terça-feira, 13 de outubro de 2020

"Homem na Escuridão", de Paul Auster

   Paul Auster é considerado como um dos grandes romancistas dos Estados Unidos da América, sendo a sua voz narrativa apontada como uma das mais inconfundíveis das letras americanas. Existe também uma recorrência temática nas obras do autor, o que leva a que uma crítica da Kirkus Reviews classifique este Homem na Escuridão como "um doloroso somatório de todos os seus livros". 
   August Brill, um crítico literário reformado, sofre um acidente que o deixa incapacitado de andar, pelo que vai viver para casa da sua filha, Miriam, que mora sozinha desde o abandono pelo seu ex-marido. Na casa habita também Katya, neta do narrador, regressada dos seus estudos universitários para tentar recuperar da brutal perda do seu namorado, Titus. É uma casa marcada pela perda, pela dor e pelo desgosto, e August dá precisamente voz a essa angústia. Incapaz de conseguir adormecer devido ao peso dos seus fantasmas, o crítico literário conta-se a si mesmo uma história todas as noites, de forma a afastar os pensamentos intrusivos. A história que o narrador conta a si mesmo ao longo do romance é a história de Owen Brick, que certa noite tem consciência de se encontrar numa realidade diferente, na qual os Estados Unidos não entraram em guerra com Iraque, mas consigo mesmos, tendo alguns estados da União secessionado do Estado Federal, e outros formado um país completamente autónomo. Nessa realidade, é confiada a Owen Brick uma missão fundamental para acabar com esta guerra civil, que levantará ao protagonista mais questões e dúvidas do que certezas. Nos intervalos da narração desta América alternativa, Brill recorda a sua vida quotidiana, a sua vida passada, e vai construindo um retrato de três almas sofredoras, ele próprio, a filha e a neta. 
    Paul Auster é reconhecido pelas suas estruturas narrativas psicologicamente labirínticas e profundas, pelas suas reflexões simultaneamente lúgubres e auspiciosas e pelas suas autorreferêcias e meta e intertextualidade. Nunca tendo lido nada antes de Paul Auster, e sabendo agora o conteúdo e a forma dos seus romances, confesso que fiquei com muita vontade de conhecer mais obras do autor. O espaço temporal do romance é o de uma noite; o narrador, acometido por insónias, desnovela o enredo de Owen Brick de forma a afastar as suas angústias e os seus fantasmas. A característica da metatextualidade encontra na narração da história de Brick a sua maior expressão neste romance. Há muitos pormenores da vida de August Brill que encontram uma sombra sua na história que este se conta a si mesmo, nomes de personagens, locais, acontecimentos... Tal oferece-nos um vislumbre do estado da alma do narrador, e demonstra-nos os processos com que os escritores lidam com os seus fantasmas. Os Estados Unidos alternativos criados pelo narrador constituem um exercício curioso da imaginação, mas são também um eco da guerra interior e desfragmentação que este trava consigo mesmo. Intertextualmente, o narrador cita um verso de Rose Hawthorne, "Enquanto o bizarro mundo continua a girar", como o grande resumo da continuidade das vidas para além da dor, da recuperação inevitável da dor que acomete aos três habitantes da casa. Além disso, o narrador, que adora ver filmes com a sua neta, sendo ela estudante de Cinema, cita também alguns filmes que apresentam estudos sobre o preciso estado de alma em que se encontram os três. Quando Owen Brick nos é introduzido pelo narrador, este encontra-se num buraco no meio do campo, escuro e intransponível, tornando-o, à primeira vista, o Homem na Escuridão a que alude o título do romance, sendo que essa condição é uma metáfora para o verdadeiro homem na escuridão, o próprio narrador. 
   Trata-se de um sólido e profundo romance de um autor muito apreciado nas letras norte-americanas. 
 
Citações:
"A noite ainda é uma criança e, enquanto para aqui estou deitado na cama, perscrutando a escuridão, uma escuridão tão negra que nem consigo ver o tecto, ponho-me a recordar a história que comecei a noite passada. É o que eu faço quando o sono se recusa a vir. Deixo-me ficar deitado na cama e conto-me histórias. Podem não ser nada de especial, mas, enquanto estou dentro delas, impedem-me de pensar nas coisas que preferiria esquecer."
"Deixei de fumar já lá vão quinze anos, mas agora que Katya está cá em casa com os seus ubíquos American Spirits, voltei a entregar-me aos velhos e imundos prazeres, esmolando passas à minha neta enquanto mergulhamos em todo o corpus cinematográfico mundial, os dois lado a lado no sofá, duas chaminés soprando em uníssono, duas locomotivas que, no meio de grandes nuvens de fumo, deixam para trás este mundo odioso e intolerável"
"Certa tarde, almoçámos com um parente dela, um primo em segundo grau, um homem de uma distinção invulgar, já a caminho dos oitenta, um antigo editor que crescera na Bélgica e que, mais tarde, fora viver para França, uma pessoa afável e muito culta que, ao falar, usava parágrafos tão complexos quanto coerentes, como se fosse um livro vivo, um livro sob a forma de um homem."
 
 
Pontuação: 9.3/10
 
 
Gonçalo Martins de Matos

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