quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

"O Processo", de Franz Kafka

   É famosa a história de como Franz Kafka legou ao seu amigo, Max Brod, a missão de destruir todos os seus escritos após a sua morte. Após uma análise do espólio do escritor, Max Brod decidiu publicar os seus escritos não obstante. E ainda bem que assim o fez. Toda a literatura ganhou com essa atuação. Um dos romances que nos foi dado a conhecer, então, foi O Processo
   A história começa com Josef K., o protagonista do romance, a ser preso na sua própria casa, um quarto arrendado, para sua surpresa. A partir daí, inicia-se uma série de acontecimentos tão improváveis quanto bizarros. Após uma breve entrevista com os guardas que o vigiavam, e com a sua senhoria, a senhora Grubach, K. intervém junto da menina Burstner, sua vizinha, tentando deslindar o insólito que lhe ocorrera. No entanto, nesta tal como em outras situações posteriores, o que seria de esperar do correr dos acontecimentos resvala para a bizarria. K. tenta levar a sua vida como se nada se tivesse sucedido, mas é óbvio que nunca mais nada será o mesmo. Depois de um primeiro interrogatório peculiar e de uma visita ás repartições, para além de diversos episódios inusitados, o tio de K. leva-o a casa de um advogado seu amigo, para que este seja o seu representante legal no seu processo. É a partir deste momento que K. começa a ceder e a considerar que se calhar o seu processo não deve ser encarado tão levianamente como até então. Após mais uma série de episódios insólitos, como as visitas à casa do advogado e do pintor e a visita à catedral, e de alguns personagens peculiares como o advogado, Leni, o pintor Titorelli, o comerciante Block e o padre, O romance desemboca num final tão bizarro quanto inesperado. 
   Existe um tema e um estilo que perpassam a obra de Franz Kafka: aquele, o absurdo, este, o surrealismo. De facto, o surrealismo está bem patente no desenrolar das situações que os seus personagens enfrentam. Mas o que confere a Kafka a sua particularidade é a conjugação magistral deste surrealismo com o absurdo das situações deste resultantes com que o autor recheia os seus romances. Em O Processo encontramos o pico da sua estética. Nada na existência de Josef K. é passível de ser considerado normal a partir do momento da sua prisão. As situações que se lhe apresentam são tão surreais e inverosímeis que a K. não lhe resta outra opção que não saber como reagir perante elas. A absoluta incapacidade de K. em compreender e agir quanto a tudo o que lhe sucede constitui outro aspeto fundamental da obra de Kafka. O pânico existencial provocado pelas situações absurdas e pela incapacidade de lidar com elas oprime os protagonistas kafkianos até ao limiar da razão. Josef K. nunca conhece do que crime se encontra acusado, não conhece os fundamentos do seu processo nem tampouco tem acesso aos documentos que constituem a sua causa. A justiça que julga o seu processo é inatingível, nunca podendo K. saber como contactar sequer as instâncias judiciais. Quando contacta por demasiado tempo com qualquer elemento que se relacione com "a justiça" não consegue controlar o seu próprio corpo, que vai gradualmente enfraquecendo. É através de terceiros que K. consegue obter algumas luzes quanto à situação em que se vê aprisionado. É extremamente difícil não verificar no protagonista do romance um reflexo do próprio autor, e em toda a narrativa um grito silencioso de revolta perante a situação opressiva que o subjuga. Na obra é patente um brilhante uso de simbologia como reforço da mensagem que o autor deseja partilhar: os personagens com que Josef K. contacta, os locais que este frequenta, o espaço do seu escritório no banco, entre outros. É notável o pormenor de que, à medida que vai avançando, os locais a que Josef K. se dirige vão progressivamente encolhendo. A sala de audiências, as repartições da justiça, o quarto do advogado, a casa do pintor e, por fim, o púlpito na catedral. Tudo isso constitui um "caminho de migalhas" que nos conduz até à sensação de impotência e de resignação do protagonista. 
   Trata-se de uma obra genial, fundamental na literatura mundial, que mais não merece que a nossa mais profunda leitura e reflexão. 

Citações:
"K. pensou que tinha ido dar a uma reunião. Numa sala de dimensões médias e com duas janelas, apinhavam-se as mais diferentes pessoas; nenhuma delas, porém, ligou a mínima importância ao recém-chegado. Numa galeria instalada a toda a volta da sala e que quase chegava ao tecto, amontoava-se igualmente gente sem conta que, por falta de espaço, era obrigada a manter-se curvada e a bater no tecto com as costas e a cabeça."
"A Lei, no entanto, não prescrevia tal possibilidade. Por consequência, ao réu e à defesa ficava vedado o acesso aos documentos do tribunal e acima de tudo ao libelo. (...) De facto, no fundo, a defesa não era permitida pela Lei mas simplesmente tolerada, e constituía até motivo de polémica saber se do código se podia mesmo extrair a confirmação dessa tolerância."
"Porém, em torno da figura da Justiça manteve-se um impercetível matiz claro; envolta por essa claridade, a figura parecia destacar-se do quadro e mal dava já a ideia de ser quer deusa da Justiça quer deusa da Vitória; antes tinha o perfeito aspeto de ser a deusa da Caça."


Pontuação: 10/10


Gonçalo Martins de Matos

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