terça-feira, 23 de abril de 2019

"O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago

   Quando O Ano da Morte de Ricardo Reis foi adicionado ao programa de leitura em Língua Portuguesa, substituindo o Memorial do Convento, ficou-me a pulga atrás da orelha e tive que verificar por mim de que trata este romance, e se fará sentido uma tal substituição no programa educativo. Adianto desde já que não, não faz sentido uma tal substituição, apesar da leitura peculiar que este, como os outros romances de Saramago, proporciona. A crítica que é feita pelo autor neste é mais direcionada ao Portugal salazarista, ao contrário do Memorial, que tem uma crítica mais universal, mais enquadrada num sistema de ensino que pretenda abrir os horizontes dos estudantes. Apesar disso, estamos perante mais um romance magnificamente composto por um escritor tão peculiar como o nosso Nobel.
   Passados 16 anos de vida no Brasil, Ricardo Reis regressa a Lisboa, de vapor, instalando-se no Hotel Bragança, onde ficará nos próximos meses. Nos tempos em que vive no hotel, a vida vai-se desenrolando, a seu passo e sem pressa, quando uma das criadas, de seu nome Lídia, e ele começam a ter encontros noturnos. Ricardo Reis ocupa os seus dias passeando por Lisboa, observando as suas gentes e as suas paisagens, redescobrindo os seus aspetos e pormenores. Pouco depois, Ricardo Reis conhece Marcenda Sampaio, a quem começa a cortejar, mantendo, no entanto, a sua relação com Lídia. Paralelamente, Ricardo Reis é visitado pelo fantasma de Fernando Pessoa, com quem se encontrará por diversas vezes ao longo da obra. Tudo isto se passa até ao dia em que, após uma situação desagradável para Ricardo Reis, este decide finalmente abandonar o hotel e morar em casa própria, arranjando também um emprego. Os seus encontros com os três personagens mencionados continuam, tornando-se, até, mais frequentes. E é assim que se desenvolve o resto da narrativa até a um final tão poético como agridoce. 
   Conforme acima foi dito, este é um romance que se foca nos primórdios do Portugal salazarista e da sociedade vigente à época, pelo que, ao bom estilo saramaguiano, essa crítica é feita de forma extremamente sarcástica e certeira, atravessando o romance como seu fio condutor. Só nos apercebemos no final, ao refletir sobre o início, que essa crítica é feita de princípio a fim. Pode ser feita uma divisão deste romance em duas partes: a parte da ingenuidade, que corresponde aos meses que Ricardo Reis passa no Hotel Bragança, não se passando grandes coisas no seu dia-a-dia, não desconfiando este do quanto Lisboa mudara (ou mudava); e a parte da descoberta da verdade, que começa com a saída de Ricardo Reis do hotel. Este último momento marca bem essa divisão. Antes, Ricardo Reis, confinado ao seu quarto de hotel e à sua rotina, ignora que o Estado Novo se vai fixando em Portugal, mas, após a saída do hotel, Ricardo Reis apercebe-se dos movimentos estranhos que se vão passando à sua volta. Marcante desta nova realidade que se lhe afigura perante os olhos é as notícias que chegam do resto do Mundo (principalmente de Espanha), que pintam o quadro do surgimento da Europa ditatorial. Claro, o estilo que distingue Saramago não deixa de se verificar neste romance. O uso comedido de vírgulas, os parágrafos longos, a narração e o discurso impregnados de oralidade. E, claro, a mordacidade do sarcasmo nas críticas. Os personagens que povoam este romance têm o papel de representar um aspeto da sociedade em inícios do Estado Novo, e mesmo da sociedade que será no durante. Destaque seja feito a Salvador, o vigilante e controlador gerente do Hotel Bragança, ao qual nada escapa no seu hotel, a Victor, um agente da PIDE que se faz sempre acompanhar de um forte e incontrolável fedor a cebola, e ao par de velhos que se senta todos os dias no mesmo banco do Alto de Santa Catarina, a nova morada de Ricardo Reis. A estátua de Camões e o busto do Adamastor são presença constante no romance, como que relembrando a simultânea grandeza e pobreza de Portugal, país complexo de grandes heróis mas de brandos costumes. 
   Reitero, antes de mais, algo que afirmei acima, este não é um romance indicado para leitura obrigatória num programa escolar. No entanto, trata-se de mais um lúcido romance por parte de um autor particularmente propenso a fazê-los. Por isso, este romance deve ser lido por todos quantos apreciem a obra saramaguiana e, no geral, um bom romance. 

Citações:
"Um homem grisalho, seco de carnes, assina os últimos papéis, recebe as cópias deles, pode-se ir embora, sair, continuar em terra firme a vida. Acompanha-o um bagageiro cujo aspeto físico não deve ser explicado em pormenor, ou teríamos de prosseguir infinitamente o exame, para que não se instalasse a confusão na cabeça de quem viesse a precisar de distinguir um do outro, se tal se requer, porque deste teríamos de dizer que é seco de carnes, grisalho, e moreno, e de cara rapada, como daquele foi dito já, contudo tão diferentes, passageiro um, bagageiro outro."
"Outras fontes que venham a descobrir-se serão duvidosas, por apócrifas, ainda que verosímeis, certamente não coincidentes entre si e todas com a verdade dos factos, que ignoramos, quem sabe se, faltando-nos tudo, não teremos nós de inventar uma verdade, um diálogo com alguma coerência, um Victor, um doutor-adjunto, uma manhã de chuva e vento, uma natureza compadecida, falso tudo, e verdadeiro." 
"Também o Chiado, que mal lhes fez o Chiado, Que foi chocarreiro, desbocado, nada próprio do lugar elegante onde o puseram, Pelo contrário, o Chiado não podia estar em melhor sítio, não é possível imaginar um Camões sem um Chiado, estão muito bem assim, ainda por cima viveram no mesmo século, se houver alguma coisa a corrigir é a posição em que puseram o frade, devia estar virado para o épico, com a mão estendida, não como quem pede, mas como quem oferece e dá" 


Pontuação: 6.5/10


Gonçalo Martins de Matos

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