como em tempos se anunciou a chegada de Cristo. Também resolve problemas. E fala-se sempre da rapidez e da eficácia.
 Pensar num Cristo, diz Jonathan, rápido e eficaz. Profetas que anunciam a salvação que aí vem e que a comparam com anteriores salvações anunciadas utilizando critérios técnicos: esta nova salvação é mais rápida e comete menos erros."


Pontuação: 9.3/10


Gonçalo Martins de Matos

segunda-feira, 4 de maio de 2020

"A Mulher que Correu Atrás do Vento", de João Tordo

   Nas publicações anteriores sobre a obra de João Tordo, preconizei uma mutação estilística que se notava no autor cada vez mais. Não li o livro anterior a este, mas neste consagra-se, enfim, a nova estética. 
   O romance começa precisamente por apresentar a história de Beatriz, estudante universitária em Lisboa, e de como, entre uma existência melancólica entre as aulas e o seu projeto de tradução de Ulisses, de James Joyce, e uma profunda inquietação que a assola desde a morte da sua mãe, esta acaba por conhecer e envolver-se com o autor de A História do Silêncio, Jaime Toledo, um homem introvertido e deprimido. Depois conhecemos Lisbeth, professora de piano na Baviera, e a sua frustração em não conseguir compor a sua obra, Das Auge des Zyklons, quando recebe um rapaz autista, Jost, como aluno, começando assim a sua fuga da Baviera e posterior expiação dos seus males. Por fim, conhecemos Lia, numa consulta terapêutica, a desnovelar o seu passado e a sua amargura com a sua mãe, a conhecida atriz Graça Boyard, por a ter abandonado à sua sorte quando era pequena, e a sua existência condicionada por esse momento crucial na sua vida. As vidas destas personagens, aparentemente separadas por um século, entrelaçam-se nas partes onde menos esperamos e é através dos passos melancólicos destas protagonistas que vamos, aos poucos, caminhando para o centro do ciclone, o espaço de calma lúgrube que aguarda todos por igual. 
   A voz inconfundível de João Tordo aliada a uma estética madura e perfeitamente dona de si são uma combinação poderosa. Este romance nunca se perde nas diversas encruzilhadas que abre, e o narrador guia-nos através da névoa que as povoa com uma mão firme mas delicada. O romance divide-se em oito partes, cada uma acrescentando dados novos às anteriores, todas conjugando-se para o final agridoce que encerra a narrativa. É um pormenor interessante, os ocasionais piscares de olho do autor a outros pedaços da sua obra. A estrutura do romance vai-se adaptando ao decorrer da narrativa, destacando-se o estilo textual dramático no sexto capítulo e a narração autodiegética no último capítulo. Como em obras anteriores, a inquietação do narrador é um sentimento dominante, desdobrando-se este nas personagens e nos lugares que povoam o romance. O talento simbolista do autor também é uma constante neste romance, sendo a inquietação, a melancolia e a solidão representadas por lugares como a herdade do Alentejo onde se refugia Lia, o "lugar perfeito" no meio dos bosques da Baviera ou o "centro dos ciclones", nome da peça de Lisbeth que melhor ilustra a solidão patente na história das protagonistas. Regressando aos capítulos referidos, estes podem ser considerados capítulos-chave de toda a obra, com os quais desbloqueamos a compreensão total dos eventos que nos são narrados. O estilo mutável e o monólogo final também podem ser uma reflexão diminuída da estrutura do Ulisses, de James Joyce, uma obra recorrente ao longo do texto, o que consiste numa outra compreensão a conferir ao romance no todo. Jost abandonado numa planície é o ponto de fuga do fresco que João Tordo nos oferece. É uma imagem recorrente e ilustrativa do turbilhão (ou antes, do ciclone) de emoções fortes e contraditórias que fervilha dentro das protagonistas. 
   É um grande romance de João Tordo e merece, sem dúvida, ser lido e apreciado. 

Citações:
"os rostos saudáveis dos miúdos, esquecidos de tudo, ignorantes do tempo, daquilo que o tempo nos dá e nos tira, do que o tempo cobra, de como ser humano é tão diferente de ser a humanidade, de como a humanidade por vezes nos salva de sermos humanos, porque ser humano pode dar cabo de nós, e da maneira como o tempo vai unindo as duas coisas. Às tantas, fartos de sermos humanos, passamos a ser humanidade, só humanidade, e por isso é lindo ver os velhinhos e as crianças dentro da piscina, porque somos nós também que estamos ali dentro."
"A alma de Beatriz vagueou suavemente debaixo da chuva que, após os primeiros minutos de borrasca, caía suavemente através do Universo, suavemente caindo, e de repente pensou que aquelas palavras não eram suas, e que a água no rosto e as roupas molhadas e o cabelo ensopado não tinham o mesmo poder encantatório das palavras de Joyce, tudo era miséria e desgraça."
"Caminhou pela herdade. O restolho abundava, a terra estava seca e grumenta. Passou ao lado de enormes rolos de feno, mais altos do que ela, cuja sombra a lua projetava à semelhança de naves espaciais despenhadas de galáxias distantes."


Pontuação: 9.7/10


Gonçalo Martins de Matos

quinta-feira, 9 de abril de 2020

"O filho de mil homens", de Valter Hugo Mãe

   O filho de mil homens é o primeiro romance de Valter Hugo Mãe após a sua "tetralogia das minúsculas", o que inaugurou o capítulo seguinte do estilo do autor. E nota-se bem a diferença de fôlego dos anteriores para este. 
   Crisóstomo, chegado aos 40 anos de idade, assume a tristeza de não ter um filho. Incompleto, metade de si mesmo, é com esse facto que ocupa os seus pensamentos. Crisóstomo é um pescador solitário que, num dos seus dias de trabalho, encontra um rapaz chamado Camilo, ao qual, após uma epifania e um abraço, pergunta se pode ser seu pai. Camilo responde que sim. É assim que é lançado o pretexto para que do encontro entre duas almas incompletas inaugure uma sucessão de encontros que criarão uma família não sanguínea, mas tão pura e humana como qualquer outra. As histórias de Crisóstomo e de Camilo cruzam-se com as de Isaura, Antonino, Matilde e Emília, que comporão a família inventada do pescador e do rapaz. Pelo meio outros personagens trarão um pouco das suas vidas para ir compondo as vidas uns dos outros, numa mútua influência que marca toda a experiência humana. As diferentes vidas que preenchem este romance entrelaçam-se de forma invulgar e única, por vezes agridocemente, mas sempre de uma humanidade subjacente, invisível superficialmente. É de interações humanas que esta história se compõe e é delas que se forma um final humano e sensível, não alheio ao que compõe a felicidade real de ser humano.
   Como foi dito, este romance é o primeiro de Valter Hugo Mãe após a tetralogia das minúsculas, e com ele veio um novo fôlego. A mudança de estilo é notável na forma como se liam os anteriores e como se lê este. A voz do autor permanece a mesma, carregada de sensibilidade e humanismo, mas o tom é diferente. Uma das diferenças mais notáveis é a sensibilidade e o positivismo que atravessam todos os factos narrados e a forma de os personagens os encararem, ao contrário da crueza presente nos anteriores romances. O otimismo que transborda de Crisóstomo, não só para os que o rodeiam, mas para a a própria narrativa, é sem dúvida uma diferença quase abismal de tom. Quanto ao tratamento poético que Valter Hugo Mãe emprega na sua escrita, não há muito mais a acrescentar ao que já foi dito antes, a sua voz é marcadamente lírica e luminosa, carregada de um sensível humanismo que nos toca e não nos deixa indiferentes. Outro aspeto deste romance é a inclusão de duas belíssimas ilustrações do autor, no início do livro. Quanto aos personagens que compõem este romance, o que têm em comum Crisóstomo, Camilo, Isaura, Antonino, Matilde e Emília? Todos são desajustados de uma sociedade hipócrita e mesquinha que tem dificuldades em aceitar o outro, para além de as suas experiências de vida serem marcadas pela dor e pela angústia. É Crisóstomo a luz que afastará essa escuridão da vida da sua família, e assim poderão todos viver felizes, nem que seja por breves momentos, aceitando-se a si mesmos. Crisóstomo é um personagem sensível e carregado de bondade e amor, que nos comove com o seu modo otimista e esperançoso de ver o mundo que o rodeia. Por este lado gostamos imenso de conhecer Crisóstomo e de o deixar contagiar-nos com a sua bondade. A forma como a sociedade tacanha oprime o potencial humano de cada um é soberbamente tratada neste romance. A anã (falecida mãe de Camilo) é empurrada para o seu lugar de coitada pelas suas vizinhas, demasiado cristãs para deixarem a pobre alma desenrascar-se sozinha, a Isaura é castigada e repreendida por não cumprir as expetativas que outros haviam construído para si, o Antonino é desde cedo reprimido por ser homossexual e, portanto, diferente do que um homem deve ser. É preciso Crisóstomo mostrar aos párias da sociedade que o melhor que podemos fazer é ser nós mesmos para que nos aceitemos tal como somos, e assim, o mundo tornar-se um lugar menos sombrio e solitário. É a mensagem positiva e otimista deste romance que nos comove e toca especialmente, particularmente na apologia que faz da auto-aceitação. Trata-se esta obra de uma pérola de humanismo, escasso cada vez mais numa sociedade construída por cruéis expetativas de terceiros e preconceitos tacanhos.
   Este luminoso romance não pode, portanto, deixar de ser lido. 

Citações:
"Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía."
"O Antonino explicou-lhe que não queria ser mulher e que gostava de mulheres e que lhes prestava atenção. Disse que admirava a liberdade que tinham para a expressão da sensibilidade, achava que era como uma permissão para ter a alma à solta, autorizada a manifestar-se pela beleza ou pelo espanto de cada coisa. Estava autorizada à sensibilidade que fazia da vida uma travessia mais intensa."
"Aos quarenta anos, o Crisóstomo deitou-se sobre a areia e inventou que estava ligado a todas as pequenas e grandes coisas do mundo, como se lhes pertencesse por igual e cada pedaço de matéria fosse uma extensão longínqua de si. Ia do centro do seu peito aos pinheiros ao fundo, ia do centro do seu peito ao à rocha despontando no meio do mar, ia do centro do seu peito até ao telhado de cada casa."


Pontuação: 9/10


Gonçalo Martins de Matos

quinta-feira, 19 de março de 2020

"Orgulho e Preconceito", de Jane Austen

   Orgulho e Preconceito é uma das obras essenciais da literatura inglesa, sendo também uma das mais acarinhadas pelo público anglófono. E tal não se deve apenas às inúmeras adaptações cinematográficas, televisivas e teatrais deste romance, mas também, e principalmente, aos seus temas e às suas personagens. 
   O romance começa por nos apresentar um dos temas que o atravessam, que é o casamento e a sua importância na Inglaterra no início do século XIX. A protagonista da obra é Elizabeth Bennet, segunda de cinco filhas do casal Bennet. A principal preocupação da mãe de Elizabeth é casar bem pelo menos uma das suas filhas, uma vez que os Bennet não possuem nenhum filho herdeiro dos seus bens. Mr. e a Mrs. Bennet constituem um casal muito díspar em génio e filosofia, repercutindo-se tal no próprio génio e educação das suas filhas. Sendo tão fulcral para Mrs. Bennet o bom casamento das suas filhas, é natural que a chegada de novos vizinhos à pequena localidade de Merryton despolete a sua intenção de as apresentar imediatamente. É assim que os protagonistas desta obra se cruzam todos pela primeira vez, num baile social organizado pelo novo vizinho, Mr. Bingley. Desde o início que Bingley e Jane, a irmã mais velha de Elisabeth, se dão muito bem, facto que orgulha muito a sua mãe. Já Elizabeth não pôde deixar de considerar o amigo de Bingley, Mr. Darcy, um homem arrogante e orgulhoso, tão diferente da personalidade do primeiro. Estão assim lançadas as bases para uma sucessão de eventos que levam Elizabeth numa viagem sentimental tão vincada que deitam por terra todas as suas convicções e seguranças, demonstrando também alguma da mesquinhez e futilidade da sociedade inglesa do início do séc. XIX. Tudo se conjuga para que no final, esses orgulho e preconceito que dominam as normas sociais serão afastados por sentimentos mais profundos da alma humana, tudo terminando em bem, como se de um conto de fadas se tratasse. 
    O estilo de Jane Austen encaixa no período de transição para o realismo, uma vez que, apesar de a história constituir uma narrativa romântica, a autora introduz já vários dos motivos literários da estética realista. Nomeadamente, o narrador de Austen discorre em discurso indireto livre, narrando os acontecimentos na terceira pessoa mas sempre através dos olhos e das ideias de Elizabeth. Vamos aprendendo todos os factos que rodeiam os personagens e as situações à medida que a própria Elizabeth as descobre. A autora socorre-se igualmente da ironia para desmontar as farsas da sociedade inglesa do seu tempo, outra grande marca do estilo realista. Escreverei agora sobre o ponto mais forte deste romance e o porquê de, em minha opinião, ser uma obra ainda tão apreciada nos dias de hoje. As personagens de Austen não são meras criações escritas em papel e tinta, são seres mais do que tridimensionais, são seres vivos que respiram, sentem e sofrem. Jane Austen tem um enormíssimo talento para criar personagens vivas, e Elizabeth está entre as melhores personagens de ficção que alguma vez li, não pelas suas ações, mas porque vivi com ela as suas inquietações, as suas frustrações e as suas alegrias. Elizabeth Bennet está viva e respira, sorri e sofre como qualquer leitor que leia esta obra. E esse é um dos fatores que impulsiona este romance para junto dos grandes romances anglófonos. É também, conforme disse, por essa razão que ainda hoje esta obra é tão apreciada, não pelas inúmeras adaptações, mas pelas personagens reais, humanas e tangíveis que Austen nos apresenta. Sem dúvida esta é a pedra angular do romance, as personagens vivas, de carne e osso. As personagens-tipo não são tão desenvolvidas como as principais, mas lá se encontram a cumprir o seu papel, da mãe de Elizabeth até à comunidade mesquinha e coscuvilheira de Merryton, passando por Mrs. Catherine de Bourgh, uma personagem odiosa que representa a futilidade da aristocracia até a Mr. Collins, primo de Mr. Bennet e representante de uma burguesia tecnocrata e bajuladora dessa mesma nobreza decadente. Uma última referência deve ser feita a Mr. Darcy, que, tal como Elizabeth, cresce com o evoluir da história, contribuindo para esse realismo humano de Austen. 
   Trata-se este de um dos romances de leitura obrigatória da literatura mundial. 

Citações:
"É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna necessita de uma esposa."
"Permita-me dizer-lhe, então, minha querida prima, que considero a sua recusa ao meu pedido destituída de qualquer fundamento e que, por conseguinte, não passa de uma mera formalidade. As razões que me levam a pensar assim são, em resumo, as seguintes: não me parece que a minha mão seja indigna de do seu acolhimento ou que as condições que eu lhe posso oferecer não sejam mais do que altamente desejáveis."
"Merryton em peso parecia esforçar-se por denegrir o homem que três meses antes fora quase como um anjo de bondade. Diziam que ele devia dinheiro a todos os comerciantes da localidade e que as suas aventuras, todas designadas por «seduções», se tinham estendido às famílias dos vários comerciantes. Todos eram unânimes em declarar que ele era o homem mais perverso do mundo e todos começaram a descobrir que sempre haviam desconfiado dele, apesar da sua aparência de distinção." 


Pontuação: 8.5/10


Gonçalo Martins de Matos

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

"Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis

   Machado de Assis é considerado unanimemente como o maior escritor da literatura brasileira. A ele se deve a existência da Academia Brasileira de Letras e, no plano literário, a introdução da estética realista na literatura brasileira, devendo-se a ele uma grande inovação na literatura do Brasil derivada dessa nova estética. Memórias Póstumas de Brás Cubas integra-se na chamada "Trilogia Realista", dos quais fazem parte Dom Casmurro e Quincas Borba, trilogia essa considerada a magnum opus do autor brasileiro. Memórias Póstumas de Brás Cubas é também considerada como a maior obra de Machado de Assis. 
   Começando este romance pelo fim, ou seja, pelo óbito do autor, cedo percebemos que a história que se nos apresenta será peculiar. Brás Cubas começa as suas memórias póstumas pela descrição dos seus momentos finais e falecimento, fazendo depois a transição para o dia do seu nascimento, começando a partir daí a narração dos factos que compõem a sua vida. O narrador apresenta-nos o seu pai e a sua mãe, além de dois tios seus, figuras que marcaram a sua educação, que o próprio reconhece, agora que morreu, como tendo sido "viciosa, incompleta e, em partes, negativa". Adorado pelo seu pai, que tinha grandes projetos para o seu filho, o narrador "sofreu" de demasiada liberdade que, como consequência, o levou no caminho que seguiu pelo resto da vida. Acompanhamos a vida de Brás Cubas nas suas muitas dimensões através de episódios que o próprio nos revela, como a sua educação básica, os seus estudos em Coimbra, as suas desventuras académicas e amorosas e as suas ideias sobre o mundo e a sociedade que o rodeavam. Os vários personagens que povoam estes episódios todos têm a sua parte de influência no perfil do narrador, seja o seu grande amor, Virgília, o seu cunhado Cotrim, o marido de Virgília, Lobo Neves, ou o seu amigo de infância, Quincas Borba. Todos estes episódios se juntam na construção de uma vida no Brasil do século XIX, em tudo o que tem de trágico e irónico. 
   Machado de Assis é justamente considerado um dos génios da literatura lusófona, e mesmo mundial. Neste romance temos expostos diante de nós os motivos que o levam a ser considerado dessa forma pela crítica. O romance é dominado por um sentido humorístico tão apurado e por uma ironia tão refinada que nos arrancam sonoras gargalhadas a meio da leitura (pelo menos comigo assim foi). Notam-se em todas as suas páginas as características da estética realista, incluindo o mote romântico que guia a história narrada, que é em si utilizado para mais ainda ironizar as idiossincrasias da sociedade brasileira oitocentista. O humor e a ironia a que aludimos notam-se logo na dedicatória do "autor", quando redige "Ao verme/que/primeiro roeu as frias carnes/do meu cadáver/dedico/como saudosa lembrança/estas/memórias póstumas", assim colocada na dianteira do romance de forma a anunciar-nos qual o tom e o espírito da obra. Escusado será acrescentar que o brilhante uso do vernáculo pelo autor é também um elemento que contribuiu para o génio geral do romance. Passamos agora a um dos aspetos mais brilhantes de todo o romance: os seus capítulos. Com o impressionante número de 160 capítulos, estes são o que torna esta obra tão distinta e marcante na literatura lusófona. Tratam-se estes de capítulos curtos, que não ultrapassam as quatro páginas, redigidos tanto de forma a relatar factos da vida do narrador, quanto de forma a expor as suas reflexões e cogitações, quer quanto aos factos relatados, quer quanto a aspetos da vida em geral. A forma como estão estruturados estes capítulos é a expressão última da ironia e do humor que Machado de Assis emprega neste romance. Eles variam muito entre si, destacando aqui quatro que, na minha opinião, se distinguem dos demais. O primeiro é o Capítulo LV, que é composto em forma de texto dramático, mas em vez de possuir qualquer texto, é apenas composto pelos nomes dos dois protagonistas e por sinais gráficos ("........!" ou "................?...................!"), que compõem o "diálogo". O segundo é o Capítulo CII, que constitui uma pausa da narração para o leitor poder recuperar o fôlego. O terceiro é o Capítulo CXIX, que constitui um parêntesis do narrador para partilhar com o leitor algumas máximas que ele escrevera em certa altura da vida. Por fim, o Capítulo CXXXVI, cujo subtítulo é "INUTILIDADE", no qual se lê: "Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capítulo inútil.", que, confesso, me apanhou completamente desarmado e me arrancou uma valente gargalhada! Estes, entre outros igualmente divertidos e originais, compõem uma obra verdadeiramente peculiar no panorama literário mundial! As personagens tipo que rodeiam o narrador servem precisamente esse grande propósito de satirizar a sociedade brasileira do século XIX. 
   Resta referir que este romance, no seu estilo e na sua forma, está muito próximo do que viria a ser a literatura modernista no século seguinte, o que revela a componente genial da obra de Machado de Assis, um escritor verdadeiramente à frente do seu tempo. Uma leitura a não perder!

Citações:
"Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. (...) Súbito, deu um grande salto estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te."
"Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes."
"Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas (...) porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem..." 


Pontuação 10/10


Gonçalo Martins de Matos

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

"As Intermitências da Morte", de José Saramago

   José Saramago é sem sombra de dúvida uma das figuras fulcrais da literatura portuguesa. Grande parte dos seus romances constituem uma experiência de pensamento, uma colocação a si próprio de um e se?. Este romance é uma dessas experiências, adiantando nós já que da sua premissa resultam diversas conclusões tão brilhantes quanto profundas. Um último pormenor quanto a esta edição em particular: as capas dos romances do autor publicados pela Porto Editora são escritas por diversas figuras conhecidas das artes e cultura portuguesas, pertencendo a caligrafia deste romance a Valter Hugo Mãe. 
   "No dia seguinte ninguém morreu." É assim que esta maravilhosa narrativa começa, preconizando desde a sua abertura a singular sequência de eventos que se passarão ao longo deste romance. Podemos fazer a divisão da narrativa em duas partes. Na primeira parte acompanhamos as inquietações, frustrações e reações sentidas pelos diferentes setores de uma sociedade que se apercebe que a morte deixou de cumprir a sua finalidade. Acompanhamos os diferentes intervenientes nestes insólitos acontecimentos, quer sejam os que sofrem com a falta da morte, quer sejam os que lucram com tal facto, desde as famílias que não sabem o que mais fazer com os seus não-mortos até às companhias de seguros, lares e agências funerárias que perderam as suas principais fontes de rendimento. Na segunda parte, já voltou a morte a cumprir o seu trabalho, mas com uma pequena diferença em relação ao passado, fulcral nesta nova sociedade. Tudo parece correr conforme, até ao dia em que um acontecimento inesperado leva a que a morte tenha de repensar todos os fundamentos que sempre considerou como certos, tudo indo desaguar a um apoteótico final carregado de lirismo. 
   Conforme foi dito, o romance pode ser dividido em duas partes: a primeira parte servindo como profunda análise às hipotéticas reações que uma sociedade teria se um insólito destes se verificasse; a segunda aterrando na componente romanesca, no sentido em que trata mais do desenvolvimento da restante história. Este romance é brilhante, deve ser desde já dito. Principalmente as reações que o autor teoriza que se verificariam caso algo assim sucedesse. A reflexão que é descrita na primeira parte do romance é tão sabiamente ponderada quanto verosímil. Olhando para o mundo que nos rodeia sabemos bem que, caso um dia deixasse de se morrer, a nossa sociedade teria atitudes quase exatamente iguais às que se verificam nesta obra. Esta reflexão povoa-se de personagens-tipo brilhantemente caricaturadas. A segunda parte acompanha uma nova sociedade em que a morte já voltou a cumprir o seu papel, mas de uma forma diferente que altera novamente todo o paradigma da vida e da morte. É nesta parte que o romance se individualiza, descendo do olhar geral para o particular e abandonando a reflexão para encetar na simples narração. As personagens principais desta parte já são mais humanizadas, sendo mais efetivos protagonistas que caricaturas. O violoncelista e o seu cão, para além da própria morte, constituirão a história principal desta parte, história essa que é ao mesmo tempo inerentemente poética e extraordinariamente composta. A estética que caracteriza a obra de José Saramago também se apresenta neste romance. O vernáculo, a inerente oralidade e a construção frásica de registo popular (entre tantos outros, o emprego da palavra "cousa") conferem a esta obra a tal oralidade do discurso tão brilhantemente praticada pelo autor. Também os parágrafos longos e o uso não convencional da ortografia marcam a sua presença neste romance, tudo indo de encontro à estética característica do romancista. Esta obra tem também um caráter altamente simbólico, sendo o romance povoado por diversos símbolos relativos à vida e à morte. Das cores à borboleta-caveira, passando pelo violoncelo e pelos elementos paisagísticos, como certas árvores ou certos estados do tempo, todos os símbolos caminham no sentido comum do romance de dar a conhecer algo que na natureza é tão inerentemente humano, isto é, a reflexão sobre a mortalidade e sobre a humanidade. Um último apontamento, não menos curioso, prende-se com o espaço físico do romance. A narrativa que nos é apresentada passa-se num país pequeno, habitado por dez milhões de pessoas, o que encaixa na descrição de Portugal, desviando-nos, no entanto, o autor dessa conclusão com a introdução de certos elementos, como o sistema político (monarquia constitucional) ou as fronteiras com outros países. Demarco este apontamento porque a sua intenção é claramente criticar certos aspetos da sociedade portuguesa sem, no entanto, o fazer expressamente, o que é demonstrativo da ironia saramaguiana que povoa os seus romances. 
   Cada vez mais me convenço que a leitura das obras de José Saramago é indispensável para o desenvolvimento, além do gosto estético, do pensamento crítico e da reflexão construtiva. Lendo este romance, não me engano ao fazer esta afirmação. É uma obra brilhante e acutilante, que merece ser lida e, quiçá, relida. 

Citações:
"Desativados, Sim, creio que a palavra é bastante clara, Sem dúvida, senhor ministro, apenas manifestei a minha surpresa, Não vejo de quê, é a única maneira que temos de não parecer que cedemos à chantagem desse bando de patifes, Ainda que em realidade tenhamos cedido, O importante é que não pareça, que mantenhamos a fachada, o que acontecer por trás dela já não será da nossa responsabilidade."
"e quando falo de diferença real estou a referir-me a algo que as palavras jamais poderão exprimir, relativo, absoluto, cheio, vazio, ser ainda, não ser já, que é isso, senhor diretor, porque as palavras, se o não sabe, movem-se muito, mudam de um dia para o outro, são instáveis, como sombras, sombras elas mesmas, que tanto estão como deixam de estar, bolas de sabão, conchas de que mal se sente a respiração, troncos cortados"
"A morte afagou as cordas do violoncelo, passou suavemente as pontas dos dedos pelas teclas do piano, mas só ela podia ter distinguido o som dos instrumentos, um longo e grave queixume primeiro, um breve gorjeio de pássaro depois, ambos inaudíveis para ouvidos humanos, mas claros e precisos para quem desde há tanto tempo tinha aprendido a interpretar o sentido dos suspiros."


Pontuação: 10/10


Gonçalo Martins de Matos